De São Paulo, o correio plebeu traz uma notícia alvissareira. Em primeiro de maio de 1947, A Plebe, o diário anarquista de tantos leitores, voltaria a circular. Seu retorno à liça é imperativo. Ressurgia para fortalecer a ação militante de reabertura do Centro de Cultura Social30 em junho de 1945 e da criação da União Anarquista, em São Paulo. O jornal, do retorno anunciado qual ―a fênix da lenda‖, circularia em edição especial e ilustrada de oito páginas, no Primeiro de Maio e, como noutras fases, resultaria, em maior medida, do labor militante de Edgard Leuenroth.
Leuenroth publicara A Plebe pela primeira vez no ano de 1917, no calor dos acontecimentos da greve geral que paralisou a capital paulista. Depois de sucessivas interrupções em razão da repressão ao movimento anarquista, o jornal, então em sua ―terceira fase‖, seria publicado de 1947 a 1951, publicando 33 números.
―A Plebe também está de novo na luta‖. Assim abria seu artigo editorial, contando uma história de há trinta anos. Do vendaval da reação, resultaram cacos e destroços, eis como o jornal refere às tantas batidas policiais em sua redação, quando tudo era quebrado e o jornal empastelado, à
30 Sobre a trajetória do Centro de Cultura de São Paulo ver: GERALDO, Endrica. ―Práticas
Libertárias do Centro de Cultura Social Anarqiusta de São Paulo (1933-1935 e 1947-1951) In:
Cadernos AEL. Anarquismo e Anarquistas. Campinas: UNICAMP/IFCH, Vol. 8/9, 1998;
AVELINO, Nildo. Anarquistas. Ética e antologia de existências. Rio de Janeiro: Ed. Achiamé, 2004; MORAIS, José Damiro de. A trajetória educacional anarquista na Primeira
República: das escolas aos centros de cultura social. Campinas: Dissertação de Mestrado
em Educação/UNICAMP, 1999; PARRA, Lúcia Silva. Leituras Libertárias: cultura anarquista
na São Paulo dos anos 1930. São Paulo: Dissertação de Mestrado em Filosofia – Universidade de São Paulo, 2014.
moda de cala-boca da propaganda anarquista. No entanto, das ruínas do tempo da repressão, restariam subterrâneas a convicção e a sensibilidade. É o que se pode ler nesta promessa de Liberdade, Cultura e Pão para todos:
A Plebe também está, de novo, na luta. Como a fênix da lenda, ressurge das próprias cinzas. [...] estamos, nós também, juntando os cacos velhos, os destroços deixados pelo tufão reacionário, para recomeçarmos a construção do edifício que abrigava e continuará a abrigar um sonho de liberdade e fraternidade humanas.
Repetimos hoje, com a mesma convicção, o que dizíamos a 30 anos. Não há solução burguesa para os problemas humanos. Só há uma solução: a abolição do Estado, defensor e sustentáculo de privilégios, e a consequente organização de uma sociedade baseada no apoio- mútuo, compreensão dos direitos e deveres, onde haja liberdade, cultura e pão para todos (A Plebe, 1/5/1947).
Como tocou ao Ação Direta no Rio de Janeiro, A Plebe, afirmando o dístico ―pela liberdade com o anarquismo‖, abriu espaço a uma nova geração de articulistas, militantes que iniciaram sua militância nas ideias libertárias durante o período de exceção estado-novista. Esse ―elo geracional‖, n‘A Plebe possibilitava a interação, nas páginas do periódico, dos autores clássicos do anarquismo – entre os quais Kropotkin, Grave e Malatesta – juntamente com os militantes veteranos das lutas operárias – Leuenroth, Gigi Damiani, Osvaldo Salgueiro e Pedro Catallo, por exemplo – e uma nova geração de libertários que tomariam, a partir de então, papel ativo na militância em São Paulo, como Lucca Gabriel e Liberto Lemos Reis.
Ilustração 8 – Cabeçalho de A Plebe (São Paulo-SP) ―Nova fase‖, 1º de maio de 1947.
Atando os fios do tempo e da memória, A Plebe compreende sua função naquela conjuntura, em apoio e repercutindo os mecanismos de rearticulação dos anarquistas no Brasil na conjuntura dos anos 1940. Desse
modo, sua matéria combina a difusão do pensamento libertário e os fatos do cotidiano, bem vistos os contornos da luta social e a afirmação dos conteúdos da solidariedade e da cultura libertária. Dessa maneira, pode-se observar, da leitura atenta d‘A Plebe, em comparação aos outros periódicos libertários em circulação nos anos 1940 e 1950, a maior frequência de artigos relacionados ao dia a dia operário, às mobilizações no mundo do trabalho. Contudo, sem descurar da proclamação dos princípios anarquistas e da permanente difusão do repertório clássico, em seus principais teóricos. É o que se vê na publicação de excertos, traduções e demais formas de intercâmbio. De monta também é o vasto noticiário acerca do movimento anarquista em escala internacional.
Ao lado do conteúdo doutrinário, o jornal traz textos/denúncia sobre a carestia de vida, o problema da moradia nas grandes cidades, e há lugar para o debate sobre o calvário dos trabalhadores rurais – temática relativamente incomum na imprensa operária e libertária, até então majoritariamente voltada para os problemas urbanos.
Os trabalhadores rurais passam a receber maior destaque na cena política brasileira a partir de meados dos anos 1940 e principalmente na década de 1950 e início da seguinte. Os problemas do campo, comumente identificado com o atraso, em oposição ao desenvolvimento das cidades, foram gradualmente deixando de ser atribuídos aos elementos naturais e passando a ser compreendidos como decorrência de variáveis econômicas e sociais. A histórica concentração da propriedade da terra no Brasil, o latifúndio, gerador de poder econômico, social e político dos grandes proprietários, explicam a miséria, más condições de vida e sujeição ao trabalho aos despossuídos da terra. Como afirmam Grynszpan e Dezemone, o camponês não era novidade no discurso político de setores de esquerda, mas a conjuntura que se inicia nos anos 1940 traz nova perspectiva para a atuação política concreta nas lutas que se opunham ao latifúndio:
O que se apresentava como novo na conjuntura que se abria era que, em vez de continuarem a ser mais um componente da retórica revolucionária, os camponeses se transformaram em objeto de ações e investimentos concretos. Foi a partir da década de 1940, e, sobretudo dos anos 1950, que os grupos de esquerda passaram a deslocar quadros para a atuação no campo, gerando apreensão entre os setores conservadores (GRYNSZPAN; DEZEMONE, 2007a, p. 217).
As lutas dos trabalhadores do campo ganham destaque por toda a década de 1950, seja com a tarefa organização de sindicatos rurais empreendida pelo Partido Comunista Brasileiro ou com a experiência de fundação das Ligas Camponesas, a partir de meados da mesma década. No polo oposto, a Igreja Católica intensificava sua atuação no campo, visando contrapor a ação dos grupos de esquerda. A consideração das questões relacionadas aos trabalhadores rurais não poderiam estar ausentes do debate político, principalmente entre aqueles grupos que denunciavam a exploração capitalista e os padecimentos dos trabalhadores.
No jornal A Plebe, num dos artigos destacando os problemas do campo, após o diagnóstico de que o trabalhador rural é ―vítima de torpe exploração nos armazéns fornecedores das grandes propriedades agrícolas‖, os libertários conclamavam à criação de cooperativas que, geridas pelos próprios trabalhadores, poderiam por termo a tal exploração:
A cooperativa é um elemento valioso do qual os trabalhadores se poderão servir para a melhoria de sua situação, tanto no terreno econômico, como no da assistência e cultural. Desprezando o sistema comercialista da distribuição, em dinheiro, de lucros verificados, que desvirtua suas finalidades de apoio-mútuo, todos os seus fundos deverão ser aplicados não somente no fornecimento de gêneros, objetos de uso pessoal [...] instrumentos para a lavoura, sementes, adubos e mudas [...] proporcionar assistência em várias modalidades, organizar bibliotecas e fornecer livros, revistas e jornais, promover meios de recreação e também facultar recursos em empréstimos para viagens em gôzo de férias (A Plebe, 1º de maio de 1947).
À luz de ideias-força do anarquismo, desenvolvia-se ideia de uma organização cooperativista diversa dos modelos então (e hoje ainda) em vigor, apêndices do chamado espírito empresarial e da lógica do capital, do fetiche da mercadoria e do lucro. O que se destaca, entretanto, da proposta de cooperativa organizada segundo a visada libertária é a noção de apoio-mútuo em perspectiva da cultura: bibliotecas, livros, revistas, jornais e o lazer, assim como os instrumentos de trabalho e insumos, listados como essenciais à vida plena, como se indicasse que a verdadeira nutrição de homens e mulheres, ao lado dos alimentos do corpo, reclamasse os ―alimentos da alma‖, a cultura e o conhecimento.
Afinada com o debate político que então se iniciava, A Plebe identifica na propriedade da terra a origem dos problemas dos trabalhadores rurais. ―Entretanto, o problema primacial para o camponês é a terra‖, assentava, ―a terra não lhe pertence‖. E, creditando a exploração do homem do campo à existência de latifúndios, de terras abandonadas ou incultas, pertencentes ―aos capitalistas que não as cultivam e impedem que sejam trabalhadas‖, propunha:
se acabe com semelhante abuso, livrando as terras incultas de quem as detém abusivamente, entregando-as aos camponêses para que as cultivem em seu proveito e em benefício da coletividade, formando-se para este fim cooperativas aparelhadas do que seja necessário para sua instalação e regular funcionamento (A Plebe, 1º de maio de 1947).
Contextualmente, os libertários mostravam-se em sintonia com os debates políticos contemporâneos. Embora aumentasse a atenção às denúncias das condições de vida no campo, ainda era pequena, comparativamente falando, em relação ao destaque dado aos problemas dos trabalhadores urbanos. A organização e mobilização dos camponeses, durante os anos 1950 e 1960, foram responsáveis diretos pelos direitos que ainda custariam a conquistar. José Sérgio Leite Lopes observa que esta ―decalagem temporal‖, entre a conquista de direitos dos trabalhadores urbanos (para os quais as leis sociais datam ao menos da década de 1930) e os trabalhadores rurais, trouxe fortes consequências para a mobilização camponesa na segunda metade do século XX. Naquele período, de intensa migração do campo para a cidade, na formação do exército de trabalho industrial de algumas regiões do Brasil, e as relações entre os trabalhadores rurais e urbanos tornavam nítidos os contrastes, o que aguçava a necessidade da luta por direitos para o camponês:
Em grande parte era de proveniência do campesinato que se formavam as novas gerações de trabalhadores industriais, e a diferença de estatuto entre os dois grupos de trabalhadores evidenciava-se para os primeiros através da comunicação estabelecida entre eles através de seus laços de parentesco. Em várias regiões do país o recrutamento de trabalhadores rurais era essencial na formação da mão de obra de indústrias regionais. E a grande migração para São Paulo nos anos 50 a 70, formando um contingente massivo de operários de origem rural, fornecia uma experiência com direitos sociais que não escapava à percepção da
população rural nas suas áreas de procedência (LEITE LOPES, 2012).
A Plebe, destacando e debatendo a exploração do trabalhador rural, mostrava-se sensível aos problemas conjunturais, abordando temas que se tornariam pauta frequente nas discussões dobre os problemas sociais em meados do século XX. Além disso, propunha soluções para os males oriundos da organização capitalista, no bojo das quais despontava a defesa do cooperativismo.
Foram frequentes as denúncias aos crimes do fascismo que submetia os povos da Espanha e de Portugal, bem como foi realizada a campanha pela retomada da intervenção libertária nas associações de trabalhadores. Na coluna ―Campos, Fábricas e Oficinas‖ – cujo título rendia tributo à reconhecida obra de Kropotkin31 – operava-se a defesa do
sindicalismo revolucionário, a par de críticas à intervenção do Estado nos sindicatos por meio do que chamavam de diretorias ―pelegas‖ e das amarras da legislação trabalhista.
Cumpria, segundo diziam, ―desmistificar‖ o significado que os setores dominantes atribuíam às leis trabalhistas. Os patrões e o Estado, afirmavam, apenas abriram mão de uma ―parte infinitesimal‖ do que, por direito, cabia aos trabalhadores, com o fito de iludi-los e ainda reivindicarem para si a condição de demiurgos. E replicava:
Os trabalhadores não poderão jamais olvidar que a história de umas tantas melhorias com que foram contempladas certas categorias obreiras e as quais se vive fazendo alarde como motivo de glória para os senhores do momento, foi escrita com gotas de sangue num longo período de cruentas pelejas reivindicadoras (A Plebe, 1º de junho de 1947).
A Plebe, de igual modo, exercitava sua tônica internacionalista, ampliando a denúncia aos crimes do fascismo na Espanha e em Portugal e, naqueles anos do meado do século XX, trazia ao debate um fato de destaque: as colônias judaicas na Palestina, inicialmente identificadas com princípios libertários de organização comunal, refletindo no Brasil o mesmo entusiasmo
31Publicado pela primeira vez na Inglaterra com o título de ―Fields, Factorys and Workshops‖,
em 1899, esta obra de Piotr Kropotkin tornou-se um dos principais textos da propaganda anarquista.
com o qual tais feitos foram recebidos pela imprensa anarquista de outros países. Artigos como ―Uma experiência de vida libertária vitoriosa na Palestina‖ (A Plebe, 21 de fevereiro de 1948), ―Nasce na Palestina um Mundo Novo‖ (A Plebe, 24 de outubro de 1949) e ―As comunas livres de Israel‖ (A Plebe, 10 de março de 1950), entre outros, geralmente traduzidos da imprensa anarquista estrangeira, eram responsáveis por atualizar os militantes libertários do Brasil em relação aos fatos sociais naquela região do Oriente Médio. Ao início dos anos 1960, à mesma imprensa libertária impôs-se ressalvas quanto à ocupação da Palestina e os conflitos gerados entre o movimento sionista e as populações de origem árabe.32
N‘A Plebe dessa ―nova fase‖, observa-se a persistência da verve anticlerical característica de tantas publicações libertárias precedentes.33 O combate ao clericalismo aparece bem marcado no jornal, seja nos textos ou nas costumeiras caricaturas que denunciavam a obra do clero – numa das alegorias do chamado ―o vampiro social‖ – identificado como aliado de primeira hora do Estado e do capital (A Plebe, 15 de setembro de 1947). Em verdade, essa persistência não deve ser vista unicamente como tributária da ação de seu redator, que, até o ano de 1935, foi também diretor-redator de A Lanterna, o órgão de propaganda anticlerical de maior longevidade no país.34
32No ano de 1967, o Centro de Estudos Prof. José Oiticica, do Rio de Janeiro fez publicar, nos
dois periódicos libertários que então circulavam no Brasil, manifesto de posicionamento em relação à situação do Oriente Médio e à rápida deterioração da paz naquela região. Dele lê-se: ―Somos entusiásticos defensores das experiências sociológicas das KIBUTZAS, seu progresso e realidade de meio século, mas isso não implica adesão incondicional a toda e qualquer veleidade agressiva e imperialística do governo de Israel [...] Somos visceralmente contrários ao regime bonapartista de Nasser e da camarilha burguesa enquistada no poder, mas isso não equivale a um repúdio do autêntico povo árabe, levado por seus dirigentes a uma trágica aventura militar. [...] Somos frontalmente opostos aos governos das grandes potências ocidentais incrementadoras de guerras, traficando armas para israelenses e árabes, visando a conquista de pontos geográficos estratégicos, objetivando o domínio do petróleo e o domínio dos povos subdesenvolvidos. [...] Superando as fixações incestuosas de Pátria, Nação, Nacionalismo, Raças e Religiões, índice de imaturidade dos seres humanos, nos pronunciamos pela confraternização dos povos árabes e judeus. Por uma sociedade desenvolvida e humanizada no Oriente Médio. Por uma cultura basilarmente centrada no homem.‖ Ver: Dealbar, jul/1967; O Protesto, dez/1967.
33 Sobre a relação entre o anticlericalismo e as ideias e práticas anarquistas, ver:
VALLADARES, Eduardo. Anarquismo e Anticlericalismo. São Paulo: Ed. Imaginário, 2000; SOUSA, Wlaumir Doniseti de. Anarquismo, Estado e Pastoral do Imigrante – das disputas ideológicas pelo imigrante aos limites da ordem: o caso Idalina. São Paulo: Ed. UNESP,
2000; RUDY, Antonio Cleber. Culturas da Contestação. Anarquistas e anticlericais em
Santa Catarina. 1900-1940. Rio de Janeiro: Ed. Achiamé, 2010.
34 A Lanterna fora fundada pelo jornalista e advogado Benjamin Mota, em 1901. Em sua
primeira fase, circulou até 1904. Reapareceu em 1909, já sob a direção de Edgard Leuenroth, persistindo sua publicação até 1916, sendo substituida por A Plebe, a partir de 1917. Pelas
O anticlericalismo e o livre-pensamento figuraram no bojo das ―ideias novas‖ que compuseram o léxico crítico e transformador dos setores da sociedade que se insurgiam contra o estabelecido, entre finais do oitocentos e as primeiras décadas do século XX. No confronto com a ideologia que arrimava a velha ordem, o livre-pensamento e o anticlericalismo integraram o vocabulário de grupos específicos, notadamente movimentos políticos liberais, positivistas, socialistas e anarquistas. Para esses movimentos, discutir a reforma social passava, necessariamente, pela crítica ao poder temporal da Igreja, um dos sustentáculos da ordem então vigente. Essas ideias foram granjeando adeptos em vários estratos sociais, mas foi de seu encontro com as lutas da classe trabalhadora que emergiu seu perfil mais popular. O combate ao poder do clero tornou-se frequente nos projetos de organização dos trabalhadores com vistas ao acalentado horizonte da ―emancipação social‖. Entre os libertários, a oposição ao clero e aos dogmas religiosos tornou-se frequente, e o sentido da revolução como a concebiam passava pelo enfrentamente com a tríade Capital, Igreja e Estado (GONÇALVES; BRUNO e PEREIRA, 2013).
No congresso anarquista realizado em São Paulo, em 1948, debateu-se a conveniência de retomar a propaganda anticlerical e estudava-se a possibilidade de reaparecimento d‘A Lanterna. Entretanto, a opinião prevalente no certame era a de que o movimento anarquista não poderia arcar com os custos da publicação de mais um periódico, resolvendo então priorizar o auxílio aos jornais então publicados, Ação Direta e A Plebe. Deliberou o congresso, em vista de serem os dois jornais destinados a um público leitor em comum, e por conta da dificuldade de aparecerem ambos duas vezes ao mês, saírem os dois mensalmente, um no dia 1º de cada mês e o outro no dia 15, permitindo a circulação de duas publicações de teor libertário mensalmente.35 A
propaganda anticlerical seria veiculada em ambas as folhas.
Tal empenho no debate de ideias anticlericais tanto se explica no plano nacional quanto internacional. Aqui, a ação da Igreja cada vez mais se mãos do mesmo diretor, ressurgiu em sua última fase entre 1933 e 1935, momento em que se destacou tanto pelo combate anticlerical como pela luta contra o Integralismo e a progressão do fascismo no país. Ver: SILVA, Rodrigo Rosa da. Op. cit.
35Ver: A Plebe, 1º de maio de 1949; Ação Direta, 22 de março de 1949; RODRIGUES, Edgar. A Nova Aurora Libertária. (1945-1948). Rio de Janeiro: Ed. Achiamé, 1992.
voltava à chamada Questão Operária, como demonstra o desdobramento das encíclicas e cartas pastorais, ampliando seu proselitismo em direção às formas organizativas dos trabalhadores e propondo a articulação de sindicatos, círculos de trabalhadores cristãos, ligas eleitorais católicas, entre outras formas de ação da Igreja católica face aos trabalhadores urbanos e rurais. Doutra parte, não se pode esquecer a ampliação da doutrinação católica, com a constituição de amplo projeto de comunicação, que inclui o periodismo, os projetos editoriais, a prescrição dos conteúdos do livro e da leitura e, em articulação, as campanhas abertas contra as ―doutrinas exóticas‖ do socialismo e do comunismo em suas múltiplas vertentes históricas. No plano internacional, as lutas antifascistas d‘A Plebe, articulavam-se às denúncias à ação da Igreja como se pode verificar em outros tópicos desta pesquisa relativos aos planos editoriais de Roberto das Neves, entre outras evidências, como a da seguinte ilustração qualificando o ―imperialismo ultramontano‖ sob a ―proteção da cruz‖.
Ilustração 9 – ―Age assim o imperialismo ultramontano: apresenta-se sob a proteção da cruz – para impor o domínio do fascismo‖. A Plebe (São Paulo-SP), 15 jun. 1947.
O debate sobre a liberdade de imprensa também ganhou as páginas d‘A Plebe. Raul Vital, com acerto, assinalara que O Archote aparecera em 1947 aproveitando-se do clima de ―relativa liberdade‖. A atividade dos grupos militantes anarquistas caminhava por uma seara menos livre do que o termo ―redemocratização‖, corrente em parte da historiografia dedicada ao período,
pode levar a crer. A liberdade era incerta, e, além disso, resultava difícil encontrar gráficas ou tipografias dispostas a imprimir os periódicos libertários, como informou o Ação Direta em 1952, quando do encerramento das atividades do grupo editor do jornal A Plebe:
A Plebe, o valente paladino dos ideais libertários no estado de São Paulo vem de ter suspensa sua publicação. Resolução que foi tomada por seu grupo editor em virtude da recusa sistemática dos proprietários de tipografias de imprimirem um jornal anarquista (Ação Direta,dez/1952).
Contar com a própria oficina tipográfica foi um desejo longamente