2. Science in the Cthulhu Mythos
2.3. Modern science and human perception in “The Colour out of Space”
O compilador de códigos morais, Thomson (2002), tem razão em ver entre as causas trans-históricas e globais de existência e permanência dos padrões morais humanos conhecidos, o poder de persuasão dos líderes morais, o controle social de um grupo sobre a maioria da população (o que estava dito, por sinal, desde preocupações e ângulos diversos, em Nietzsche, Weber e Marx), a tentação de economia psíquica (“a liberdade para tomar decisões é um doloroso fardo”), o “treinamento moral”, a competitividade entre os membros dos rituais, as fórmulas mnemônicas e a eficácia dos mitos coletivos.
Todavia, se as culturas morais humanas tendem a desfilar, para o analista “estratosférico”, como grandes rios sociais de longa duração e reincidências basicamente previsíveis, ao mergulharmos de maneira mais demorada e atenta no interior de suas amplas margens, vemos que as coisas não são exatamente assim: toda essa vida de incessante ação pode rachar e turvar os esquematismos mais estáveis, monótonos e oficialistas que as abordagens mais abstratas e universalistas tendem a fazer.
Michel Maffesoli (1985) opõe a lógica unidimensional do “dever-ser”, socialmente decretada pela “moral”, à “cinestesia” equilibrista e relativista dos valores sociais da “ética”, o “sentido vivido da estática e da dinâmica” morais em que a “duplicidade”, cinismo e “teatralidade” coletivas tomam lugar. Pierre Bourdieu (2003) oporá “ética”, como sistematização, reflexão não imediata do sujeito acerca da própria conduta, a “ethos”, em que os atos morais se sustentam em princípios morais em “estado prático”, não refletido. Vásquez (1984) avalia a defasagem fenomênica entre a normatividade “moral” idealizada e a moral efetiva e concreta da “moralidade”. Marshall Sahlins (1981 apud ORTNER, 2007) contribuiu valiosamente com os estudos da moral, ao argumentar, aproximando-se de Maffesoli, pela não-coincidência fatal entre o jogo, digamos, clandestino das intenções das pessoas, com a oficialidade, estabilidade e exterioridade das convenções que elas apenas parecem seguir obedientemente.
Portanto, na eticidade que, aprovada ou não pelo outro ou grupo, excede sempre a mortificação e asfixia a que levaria o absolutismo moral do código, há uma moral prática que, sobrepassando, minando e jogando com a moralidade coletiva oficialmente sistematizada, representada, idealizada, opera numa complexa dinâmica de confrontação, simulação, relativização, adaptação, agenciamento. Atravessa os referidos autores uma mesma indicação de abertura ao potencial hiato fenomênico entre uma moralidade codificada e reflexivamente elaborada, e sua expressão eminentemente prática, vivida nas ações.
Para uma sociologia da ação interessada na sabedoria da experiência moral vivida “ao vivo” e de “corpo e alma” pelos sujeitos morais, é com Bourdieu que aprendemos que o “ethos” é parte de um “habitus” (2003) (esse “senso prático” não-premeditado, infraconsciente e infralinguisticamente cúmplice daquilo que seus princípios sociais de percepção, conduta e entendimento nos habilitam individualmente ao que “devemos” fazer em dado momento) mais amplo dos agentes (1996). Como condição cognitiva fundamental, enquanto forma do agente social estar no mundo, o corpo, por excelência alvo, meio e instrumento da possessão social, atua como operador através do qual o sujeito ao mesmo tempo apreende o social e reporta-se à ordem sociológica do mundo, num duplo movimento exterior-interior em que as disposições práticas do campo social resultam extremamente eficazes em ilusionar a naturalização do arbitrário social para seu agente (BOURDIEU, 2001). Tal qual Mauss (2003a), embora indo além da sugestão filosófica e mobilizando inúmeras
pesquisas de campo a partir dessa clássica noção deixada pelos antigos gregos, Bourdieu usa o conceito aristotélico-tomista de habitus para referir-se às ações corporais acionadas a partir e através de disposições de natureza social.
E se a fixação daquilo que a mente individual experimenta e avalia moralmente como bom ou mau, agradável ou não, nobre ou abominável, se esse ethos atende a um habitus (em que se atualiza também um sistema de disposições morais sob a forma de jeitos, posturas e gestualidades corporais), logo,
[...] se se esquecer que podemos ter princípios no estado prático, sem termos uma moral sistemática [...] esquece-se que, pelo simples facto de se fazerem perguntas, de se interrogar, se obriga as pessoas a passarem do ethos [disposição eminentemente prática e não-representada] à ética; pelo facto de se proporem à sua apreciação normas constituídas, verbalizadas, supõe-se resolvida esta passagem. Ou, noutro sentido, esquece-se que as pessoas podem mostrar-se incapazes de responder a problemas de ética ao mesmo tempo que são capazes de responder na prática às situações que põem as questões correspondentes (BOURDIEU, 2003, p. 139).
O ethos escapa à ética, a ética não engloba o ethos. Enfatizando a agilidade e efeito de veracidade subjetiva das experiências vividas nas “entranhas” dos esquemas morais dos agentes, o ethos bourdiesiano pressupõe a potencial distância, defasagem ou alheação entre a reflexividade da moral pensada e idealizada, e a moral efetivada sob lógicas práticas, não refletidas. Nem sempre ou quase nunca eloquente, essa moralidade introjetada nos mínimos atos atualiza-se encarnada à revelia de sua simbolização imediata para o agente, incorporadamente praticada como é.
Seja racionalizada e intencionada, seja na defasagem e estranhamento da própria consciência e razão aos próprios automatismos morais em regime prático, a natureza social da moral obedece a condutas valorativas previamente incorporadas, a sistemas de disposições nascidos e vividos na plenitude situacional dos fazeres. As adesões convencionalistas, oficialistas e normativas mais racionalizadas, como as simulações, invenções, transgressões e ponderações mais autonomistas, pressupõem e se estruturam todas como inteligências éticas arranjadas a partir de valores morais sociais desde já incorporados em esquemas subjetivos individualizados – as estruturas morais, como as sociais, conservam-se e transmutam-se, apesar e através das singularidades individuais, não como séries industriais homogeneizantes
e de reprodução mecânica (homogeneidade coletiva que nem as socializações e interações mais absorventes e igualizantes, tampouco os simulacros teatrais sociais mais eficazes, garantem), mas num complexo jogo de tensões, dissonâncias e reproduções sociais –; e, embora a ação ética humana não necessariamente finde no aquém/além-representação da razão prática bourdiesiana, àquela sempre se antecipa, engendra, acompanha, contradiz ou reforça esse ethos cuja atuação nos evoca a imagem de um centro magnético de probabilidades estruturantes morais individuais para o qual confluem e ao redor do qual gravitam, mais cedo ou mais tarde, de um modo ou outro, a despeito dos melhores e mais duradouros artifícios psicológicos (onde devem ser incluídas também as disposições automáticas ou semiautomáticas em que a verdade íntimo-subjetiva do ato e sua sincrônica performance teatralizante não guardam entre si nenhuma cumplicidade emocional intrínseca), a maior parte do “grosso”, banal e silencioso dos princípios valorativos que alicerçam o jeito de ser das pessoas.
De fato, não se alcança delinear os contornos e fronteiras que distinguem, nos fenômenos morais mágico-religiosos juremeiros, um ethos sempre um tanto quanto clandestino (seja em relação à própria consciência do agente, seja em relação ao sistema oficial ou hegemônico de representações normativas que toda coletividade tende a reproduzir de si, com alguma dose de “otimismo” e protecionismo moral), das moralidades oficialmente representadas (em toda a riqueza do termo) e faladas, sem examinar o complexo jogo de coincidências, contiguidades e contradições entre um não-consciente primum vivere (operante por uma moral corporificada que sobrepassa a simbolização e o simbolizável por seu sujeito – ethos que não é ética) e a consciência-ação moral de um primum symbolum (por excelência, uma espécie e dimensão de moralitas simbolizada e simbolizável por seus agentes – ética que nem sempre é ethos) jamais espelho ou homologia perfeita das razões “mudas” do vivido efetivo, sem uma observação etnográfica que nos habilite a atribuir, às manifestações morais, sentidos cada vez menos arbitrários, nebulosos e, logo, mais verazes.