5. RESULTS
5.5 S CHOOL 4
5.5.1 School 4 teacher interview: Beth, 7 th grade teacher
Em Deves mudar tua vida (2012a), Sloterdijk aprofunda ainda mais alguns tópicos já expostos em O homem operável (2011b), com o fito de desenvolver melhor os argumentos relativos à antropotécnica. Ele demonstra certa reserva com relação às discussões éticas modernas, sobretudo porque a maior parte dos argumentos utilizados pela ética tem uma tonalidade apenas fraseológica, sem ter alicerces sólidos.
Sloterdijk adverte que com Marx, pela primeira vez na modernidade, se pensou o homem como responsável pela produção do homem. Contudo, essa argumentação que tinha tudo para revolucionar a compreensão a respeito do homem, foi maculada por ilações do próprio Marx, e dos jovens hegelianos, que concluíram que a única atividade essencialmente humana é o trabalho. Assim sendo, partindo do pressuposto de que o homem produz o homem, seria errôneo tomar a medida do homem pelos resultados concretos dessa produção, de maneira que o homem fosse medido por um objeto exterior a ele mesmo (SLOTERDIJK, 2012a).
Para Sloterdijk o homem é definido em termos de exercícios: “Como exercício defino qualquer operação que conserva ou melhora a qualificação do ator para realizar a mesma operação da próxima vez, seja ela declarada como exercício ou não” (SLOTERDIJK, 2012a, p. 17, tradução nossa). O segredo para uma alegação aparentemente tão simplória está exatamente na compreensão dos elementos menos complexos da antropotécnica. No caso ora em voga, a motivação é tão somente o caráter da repetição, compreendida como a repetição que apenas repete, e aquele que faz;
portanto, a repetição tem o poder de se constituir em uma repetição ativa que causa mudanças essenciais. Isso é especialmente observado na proposta da Paideia grega, notando-se que a educação pode ensejar costumes no espírito das crianças, por meio de um programa de adestramento (SLOTERDIJK, 2012a).
Fundamentalmente, ao se referir à repetição como formadora de costumes vem à luz a referência aos hábitos, mediante a configuração da existência humana por força da repetição de hábitos. Sloterdijk recomenda um estudo da arete, ou da capacidade humana de ser virtuoso. O hábito é sempre, usando uma terminologia aristotélica, a potência que se forma, tendo como raiz ações antecedentes, e que pode ser atualizado na renovação dessas ações (SLOTERDIJK, 2012a). De acordo com isso, Bruseke entende que, para Sloterdijk (2013, p. 6), “o conceito de hábito mostraria como, mediante um treinamento psicossomático e dependente de sua origem social, o momento social torna- se uma disposição individual”.
Porém, à medida que se entende o exercício como princípio antropotécnico básico, é cogente descobrir em que esteio se dá a técnica de produção de homens. Tendo esse questionamento bastante claro, Sloterdijk (2012a, p. 407, tradução nossa) admite que existe “o efeito retroativo de todas as ações e de todos os movimentos sobre seu próprio autor”. O que implica, inevitavelmente, em ações mais desenvolvidas, ou melhor elaboradas pelo autor da ação. O ponto fulcral das antropotécnicas é dado pela equação circular em que cada ação empreendida gera uma modificação consequente no autor da mesma, decorrendo em um autor modificado para futuras ações similares e, portanto, em ações futuras incrementadas quando comparadas com as primeiras, o que Sloterdijk denomina circulus virtuosus. Por esse prisma, se alcança a relação entre exercício e configuração do sujeito, de modo que todo gesto, por mínimo que seja, é modelador. Isso posto, para Sloterdijk (2012a) é patente que não existe movimento desprovido de mérito.
É absolutamente relevante dentro do contexto proposto por Sloterdijk pensar em abertura, com a salvaguarda de que para ele o sentido de abertura é tanto ontológico quanto biológico. A reflexão a respeito de o homem viver na abertura, com o tipo de rigor analítico pretendido, ou seja, mediante as técnicas de produção do homem, enquanto um mecanismo de exercícios repetitivos de hábitos, faz que não se consinta a trivialidade, posto que todo exercício tem representatividade. A plasticidade característica do Homo sapiens mostra que no âmbito da produção humana os exercícios
denotam uma contínua formatação da identidade, ou não identidades (SLOTERDIJK, 2012a). Bruseke (2013) chega a advertir que as argumentações assertórias de Sloterdijk são intencionalmente polêmicas, a julgar pela maneira como ele brinca com o título da obra, bem como com a ponderação de que tal mudança está implicitamente carregada com a acepção de que os exercícios possuem a capacidade de conferir a justificativa da imanência das antropotécnicas.
Quem fale da autoprodução do homem sem mencionar sua configuração na vida que se exercita se equivocou na discussão do tema desde o princípio. Em consequência, temos de deixar praticamente em suspenso tudo o que foi dito sobre o homem como um ser trabalhador, para traduzi-lo na linguagem da exercitação da vida, ou de um comportamento que se configura e acrescenta-se a si mesmo. (SLOTERDIJK, 2012a, p. 12, tradução nossa).
Na medida em que o homem é fruto da repetição, é possível conjeturar que qualquer tentativa de manutenção da identidade dê-se por frustrada, pois as tensões entre o que é e o que pode ser não permitem que ocorra a permanência do mesmo. Em vista disso, até os costumes que carregam consigo a entrega a uma rotina acabam por ser reinterpretados, a fim de serem substituídos. A origem dessa premissa refere-se ao fato de que nenhuma cultura torna-se idêntica a outra, perfazendo muito mais um jogo de superação umas sobre as outras. A antropotécnica se relaciona por conseguinte à ideia de ascetismo, de constante elevação por força de uma tensão vertical (SLOTERDIJK, 2012a).
O programa do ascetismo em termos culturais é estritamente relacionado ao adestramento, sempre com o objetivo de sobrevivência ou manutenção do grupo. Conexo a isso o adestramento pressupõe paradigmas hiperbólicos, os quais subsistem por meio de ações miméticas que induzem a tensionamentos comportamentais dificilmente alcançáveis, por causa do alto nível de exigência implícito, mas que devem servir de arquétipos perfeitos para manutenção cultural da sociedade (SLOTERDIJK, 2012a). Desse modo, o homem enquanto responsável pelo lugar da pergunta pelo ser, é uma potencialidade que transgride e subleva corriqueiramente sua produção, se auto- operando, ou modificando, com a advertência de que no mais das vezes o faz de maneira completamente inconsciente.
Quanto à superação ascética do ponto de vista individual, é sempre bom lembrar uma passagem de A República, indicada por Sloterdijk, a qual trata a prudência como o
ato de ser superior a si mesmo. Por conta disso, ser superior significa estabelecer uma relação de domínio frente às paixões, que compõem uma parte do sujeito, a qual deve ser controlada. Os adestramentos se focam na proposta iminente de que existe sempre uma potência desinibidora que está em estado latente e, portanto, o processo de tensionamento, de verter a prudência sobre as paixões, só pode ser considerado via um mecanismo paidêutico de refreamento, que é fruto da interiorização das diferenças, mas não no sentido político de domínio.
Tomar a introjeção do que é compartilhado como um hábito, fruto do exercício, por uma prática de dominação é um equívoco com consequências nefastas, visto “que os alunos são, em primeiro lugar e na maioria das vezes, atletas em desenvolvimento [...] isso nunca ficou patente com explicitação devida a uma coisa tão importante, por causa da mistificação moralista e política da pedagogia” (SLOTERDIJK, 2012a, p. 219, tradução nossa). Um revés dessa monta se deu porque não houve a ponderação propícia sobre a construção dos hábitos versus as paixões por eles refreadas.
É perceptível que o poder de escolha nessas circunstâncias seja pautado em uma diferenciação de repetições, ou exercícios, entre os que são maus hábitos e aqueles que não são, seja em se tratando do interior ou do exterior das pessoas. As paixões devem ser transformadas e dar lugar às boas repetições. Platão quando acomete contra a doxa está exercendo a função de um epidemiologista, salvando a sociedade de um vírus com alto poder de multiplicação. Na verdade, o que ele pretende fazer é um ataque às rotinas e inércias que deformam a sociedade. Essa é a função do filósofo, dos ascetas, dos santos, dos sábios (SLOTERDIJK, 2012a). Contudo, Sloterdijk percebe que a vida cotidiana faz pouco caso dessas diferenciações de cunho ético, uma vez que os homens não conseguem sair da inércia de suas respostas mecânicas, sendo toda exigência de disciplina intelectual alheia ao mortal mediano. A explicação mais cabal para dada situação seria a de que “os seres humanos não habitam territórios, mas costumes” (SLOTERDIJK, 2012a, p. 518, tradução nossa), e por meio destes últimos conservam sua identidade, restabelecendo-a frequentemente. Deste jeito, ao considerar que o éthos e o tópos formam um todo, para que o ser humano possua um costume distinto é mister um lugar, um território distinto também, o que indica implicitamente que os lugares comuns não são propícios aos exercícios éticos avançados. Igualmente os cínicos faziam ao rejeitar os costumes vigentes de sua época; a viragem ética requer exercícios de igual radicalismo conceitual (SLOTERDIJK, 2012b).
Como o cuidado ético é uma urgência dos tempos modernos, vista a carência de exercícios que rompam a inércia existencial do homem pós-1945, o imperativo de Sloterdijk de que “Deves mudar tua vida!” é a condição sem a qual se torna improvável, ou incerto, falar de uma vida humana autopoiética.