3.3 Ge-Si-Pd nanocluster samples
4.1.2 High Resolution Transmission Electron Microscopy
Um dos encontros do grupo de escuta foi marcado por um fato que mobilizou bastante os professores – a morte de um estudante da escola envolvido com a criminalidade. Os docentes se mostraram muito angustiados e pareciam paralisados pelo real que os tomava de sobressalto. Sentiam-se impotentes face à impossibilidade de mudar o cenário e a realidade dos seus alunos, que viviam sob a égide da marginalidade.
O Correio Braziliense de hoje divulgou isso em três páginas. Sobre o menino que morreu e era aluno. Os bandidos dizem que usam os meninos para cometer delitos. O adolescente é massa de manobra. Ele está sendo usado pelos marginais. É uma comunidade, as maiores ocorrências de criminalidade vêm deste condomínio. Este é o lugar mais violento. (Prof. Tito).
Para abrandar um pouco o aversivo do real vivido pelos estudantes em sua comunidade, muitos adolescentes se aliavam aos delinquentes como uma maneira
de se sentirem seguros, relataram os professores. Para os docentes, essa situação era desafiadora e demandava muito esforço e incansável diálogo.
Os pais mandam o menino pra escola porque não aguentam o menino em casa. Os meninos falam que vêm pra escola. Tem que tentar orientar e fazer tudo pelo menino. Falta muito apoio. Uma comunidade dessa é carente de tudo, não tem nada, não tem um cinema, uma diversão pro menino, ai vem pra cá. Esse é que é o problema, porque dizem... em casa não vou ficar, senão eu vou ficar olhando meu irmão. Não vou ficar olhando meu irmão e fazer almoço, eu prefiro pra vir pra escola. O que a gente tem com isso... tem que vir assim? (Profa. Mara).
Os professores não sabiam como agir e não se sentiam preparados para lidar com este tipo de situação.
As meninas brigam, briga de menina é pior do que de meninos. É o maior índice de briga entre alunos na escola. (prof. Guto).
Na escola há um sem limites de demandas. (Profa. Lara).
Os docentes repetiram essa fala inúmeras vezes durante o trabalho com o grupo e diziam não suportar aquele lugar. Os professores demandavam investimento na escola e suporte ao trabalho do professor, pela equipe pedagógica, e não somente o cumprimento de um trabalho burocrático.
A marginalidade entrava sorrateiramente na escola e de maneiras diversas, diziam os professores, trazendo valores e princípios morais e éticos conturbados e mesmo equivocados. Disse uma das professoras do grupo:
A família é ausente e desestruturada. Eles pensam que podem fazer na escola o que fazem em casa.
Muitos jovens eram, de fato, abandonados, no contexto da vida escolar. Os pais não compareciam à escola para acompanhar o desenvolvimento de seus filhos e delegavam essa tarefa aos professores. Estes se queixavam que os pais sequer tomavam conhecimento das amizades dos filhos, dentro e fora da escola, ou outro tipo de relacionamento, como o namoro. Os professores se mostraram bastante preocupados com seus alunos adolescentes e com os possíveis efeitos do abandono e do desamparo em suas vidas, tanto particular quanto educativa. Esta preocupação ficou clara na fala da docente.
As meninas adoram namorar com os marginais, com os donos da boca de fumo, é status para elas. E as mais bonitas! (Profa. Lara).
Os adolescentes são jovens vulneráveis e “a violência pra eles é um modo de se afirmar”, disse uma professora a respeito de estudantes violentos da escola.
Em meio a tantos desafios enfrentados no trabalho, a nostalgia do passado comparece como uma das maneiras que os professores encontravam para se defender da hostilidade do real.
Na minha época, meus pais iam à escola e quando os professores falavam dos meus problemas, meus pais tomavam providências, pagavam um professor para me ajudar. Mas hoje tudo é culpa do professor. Quando eu tinha problema na escola nunca culpavam o professor. Hoje a culpa nunca é do filho. (Profa. Mara).
Esta é uma fala que remete a um discurso nostálgico, reedição de um desejo de reparação. No entanto, ensinar não é fazer clones e nem incentivar o estudante à imitação. Mas, para os professores, os ataques vêm de todos os lados. De um, ficam os estudantes adolescentes, com suas características próprias, demandando do professor mais diálogo, limite, normas claras, dentre outros investimentos. Do outro lado, ficam eles mesmos, ansiosos por terem estudantes que reproduzam, da mesma maneira, e no mesmo estilo, o que eles vivenciaram em seus percursos escolares. Tal performance pode ser pensada como um pedido, uma solicitação de uma promessa de algo que abrandasse o sofrimento que sentiam frente às excessivas demandas da educação atual. Assim, os professores se veem agredidos por seus alunos. Ele é o que não sou, ele questiona o que sou, e de alguma maneira me contradiz (BARRUS-MICHEL, 2011).
Nunca culpavam o professor, hoje a culpa é só do professor e nunca é do filho é porque você ensina mal, é por isso que o filho dele não está conseguindo aprender. Não é culpa do filho, não é porque o filho dele não estuda. Mudou muita coisa. (Prof. Joel).
Recentemente teve um episódio comigo. Eu tive um problema com um aluno e eu achei que devia exigir providências mais enérgicas e exigi que ele saísse de sala, chamei o pai. Não era de hoje que ele estava de brincadeira comigo e eu falava com ele e ele me mandava tomar naquele lugar. (Prof. Tito).
A angústia do docente ao se deparar com a diferença, a alteridade, e não reencontrar a plenitude perdida, e que um dia idealizou, no campo das práticas educativas, como estudantes comportados, estudiosos, perfeitos, remetem ao encontro com a verdade de que estes alunos não existem.
Assim, o Professor Tito mencionou no grupo uma conversa com a mãe de um aluno que tinha cometido violência na sala de aula.
A mãe disse que é sozinha, que o marido, é um cara grosso, violento, que, ela não conta com ele. E eu, conto com quem?
A estranheza causada pela realidade, que não corresponde à visão nostálgica do professor, coloca em questão a verdade a respeito da nostalgia.
Eles chegam sem limites sem saber o que é um professor, uma professora. Para ele o professor e ele é um igual. (Profa. Lara).
Pereira (2004) pondera que é notável que o Mestre, nostalgicamente idealizado de outrora, cedeu lugar a um profissional quase derrotado no imaginário social. Para o professor tornou-se difícil lidar com os efeitos na escola, impostos pelos costumes da sociedade atual.
Nós nos preparamos de acordo com as demandas, no dia a dia, passando valores que os pais não passaram. (Profa. Lara).
A nostalgia remete efetivamente à questão do gozo e da repetição no discurso dos professores. No meu tempo era assim, eu era um aluno exemplar... naquele tempo... o professor tinha sempre razão. (Prof. Joel).
Com efeito, o gozo é aquele que não é o equivalente ao prazer, posto que na Psicanálise é relativo a uma produção do inconsciente e a um excesso, àquilo que se repete. Nessa dinâmica, o professor Joel, ao tentar reparar a falta no Outro, se utilizou de dispositivos que cruzaram as atitudes inadequadas do seu estudante com o seu próprio fazer de outrora, produzindo um saber sobre si mesmo inquestionável, ao se autonomear como um aluno exemplar, aquele que excede à expectativa do ideal de bom aluno no imaginário de todo professor.
Na escola, o investimento libidinal dos professores nos seus estudantes segue o sentido de uma generalização negativa, que se deixa transparecer na fala da docente:
Todos eles têm problema de pré-requisito; isso é independente, todos eles têm problemas de casa. As turmas que respeitam o professor são as melhores de lidar. (Profa. Lia).
A respeito do saber absoluto, Lacan (1954) afirma que quando se pensa possuí-lo, se torna triunfo e instrumento manipulatório daqueles que julgam tê-lo.
Com o intuito de colocar o saber como objeto de gozo, o professor repete em seu discurso rememorações do passado que se tornam vazias e sem sentido para os estudantes. Efetivamente, Freud discorreu a respeito da rememoração do objeto de desejo, como aponta Lacan (1954), no “Seminário 2”, quando afirma que Freud, em sua obra, distingue duas estruturas da experiência humana. Uma antiga, a da reminiscência, que supõe um acordo com a harmonia entre o sujeito e seus objetos, que o faz reconhecê-los, já que desde sempre são conhecidos. De outro lado, aqueles que repetem em suas novas conquistas objetais, estas que só coincidem parcialmente com aquilo que já é conhecido pelo sujeito e lhe proporcionou satisfação. Assim, o homem busca e repete, em ato, infinitamente o desejo do reencontro com o objeto perdido.
6.11 VIOLÊNCIA E INDISCIPLINA COMO SINTOMAS PRODUZIDOS NA E PELA