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A investigação das Instituições Escolares pode implicar na abordagem da própria arquitetura dos edifícios. Quando pensamos na história da educação brasileira estamos nos referindo a uma história recente dos monumentos escolares, devido ao período da construção de prédios que aconteceram com o próprio desenvolvimento da escolarização primária no final do século XIX. Antes disso, as escolas públicas por muito tempo foram caracterizadas por domésticas, por acontecer na residência do professor, fato este referencial ao período de reformas pombalinas no Brasil e ainda no decorrer do século XIX. Nota-se, que somente no período correspondente a República Velha no Brasil (1889-1930), o discurso de progresso que influenciou a educação remodelou as paisagens das grandes cidades brasileiras com a construção de prédios para os grupos escolares.

A História Institucional também é a história dos prédios escolares ou a própria história dos usos do prédio, forçados/inspirados e até improvisados pelas novidades pedagógicas, seja para atender determinada proposta ideológica ou para atender o crescimento de demanda escolar. Correspondeu à sua legitimidade e prestígio diante da sociedade, pois fala-se da construção da própria identidade institucional. Outro exemplo significativo foram os internatos, que exerceram em sua estrutura material, importante meio para a educação e disciplina de seus alunos: corredores longos apropriados para a vigilância e o silêncio, as estruturas dos dormitórios, capelas, lavanderias, refeitórios e as salas de aulas, que correspondiam a todo um sistema de prêmios e/ou castigo.

A história do monumento construída em relação à Escola Agrícola foi inicialmente improvisada, pois aos poucos ia se adaptando às instalações da chácara do Ginásio e preenchendo as necessidades exigidas para uma escola de agricultura. O prédio do ginásio foi

inaugurado em junho de 1909. Assim, quando a Escola Agrícola foi criada em meados de 1908, ainda não era amplo o espaço para as salas de aulas. Mas a escola já contava com a fazenda, localizada nas terras da chácara do ginásio. Embora fosse necessário e urgente adquirir mais terras para a ampliação da escola.

Nas construções da instituição prevaleceu o estilo neoclássico usado em edifícios característicos do contexto norte-americano, bem como demonstram as colunas góticas nos pórticos dos principais prédios da escola. Destaca-se “O Prédio” (o edifício do Ginásio), cuja entrada foi denominada por Samuel Rhea Gammon de: “A Porta da Oportunidade”. O Prédio do Ginásio traz esta monumentalidade pela própria exaltação do suntuoso prédio, com colunas gregas, o qual faz todo um arranjo com as escadas, enaltecidas por colunas laterais%.

Figura 8 - O Prédio do Ginásio – Anos 1920

Fonte: Arquivo do Instituto Presbiteriano Gammon

% A arquitetura neoclásssica evidenciou, em fins do séc. XVIII, um regresso às formas clássicas de um modo

inalterado. O Neoclassicismo expressou os valores próprios de uma nova e fortalecida burguesia, que assumiu a direção da Sociedade europeia após a Revolução Francesa e, em especial, com o Império de Napoleão. Principais características: retorno ao passado, pela imitação dos modelos antigos greco-latinos; academicismo nos temas e nas técnicas, isto é, sujeição aos modelos e às regras ensinadas nas escolas ou academias de belas- artes; arte entendida como imitação da natureza, num verdadeiro culto à teoria de Aristóteles. Tanto nas construções civis quanto nas religiosas, a arquitetura neoclássica seguiu o modelo dos templos greco-romanos ou o das edificações do Renascimento italiano. Portanto, buscou novas formas para abrigar a filosofia capitalista e burguesa, que encontra seus novos anseios na retomada dos valores clássicos que passam a fazer parte da decoração dos edifícios e casas.

Em 1911, no dia 17 de janeiro, a nova propriedade adquirida, vizinha da chácara do Instituto, foi inaugurada para a instalação da escola agrícola. Como homenagem a deusa da Agricultura, a fazenda foi denominada Fazenda Modelo Ceres. Esta fazenda possuía cerca de 200 hectares de terra, onde funcionou o campo de experimentação da Escola Agrícola. Os alunos continuaram assistindo suas aulas no prédio do Ginásio até 1922, quando foi inaugurado o Prédio principal “Alvaro Botelho”, na Fazenda Ceres, para as aulas da Escola Agrícola, transferindo o funcionamento da escola para este local.

Aos poucos a escola se equipava para o desenvolvimento de suas atividades. Em 18 de março de 1911 inaugurou o Posto Zootécnico de Lavras, no recinto da chácara do Instituto Evangélico. Ainda em 1911, começou a funcionar a Estação Meteorológica de Lavras. Ambos mantidos pelo Governo Federal. Conforme apresentava o Dr. Gammon, a instalação da Escola Agrícola até 1913 contava com:

• A fazenda Ceres numa dimensão de 200 hectares possuía 50 hectares de terra cultivados;

• Laboratórios de Physica, Chimica, e Historia Natural; Officinas de Sellaria, Ferraria e Capintaria;

• Estabelecimento de Lacticínios;

• Engenhos de Canna, moinhos, etc. movidos à força hydráulica e Electra; • Machinas Agrícolas necessárias para o bom funccionamento da fazenda e

para os trabalhos dos alumnos; • Campo experimental;

• Posto zootechnicos mantido pelo Governo Federal;

• Estação Meteorológica, mantida pelo Governo Federal (INSTITUTO EVANGÉLICO. Prospecto do Instituto Evangélico, 1913, p. 23).

De acordo com a planta do Instituto Evangélico, em 1911, somam-se a esta relação: Curraes; Paiol; Depósito de Arados; Estábulos; e o Silo, construído em 1915, para a plantação e armazenagem de grãos, este é o primeiro silo aéreo de alvenaria construído na América do Sul nas instalações do Instituto.

O silo construído na escola tinha paredes de tijolos na altura de 7.50 metros com a espessura de 40 cm e, foram gastos 19.500 tijolos na construção. A ensilagem era colocada por cima, por uma porta própria no telhado. Ao redor das paredes em cima dos alicerces e em cima de cada porta colocava-se um arco de ferro ao redor de todo o silo. Suas paredes foram suficientemente fortes para suportar o peso da coluna de ensilagem e por dentro, perfeitamente lisa, do alicerce ao cume.

A construção do silo marcou o momento em que a agricultura e a produção do milho começavam a utilizar-se de meios modernos de produção e armazenamento. Seu orçamento custou aproximadamente três contos de réis. Quando Benjamin Hunnicutt escreveu o seu livro

O Milho, ele descreveu todos os detalhes para a construção. Este mesmo assunto é o tema

especial da revista O Agricultor (anno V, n. 4, jul. 1926), editada pela própria Escola Agrícola de Lavras.

Figura 9 - Silo de Alvenaria da EAL, construído na chácara do Ginásio - 1915

Fonte: Arquivo do Instituto Gammon.

No Livro de Visitas da Escola, correspondente a este período, foi possível observar algumas considerações dos visitantes sobre a instituição:

O coração do brazileiro enche de contentamento, por ver despertar no seio desta grande patria, o gosto pela agricultura scientifica, unico factor da grandeza de um pais. É uma escola sem apparatos, de acordo com a vida do Agricultor. Os terrenos são aproveitados com um methodo admiravel de acordo com a vida de um verdadeiro estabelecimento dessa ordem. Faz-se sentir a falta de um posto zoothecnico, visto ser esta zona criadora e para os alumnos estudarem as raças dos animais úteis. Agradeço as gentilezas e cavalheirismo das Directorias, são perfeitos transmiçores de excelentes qualidades que devem vencer um moço (Carlos Dias Ferraz, agricultor na cidade de Christina – Rede Sul Mineira, Lavras, 06 de julho de 1910)

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(ESCOLA AGRÍCOLA DE LAVRAS. Livro de Visitas da Escola Agrícola de Lavras, 1909-1924).

O visitante observava a simplicidade dos primeiros tempos da escola, mas enaltece os métodos utilizados e a formação dos professores, o ensino e a qualidade destes. Fica a exaltação do amor à terra, da contribuição que uma instituição de ensino agrícola poderia proporcionar para o desenvolvimento da Pátria e a formação do trabalhador. Nove meses após a sugestão do visitante, o Posto Zootécnico é introduzido na Escola Agrícola e mantido pelo Governo Federal.

Este mesmo pensamento é do Dr. Francisco Salles, ex-governador de Minas Gerais (1902 a 1906), ilustre lavrense, quem lança as expectativas sobre o progresso da instituição e de seus promotores, quando em 1909, visitava o estabelecimento de ensino:

A secção de agricultura do Gymnasio de Lavras, que acabo de visitar, está iniciada sob os melhores auspícios. Com a direcção competente do Sr. Dr. Benjamin Hunnicutt e a vontade firme e constante do benemérito Dr. Gammon, vae ser um centro de irradiação do ensino agrícola da maior importancia e destinada a exercer efficas influxo na transformação do trabalho, na agricultura desta região. Parabens aos iniciadores destes melhoramentos nesta cidade, que estremeço por ser meu berço (Francisco Salles, Lavras, 26 de maio de 1909) (ESCOLA AGRÍCOLA DE LAVRAS. Livro de Visitas da Escola Agrícola de Lavras, 1909-1924).

A Escola atendia, assim, aos anseios daquela sociedade que buscava na agricultura o meio de honrar a pátria, produzir o progresso e formar o trabalhador. O Secretário da Agricultura de Minas Gerais expressou as suas observações quanto à escola:

Da visita que fiz ás diversas secções em que se pratica o ensino agrícola, ministrado pelo Instituto Evangélico, leva a convicção que este ensino é aqui uma realidade. Ao lado da theoria que se aprende nas aulas, existe a prática, no laboratório Chímico e nos campos de experiencia e demonstração que existem nas partes das propriedades agrícolas do Instituto, denominadas “Chácara”, “Sítio” e Fazenda Modelo “Ceres”. O cuidado revelado nas plantações e no seu tratamento, bem como nas edificações, bem demonstra a intelligência e zelo dos benemeritos Dr. Samuel Gammon e Benjamin Hunnicutt, aquelle por ter instituído aqui a Escola Agrícola de Lavras e este por tela organizado e dirigido com grande proveito para o ensino agricola (Carlos Prates, Lavras, 18 de março de 1911) (ESCOLA AGRÍCOLA DE LAVRAS. Livro de Visitas da Escola Agrícola de Lavras, 1909-1924).

É possível que o então Secretário da Agricultura estivesse, neste período, em Lavras em ocasião da inauguração do Posto Zootécnico. Mais uma vez a escola é elogiada pela competência de seus promotores, sobretudo por atender a demanda exigida para o ensino agronômico: vincular teoria e prática. Daí a ênfase que o Dr. Carlos Prates fez quanto às

propriedades agrícolas e os laboratórios existentes naquele período. Além do mais, sua exaltação não se baseou nos grandes monumentos e construções, mas, pelo resultado da qualidade do ensino e da utilidade deste para a aplicação da ciência e das técnicas modernas para a agricultura. Este mesmo pensamento é ressaltado por Rodrigues Pupato em 1913, outro visitante:

Esta Escola que visitei com o maior interesse satisfez-me em todos os sentidos. Escola como esta, se fossem disseminadas por todo o pais, aliviarião o Governo de grandes [...] a que esta sendo obrigado, como ainda muito concorrerias para disseminar o ensino agricola pratico e theorico muito concorrendo para que a rotina cedesse o passe á sciência como convem. Nesta escola tudo é simples e modesto, sem o grande aparato que tem as installações officiais, em geral, que [...] mobilizam grandes capitais, sem resultado correspondente e, de outro, levam desanimo aos visitantes e principalmente aos fasendeiros que acreditão que sem grandes dispendios e sumptuosas construcções esses estabelecimento não podem ser mantidos disseminando, por isso, de qualquer empreendimentos nesse sentido (Rodrigues Pupato, Lavras, 22 de novembro de 1913). (ESCOLA AGRÍCOLA DE LAVRAS. Livro de Visitas da Escola Agrícola de Lavras, 1909-1924).

O visitante apontou as singularidades daquele período, para o governo era melhor absorver os técnicos formados nestes estabelecimentos de ensino particular, sem muito custo para o governo, mas subvencionado por este, em vez de investir em escolas mantidas pelo próprio governo. O ensino médio desenvolvido na Escola Agrícola de Lavras, e depois na Dom Bosco, foi exemplo desta demanda, a qual colocava o Estado de Minas Gerais com a responsabilidade sobre o ensino primário, estando o nível médio e superior sob a direção de particulares.

O Estado estava presente nestas instituições com a contribuição de subvenções: outorgava o valor anual da subvenção de 10:000$000, em troca de vinte vagas cedidas. Por sua vez, estas escolas se constituíram nas principais formadoras de técnicos absorvidos pelo Estado para atuarem nos estabelecimentos de ensino agrícola e nas diversas diretorias da Secretaria de Agricultura (FARIA, 1992). Em razão dos resultados obtidos por estas instituições, em 1913, o Secretário de Agricultura José Gonçalves de Souza assegurava:

[...] a exemplo do que se dá na Inglaterra, nenhum meio se figura mais profícuo para o desenvolvimento do ensino profissional do que o de subvencionar a iniciativa particular quando bem orientada. Este sistema além de suavisar o ônus dos cofres públicos com a manutenção de muitos e custosos estabelecimentos, concorre para que eles se multipliquem com relativa facilidade nas diferentes zonas do estado satisfazendo plenamente os fins a que a administração pública tem em vista (SOUZA, 1913, p. 14).

Para os anos 1920, este modelo apontado pelo Secretário da Agricultura já não era o padrão, pois a indicação voltava-se para o encargo do Estado em organizar e manter os estabelecimentos de ensino agrícola voltados para os níveis médio e superior. A Escola Superior Agrícola e Veterinária de Viçosa era exemplo desta mudança da política educacional de Minas Gerais.

Do ponto de vista financeiro, a Escola Agrícola de Lavras contava com o apoio do Instituto Gammon (Missão dos Estados Unidos), com auxílios dos governos Federal, Estadual e Municipal. Em 5 de fevereiro de 1915, a Câmara Municipal de Lavras aprovava o Projeto de Lei número 576, que isentava de impostos o Ginásio de Lavras e a Escola Agrícola, sendo aprovado, sancionado e promulgado em 9 de fevereiro do corrente. Com esses recursos foi possível instalar e manter na escola o conjunto de prédios destinados a aulas teóricas, práticas e laboratoriais, alojamentos para estudantes e para professores, fabricação de laticínios. No entanto, muitas foram as dificuldades para manter a escola dentro dos padrões exigidos por seus promotores, como para atender as regulamentações do Governo.

No decorrer das descrições apontadas pelos missionários, entendemos que a Escola Agrícola foi tardia na construção de seus próprios prédios devido às condições financeiras enfrentadas pelo Instituto desde a construção do Ginásio de Lavras, e até mesmo pela falta de apoio necessário da Missão dos Estados Unidos, que ficava dividida quanto ao papel da educação no projeto missionário para o Brasil. Seus projetos financeiros tornaram-se mais amplos, exigindo gastos altos quando foi executada a compra da chácara onde funcionava o Ginásio. Logo em seguida iniciaram-se as construções do prédio próprio para as salas de aulas e seu equipamento, para equipará-lo de acordo com a estrutura das escolas oficiais.

O financiamento destas reformas foi realizado por meio de contribuições, resultado das campanhas missionárias em ocasião das viagens de Dr. Gammon aos Estados Unidos. Assim dizia a sua esposa Clara Gammon: “Comovia os corações dos missionários o recebimento de grandes ou pequenas quantias, vindas de colégios de crianças, de senhoras piedosas, de sociedades das igrejas, [...] quantias que representavam naquela época um espírito altamente desprendido” (GAMMON, 2003, p. 99).

A compra da fazenda da Escola Agrícola contribuiu com o aumento das despesas do Instituto Evangélico que passou por um longo período de crise financeira estendida até 1917, quando o Dr. Gammon conseguiu pagar todas as dívidas. Neste período, a dívida “já havia atingido a importância de uns sessenta contos” (GAMMON, 2003, p. 134-136). É a sua esposa quem relata as aflições sofridas neste período de equiparação da Escola Agrícola e endividamento do Instituto Evangélico:

A junta enviava algum recurso, demonstrando boa vontade, porém se sentindo impedida de fazer mais. Durante meses a fio Dr. Gammon padeceu da maior ansiedade, sentindo-se esgotado e perdendo o sono. A certa altura dos acontecimentos chegou a empenhar seu seguro de vida como garantia dos débitos, a fim de que, em caso de sua morte, a situação pudesse ser remediada (GAMMON, 2003, p. 134).

Registram-se muitas viagens do Rev. Gammon e Benjamin Hunnicutt durante o período que antecedeu a inauguração do Ginásio e o período posterior a inauguração da Escola Agrícola, com o fim de arrecadar fundos por meio de ofertas de pessoas e igrejas dos Estados Unidos para o trabalho educativo em Lavras, um período de programa intenso de viagens para atender estes objetivos, utilizando os sermões, discursos missionários e palestras. Percebe-se que neste primeiro momento (1908-1917), as ampliações foram realizadas aos poucos com o intuito de amadurecer a Escola Agrícola e conceder-lhe instalações próprias. A Fazenda Ceres foi a primeira e grande conquista neste empreendimento. Nas décadas seguintes, desde a inauguração do departamento de agronomia no Instituto Evangélico até 1922, em ocasião da inauguração do prédio da Escola Agrícola na Fazenda Ceres, é impossível separar a história da Escola Agrícola e as suas instalações, dos prédios e da própria chácara do Ginásio, pois este espaço tentava compactar estas duas escolas na medida em que os missionários conquistavam novas verbas para sustentar a ampliação e os equipamentos da EAL.

Embora parte das aulas da Escola Agrícola estivesse localizada no Ginásio, outra parte das suas atividades práticas, estava localizada na Fazenda Ceres, ao lado da Chácara, na época não tão próxima ao centro, mas ao lado da ferrovia, que naquele momento era o marco do progresso e a recomendação necessária para as proximidades de qualquer escola agrícola, devido ao acesso ao transporte e a locomoção.

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