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No cotidiano da escola, o vivido subjetivamente é reproduzido no palco externo pelas intensas e mais inconscientes produções do sujeito. Muitas vezes, fantasias de poder e também de resistências são suscitadas, bem como as pulsões destrutivas e as feridas narcísicas advindas do mal-estar de conviver diariamente em um contexto de tamanha diversidade. O cansaço diante da recorrência de situações desagradáveis em sala de aula com os estudantes, como a indisciplina e a conversa, gerava naqueles professores o sentimento de intolerância.

É tão recorrente, a gente pede, pede, e chega algumas vezes que não dá, se a gente for gentil o tempo todo não dá, eles passam por cima de sua autoridade, para eles o professor e ele é um igual. Passam por cima. Nós ensinamos os que aceitam a figura do professor. Eles que aceitam melhor. (Profa. Lia).

Alguns adolescentes se destacavam na sala de aula pelos resultados obtidos com hábitos de estudos, que refletiam na aprendizagem, outros pela responsabilidade e organização. Havia, também, os que se destacavam pela bagunça, pelas dificuldades de aprendizagem e, até mesmo, pelas atitudes de violência. Todavia, as atitudes agressivas, muitas vezes, pareciam ser reforçadas pela escola, pelo tom de resistência e de desimplicação com os problemas, como se a função docente se limitasse à de transmissor de conteúdos e, nessa transmissão,

não entrasse o trabalho com os valores, costumes e modos de convivência social e respeito mútuo, presentes nos currículos.

Fleuri (2008) faz referência que a sala de aula, para muitos alunos, torna-se o que ele denomina de cela de aula. O espaço da sala, na maioria das vezes, é ocupado pelos estudantes a partir de critérios adotados pela escola, que determina as relações pessoais. Uma professora relata sobre seu temor ao adotar posições mais firmes com seus alunos, em sala de aula:

Você tem que se fazer ouvir naquele momento! Mas por trás eu me sinto intimidada e olha que eu sou grande!

Notadamente, se é verdade que há uma importância vital na relação professor-aluno e no processo transferencial no qual se estabelecem as trocas mútuas dos afetos que perpassam essa relação, é fato que as condutas transgressoras se sofisticam, cada vez mais, na justa proporção do sentimento de abandono vivenciado pelos estudantes que habitam o lugar de transgressores na escola. Para eles, os docentes são motivos de chacota e de reações insubordinadas, até mesmo de deboche. Aguiar e Almeida (2008) abordam a frustrante experiência de se sentir desautorizado, vivenciada pelo professor, e discutem que, atualmente, muitos docentes se sentem desmoronados psiquicamente quando os estudantes não reconhecem sua autoridade docente e que as atitudes impulsivas e violentas de muitos alunos os fazem se sentir demasiadamente agredidos.

Entretanto, efetivamente, pode-se pensar que a violência é um sintoma produzido na e pela comunidade escolar, uma vez que muitos de seus dispositivos colaboraram para sua desorganização e desordem. O desrespeito que comparece na convivência em sala de aula e na relação professor-aluno prevalece na maioria dos casos, mesmo se nem sempre pode ser detectado em uma primeira visada, pois pode se tratar de atitudes muito veladas.

Nesta pesquisa, ficou muito claro que um dos dispositivos que fomenta a indisciplina e a violência, na escola, é aquele utilizado pelo sistema educativo com o objetivo de “recuperar” os estudantes com defasagens na aprendizagem: trata-se das chamadas “classes de aceleração”. “Os meninos da aceleração não sabem nada”, queixa-se o professor Guto. Contudo, ninguém se questiona ou se implica na

não aprendizagem dos estudantes, como se o não aprender fosse um “mal” inerente ao estudante.

A questão das classes de aceleração era preocupante para alguns docentes, pois não havia, segundo eles, um programa consistente capaz de auxiliar, de fato, os alunos em suas dificuldades de aprendizagem. Todavia, tais impasses deveriam ser alvos de preocupação e contar com o envolvimento de toda a comunidade escolar, e não somente de alguns professores ou estudantes da escola. Na maioria dos casos, o discurso em relação aos alunos, que já sofriam de determinados estigmas, era o do desinvestimento e desânimo, como retratado pela fala de uma professora:

Esse aluno é de aceleração, não acompanha. Repetiu o primeiro ano, eles empurram ele, ele nem tá aí. (Profa. Mara).

Os estudantes das classes de aceleração, por não terem um investimento por parte de seus professores, acabam ficando em uma zona cinzenta, apagados ou esquecidos em suas salas e nos processos de aprendizagem. As saídas por eles encontradas, como modo de defesa contra o sofrimento, eram comumente a desordem, a bagunça, a indisciplina e, até mesmo, a violência. O desinvestimento docente se presentificou na fala da Professora Lia:

Esse menino pulou da quinta série para o primeiro ano do ensino médio... Vai falar pra alguém… pelo amor de Deus! Nós pensamos... Vamos abaixar o nível do ano, senão ninguém passa. Os meninos da aceleração, eles não querem estudar, não querem fazer nada, vêm pra cá porque não querem ficar em casa, mas fazem besteiras. Vêm vender drogas e brigar. O nível era tão horrível... se o menino só entregasse o trabalho ele passava.

A violência e a indisciplina podem ser entendidas como o movimento da força das pulsões, o que resta de vital no adolescente, querendo agir em seu benefício. Assim, reage para não ser atacado, para se deslocar da posição passiva que as dificuldades enfrentadas na escola o remetiam e, talvez, pela passagem ao ato, possa ser notado. O relato abaixo contextualiza a fala de um professor, que se sentia muito angustiado com a situação de um de seus alunos de classe de aceleração:

O menino é empurrado, vem de aceleração. Ele só assiste minha aula quando o pai aparecer... A direção me disse que a mãe não vem mais na escola, que é caso perdido. O que nós vamos fazer? É um menino violento, tem dezoito anos. Vamos decidir no conselho o que fazer com ele.

É fundamental pensar que a indisciplina acontece a partir das interações que se estabelecem na escola, e evidencia a necessidade da (re)formulação dos projetos pedagógicos, de modo a facilitar a interação com os alunos. Entretanto, é possível afirmar que as mudanças só vão ocorrer se todos os envolvidos, instituição e pais, estiverem dispostos a ampliar a discussão sobre o tema e a superar as dicotomias que abrem um enorme abismo no que tange aos dispositivos de operacionalizar a educação.

O menino só passa por arredondamento, é um menino fraco. Ele senta perto de um menino que faz ele copiar. Dependendo do que ele quer fazer, ele faz. (Profa. Lara).

Guimarães (1996), citado por Zandonato (2004), traduz a indisciplina como resposta a uma prática institucional conflitante e a define como um elemento ambíguo, por demonstrar ódio, raiva e uma forma de interromper o controle homogeneizador da escola. Assim, de certa maneira, a indisciplina, pode ser vista como uma resposta dos estudantes à conduta agressiva de alguns docentes. Muitas vezes, é uma conduta em resposta aos equívocos da própria escola. Garcia (1999) ressalta que as normas não devem se limitar à organização do ambiente escolar, mas orientar a própria cultura daquilo que a comunidade deseja desenvolver em aspectos disciplinares.

A indisciplina pode ser vista, ainda, como o sintoma de algo que “vai mal” no psiquismo do aluno, um mecanismo defensivo para denunciar um determinado mal- estar, que inclui até mesmo a negação de saber. Cabe à escola perceber esse sintoma dos estudantes também como denúncia do mal-estar nas relações, pois simbolicamente são depositários do desejo do professor, que pode ser desde o de acolhimento às demandas do adolescente quanto o de renúncia do ato educativo.

Geralmente, a gente chama a atenção por conversa, você chama a atenção vinte vezes e é mesmo que nada. Eles vêm sem valores e os que têm são distorcidos. Os valores como, por exemplo, o respeito, é baixo. (Prof. Guto).

Segundo os docentes, os estudantes problematizam e questionam a organização e o respeito às normas exigidas pelos docentes.

A gente passa valores e crítica para os alunos, mas se nós ensinamos muito a crítica para nossos alunos nós somos questionados. (Prof. Tito).

A fala do professor deixou claro o compromisso que os docentes podem assumir ou não, ao se posicionarem como educadores.

Não são os estudantes que devem ditar as normas de funcionamento da sala de aula, e muito menos da escola, porém as regras escolares devem surgir de uma relação dialógica estabelecida entre os atores que compartilham a convivência cotidianamente. Entretanto, para que a convivência seja possível, o respeito aos códigos estabelecidos para o convívio precisa ser considerado. A fala abaixo é de um dos professores do grupo e se referiu ao comportamento de alguns de seus colegas que, segundo ele, não cumpria as regras da escola e agia da maneira que bem entendia, em qualquer situação.

Acomodação e picaretagem são muito próximas. Isso é ruim. Eu acho que educação é para o futuro mesmo. (Prof. Joel).