A inovação pode ser técnica (também denominada tecnológica) ou administrativa (em gestão ou gerencial). Há consenso de que a técnica compreenda produtos, serviços e processos
produtivos ou tecnológicos, e que a administrativa compreenda inovações organizacionais e mercadológicas, embora as administrativas sejam pouco diferenciadas nos estudos. Considerando a definição de tecnologia como conhecimento aplicado, neste estudo todas as inovações são consideradas tecnológicas, divididas em técnicas e administrativas.
A falta de consenso quanto ao critério (técnico ou de mercado) a ser utilizado para distingui- las conceitualmente originou classificações adicionais baseadas na radicalidade da inovação (radical e incremental). Também falta consenso na aplicação destes critérios nos tipos da inovação.
Tanto inovações técnicas como administrativas promovem vantagens competitivas, mas podem ser imitadas, devendo ser protegidas. A técnica apresenta mais risco, incerteza e necessidade de investimento, com prazo de retorno maior. Embora a inovação administrativa seja mais adotada, seus determinantes e efeitos são menos pesquisados que os da inovação técnica. Foi detectada influência positiva das inovações organizacionais e mercadológicas nas inovações de produto e de processo na indústria de transformação brasileira (IBGE/PINTEC, 2010).
A distinção dos tipos de inovação se justifica por possuírem características, determinantes e efeitos diferentes entre si e no desempenho organizacional, o que exige sua conceituação e medição adequadas. A falta de consenso sobre a medição da inovação deriva da diversidade de definições, mas pode ser atenuada pelo seu reconhecimento como construto multidimensional, devendo incorporar na sua mensuração as dimensões: quantidade (número médio de adoções de inovação ao longo do tempo), tempo (tempo médio de adoção de inovações mais cedo ou antes que as empresas homólogas), e consistência (coerência do tempo de inovações adotadas, seja cedo ou tarde em relação às homólogas).
O único estudo revisado que se aproximou de uma coleta de dados que atenua as deficiências apontadas na literatura foi a PINTEC (2010), pois considera inovações administrativas diferenciadas em mercadológicas e organizacionais e critérios técnicos e de mercado para cada tipo de inovação, que permitem revelar as dimensões em todos os tipos. Por não classificar os resultados em tipos de inovação, evita confusão conceitual destas subclassificações, enquanto não há consenso na literatura.
Também não há consenso em relação à medição de desempenho organizacional, que pode ser abrandado pela adoção da dicotomia eficiência (relação entre insumos e resultados) e eficácia (superioridade em relação aos concorrentes), que podem ser financeiras e não financeiras
(SUBRAMANIAN; NILAKANTA, 1996). A partir do estudo de Crook, Combs e Shook (2005), a medição deste construto foi validada muito recentemente por Hamann et al. (2013) com a limitação de possuir como uma das dimensões o mercado de capitais.
Resultados do impacto da inovação no desempenho considerando a gestão do conhecimento e a aprendizagem organizacional foram revelados em capítulos seguintes (4 e 5). Encontram-se sintetizados e analisados junto com os resultados deste capítulo por tratarem desta relação. Efeitos positivos no desempenho organizacional podem ser obtidos pela coexistência de inovações radicais e incrementais (UN, 2010, DARROCH, 2005), pela adoção de vários tipos de inovações ao longo do tempo, devendo se atentar para a possibilidade de efeitos não lineares serem significativos (DAMANPOUR; WALKER; AVELLANEDA, 2009) e pela inovação técnica avançada (magnitude e velocidade) aliada à inovação administrativa (LIAO; CHUANG, 2006).
A inovação também favorece o desempenho financeiro organizacional: o desempenho inovador aumenta o retorno sobre investimentos, ativos, vendas e a rentabilidade global (CALANTONE; CAVUSGIL; ZHAO, 2002), a inovação plena aumenta o desempenho financeiro percebido (YU; FANG; LING, 2009), inovações tecnológicas e não tecnológicas influenciam de forma semelhante o aspecto econômico do desempenho organizacional, por gerarem lucros extras temporários (SCHMIDT; RAMMER, [s.d.]). Tais achados foram corroborados por García-Moralles, Llorens-Montes e Verdú-Jover (2006) que descobriram que a inovação em produto, serviços e métodos comparados aos concorrentes no período de três anos aumentam o lucro sobre ativos e as receitas, e por Yu (2010) que encontrou que a inovação tecnológica e a inovação em gestão influenciam o desempenho financeiro, sendo que a tecnológica possui maior impacto que a em gestão. Assim, é justo inferir que:
H3. A inovação influencia positivamente o desempenho organizacional, financeiro e operacional.
Segundo Subramanian e Nilakanta (1996) a adoção de inovações técnicas favorece a vantagem em eficácia (resultado econômico) desde que adotadas antes das homólogas e a magnitude consistente de inovações técnicas e administrativas promove vantagem em eficiência. Especificar as dimensões da inovação conforme Subramanian e Nilakanta (1996), sendo a magnitude relativa ao mercado de acordo com Adams, Bessant e Phelps (2006), também possibilita minimizar distorções dos efeitos da inovação na vantagem competitiva.
A ‘forma ideal’ da inovação ou a que gera vantagem competitiva pode ser entendida como o tipo de inovação ou sua combinação, em dimensões adequadas para causar os efeitos desejados no desempenho financeiro e operacional organizacional. Não basta identificar fatores internos e externos utilizados e os impactos positivos na adoção de inovações, como foi feito com as firmas da indústria de transformação brasileira entre 2006 e 2008 pela PINTEC. Os fatores determinantes e os efeitos no desempenho devem ser relacionados aos tipos e/ou dimensões da inovação, de forma isolada ou combinada, possibilitando decisões estratégicas futuras.
Gestores devem compreender quais diferentes desempenhos são promovidos por cada tipo de inovação: produto, processo (técnicas), organizacional e/ou mercadológica (administrativas), isoladas ou combinadas; e em que dimensões: quantidade, antes ou depois que concorrentes, com frequência regular ou não, para determinarem a inovação que devem promover em função das estratégias competitivas definidas, e adequarem suas práticas organizacionais aos resultados pretendidos, visando gerar diferenciais de desempenho em relação aos seus concorrentes.
Isto remete ao entendimento da capacidade de inovação na visão das capacidades dinâmicas como o desenvolvimento de novos produtos e/ou mercados por uma empresa, alinhando a orientação estratégica inovadora com comportamentos e processos inovadores (WANG; AHMED, 2004) que une inovações em produtos e/ou mercados à vantagem baseada no mercado (WANG; AHMED, 2007). A vantagem baseada no mercado se refere à vantagem competitiva ou diferencial de desempenho em relação aos concorrentes, e as inovações administrativas estão contempladas nos processos, que podem ser técnicos e administrativos.
Ponderando os diversos resultados empíricos apresentados da influência positiva da inovação de diversos tipos e dimensões nos diferentes tipos de desempenho financeiro e operacional, o entendimento de que estas diferentes configurações de inovação podem gerar desempenhos organizacionais diferentes e superiores aos concorrentes, e a definição e função da capacidade de inovação, pode se inferir que quando a inovação promove determinado desempenho organizacional superior ao dos concorrentes se caracteriza a (dinâmica) capacidade de inovação. Esta questão será retomada no capítulo 6, fortalecida pela integração entre gestão do conhecimento e aprendizagem organizacional.
Considerando que em realidades de desenvolvimento tardio, como o Brasil, “inovação importante é a que desencadeia processo importante, não a intensidade, mas sua amplitude,
pois esforços regulares e incrementais contribuem para disseminar gradualmente a lógica do processo de inovação” (FURTADO, 2003, p. 15), o grande desafio é institucionalizar a inovação nas organizações, para o qual a capacidade de integrar e transformar conhecimento é fundamental (JANTUNEM, 2005). Deste modo, reconhecer, incentivar e aprimorar rotinas de inovação se torna essencial, devendo se lidar com o incremento da especialização da produção de conhecimento (PAVITT, 2002, p. 129).
Corroborando, Mendonca, Souza e De Negri (2002) afirmaram que “existem indícios que medidas ou ações indutoras da adoção de gestão do conhecimento podem contribuir para que firmas produtoras de bens homogêneos ou mesmo aquelas consideradas menos eficientes tornem-se inovadoras”, recomendando estudos mais aprofundados capazes de revelar relações entre o uso de gestão do conhecimento e a geração de inovações. Indo além, Kong e Li (2007) afirmaram que a gestão da inovação incorpora processos que combinam a sinergia de recursos de gestão do conhecimento para gerar novo valor:
Recursos de gestão do conhecimento são reconhecidos como fatores críticos que influenciam inovações nas empresas. Gestão da inovação incorpora processos organizacionais que buscam combinação sinérgica de recursos de gestão do conhecimento para extrair o novo valor a partir da organização de ativos de conhecimento (KONG; LI, 2007).
Diante desta importância do conhecimento para gerar inovação e sua relação com as demais capacidades dinâmicas, o próximo capítulo apresenta sistemas de gestão do conhecimento como gerador da capacidade dinâmica absortiva, da inovação e do desempenho organizacional, analisando estas relações.
4 GESTÃO DO CONHECIMENTO: GERADORA DA CAPACIDADE ABSORTIVA,