Para medir o grau de associação entre a TFT e os fatores socioeconômicos, foram estimadas correlações entre a TFT e cada uma das variáveis selecionadas, para cada uma das rodadas de DHSs (Tabela 10). Em termos de sinal da correlação, os dados são consistentes com a literatura, ou seja, a redução do nível de fecundidade estaria relacionada com: aumento da proporção de mulheres com nível de ensino secundário ou superior, aumento da proporção de mulheres que residem na urbana, redução da proporção de mulheres pertencentes a domicílios pobres, aumento da proporção de mulheres com trabalho remunerado, aumento da proporção de mulheres que participam na tomada de decisão sobre sua saúde, compras, visitas a amigos, familiares e alimentação e aumento da proporção de mulheres que consideram a violência doméstica injustificável. Apenas a proporção de mulheres que decidem sobre o que fazer com os seus rendimentos é que apresentou uma correlação que contraria as expectativas. Segundo os dados, essa variável é diretamente proporcional ao nível da fecundidade, no entanto, a literatura aponta o contrário.
No geral, os dados mostram que, entre as variáveis do modelo socioeconômico, a educação das mulheres é única que apresenta uma associação forte com o nível de fecundidade. A Tabela 10 confirma a existência de uma associação negativa entre o nível
da fecundidade e a proporção de mulheres com nível secundário ou mais na ASS. Essa relação mostrou-se forte tanto na penúltima rodada dos DHSs (r=-0.769), quanto na última (r=-0.734).
As variáveis restantes que compõem o modelo socioeconômico apresentam uma associação moderada com o nível de fecundidade, excetuando a proporção de mulheres que decidem sobre o seu dinheiro, que teve uma correlação fraca no último DHS. Dentre estas variáveis, a grau de urbanização se destaca com coeficientes de correlação próximos comparativamente maiores, tanto na penúltima rodada de DHSs (r=-0.598) quanto na última (-0.579).
Tabela 10. Correlação entre a Taxa de fecundidade total e as variáveis do modelo socioeconômico. Todas Regiões
Coeficientes de correlação ( r )
Variável explicativa Penúltimo Último Número
DHS DHS
de casos proporção de mulheres:
com educação secundária ou superior -0.769 -0.734 187 que vivem em áreas urbanas -0.598 -0.579 187 que vivem em domicílios pobres 0.533 0.497 152 que participam na força de trabalho -0.449 -0.522 187 que decidem sobre o uso do seu dinheiro 0.179 0.369 187 que participam na tomada de decisões domiciliares -0.453 -0.399 173 que consideram a violência doméstica injustificável -0.523 -0.372 173
Fonte: Elaborado pelo autor, com base nos dados das DHSs
A análise separada das regiões dos grupos A e B permite visualizar nuances na associação entre fecundidade e fatores socioeconômicos que não são observáveis no conjunto que agrega todas as regiões, como se pode ver nas Tabelas 11 e 12. Por exemplo, a correlação entre o nível de fecundidade e proporção de mulheres que vivem em áreas urbanas é negativa e moderada nas regiões do grupo A (r=-0. 501 no penúltimo
DHS e r=-0.494 no último DHS), no entanto, nas regiões do grupo B, a correlação entre estas duas variáveis é negativa e forte (r=-0. 691 no penúltimo DHS e r=-0.700 no último DHS).
Tabela 11. Correlação entre a Taxa de fecundidade total e as variavéis do modelo socioecômico. Regiões do grupo A
Coeficientes de correlação ( r )
Variável explicativa Penúltimo Último Número
DHS DHS de casos
proporção de mulheres:
com educação secundária ou superior -0.775 -0.766 111
que vivem em áreas urbanas -0.501 -0.494 111
que vivem em domicílios pobres 0.436 0.370 88 que participam na força de trabalho -0.535 -0.567 111 que decidem sobre o uso do seu dinheiro -0.077 0.296 111 que participam na tomada de decisões domiciliares -0.344 -0.220 100 que consideram a violência doméstica injustificável -0.486 -0.321 100
Fonte: Elaborado pelo autor, com base nos dados das DHSs
No geral, os coeficientes de correlação entre a fecundidade e fatores socioeconômicos associados são maiores nas regiões do grupo B em comparação com o grupo A. Isso pode sugerir que os efeitos dos fatores socioeconômicos sejam diferentes entre as regiões onde a fecundidade baixou e onde não caiu.
Tabela 12. Correlação entre a Taxa de fecundidade total e as variavéis do modelo socioecômico. Regiões do grupo B
Coeficientes de correlação ( r )
Variável explicativa Penúltimo Último Número
DHS DHS de casos
proporção de mulheres:
com educação secundária ou superior -0.756 -0.762 76
que vivem em áreas urbanas -0.691 -0.700 76
que vivem em domicílios pobres 0.588 0.667 64 que participam na força de trabalho -0.387 -0.511 76 que decidem sobre o uso do seu dinheiro 0.381 0.460 73 que participam na tomada de decisões domiciliares -0.587 -0.568 73 que consideram a violência doméstica injustificável -0.565 -0.511 73
Fonte: Elaborado pelo autor, com base nos dados das DHSs
4.2. MODELO INSTITUCIONAL
Neste subcapítulo é analisada a relação entre a fecundidade e as variáveis do modelo institucional relacionado com a oferta de serviços de planejamento familiar por parte dos serviços públicos. Em termos teóricos, seria de esperar que a redução do nível de fecundidade estivesse relacionado com: redução da taxa de fecundidade indesejada, redução da proporção de mulheres com necessidades insatisfeitas por contracepção, aumento da proporção de usuárias de contraceptivos modernos que obtiveram o seu último método a partir de um serviço público, aumento da proporção de mulheres que receberam visita de um agente de planejamento familiar nos últimos doze meses, aumento da proporção de mulheres que visitaram uma unidade sanitária nos últimos doze meses, aumento da proporção de mulheres que receberam aconselhamento sobre planejamento familiar na unidade sanitária nos últimos doze meses e aumento da proporção de mulheres que ouviram mensagens sobre planejamento familiar através do rádio.
A Tabela 13 mostra que apenas duas variáveis desse modelo apresentam uma associação com a fecundidade cujo o sinal é sustentado pela literatura nas duas rodadas de DHSs: proporção de mulheres com necessidades não satisfeitas por contracepção e taxa de fecundidade não desejada. As duas variáveis são diretamente proporcionais ao nível de fecundidade. Em relação às variáveis restantes, o sinal da correlação diverge do esperado em pelo menos uma das rodadas de DHSs. Por exemplo, a proporção de mulheres que tiveram acesso às mensagens sobre planejamento familiar teve uma correlação negativa com a fecundidade no penúltimo DHS, o que seria de esperar, e positivo no último DHSs, o que contraria as expectativas.
Os dados mostram que a associação entre o nível de fecundidade e cada uma das variáveis explicativas selecionadas é fraca (Tabela 13). Essa situação se repete tanto nas regiões do grupo A, quanto do grupo B (Tabelas 14 e 15). Esses dados sugerem que não existem evidências para sustentar a hipótese segundo a qual as mudanças no nível de fecundidade, entre as duas últimas rodadas das DHS, estariam relacionadas com a perda do protagonismo de instituições públicas como principais provedoras de serviços de planejamento familiar. Nesse contexto, outras variáveis devem ser exploradas em busca explicações para a compreensão dos fatores que influem sobre a transição da fecundidade na ASS. Em seguida, é analisado o modelo de comportamento reprodutivo.
Tabela 13. Correlação entre a Taxa de fecundidade total e as variavéis do modelo institucional. Todas Regiões
Coeficientes de correlação ( r )
Variável explicativa Penúltimo Último Número
DHS DHS de casos
(proporção de mulheres):
com necessidades insatifeitas por contracepção 0.200 0.164 187 Taxa de fecundidade não desejada 0.317 0.332 187 que ouviram mensagens de PF através de rádio -0.043 0.036 164 que receberam agentes de planejamento familiar 0.290 -0.015 164 que visitaram unidades sanitárias 0.092 0.162 164 que ouviram sobre PF nas unidades sanitárias -0.168 0.124 164 que obtiveram contraceptivo nos serviços públicos 0.084 0.235 187
Fonte: Elaborado pelo autor, com base nos dados das DHSs
Tabela 14. Correlação entre a Taxa de fecundidade total e as variavéis do modelo institucional. Regiões do grupo A
Coeficientes de correlação ( r )
Variável explicativa Penúltimo Último Número
DHS DHS de casos
(proporção de mulheres):
com necessidades insatifeitas por contracepção 0.081 0.228 111 Taxa de fecundidade não desejada 0.362 0.456 111 que ouviram mensagens de PF através de rádio -0.006 0.069 93 que receberam agentes de planejamento familiar 0.212 -0.001 97 que visitaram unidades sanitárias 0.048 0.156 93 que ouviram sobre PF nas unidades sanitárias -0.091 0.056 93 que obtiveram contraceptivo nos serviços públicos -0.035 0.170 111
Tabela 15. Correlação entre a Taxa de fecundidade total e as variavéis do modelo institucional. Regiões do grupo B
Coeficientes de correlação ( r )
Variável explicativa Penúltimo Último Número
DHS DHS de casos
(proporção de mulheres):
com necessidades insatifeitas por contracepção 0.255 0.220 76 Taxa de fecundidade não desejada 0.198 0.329 76 que ouviram mensagens de PF através de rádio -0.151 0.041 71 que receberam agentes de planejamento familiar 0.391 -0.008 66 que visitaram unidades sanitárias 0.128 0.128 71 que ouviram sobre PF nas unidades sanitárias -0.273 0.160 71 que obtiveram contraceptivo nos serviços públicos 0.204 0.329 76
Fonte: Elaborado pelo autor, com base nos dados das DHSs
4.3. MODELO DO COMPORTAMENTO REPRODUTIVO
As mudanças nos níveis da fecundidade podem ser explicadas através de um conjunto de determinantes próximos (biológicos e comportamentais) que afetam diretamente a fecundidade. De acordo com Bongaarts e Potter (1983), esses determinantes próximos podem ser agrupados em três grandes categorias: fatores relacionados com (i) a exposição às relações sexuais, (ii) a fertilidade, na ausência de esforços deliberados para limitar nascimentos (exemplo, fecundabilidade, esterilidade, insuscetibilidade pós-parto e a mortalidade intrauterina), e (iii) com o controle deliberado da natalidade (contracepção e aborto induzido). Segundo esses autores, todos os outros fatores sociais e econômicos afetam a fecundidade indiretamente por meio dos referidos determinantes próximos.
Do ponto de vista de teoria, a queda da fecundidade estaria associada com: diminuição da proporção de mulheres em união, aumento da idade mediana à primeira união,
aumento da proporção de mulheres unidas que usam contraceptivos, aumento da duração mediana da insuscetibilidade pós-parto, aumento do intervalo entre nascimentos, diminuição do número ideal de filhos e diminuição da proporção de adolescentes que são mães ou que estão grávidas por primeira vez. A Tabela 16 mostra que o sinal da correlação entre a fecundidade e as variáveis de comportamento reprodutivo seguem os padrões plasmados na literatura, com exceção da duração da insuscetibilidade pós-parto, que apresenta um sinal contrário do esperado. Ou seja, o sinal da correlação é positivo, porém, o esperado é negativo.
Em termos de magnitude, todas as variáveis selecionadas para o modelo de comportamento reprodutivo apresentam uma forte associação com o nível de fecundidade, excetuando a idade à primeira união (correlação moderada, r=-0.545, no penúltimo DHS e r=-0.563 no último DHS) e a duração da insucetibilidade pós-parto (correlação fraca, r=-0.221, no penúltimo DHS e r=-0.321 no último DHS).
Tabela 16. Correlação entre a Taxa de fecundidade total e as variavéis do comportamental. Todas regiões
Coeficientes de correlação ( r )
Variável explicativa Penúltimo Último Número
DHS DHS de casos
(proporção de mulheres):
que usam contraceptivos modernos -0.701 -0.586 187
casadas ou em união 0.727 0.749 187
Idade mediana à primeira união -0.545 -0.563 187 duração mediana da insusceptibilidade pós-parto 0.221 0.321 187 duração mediana de intervalos entre nascimentos -0.665 -0.700 187 adolescentes que são mães 0.619 0.684 187
número ideal de filhos 0.703 0.749 187
A comparação entre os grupos A e B mostram que, no geral, a associação entre a fecundidade e as variáveis do comportamento reprodutivo é mais forte nas regiões do grupo B (Tabelas 17 e 18).
Tabela 17. Correlação entre a Taxa de fecundidade total e as variavéis do comportamental. Regiões do grupo A
Coeficientes de correlação ( r )
Variável explicativa Penúltimo Último Número
DHS DHS de casos
(proporção de mulheres):
que usam contraceptivos modernos -0.635 -0.5442 111
casadas ou em união 0.685 0.703 111
Idade mediana à primeira união -0.373 -0.391 111 duração mediana da insusceptibilidade pós-parto 0.103 0.235 111 duração mediana de intervalos entre nascimentos -0.656 -0.703 111
adolescentes que são mães 0.607 0.640 111
número ideal de filhos 0.702 0.695 111
Fonte: Elaborado pelo autor, com base nos dados das DHSs
Tabela 18. Correlação entre a Taxa de fecundidade total e as variavéis do comportamental. Regiões do grupo B
Coeficientes de correlação ( r )
Variável explicativa Penúltimo Último Número
DHS DHS de casos
(proporção de mulheres):
que usam contraceptivos modernos -0.750 -0.682 76
casadas ou em união 0.831 0.833 76
Idade mediana à primeira união -0.687 -0.717 76 duração mediana da insusceptibilidade pós-parto 0.368 0.471 76 duração mediana de intervalos entre nascimentos -0.690 -0.713 76
adolescentes que são mães 0.690 0.737 76
número ideal de filhos 0.771 0.778 76