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O pitagórico Alcmeão pertencia ao círculo médico italiano e, segundo o testemunho de Écio, enunciou uma teoria sobre a saúde e a doença:

Alcmeão afirma que o mantenedor da saúde é a “igualdade de direitos” dos poderes, do úmido e do seco, do frio e do quente, do amargo e do doce, e dos restantes, ao passo que a “monarquia” de um deles é a causa da doença; é que a monarquia de qualquer deles é destrutiva. A enfermidade sobrevém diretamente por excesso de calor ou de frio, indiretamente por excesso ou carência de nutrição; e o seu centro é o sangue ou a medula ou o cérebro. Ela surge por vezes nesses centros a partir de causas externas, de certas umidades ou do ambiente ou da fadiga ou do constrangimento ou de causas similares. A saúde, por outro lado, é a mistura proporcionada das qualidades116. A concepção se baseia na configuração de forças em termos políticos e estabelece uma noção de causalidade: a saúde é mantida por uma isonomia de poder entre as qualidades opostas que estão presentes no corpo e o fator doentio está na supremacia de uma sobre as outras. Ao acrescentarmos a essa primeira definição os problemas da alimentação e do ambiente natural como possíveis causas de enfermidades, somos

remetidos diretamente à influência dessas ideias no pensamento hipocrático, notadamente nos tratados Da medicina antiga analisado neste estudo. Além de considerar o cérebro como o centro para onde convergem todos os desequilíbrios internos, além da medula e do sangue, Alcmeão foi o primeiro a reconhecê-lo como sede do pensamento, função anteriormente atribuída ao coração ou ao fígado. No tratado Da doença sagrada, considera-se a contribuição de Alcmeão quando o autor reafirma de forma contundente a posição do cérebro no corpo, como veremos adiante. Dada a ruptura com crenças antigas, suas teorias não foram aceitas imediatamente, sendo retomadas por Hipócrates, que possui o mérito de tê-las desenvolvido117. Sabe-se também que desenvolveu a prática de dissecção de animais, com descrições das principais vísceras, do sistema de vasos e de alguns órgãos dos sentidos, como a anatomia interna do ouvido, dos olhos e suas inervações, assim como os canais do olfato118. Segundo Aristóteles119, Alcmeão afirmava que a multiplicidade das coisas humanas pode ser reduzida a pares de contrários, embora não os tenha definido com precisão como fizeram os pitagóricos. Como vimos no fragmento, essa teoria foi aplicada por ele à fisiologia humana e está na base de sua noção de saúde, na medida em que a reação do corpo às forças de composição desses opostos elementares, como o quente e o frio, o seco e o úmido, o amargo e o doce, o cru e o cozido e outros, é a determinante da saúde.

3.2. Empédocles de Agrigento

O segundo testemunho se refere a uma doutrina central do filósofo siciliano Empédocles, citado nominalmente pelo autor do tratado Da medicina antiga em sua crítica aos discursos da filosofia sobre assuntos médicos. A despeito de sua suposta reputação de médico, causada por seus lendários poderes curativos, ele teria desenvolvido enorme interesse de estudos sobre os grandes temas biológicos e funções fisiológicas, como digestão, respiração, embriologia e sistemas de percepção.

Para algumas demarcações de seu pensamento, devemos assinalar que ele foi o primeiro a afirmar que a natureza se compõe e se transforma por meio da mistura e da separação contínua de quatro elementos materiais originários, irredutíveis entre si e imutáveis, que ele denominou de “quatro raízes”. Empédocles estabeleceu uma ruptura

117 Cf. DACHEZ, R., 2012, p. 80. 118 DK 24 A 10, A 13-17 e B 4.

com a perspectiva jônica anterior, que admitia somente um elemento primordial, a partir do qual todas as coisas seriam derivadas por meio de diferenciações, uma vez que possui em si um princípio de movimento. As quatro raízes, - terra, água, fogo e ar -, estão submetidas ao poder de duas forças cósmicas opostas, agregadoras ou desagregadoras, que ele denominou Philia, traduzida como Amizade ou Amor, e

Néikos, que seria a Discórdia ou o Ódio. Assim, os seres nascem quando se ocorre a reunião dos elementos gerada pela supremacia da Amizade, e morrem quando as raízes se separam ao vencer a Discórdia. Cada um é o resultado de uma mistura única e heterogênea, sempre uma unidade composta por quatro elementos primordiais e eternos. A vida que observamos transcorrer continuamente somente pode ocorrer em um estado intermediário de equilíbrio entre as forças, e assim os seres nascem, crescem, envelhecem e morrem de forma permanente. São os deslocamentos das raízes, imutáveis sob a ação das forças, que geram as mudanças. O homem pode observá-las na superfície do que aparece, mas, na verdade, nada morre nem nasce definitivamente, pois na grande ordenação das coisas da natureza, cada força predomina até o seu esgotamento, ao mesmo tempo em que cresce o poder oposto. A posição de Empédocles procura conciliar concepções contraditórias a respeito da mudança e da imutabilidade da natureza, e soluciona a questão admitindo mais elementos imutáveis submetidos às forças de atração e repulsão120.

Conforme o testemunho de Simplício, Empédocles enuncia a sua doutrina em estilo poético:

Uma dupla história te vou contar: uma vez, elas (as raízes) cresceram para serem uma só a partir de muitas, de outra vez separaram-se de uma que eram, para serem muitas. Dupla é a formação das coisas mortais e dupla a sua destruição; pois uma é gerada e destruída pela junção de todas as coisas, a outra é criada e desaparece, quando uma vez mais as coisas se separam. E essas coisas nunca param de mudar continuamente, ora convergindo num todo graças ao Amor, ora separando-se de novo pela ação do ódio da Discórdia. Assim, tal como elas aprenderam a tornar-se uma só a partir de muitas, e de novo, quando uma se separa, geram muitas, assim elas nascem e sua vida não é estável; mas na medida em que jamais cessam o seu contínuo intercâmbio, assim existem sempre imutáveis no ciclo. [...]. Todas essas coisas são iguais e da mesma idade, mas cada uma tem uma diferente prerrogativa e cada uma o seu próprio caráter, e umas vezes uma, umas vezes outra, predomina no tempo. E sem elas nada mais nasce e nem cessa de existir. Como é que poderia, de fato, ser isso totalmente destruído, se nada está vazio delas? Porquanto só se elas

120 Para estudo ampliado, ver KIRK; RAVEN; SCHOFIELD, 2005, p. 301 e THERME, A. L.,

estivessem continuamente a perecer, não mais existiriam. E o que poderia aumentar esse todo? De onde poderia ter vindo? Não só essas é que existem, mas passando umas através das outras, tornam-se ora estas ora aquelas coisas sempre eternamente iguais121.

Dois elementos de sua cosmologia poderiam ser identificados na teoria fisiológica dos quatro humores, conforme exposta no tratado Da natureza do homem: o pressuposto da eternidade das raízes imutáveis e irredutíveis entre si e a contínua composição e decomposição de diferentes combinações das raízes em cada unidade que nasce e morre.

Na leitura do texto veremos que, ao apresentar a constituição do homem a partir dos quatro humores, o autor os define de forma muito semelhante ao descrever suas propriedades e prerrogativas e também quando afirma a eternidade das composições e dissoluções das misturas. A teoria humoral parte da admissão da posição pluralista sobre a natureza humana, em oposição ao princípio único, e se tornou a principal fonte de explicações sobre as causas da saúde e da doença.

Com a atenção crescente dos pensadores a respeito dos fenômenos biológicos, anteriormente voltada de maneira mais intensa à cosmologia, observa-se que na metade do séc. V a.C., já mais próximo do tempo de Sócrates, um contemporâneo de Hipócrates, ocorre uma mudança significativa de atitude dos filósofos em direção a uma perspectiva mais humanística. É a partir dessa análise que Kirk assinala:

Não há dúvida de que, a partir de Alcmeão e Empédocles, se usou a estrutura, mais facilmente determinável do corpo humano, como chave para a estrutura de todo o mundo. A assunção de um paralelismo entre os dois parece ter sido sustentada de algum modo por Anaxímenes, provavelmente como desenvolvimento da tendência em tratar o mundo exterior como uma pessoa, de o dotar de alma e o considerar como um organismo vivo122.