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5 METHODS

5.2 Data Collection

5.2.2 Secondary Sources

A constituição do bairro rural Paineiras segue uma trajetória totalmente diferente do ocorrido nos demais existentes em Anhumas.

A origem do nome Paineiras é proveniente da presença de um conjunto de árvores que recebem esse nome e que se localizavam justamente na estrada que dá acesso ao local.

O bairro é formado por um conjunto de chácaras que foram desmembradas da antiga Fazenda Presidente Prudente, no inicio da década de 1980. Inicialmente, essa fazenda possuía 240 hectares, sendo metade dela loteada em chácaras com tamanhos que variavam entre 2 e 20 ha e vendidas a habitantes de Anhumas, Presidente Prudente, Regente Feijó e Taciba.

Em sua maioria, os proprietários das chácaras existentes em Paineiras não residiam nas propriedades, ficando no local caseiros, que cuidavam das propriedades ou as mantinham fechadas, configurando uma residência de finais de semana e, portanto, um espaço de lazer.

Havia ainda uma intensa presença de aposentados, que apenas residiam no local, desenvolvendo poucas ou nenhuma atividade agrícola. As poucas atividades agrícolas eram restritas ao plantio de frutas e algumas hortaliças para o consumo interno da propriedade ou para os membros das famílias do proprietário. Em função disso o local teve um processo evolutivo totalmente diferente do que caracterizada um bairro rural.

“Os bairros rurais são definidos pela sua forma especifica de implantação no solo, - um habitat disperso centralizado por pequeno núcleo de habitações em torno da capela, - e pelos vínculos sociais que unem seus membros. Tais vínculos se exprimem em relações de ajuda mútua, tanto no campo da economia quanto em outros campos sociais” (QUEIROZ, 1973, p. 133)

Considerando a definição de bairro rural de Maria Isaura Pereira de Queiroz (1973), Paineiras não poderia ser considerado em sua origem, um bairro rural quando foram loteadas as chácaras. Contudo, no decorrer do tempo, o local passou por um processo evolutivo semelhante ao que ocorreu na área pesquisada por Bombardi (2004), na região de Campinas- SP. A formação do local deu-se de forma semelhante ao que ocorreu com os assentamentos rurais, ou seja, a área foi loteada, demarcada e as pessoas foram levadas a ocuparem aquele espaço. Se bem que poderia ser visualizada uma diferença no confronto lazer-moradia- atividades produtiva. Em ambos os espaços, não se observou, desde o início as manifestações de sociabilidade que caracterizam os bairros rurais.

A trajetória de formação do bairro Paineiras deu-se de forma semelhante ao que ocorreu em Campinas e Valinhos, no Assentamento Núcleo Agrário Capivari. Neste caso após a implantação do assentamento, em pouco menos de dez anos, em função das relações estabelecidas entre as famílias, o local passou a apresentar características de bairro rural, sendo denominado atualmente bairro reforma agrária.

Todavia, em Paineiras a articulação entre os moradores, atualmente está ocorrendo lentamente, ou seja, os moradores estão organizando o espaço e transformando o local, dando- lhe a conformação de um bairro rural. A primeira capela ainda se encontra em construção, as primeiras festas da comunidade começaram a ocorrer e existe um empenho grande dos

moradores para que seja reconhecido em Anhumas como um local que possui identidade própria, conforme pode ser observado na declaração dos moradores.

“Nós estamos lutando para organizar uma festa junina este ano, mas tem que ser igual ou pelo menos parecida com as festas que ocorre em Noite Negra. Se a festa for boa, nós vamos consegui arrecada recurso pra termina a nossa capela, ali embaixo. Se Deus quiser logo teremos a nossa própria capela” (Moradora de Paineiras, 51 anos – Setembro de 2005).

Nos últimos anos, alguns proprietários passaram a residir no local, desenvolvendo uma agricultura em tempo parcial ou destinando a propriedade para a residência de familiares. Nota-se, então, que o espaço passa a ter outra finalidade de uso, deixando de ser apenas uma área de lazer e abrigando outras atividades, configurando dessa forma a pluriatividade.

O motivo pelo qual a antiga fazenda Presidente Prudente foi parcialmente loteada não foi possível identificar, mas sabe-se que, antes do loteamento, a propriedade abrigava um grande número de colonos que desenvolviam um intenso cultivo de lavouras como a mamona, o algodão, o amendoim, o feijão, o arroz e as hortaliças para a subsistência das famílias. A propriedade chegou a abrigar uma máquina de beneficiamento de cereais, que processava parte dos produtos cultivados no local.

Após o loteamento da fazenda, os proprietários passaram a ocupar o restante da propriedade com pecuária de corte, estando nos últimos anos arrendada para o plantio de cana-de-açúcar para uma usina de álcool da região.

No contexto do município de Anhumas, Paineiras apresenta um processo evolutivo totalmente distinto dos outros bairros rurais. Enquanto Palmitalzinho, Noite Negra, Vila Maria e Cavado tiveram sua formação paralela ao processo de formação do município, Paineiras surge enquanto um loteamento, inicialmente destinado a proprietários que desejavam adquirir “chácaras de finais de semana”. No decorrer do tempo, muitos dos primeiros proprietários venderam seus lotes a terceiros e atualmente os novos proprietários

estão transformando o local em residências permanentes, configurando um bairro rural que pouco a pouco vem se estruturando.

No caso de Paineiras, a teia de relações ainda se encontra em expansão, mas pela sua evolução, no ritmo em que os arranjos estão ocorrendo, num futuro próximo o aglomerado terá todas as características de que dispõe um bairro rural. Apesar disso o local já possui o status de bairro em função das articulações que os moradores estão buscando junto aos vizinhos e à sociedade urbana de Anhumas.

3.2. Aspectos comuns e específicos na história dos bairros e na memória dos seus habitantes

Considerando as especificidades dos bairros rurais de Anhumas nota-se que as semelhanças se encontram presentes em alguns aspectos de sua formação, enquanto as diferenças são notadas em outros aspectos.

Pela pesquisa realizada em Palmitalzinho, Noite Negra, Cavado e Vila Maria, ficou demonstrado que o período de formação desses quatro bairros coincide com a estruturação do município de Anhumas. A exceção é Paineiras, que tem sua formação somente na década de 1980.

Os bairros Noite Negra e Cavado tiveram o início de sua formação na década de 1920, sendo os primeiros moradores descendentes de italianos, provenientes das regiões de Ribeirão Preto e Araraquara. Como cultivo inicial praticavam a cafeicultura paralelamente ao plantio de cereais, em meio ao café.

A configuração das casas era bastante semelhante, residências grandes que abrigavam vários membros da família e colonos agregados.

As dificuldades de acesso aos produtos provenientes da área urbana eram as mesmas, de tal modo que esses moradores procuravam tornar as propriedades quase auto- suficientes.

Os primeiros habitantes de Noite Negra e Cavado adquiriam os produtos necessários na cidade de Regente Feijó.

Em Noite Negra, a capela e a escola rural foram construídas no centro bairro, ao lado de uma venda. Enquanto no Cavado a capela não chegou a ser construída.

No caso de Noite Negra as atividades religiosas ocorriam no mesmo ambiente da escola de ensino fundamental. Como conseqüência da presença da capela, construída em 1937, as aulas de catecismo sempre fizeram parte do cotidiano dos moradores do bairro.

O ensino fundamental do bairro Cavado foi iniciado no interior das residências dos moradores, contando com o apoio das famílias no que se refere ao espaço improvisado como salas de aulas, moradia e alimentação das professoras. A escola foi formalmente implantada somente em 1945, portanto 25 anos após o inicio do bairro. Além disso, em função da ausência da capela em Cavado, nunca houve festividades que atraíssem visitantes e as aulas de catecismo sempre foram freqüentadas pelos habitantes do bairro em Anhumas.

No caso dos bairros Palmitalzinho e Vila Maria seu início ocorreu em momento histórico próximo: o primeiro tem a sua formação na década de 1930 e o segundo em 1940. Contudo, a procedência dos migrantes que ocuparam as duas localidades é distinta, embora nos dois casos sejam descendentes de italianos que migraram. Enquanto os habitantes de Palmitalzinho são provenientes de Palmital, oeste do Estado de São Paulo, os moradores de Vila Maria vieram de Ribeirão Preto e Sorocaba. Vale ressaltar que em Vila Maria, logo após a chegada dos migrantes descendentes de italianos, com o desenvolvimento do cultivo das oleaginosas, ocorreu a chegada de migrantes nordestinos que trabalhavam como colonos e agregados dos proprietários rurais.

O cultivo do café sempre predominou em Palmitalzinho ao lado da cultura de cereais, enquanto em Vila Maria se desenvolveram culturas como o algodão, o amendoim e o milho.

Nos dois bairros a religião representa, até hoje, um fator de grande importância para os moradores; no entanto, as práticas religiosas são mais intensas e freqüentes em Palmitalzinho.

A primeira capela foi uma das primeiras construções erguidas em Palmitalzinho, sendo o primeiro professor de ensino fundamental e catequista habitante da localidade. As primeiras professoras de Vila Maria tiveram que contar com a ajuda de moradores o para inicio das práticas educacionais e foram essas professoras que estimularam a construção da capela e também a implantação das aulas de catecismo para as crianças.

Pela tradição do bairro, em Palmitalzinho, as festas para a Santa Padroeira (Nossa Senhora Aparecida) são realizadas pelos moradores do local com freqüência; duas ou três vezes ao ano, contando com a participação de visitantes, que prestigiam as festas. Em Vila Maria as festas em louvor também a Nossa Senhora Aparecida, são realizadas somente uma vez ao ano, necessitando do auxílio de membros da paróquia de Anhumas.

As diferentes formas de organização das festas e atividades desenvolvidas em Palmitalzinho e Vila Maria demonstram que embora os dois bairros tenham sido formados em momentos históricos próximos, os níveis de articulação existentes entre os moradores são muito mais intensos em Palmitalzinho do que em Vila Maria. Essa diferença na articulação pode ser explicada pelo nível de parentesco e compadrio, pouco presente em Vila Maria e muito intenso em Palmitalzinho.

O bairro Paineiras representa um caso totalmente singular no contexto dos bairros rurais de Anhumas, porque é fruto de um loteamento que ocorreu na década de 1980, portanto totalmente fora do contexto histórico da constituição dos demais bairros rurais do município.

A finalidade do loteamento não era a formação de um bairro rural, mas um aglomerado de “residências de finais de semana”, sobretudo destinado a profissionais liberais das cidades de Anhumas, Regente Feijó, Presidente Prudente e Taciba, que pretendiam investir nesse setor.

Somente a mudança na forma de uso do espaço de Paineiras é que propiciou o desenvolvimento de um local com as características de um bairro rural. Paineiras, portanto, representa um fenômeno isolado no contexto de Anhumas, que deu origem a um bairro rural, em função das diferentes mudanças ocorridas naquele espaço rural e da ação dos atores que participaram do processo em transformação.

4. BAIRROS RURAIS DE ANHUMAS: ESPAÇO, ATIVIDADES E FORMAS DE