3 The Committee’s assessment
3.3 Societal relevance
A medicina é uma antiga aquisição humana e foi a necessidade que pressionou a busca por conhecimentos que forjaram a arte médica. Na tese do autor, a primeira forma de alimentação humana, baseada em alimentos crus como a dos animais, foi a responsável pela provação de muitos sofrimentos, dores e até mesmo a morte, impondo a busca de um regime mais adaptado ao homem.
Ayache210 comenta que a origem do homem e a origem da medicina são idênticas em Da medicina antiga. O homem não “é um composto natural de elementos naturais, mas ele mesmo é obra da arte”. A tese que o tratado defende é a inviabilidade da existência humana em um estado puro de natureza. Há limites no corpo humano para se adequar às qualidades dos alimentos disponíveis em uma natureza diversa, com a qual não possui continuidade direta e da qual depende. Nesse sentido, a ideia de saúde do homem implica considerá-lo não como uma simples soma equilibrada de seus elementos intrínsecos, mas como o polo de uma relação sempre mediada com a natureza, apenas na medida do assimilável na unidade de seu organismo. Essa condição leva, necessariamente, a um tipo de conhecimento fundamental que caracteriza uma das marcas do processo de cultura humana.
A arte culinária é a primeira forma da arte médica. É possível compreender porque o método arqueológico seguido pelo autor hipocrático se opõe às cosmogonias filosóficas: o autor parte de uma relação primeira impossível do homem com o mundo (a condição natural) e regressa analiticamente dessa impossibilidade às condições que permitiram a realidade humana. [...]. Ao contrário, os filósofos partem de elementos positivos e abstratos (água, terra, fogo, ar) que compõem formalmente para construir a espécie humana. O médico concebe o ser como relacional. E não abstrai jamais os elementos do todo que os condiciona. Sua questão arqueológica é: que tipo de relação possibilita a existência dos homens no cosmos? E não: que adição de elementos compõem o homem.211
210AYACHE, L., 1992, p. 58. 211Ibid., p. 59.
A concepção de homem em Da medicina antiga não é uma definição geral abstrata. O homem é definido por sua natureza relacional, inserido por meio dos vínculos que acontecem entre os elementos constitutivos de seu corpo com aqueles que constituem a natureza. Foi assim, diz o autor, que entre erros e acertos, os homens souberam encontrar seus recursos discernindo a respeito das qualidades dos alimentos e dos procedimentos de preparo para atenuar aquilo que fosse forte para a ingestão, como por exemplo, o cozimento, a moagem, a diluição, o ato de molhar o trigo para a confecção de pães etc. O resultado foi a prevalência de uma alimentação bem tolerada pelos indivíduos que se provou causa de sobrevivência, crescimento e saúde. Basta lançar um olhar de contraste entre o primeiro e o segundo tipo de regimes descritos para identificar claramente a medicina em seus primórdios. Assim, bem afastada de uma pesquisa puramente especulativa, a definição de medicina decorre naturalmente dessa perspectiva empírica:
Ora, a esta descoberta e a essa investigação, que nome mais justo ou mais adequado poderíamos dar do que o de medicina, já que se trata de uma descoberta feita para a saúde, a salvação e a alimentação do homem, em substituição daquele regime que estava na origem dos sofrimentos, das doenças e da morte? (§3)
A presença de um tipo específico de raciocínio voltado à doença e à saúde foi se refinando na discriminação de grupos alimentares, desde os totalmente nocivos para o homem, aqueles que são benéficos em condições saudáveis e os mais indicados para os debilitados. O conhecimento foi se constituindo por meio de conclusões gerais sobre casos particulares. A conquista em assuntos tão valiosos quanto esse deve causar admiração e, para o autor, esses fatos demonstram nitidamente a autonomia da arte e sua possibilidade de ser descoberta por inteiro seguindo essa mesma via.
Que diferença aparece então entre o raciocínio do homem chamado médico e reconhecido como especialista da arte, que descobriu o regime e a alimentação dos doentes e o raciocínio do homem que, na origem, encontrou e preparou para todos os homens a alimentação que nós usamos hoje, no lugar do regime selvagem e animalesco de outrora? A meu ver, o que parece é a identidade do método, é a unidade e similitude da descoberta. Um procurou retirar todos os alimentos ingeridos dos quais a natureza humana em um estado de saúde não era capaz de assimilar devido às suas propriedades bestiais e sem moderação, e o outro todos os alimentos que o doente, na disposição em que se encontrava a cada vez, não poderia assimilar. Em que então esta investigação difere daquela, senão que esta tem
mais faces, ela é mais diversificada e que ela exige maior habilidade operatória? Mas, o ponto de partida foi aquela investigação, que foi a primeira. (§7)
Daquele ponto originário, as coisas e as tarefas teriam sido fáceis, se bastasse apenas considerar inadequados os alimentos fortes e adotar somente os favoráveis ao restabelecimento e manutenção da saúde. No entanto, foi necessário maior conhecimento sobre as causas visando maior acuidade nos tratamentos de doenças já instaladas, uma vez que a primeira orientação geral também se mostrou capaz de erros e danos. Não se trata mais da nomeação de uma arte; os especialistas foram desafiados no sentido de saber operar um número maior de observações mais refinadas para estabelecer corretamente as relações entre as afecções e as intervenções específicas em cada caso.
Por uma ampliação da margem de segurança do conhecimento, as observações oriundas tanto dos tipos de alimentos quanto da dinâmica das doenças evidenciaram a importância do estabelecimento de parâmetros de medida, tanto quantitativas, que visam regular os extremos causados pela fome e pela saciedade, como qualitativas, que devem indicar as potências de ação de cada elemento no conjunto.
Eis porque as tarefas do médico são muito mais diversificadas e requerem uma exatidão bem maior. É necessário, com efeito, visar uma medida; ora, não há medida – nem sequer um número ou um peso – à qual pudéssemos nos referir para conhecer o que é exato, a não ser a sensação do corpo. Também é um trabalho que deve adquirir um saber muito exato para não cometer senão pequenos erros daqui ou de lá. O médico, ao qual eu dirigiria vivos elogios, é aquele que não cometeria mais do que pequenos erros, pois a precisão perfeita é um espetáculo raro. É que a maioria dos médicos me parece sofrer a mesma sorte dos maus pilotos de navios. De fato, essas pessoas quando cometem um erro pilotando em tempos calmos, o fazem sem que percebam, mas quando são tomados por um forte temporal e um vento que os faz derivar, a partir daí é bem claro aos olhos de todos, que por sua ignorância e seus erros, eles perderam o navio. (§9)
As medidas exatas não são possíveis em medicina, pois não há modelo natural
matemático da composição dos homens212. Deve-se procurar sempre a proximidade com a precisão necessária em cada constituição individual, não esquecendo que a perfeição é
um espetáculo raro. Nesse sentido, amplia-se a responsabilidade médica e o elogio deve ser dirigido àqueles que cometem somente pequenos erros mesmo em grandes
dificuldades. A medida está na sensação do corpo, tal como o doente o percebe ao sinalizar suas oscilações. A participação dos doentes já tinha sido evocada pelo autor ao definir a medicina e seus objetivos.
4.3. Causas naturais: a mistura de qualidades nos alimentos e no homem.