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Uma dos pontos principais do cooperativismo é a participação dos sócios nas tomadas das decisões. Esse fato tem qualificado as cooperativas como uma sociedade democrática, na qual cada sócio tem direito a um voto. Desse modo, as decisões comerciais, administrativas e outras são votadas em assembléia geral conforme consta em seus estatutos.

Na CART não é diferente. Também são realizadas reuniões para tratarem diversos assuntos postos em pauta. Uma das pautas que, de dois em dois, ou de quatro em quatro anos, é discutida, refere-se à eleição de uma nova diretoria ou conselho fiscal. “Qualquer sócio da cooperativa, desde que ele participe, pode ser um diretor da cooperativa. Só os sócios podem se envolver na cooperativa53”. As

assembléias costumam ter três chamadas: a primeira deverá ter pelo menos 2/3 dos associados; a segunda a metade e mais 1; e terceira chamada no mínimo 10 associados54. A maioria dos membros da CART reside em regiões afastadas da

52 [...] A autogestão tem como mérito principal não a eficiência econômica (necessária em si), mas o desenvolvimento humano que proporciona aos participantes. Participar das discussões e decisões do coletivo, ao qual se está associado, educa e conscientiza, tornando a pessoa mais realizada, autoconfiante e segura. É para isso que vale a pena se emprenhar na economia solidária. Acontece que, até agora, grande parte dos cooperadores se insere na economia solidária enquanto modo de produção intersticial, ou seja, para se reinserir à produção social e escapar da pobreza. Muitos não chegam a apreciar as potencialidades da autogestão, aceitando-a, no máximo, como exigência coletiva para poder participar da cooperativa (SINGER, 2002, p. 21).

53 Antônio Marques Portilho Dias (2011). 54 Lei 5.764/71, Art. 40, incisos: I, II, III.

cidade de Cametá, então as formas utilizadas para convocar os associados para as reuniões abrangem os meios de comunicação como rádio, telefone, bem como através de mensageiros que habitam nas localidades.

Segundo Singer (2002):

O maior inimigo da autogestão é o desinteresse dos sócios, sua recusa ao esforço adicional que a prática democrática exige. Em geral não é a direção da cooperativa que sonega informações aos sócios, são estes que preferem dá um voto de confiança à direção para que ela decida em lugar deles. E a direção tende, às vezes, a aceitar o pedido, sobretudo quando se trata de decisões que podem suscitar conflitos entre os sócios. É, em geral, mais fácil conciliar interesses e negociar saídas consensuais num pequeno comitê de diretores do que numa reunião mais ampla de delegados, que têm que prestar contas aos colegas que representam (p. 19-20)

A participação democrática é fundamental no cooperativismo para desenvolver a capacidade de análise de problemas cotidianos internos e externos a cooperativa. A democracia introduz um saber diferenciado nas ações da coletividade, pois se retorna o poder de decisão para a individualidade que se orienta conforme os interesses comuns da maioria. A democracia é um conceito que exige prática e se contrapõe à rigidez das ditaduras que elegem um soberano, o qual possui em seus domínios, o poder de decisão e de realização de seus interesses. Cooperativa, enquanto espaço contraditório, tem na democracia a fórmula para produzir a ascensão da consciência comum e corrente para uma atividade consciente objetiva. Por isso que, enquanto atividade política, a participação deve ser de todos e não somente de uma pequena parte que administra a cooperativa.

No fim do ano de 2011 alguns cooperados estavam em reunião para decidirem a respeito da atualização do estatuto. “O estatuto da CART está desde o começo da CART, foi elaborado em 1995”.55 O diretor comercial da CART comenta

que a cooperativa recebe assessoria de ONGs no sentido da atualização do seu estatuto.

[...] Como é desde 1995, o estatuto da CART tem algumas coisas que não estão adequadas com a nova lei civil do cooperativismo. Foi feito, em algum tempo atrás, algumas coisas pra mudar o estatuto, algumas modificações, só que não foi feito em cartório, não foi feito a modificação. Quando for

agora dia 3 (de dezembro de 2011) nos vamos estar sentando com uma assessora da UCODEP; que é uma ONG da Itália que assessora a gente também. Esta pessoa vai está ajudando a gente a reformular o estatuto da CART e atualizar o estatuto da CART, porque em algumas partes já está “caducando” (ANTÔNIO DIAS, 2011).

Percebe-se que muitos problemas da cooperativa são resolvidos, ou parcialmente resolvidos, com o intermédio de ONGs, federações ou confederações, as quais prestam assessoria em diversas áreas do cooperativismo, buscando assim promover o desenvolvimento dessas organizações. E como se demonstrou as instituições do terceiro setor, como é o caso das ONGs, não defendem interesses econômicos, políticos e ideológicos da classe trabalhadora, disseminando críticas à superestrutura política e ideológica e à estrutura econômica, mas auxilia essa classe a se adaptar à atual formação social capitalista, sem a necessidade de revolucionar as origens determinantes.

Gohn (2001) defende que:

O terceiro setor tem sido considerado como uma das fontes de criatividade e de aprendizagem em espaços públicos coletivos em questões do tipo: raça, gênero, etnia, direitos humanos, defesa do meio ambiente, fase da idade da vida (crianças, jovens e idosos); e métodos alternativos de geração de renda em comunidades organizadas para suprirem necessidades socioeconômicas e culturais básicas, em programas de desenvolvimento sustentável (p. 94)

O terceiro setor, nesse sentido, funciona como um elemento de fortalecimento utilitário dos espaços públicos coletivos que sofrem algum tipo de opressão da política econômica de um Estado capitalista. Assim, busca amenizar as lutas políticas, econômicas, ideológicas de classe funcionando como um instrumento concreto de coesão social. É desse modo que “o Estado impede que se aniquilem as classes e a “sociedade”, o que não é senão uma forma de dizer que impede a destruição de uma formação social” (POULANTZAS, 1986, p. 48).