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As eleições no DF em 2006 representaram uma perda importante para a esquerda no DF, isto ocorreu porque, desde a eleição de 1998, a base de esquerda sempre garantiu a eleição de três Deputados, sempre eram dois candidatos do PT e um do PPS ou PCdoB. Entretanto, assim como

33Marcel Cláudio Sant’Ana: “A Cor do Espaço Urbano” Publicado em:

estava ocorrendo no restante do país, a crise política envolvendo o Governo Federal e o partido dos Trabalhadores afetou fortemente as candidaturas deste partido, e de sua base. Por conseguinte, nas eleições de 2006, a base de esquerda do DF ficou apenas com dois eleitos, já que o PPS migrou para o outro lado do espectro político, em uma aliança que superou o pragmatismo eleitoral e continua a perdurar ao longo da última legislatura. Com efeito, é possível perceber a partir do gráfico 6 que o PT teve sua bancada reduzida nas eleições de 2006, algo inusitado diante da constatação de que o partido ocupava o cargo mais importante do Executivo e caminhava para a reeleição.

Gráfico 6 – Evolução das bancadas de Deputados Federais no DF entre 1999 e 2006, considerados os quatro principais partidos.

Evolução das Bancadas de 1999 a 2006

84 69 90 59 90 83 99 63 64 105 75 62 0 20 40 60 80 100 120 1 2 3 1 (1999) 2 (2003) 3 (2006) Q ua nt . D ep. Fe d. E le itos PMDB PT PSDB PFL

Fonte: Autor, baseado nos dados do sitewww.camara.gov.br

Executivo Local

A campanha de 2006 em Brasília foi marcada por fortes mudanças no executivo local e isto se refletiu nos resultados das eleições proporcionais. Como de praxe, diversas candidaturas proporcionais se apoiavam no carisma dos políticos eleitos/elegíveis para o governo local, seja com menções a amizade entre este e aquele candidato, ou pela manifestação de apoio do candidato majoritário colocada no ar durante o programa eleitoral.

é que o vácuo no espaço de poder gerou uma enorme corrida dos partidos. Depois de tanto tempo no poder, Joaquim Roriz (governador entre os anos 1988 a 1994; 1998 a 2005 pelo extinto PTR e posteriormente pelo PMDB) havia conquistado diversos aliados e adversários, além disso, ele conseguiu reunir em torno do seu nome grande parte das agremiações de direita no DF, assim, muitas expectativas foram geradas em torno da sua sucessão.

Para preencher este vácuo no poder, dois nomes fortes da política local, e que já haviam se mostrado fortemente interessados no governo do DF, disputavam espaço dentro do DEM (antigo PFL) para decidir quem seria o candidato do partido. Eram eles, Paulo Octávio e José Roberto Arruda. Em virtude do impasse, os dois decidiram se unir, em uma chapa que surgiu como favorita, diante de outro impasse, criado entre o PMDB de Roriz e o PSDB de Maria de Lourdes Abadia, em torno da sucessão da chapa Roriz e Abadia. Roriz, que não poderia se candidatar ao governo novamente, disputou o Senado Federal e Abadia foi lançada como candidata oficial do Buriti (Governo do Distrito Federal) à reeleição, já que ela ocupava o cargo de governadora após o licenciamento do então governador.

No lado esquerdo do espectro político o momento também era de incerteza, fortemente alimentada pela crise política pela qual passava o governo federal petista. Sendo assim, esse grupo viveu uma situação inédita, já que historicamente representou a única oposição a Roriz no DF, e, ao mesmo tempo vivia a sua primeira reeleição para o governo federal. Em outros termos, havia um dilema colocado para a esquerda candanga: a ética de quem está no poder versus a ética da oposição. Em Brasília, o PT havia se consolidado historicamente como oposição (Roriz já havia governado a cidade por mais de uma década) ao passo que em nível nacional o partido já havia deixado de ser oposição para governar o país por quatro anos.

Por conseguinte, o partido presenciava um crescente pragmatismo, impulsionado pelas vitórias a nível nacional, contraposto a uma cobrança cada vez mais forte de suas bases sobre os rumos que o partido havia tomado antes e depois da crise política nacional. Além disso, a saída de Roriz do cenário político abriria as portas sempre tão desejadas pela esquerda da cidade para uma dobradinha do PT nos governos local e federal.

Diante disso, o cenário de Brasília apontava para três grandes grupos que acreditavam em sua possibilidade de eleição: esquerda, centro-direita e a direita, o grupo menos fissurado internamente, foi o que conseguiu se articular a tempo de sair na frente da disputa e se consolidar nas pesquisas de opinião. O resultado é que o grupo de Roriz acabou se enfraquecendo, já que o

próprio governador apresentou um apoio velado à candidatura da dupla Arruda e Paulo Octávio. Por conseguinte, o nome das duas mulheres, Maria de Lourdes Abadia, e Arlete Sampaio, foram enfraquecidas e acabaram sendo derrotadas ainda no primeiro turno.

O HGPE analisado foi marcado por fortes remissões à disputa majoritária para o executivo local e nacional. Neste sentido, foram lançadas no espaço proporcional diversas manifestações de apoio por parte dos candidatos majoritários. Os mais requisitados foram Joaquim Roriz e José Roberto Arruda e, além deles, os dois principais candidatos à presidência, Lula e Geraldo Alckmin também apareceram oferecendo apoio a alguns candidatos de seus partidos. Até o candidato ao governo de São Paulo, José Serra, foi solicitado a manifestar seu apoio a um candidato do PSDB.

É interessante notar que este recurso foi utilizado com tamanha exaustão que foi comum perceber candidatos majoritários manifestando apoio a candidatos em disputa, ou seja, adversários diretos. Sobre este ponto, inclusive o ex-governador Joaquim Roriz, uma das figuras mais utilizadas para angariar apoios, aparece afirmando que votaria em candidatos distintos, em momentos diferentes, ou seja, diante de um público pedia apoio e afirmava que determinado candidato era o seu candidato, e posteriormente, ele aparecia na propaganda de outro candidato falando o mesmo em relação a um concorrente.

Mesmo exercendo uma relação de troca, já que os candidatos ao executivo também são apoiados pelo trabalho de base dos candidatos proporcionais, existe uma hierarquia definida nessa relação de troca. Esta hierarquia não é imposta pela mídia, mas acaba por influenciar o campo midiático e ser influenciada por ele. Reflexo disso é o fato de que os principais candidatos ao executivo são convertidos em personalidades midiáticas, diante do formato dos seus programas eleitorais e pela exposição nos noticiários.

O cenário das eleições de 2006 acabou se conformando da seguinte forma: o PSDB lançou a vice-governadora Maria de Lourdes Abadia (participaram da chapa: PMDB, PTB, PHS, PTC, PAN, PTdoB e PRP); O DEM escolheu José Roberto Arruda (PRONA, PMN, PSC, PTN, PP, PPS e PL); o PT lançou mão de Arlete Sampaio (apoiada por PRTB, PSB, PV e PRB) e Agnelo Queiroz, naquele momento Ministro dos Esportes, que já estava há bastante tempo aguardando uma chance de concorrer ao governo distrital, pela segunda vez viu ser solapada sua possibilidade de concorrer ao governo.

esquerda de Brasília. Isto se explica pela busca de um pragmatismo eleitoral cada vez maior e pelo descontentamento com a gestão do Partido dos Trabalhadores sobre aquela aliança de esquerda em Brasília. A crise no governo federal culminou também com a criação de um partido de esquerda que agora não mais se alinhava com o PT, o PSOL. Este partido acabou levando uma das principais candidatas a deputada federal do Partido dos Trabalhadores, Maninha, e aproximadamente 46 mil votos. Outro partido que deixou o bloco capitaneado pelo PT foi o PDT, que lançou o ex-petista Cristovam Buarque para a presidência e não pôde apoiar nenhum candidato ao governo do DF.

Quando somadas as baixas que sofreu, a já tradicional aliança de esquerda, em Brasília, perdeu 141.920 votos, este resultado foi obtido a partir da soma dos votos da Aliança de esquerda, PDT e PPS.

O resultado das eleições foi que a chapa encabeçada por José Roberto Arruda e com Paulo Octávio como Vice-Governador venceu as eleições para o governo do Distrito Federal. Arruda, já havia sido secretário de obras do governo de Roriz e Senador da República, ficou conhecido nacionalmente no episódio da violação do painel do Senado34, que culminou com a sua renúncia ao mandato, em 24/05/2001. Após um período afastado da política, Arruda retornou às urnas em 2002 como o Deputado mais votado. O segundo lugar nas eleições ficou para Maria de Lourdes Abadia e o terceiro lugar para Arlete Sampaio. Joaquim Roriz elegeu-se senador e Agnelo Queiroz do PCdoB ficou em segundo lugar, com uma votação expressiva.

A bancada dos Deputados Federais teve o seguinte resultado: na coligação de apoio de Arruda, foram eleitos Alberto Fraga (DEM), Augusto Carvalho (PPS) e Bispo Rodovalho (DEM). Na base de apoio de Abadia, foram eleitos Tadeu Filipelli (PMDB), Jofran Frejat (PTB) e Laerte Bessa (PMDB). No grupo de apoio de Arlete Sampaio foram eleitos Geraldo Magela (PT) e Rodrigo Rollemberg (PSB).

34Em 1994, com o apoio de Joaquim Roriz, Arruda foi candidato a senador pelo PP, tendo logrado êxito na disputa.

Em 1995 rompeu com Joaquim Roriz e ingressou no PSDB. Em 1998 foi candidato ao governo do Distrito Federal pela primeira vez, tendo sido derrotado por Joaquim Roriz e Cristovam Buarque ainda em primeiro turno e ficado em terceiro lugar. Em 2001, ainda exercendo o mandato de senador e ocupando a liderança do governo no Senado, envolveu-se, juntamente com o então senador Antônio Carlos Magalhães, na violação do painel eletrônico do Senado Federal, utilizado na votação que cassou o mandato do ex-senador Luís Estêvão. Acabou renunciando ao cargo e foi afastado do PSDB e ingressou no PFL. Após filiar-se ao PFL, aproximou-se outra vez de Joaquim Roriz.