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Além do enunciado presente nas telenovelas que toma o indígena como uma ameaça, há em nossas redes de memórias outro enunciado, recorrente desde a literatura indianista de José de Alencar: o discurso do indígena como o “bom selvagem”.

Em 2005, a Rede Globo exibiu, no horário das 18 horas, a telenovela “Alma Gêmea”. Embora focasse a temática do espiritismo, esta telenovela trouxe como protagonista a personagem indígena Serena (Priscila Fantin), que na trama era a reencarnação de Luna (Lílian Castro), a ex- esposa de Rafael (Eduardo Moscovis).

Esta telenovela não estava relacionada a nenhum momento histórico em que os discursos sobre as sociedades indígenas circulavam com destaque na sociedade brasileira, porém o aparecimento desta personagem indígena está atrelado a uma rede de memória que permitiu que, no contexto desta telenovela, uma personagem indígena fosse a protagonista da trama.

Desde a literatura indianista de José de Alencar, há diferentes discursos sobre as identidades indígenas que encerram no índio valores como bondade, lealdade e ingenuidade. É o mito do “bom selvagem”, presente nas obras deste romancista, como “Iracema” (1865), “O Guarani” (1857) e “Ubirajara” (1874). Entendemos que as imagens da personagem indígena Serena, da telenovela “Alma Gêmea”, estão em intericonicidade com as imagens dos personagens indígenas dos romances de José de Alencar.

Ao contar sobre a reencarnação de uma jovem ocidental de alma pura e bondosa, o autor de “Alma Gêmea”, Walcyr Carrasco, criou uma personagem indígena, já que em nossas redes de memórias também circulam discursos sobre os indígenas como pessoas que detém essas características.

99 Nas formações discursivas sobre as identidades dos personagens indígenas há regularidades e, também, dispersões entre os enunciados. Uma das dispersões que identificamos é que, diferente da sexualidade exacerbada, característica da maioria das personagens mulheres indígenas exibidas na teledramaturgia brasileira, Serena, de “Alma Gêmea”, é construída como uma jovem extremamente pura e romântica, que foge de todas as investidas amorosas dos homens, pois está esperando o seu grande amor.

Em “Alma Gêmea”, as mulheres indígenas não aparecem seminuas, diferente dos personagens Aritana, Tatuapu, Moema e Estela. Todas as mulheres indígenas desta telenovela estão usando vestidos longos, até o pé. Podemos observar essa dispersão entre os personagens indígenas nas fotos abaixo:

Figura 58: Aritana sem roupa (Fonte:astrosemrevista.blogspot.com.br/2012/02/carlos-alberto-riccelli- nas-novelas-e.html)

Figura 59: Tatuapu sem roupa (Fonte:memoriaglobo.globo.com/programas/entretenimento/novelas/uga- uga.htm)

Figura 60: Estela caminha seminua nas ruas

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Figura 61: Moema seminua Figura 62: Serena de vestido

(Fonte:veja.abril.com.br/blog/temporadas/tag/caramuru-a-invencao-do-brasil) (Fonte: http://noticias.terra.com.br/interna/0,,OI565685-EI5078,00.html)

Buscando a intericonicidade das imagens presentes na telenovela “Alma Gêmea”, entendemos que elas se aproximam das imagens que retratam os indígenas norte-americanos. Estas imagens estão divulgadas amplamente na internet e, também, em filmes bastante conhecidos, como a animação produzida pela Walt Disney: “Pocahontas” (1995).

Figura 63: Intericonicidade entre as cenas de Pocahontas, Serena e foto de indígena norte-americana

A aldeia de Serena também reflete a sociedade indígena ideal para os moldes católicos propagados pelos jesuítas, na época da chegada dos europeus ao Brasil. Em 1500, uma das questões que mais chamaram atenção dos portugueses que aportaram no país foi o nudismo dos homens e, principalmente, das mulheres.

Outras práticas culturais, como a poligamia e o politeísmo, também foram severamente repreendidos pelos jesuítas europeus, que se empenharam em implantar

101 nessas sociedades as práticas corretas do catolicismo. Esses ideais propagados pelos jesuítas estão presentes na cultura dos personagens indígenas desta telenovela global. A monogamia, a prática de relações sexuais só depois do casamento e o catolicismo são preceitos seguidos pela sociedade de Serena.

Em “Alma Gêmea” a importância dos ensinamentos católicos é bastante enfatizada nos primeiros capítulos. A professora Cleyde (Júlia Lemertz) é a responsável por educar as crianças sobre as “coisas de branco”, como a língua portuguesa e os ensinamentos da Bíblia Sagrada. A Bíblia é o livro mais importante da escola da aldeia, e Cleyde sempre o tem em mãos.

Os primeiros capítulos de “Alma Gêmea” rememoram o contexto da catequização dos indígenas pelos Jesuítas. Assim como na época da chegada dos europeus ao Brasil, esta telenovela reafirma que quem detém o poder sobre a educação dos indígenas é o homem ocidental. Nas relações de poder entre os personagens indígenas e os não indígenas, são estes que estão autorizados a falar.

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Neste terceiro capítulo, explicamos como as diferentes condições de possibilidades históricas contribuíram, em grande medida, para que telenovelas apresentassem personagens indígenas em papéis de destaque. Em nossas análises de cenas de “Aritana”, “Uga Uga” e “Alma Gêmea”, explicamos como estas telenovelas exibem diferentes discursos sobre os povos indígenas. Esses discursos são materializados em seus protagonistas Aritana, Tatuapu e Serena.

Procuramos mostrar como os enunciados presentes nestas três ficções televisivas seriadas podem ser observados também em outras telenovelas, filmes, imagens e desenhos animados. Estes enunciados compõem redes de memórias sobre as sociedades indígenas. A seguir apresentamos as nossas considerações sobre esta pesquisa.

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(IN)CONCLUSÕES

Ao longo desta dissertação, analisamos os discursos sobre as sociedades indígenas que circulam nas telenovelas brasileiras. Em nosso percurso acadêmico, encontramos vários trabalhos sobre teledramaturgias, no entanto, a maioria deles se detinha em analisar as obras de maneira isolada. Muitas destas pesquisas tinham como objetivo estudar os modos de produção de uma trama, a construção de um determinado personagem ou o estilo do autor de uma telenovela. A perspectiva que adotamos nesta dissertação foi bastante diferente.

As formulações propostas por Foucault em “A Arqueologia do Saber” (2008) nos permitiram pesquisar diferentes telenovelas, exibidas em épocas distintas, mas que apresentam muitas semelhanças entre si, pois nelas identificamos as recorrências de diferentes enunciados materializados nos personagens indígenas.

Em nossas análises, mostramos como os diálogos dos personagens ocidentais e a articulação entre imagem e trilha sonora compõem redes de memórias em que está presente o discurso do indígena como ameaça. Aritana, Tatuapu e Serena também são apresentados como pessoas de alma pura, que vivem isolados em uma aldeia muito distante e mantém suas culturas intactas, longe das práticas culturais de um ambiente urbano.

Estes personagens são bobos, ingênuos, falam de maneira errada a língua portuguesa e são constantemente repreendidos pelos personagens não-indígenas. Mas aceitam estas censuras, pois estão prontos para se “civilizar” e, assim, poder viver em um ambiente urbano.

Sabemos que recorrer a discursos já estabelecidos nas redes de memórias sociais faz parte dos modos de produção das telenovelas, pois é assim que o telespectador reconhece as diferentes identidades apresentadas nas tramas, como o do nordestino, do gaúcho ou das pessoas que vivem no campo, por exemplo.

Com as sociedades indígenas não é diferente. Imagens de mulheres e homens indígenas sem roupas, com flechas na mão e vivendo isolados, em meio às florestas e animais selvagens, circulam nas redes de memórias ocidentais desde o período colonial e são materializadas nas telenovelas. Por isso, para entendermos estes discursos, mais do que pesquisar uma produção em si, devemos analisar a circulação dos enunciados em diferentes produtos midiáticos, como nos explica Gregolin (2007), e entender a que redes de memórias eles se filiam.

103 A categoria analítica da intericonicidade, proposta por Courtine (2013), também foi importante para entender como as imagens que circulam nestas telenovelas pertencem a redes de memórias visuais e, por isso, dialogam com outras imagens. Cenas de atores brancos interpretando personagens indígenas, ou sendo pintados para viver o papel, filiam-se a redes de memórias visuais em que está presente a prática do blackface. Esta prática existia no cinema americano e na telenovela brasileira em relação aos personagens negros e, hoje, está presente na construção das imagens dos personagens indígenas.

No início deste nosso percurso acadêmico, lemos um artigo de Jakubaszko (2006), intitulado Alma Gêmea: o indígena na telenovela, em que a autora analisa como a telenovela “Alma Gêmea” construiu a identidade da protagonista Serena. No artigo, Jakubaszko diz que esta trama abriu uma brecha para que o público inicie um diálogo sobre questões indígenas, pois houve uma quebra de silêncio em relação ao aparecimento de temas indígenas em telenovelas. No entanto, nossa pesquisa nos mostrou que ainda há sim um grande silenciamento em relação à presença destes povos nas telenovelas brasileiras. Como apresentamos no segundo capítulo, ao longo de 50 anos, foram poucas as produções que contaram com personagens indígenas em suas tramas e apenas uma telenovela trouxe como história principal a discussão de uma temática indígena.

Muito mais do que frias estatísticas, este levantamento, que apresentamos no segundo capítulo, nos revela como os processos de subalternalização a que os povos indígenas estão expostos desde o início da colonização ainda estão presentes no Brasil de hoje. É possível que ainda demorem décadas para que possamos acompanhar uma telenovela com uma atriz, ou um ator indígena como protagonista. Ainda é flagrante o descaso da sociedade brasileira com os direitos indígenas e esta situação se traduz nas telenovelas do país.

Nesta pesquisa, explicamos também como as telenovelas começaram a estabelecer uma estreita relação com a realidade brasileira, característica que se tornou marcante nestas produções. O público, inclusive, reivindica esta verossimilhança e protesta quando acredita que alguma história foge ao que eles consideram como o real.

Os telespectadores indígenas também reivindicam que as suas identidades e culturas sejam retratadas com veracidade nestas ficções televisivas, tanto que manifestam as suas insatisfações elaborando cartas de protesto para o Congresso

104 Nacional e para o site da Funai, exigindo mudanças nos modos como os personagens indígenas são construídos.

Estas reivindicações nos fazem pensar na importância de ampliarmos o nosso trabalho. Futuramente, uma pesquisa de recepção com sociedades indígenas parece ser uma proposta bastante promissora. Entender o que representa para estas sociedades os discursos que circulam em diferentes produtos audiovisuais sobre suas identidades e culturas significa ampliar nosso olhar para as relações entre os povos indígenas e as diferentes práticas comunicativas que os envolvem. Por isso, seguindo os passos de Milanez (2006), ficam aqui as nossas (in)conclusões, no anseio que este trabalho continue!

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