2. Science in the Cthulhu Mythos
2.5. Science merges with witchcraft in “The Dreams in the Witch House”
Com sua zona mais urbanizada crivada quase ao meio e em cruz pelas rodovias que nos levam, ao sul, de Natal à Paraíba, e ao leste, do interior do Rio Grande do Norte ao oceano Atlântico, o município de Canguaretama espalha-se ao longo de planícies e suaves colinas de matagais, pequenos rios, vastos canaviais, mangues e uns poucos aglomerados citadinos engolfados pelo verde das vegetações nativas e agrícolas. Sua rede de hotéis costeiros e outros serviços turísticos integram, com a pequena ajuda das lojas e feiras locais, o motor principal de sua economia (IBGE 2010), seguido por atividades agropecuárias em que se destacam a cultura de cana-de-açúcar e a carcinicultura (GALVÃO NETO, 2008). A mais ou menos uma hora em carro da capital, a cidade litorânea pode contar hoje com pouco mais de 32.000 habitantes espalhando-se por 246 km2 (IBGE 2010). Sentado à praça mais conhecida, em torno da qual a região mais comercial, povoada e efervescente da cidade se concentra, é possível acompanhar dia a dia os ritmos e densidades humanas quase previsíveis de suas missas, compras, feiras, lanchonetes, conversadores e botecos convivendo com um fluxo inconstante e às vezes intenso de carros locais, das localidades próximas e da capital. Os olhares curiosos e insistentes da vizinhança para meu carro estacionado seguidas vezes na praça (seu motorista a sentar ali por horas, observador), indicavam a presença de um tipo de novidade alheia às expectativas cotidianas.
Como se fez comum nas pequenas cidades potiguares, a centralidade espacial da Igreja católica “Matriz” (desde 1860, âncora visual da praça principal de Canguaretama), em pleno 53 Informação obtida em conversa presencial com o historiador canguaretamense Francisco Galvão Neto, em
núcleo comercial e administrativo, parece combinar com as estatísticas indicativas de uma considerável maioria religiosa católica. Um censo aponta que a larga supremacia numérica católica e dos protestantes em diversas de suas expressões, respectivamente de mais ou menos 70% e 16% da população, é seguida principalmente por quase 6% de moradores “sem religião”, quase 0,3% “espíritas” e 0,3% autoafirmados pertencentes a “outras religiões” – ninguém se dizendo adepto de “umbanda e candomblé” (IBGE 2010). Segundo um intelectual local, os primeiros agrupamentos protestantes, Igreja Batista e Assembleia de Deus, instalaram-se na cidade na primeira metade do século XX (GALVÃO NETO, 2005 apud ANGÉLICO, 2009), embora nas últimas décadas as igrejas neopentecostais, notáveis por suas ofertas de resolução de problemas de afeto, dinheiro e saúde (e também por sua dita hostilidade para com as religiosidades mediunistas), tenham crescido ao ponto de “esvaziar” os cultos “evangélicos” mais antigos; os mórmons iniciaram seus cultos e trabalhos missionários em 2009, ganhando no mesmo ano um número crescente de adesões, enquanto os espíritas kardecistas contavam, ainda neste ano, com um único centro (ANGÉLICO, 2009). Escondidos, inalcançados ou silenciados pela categorias e generalidades estatísticas estatais, os agregados religiosos juremeiros decerto atuam de maneira visualmente discreta e com uma propaganda de culto e oferecimento público de serviços espiritualistas bem menos explícitos e ostensivos que os das igrejas cristãs – discrição que, indo além das limitações financeiras e espaciais destas casas de “trabalho”, também pode adquirir, como descobri depois, as conveniências adequadas às reservas e segredos convenientes ao exercício mágico.
Num campo religioso54 em que os boatos e indicações dos populares e juremeiros sugerem uma quantidade de adeptos nada desprezível, não foram poucas vezes que, nos canaviais da pequena cidade, batendo às portas daqueles que a vizinhança ou certa opinião pública consideravam como gente que “trabalha” ou “tem centro”, fui recebido e evitado com os trejeitos escorregadios e negadores de parentes, senhoras e senhores assustados, desconfiados, de poucas palavras. Preferi então, ao menos para este estudo de mestrado, continuar investindo nas casas de jurema que, desde 2011, mostravam-se mais receptivas, acessíveis. Quanto aos “juremeiros das canas”, como gostava de chamar as senhoras e famílias residentes nos vastos canaviais da região (imensas planícies e valas de estradas pouco 54 Compactuo com um certo uso da noção bourdiesiana (1998, 2003) de “campo” religioso: espacialidade social onde conjugam-se relações sociais de reprodução, inculcação, legitimação e competição por hegemonia religiosa.
afáveis), pareciam ciosos demais em aceitar estranhas visitas de domingo aos seus taciturnos casebres. Entre os motivos pelos quais estas pessoas me evitaram, é inteligente incluir a suspeita deles de que eu seria um “fiscal da federação” – suspeita que Angélico (2010) também nutriu quando, anos atrás, diante de juremeiros e prováveis juremeiros da região do Maxixe e outras localidades de Canguaretama, deparou-se com similar evasão e desejo de privacidade.
Se, há poucos anos atrás, Angélico (2009) notou em torno de dez casas de culto à jurema55, além dos treze centros então federados e listados na Federação de Umbanda e Candomblé do Rio Grande do Norte, nossas visitas realizadas em 2011 e os relatos que ouvi entre 2012 e 2013 ampliam esse número em mais dezessete locais de trabalho:
Oito supostos líderes de culto, contatados nas zonas do Maxixe e Encantado (e que a vizinhança e informantes locais garantiam, sugeriam ou deixavam entender ser pessoas ligadas à mesa de jurema), evadiram-se de minhas primeiras investidas em conversar sobre seus trabalhos. Fátima, uma médium idosa dos canaviais do Jiqui, aceitou conversar, mas chegamos atrasados: foi-se a chance de acompanhar seus trabalhos na casa de uma certa Maria, há pouco falecida; agora, Fátima resistia em incorporar os espíritos possessivos e, como contou sua neta, por essa razão tornou-se alvo da perseguição destes.
No Terreiro Malunguinho, no Jiqui, em que conversei com o casal líder durante algumas horas, a influência discursiva da doutrina umbandista se faz visível, sua líder “da umbanda!” e seu rito possessivo operando, segundo a médium, conforme uma sequência de “linhas” espirituais bastante comum nesta religiosidade (exus, moças, Ogum, caboclos da jurema), embora, por alegados motivos de doença, a gira, que acontecia uma vez por semana, não aconteça há um ano – restando os trabalhos da mesa de jurema. Dona Maria, autodefinida romeira, umbandista e juremeira, que não deve ter mais de 55 anos, trabalha desde os 14; Seu Zé aparenta mais de 60, trabalha há vinte e se apresenta como autoridade máxima da “federação” em Canguaretama (embora nenhum outro centro tenha confirmado a informação). O centro conta com 20 anos, possui licença da federação e também atende gente de São
55 Em zona urbana, Terreiro Tupinambá, Centro Mestre Pena Branca e Estrela do Mar, casa de Dona Maria Fernandes (extinto Centro Caboclo Zé Pilintra e Caboclo Panema) e Centro Espírita de Umbanda Caboclo Rompe Mato; em zona intermediária entre o rural e o urbano, Centro Espírita Caboclo Ubirajara e a casa de Dona Antônia da jurema; na zona rural, o Centro de Umbanda Caboclo Sete Flechas e a casa de Dona Geralda Maria. Além destes, o pesquisador conversou com outros juremeiros cujas identidades e localidades de trabalho não revela, por não estarem de acordo em participar da pesquisa (ANGÉLICO, 2009, p.20).
Paulo, Paraíba, Pernambuco e até alguns estrangeiros levados em emergência. Num salão caseiro com chão de azulejos, espaço razoável para giras, um tambor grande e uma mesa com estátuas de Jesus, santos e Zé Pilintra, entre chapéus, galho de jurema, quatro copos com água e vela, os dois falaram sobre os médiuns treinados, as várias “fulorzinha”, o “Boi Tungão”, a “bruxaria” dos mestres catimbozeiros e outros temas afins. Embora alegassem que a falta de convívio entre os centros da cidade decorria da grande distância entre os mesmos, suas duras críticas contra os “trabalho seboso”, a presença de crianças, “cachaça”, sangue e demasiada fumaça nos centros da região (“isso tá lascando a umbanda!”), em sua grande maioria direcionadas aos centros locais em tom generalista, sugerem que a distância que separa o casal dos demais centros é talvez mais moral que física. Pelo salão do casal passaram ou passam mestres Zé Pilintra, Antônio Barruá, Manacá, Gaspar (os dois últimos, espíritos de pessoas que teriam vivido na região – o último dentre estes catimbozeiros tendo falecido há vinte anos), Zé Pequeno, Taguara e outros.
Os outros locais “de trabalho” e gente “que trabalha”, incluem os dois idosos João e Teresa, “pai” e “mãe” espirituais de Dona Zélia (chefes de culto ainda atuantes na região de Piquiri), a casa de trabalhos de uma das filhas de Dona Zélia (que não cheguei a visitar nem averiguar nome e funcionamento), um centro atuante que jamais visitei, nas proximidades do Terreiro Malunguinho, e uma senhora chamada Buni, cuja família declinou de maneira veemente uma primeira tentativa de contato. Entre a primeira e a última visita a Canguaretama, só soube notícias de uma única líder de culto falecida: uma certa “Dona Maria”, na zona canavieira do Jiqui, cujas sessões possivelmente tenham sido frequentadas por Fátima e pelas médiuns de Tupinambá.
Embora as estatísticas “oficiais” do IBGE apontem uma maioria católica e evangélica em enorme vantagem numérica sobre as demais religiões, não ficando esclarecido o que se chama por “espíritas” (e, portanto, se aí estavam incluídos apenas os kardecistas ou, como às vezes se faz, também os demais religiosos mediunistas) nem que doutrinas estão inclusas na expressão “outras religiões”, a quantidade de canguaretamenses ligados à umbanda, à jurema e a todo o espectro espiritualista herdeiro das tradições afro-indígenas – não encontrei nem ouvi dizer de nenhum centro autoidentificado com o candomblé ou com o xangô – é talvez maior que a quantidade de igrejas evangélicas e católicas juntas.
sugiram que existem muito mais “macumbeiros” e “catimbozeiros”56 na cidade do que parte dos canguaretamenses estão, é certo, dispostos – ao menos oficialmente – a reconhecer. De modo clássico explicada pela conhecida desvalorização moral e hostilidade que em geral atingem as religiosidades afro-brasileiras, a compreensão de tal invisibilidade sem dúvida não se acaba aí. Entre as líderes juremeiras Zélia e Neta, esse silêncio acerca de seus “trabalhos” parece atender pelo menos ao fato de que, quando o assunto é “religião”, identificam-se, antes de qualquer coisa, diante do “estudante”, como “católicas” ou católicas “romeiras”, mas também às exigências particulares de sigilo de um cotidiano atravessado pela feitura de feitiço e sua neutralização cotidiana – um mundo em que curiosos estranhos e visitantes desconhecidos, senão são consulentes, contam com mais chances de ser lidos através da desconfiança que os encara como prováveis fiscais da federação, catimbozeiros concorrentes, inimigos ou meros fofoqueiros inoportunos, do que por meio de uma mentalidade religiosa esperançosa e entusiasmada por fama social e novos fieis. A própria designação substantiva e verbal pela qual os juremeiros referem-se quase sempre a suas atividades (“hoje tem trabalho”, “aquela médium sabe trabalhar”, “aquele mestre trabalhou hoje”, “lá é centro de trabalho”, etc.)57, acaba contribuindo em ocultar e ambivaler no discurso (segundo quão leigo e distante do universo social dos cultos de possessão brasileiros esteja o ouvinte) a natureza mágico-religiosa de suas práticas, à medida que o termo “trabalho”, ao implicar seu léxico estritamente trabalhista, pressupõe um significado hermético ao audiente incauto.