Como já se viu uma das características da atividade humana é pensar antes de realizar, ou seja, o trabalho humano não se dá fora das condições intelectuais: a ação sobre o meio é testada antes mesmo da ação real. Por isso que o conhecimento das nossas intenções é importante, uma vez que ela poderá determinar as nossas ações, nossos atos, nossos costumes, nossas formas de relações presentes e futuras. Mas, acredita-se que as intenções não são manifestações subjetivas e idealistas, elas constituem a partir da relação com a objetividade e também é por ela influenciada.
Para se perceber como isso ocorre na prática da cooperativa, é necessário que se conheça as expectativas futuras, os objetivos, as metas a serem alcançadas. O conteúdo das intenções futuras tem conectividade com a realidade objetiva; não está separado pelo tempo passado, presente, futuro, mas construído historicamente no conjunto das relações sociais. As intenções dos trabalhadores no interior da CART determinam sua ação presente e apontam necessidades futuras. Cabe aqui se analisar se estão associadas a uma práxis utilitária ou revolucionária.
A projeção futura intencional da atividade da cooperativa pode ser analisada a partir de sua atuação histórica, pois essa se materializa quase sempre precedida da elaboração de um planejamento anual, o qual determina a prática da organização coletiva.
Todo o começo de ano, a gente faz um planejamento, não chega ser bem estratégico; nós temos um plano de ação trabalhado em reunião, com metas bem curtas. Geralmente, a gente fazia um planejamento bastante extenso, acabava que a gente não conseguia atingir todas as metas, entendeu? (ANTÔNIO DIAS, 2011)
É importante conhecer qual o sentido que conduz esse planejamento, a que interesses se refere, para assim se identificar o perfil da práxis dos trabalhadores.
Vázquez (2007) afirma que:
Esse modo de articulação e determinação dos diferentes atos do processo ativo distingue radicalmente a atividade especificamente humana de qualquer outra que se encontre em um nível meramente natural. Essa atividade implica a intervenção da consciência, graças à qual o resultado existe duas vezes – e em tempos distintos: como resultado ideal e como produto real. O resultado real, que se quer obter, existe primeiro idealmente,
como mero produto da consciência, e os diferentes atos do processo se articulam ou estruturam de acordo com o resultado que se dá primeiro no tempo, isto é, o resultado ideal. Em virtude dessa antecipação do resultado real que se deseja obter, a atividade propriamente humana tem um caráter consciente. Sua característica é que, por mais que o resultado real diste do ideal, trata-se, em todo caso, de adequar intencionalmente o primeiro ao segundo. Isso não significa que o resultado obtido tenha de ser necessariamente uma mera duplicação real de um modelo ideal preexistente. Não; a adequação não tem por que ser perfeita. Pode assemelhar-se pouco, e ou mesmo nada, ao fim original, já que este sofre mudança, às vezes radicais, no processo de sua realização. Desse modo, para que se possa falar de atividade humana é preciso que se formule nela um resultado do ideal, ou fim a cumprir, como ponto de partida, e uma intenção de adequação, independentemente de como se plasme, definitivamente, o modelo ideal originário (p. 221).
Embora o planejamento ocorra, isso não quer dizer que o que foi planejado será alcançado na prática como uma cópia fiel ao momento ideal. Os interesses almejados idealmente concorrem com os múltiplos interesses ou fatos da realidade objetiva. Por exemplo, se uma cooperativa pretende vender 20 toneladas de frutas durante o ano a um preço “x”, esta meta pode ser alcançada ou não, pois a compra não depende das forças internas da cooperativa, mas sim da procura do produto pelo mercado, bem como as condições ambientais que podem alterar a produtividade e o preço do produto; além da concorrência com outras cooperativas.
Durante a execução da pesquisa, constatou-se que a natureza do planejamento das atividades da CART teve por finalidade a elaboração de metas para “comercialização; volume; formação; quantas oficinas de segurança no trabalho a gente ia fazer para os agricultores59”. Algumas dessas oficinas, como já se sabe, foram com as parceiras comerciais ou de assessoria. Em 2011, a cooperativa traçou algumas metas relacionadas à comercialização como destaca seu Nazareno Damasceno (2011):
Na verdade a nossa meta em 2011 foi a nossa comercialização com as sementes oleaginosas. Então nós tínhamos uma meta de chegar a vinte toneladas de sementes; nós chegamos bem próximo da meta; nós não conseguimos atingir o que nós queríamos, mas nós chegamos a 18 toneladas de sementes. Então quase nós conseguimos alcançar a meta nossa.
59 Antônio Marques Portilho Dias (2011).
É possível notar que os objetivos da cooperativa em questão são dois: a formação dos associados no sentido do desenvolvimento da produtividade e a comercialização para a obtenção de lucro:
[...] tanto que na cooperativa o importante não é só comercializar, e sim incentivar o produtor pra que ele possa ter um lucro a mais, uma margem de lucro melhor. Porque se nós fossemos agir como o atravessador que só quer saber do produto; não quer saber se tu estas passando bem, como está tua produção, se tu vai ter produção ou não. Fica meio difícil para a cooperativa porque não é esse o papel da cooperativa. O papel da cooperativa já diz cooperar, então nós temos que fazer essa cooperação com todos. Formação? Nós temos trabalhado a questão de incentivar o próprio agricultor a mudar daquele ritmo que está vindo; querer trabalhar só com o açaí, não. Vamos trabalhar com outras culturas também pra poder ter quem incentive (NAZARENO DAMASCENO, 2011).
Nota-se que a monocultura é um dos problemas que a cooperativa tenta resolver e para isso formula metas referente à formação técnica do agricultor. Daí a importância de se ensinar o plantio consorciado60, uma vez que isto gera maior mobilidade comercial a este agricultor.
Segundo Silva (1992):
O que se observa, com efeito, é uma permanente tensão entre uma tendência coletivizante – a cooperativa faz uma interpelação para o esforço coletivo na obtenção de bens e serviços que sejam de interesse comum – e a pressão exercida no sentido de adstringir as cooperativas aos contornos da chamada economia de mercado, que se caracteriza pela perspectiva do lucro, pelo individualismo, pela competitividade e pela acumulação e expansão do capital (p. 62)
Dessa forma é possível perceber que as metas da cooperativa estudada acompanham as exigências da (s) parceira (s) comercial (ais) haja vista que em seu planejamento estão contidos itens como a quantidade do produto a ser fornecida anualmente; a exigência da qualificação do trabalhador para que este possa introduzir técnicas de plantio consorciado; e produção de matéria-prima com melhor qualidade. É dessa forma que o quadro de dominação econômica e social se expande, consubstanciando-se na realização dos interesses comerciais externos no conteúdo dos interesses internos da cooperativa, produzindo com isso uma prática de interesse de segunda ordem para os associados. Isso se caracteriza como uma
60 O plantio consorciado se caracteriza por ser um sistema que congrega numa área de plantio mais de um cultivar.
forma de subsunção formal que se desenvolve no interior da cooperativa e não se mostra plenamente para o trabalhador, pois ao se falar de planejamento ele (o associado) pode ser levado a pensar na atividade que organiza e traz beneficio somente para a sua instituição, porém não percebem, na imediaticidade, que algumas metas fazem parte das exigências do mercado, às quais as instituições subcontratadas precisam se ajustar. É neste sentido que a atividade cognoscitiva e teleológica dos trabalhadores pode estar relacionada à práxis utilitária, ou seja, são os fins aos quais esta se propõe que determinam a ação prática dos trabalhadores. Mas vale reiterar que a práxis utilitária produz os meios materiais para a ascensão do homem comum e corrente para o homem da práxis revolucionária. E isso se dá a partir da materialidade, ou melhor, da realidade objetiva gerada pela práxis utilitária, a qual não se expressa somente pelas dimensões concretas (aparência), mas também pelas dimensões abstratas (essência) contidas no objeto ou fenômeno social. É dessa forma que as funções psicológicas superiores (VYGOTSKY, 1998a; 1998b) tem na dialética homem e natureza, homem e sociedade, o mecanismo de negação e superação das contradições da totalidade concreta dos fenômenos sociais. Ou seja, homem cria a realidade social e esta por sua vez, o humaniza dialeticamente, produzindo sua elevação psicológica, cultural, social, econômica, política, ideológica etc. É nesse sentido que a educação seja ela formal, não-formal ou informal, independentemente dos interesses que a submete, potencializa as funções psicológicas superiores: atividade cognoscitiva e teleológica proporcionando qualitativamente a emergência do sujeito da práxis revolucionária.