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No início da sua trajetória, a Fraternal desenvolveu a primeira fase do seu trabalho teatral pesquisando no cerne da cultura popular brasileira, vinculando personagens cariocas, nordestinas e paulistanas aos seus arquétipos correspondentes da Commedia dell’Arte italiana. Esse período compreendeu quatro anos, de 1993 a 1997, e resultou na criação e encenação de quatro espetáculos regidos sob a ótica da comédia popular, assim como também rendeu a publicação de uma antologia das peças encenadas pelo grupo. As peças publicadas, todas escritas por Luís Alberto de Abreu, foram: O parturião (1994), O anel de Magalão (1995), Burundanga (1996) e Sacra folia (1996). A antologia foi publicada em 1997, em São Paulo, com o título Comédia Popular Brasileira.

O parturião estreou em São Paulo, em 23 de março de 1994, no extinto Teatro das Nações, com direção de Ednaldo Freire. A peça é inspirada em tema recorrente da literatura cômica e popular da Idade Média, que apresenta a figura de um homem tolo que é convencido de que está grávido. Os protagonistas são duas personagens de origem popular, representantes das classes laboriosas do Brasil. Um é o ardiloso mineirinho João Teité, um farsante inspirado em Pedro Malasartes,7 que apresenta traços arlequinescos, e o outro, seu companheiro Mathias Cão, um nordestino sabido que lembra o zanni Briguela da Commedia dell’Arte. Eles são empregados de duas famílias inimigas, uma italiana, os Tabarone, e a outra portuguesa, os Marruá. Os criados João Teité e Mathias Cão unem esforços para ludibriar seus patrões, ao mesmo tempo em que ajudam a levar a bom termo o romance entre a filha do italiano e o filho do português. O objetivo dos criados é alcançado depois de realizarem inúmeros quiproquós e arquitetarem engraçadas peripécias. O insólito final da comédia provoca o riso de todos: uma “terrível epidemia” alastra-se por toda a cidade, o flagelo da gravidez masculina generalizada.



7 Personagem da cultura popular brasileira e portuguesa. Segundo Luís da Câmara Cascudo, "Pedro Malasartes é

figura tradicional nos contos populares da Península Ibérica, como exemplo de burlão invencível, astucioso, cínico, inesgotável de expedientes e de enganos, sem escrúpulos e sem remorsos" (CASCUDO, 1984, p. 457).

(Entra Marruá de braço dado com Boraceia, alisando a sua enorme barriga. Do outro lado entra Tabarone, também com uma enorme barriga de grávido. Boraceia disfarçadamente manda-lhe um beijo. [...] Entra Aristóbulo grávido e anuncia a entrada de Euriclenes)

Aristóbulo: Limpem a área. Abram caminho para a gravidez do general Euriclenes! (Entra Euriclenes de braço dado com Linora. Entra Fabrício de braço dado com Rosaura, também grávido. Encontram-se todos no meio da praça e cumprimentam- se. Entra Teité, também grávido, acompanhado de Mateúsa)

Matias Cão: Até tu, Teité?

João Teité: Uai, qual é o problema? Fiz ultrassom e o melhor você não sabe: são gê- meos! Estou tão feliz!

Matias Cão: Cai no mundo, Matias Cão, se não quer perder o resto de moral que ainda tem! (Sai correndo)

João Teité: Deixa de ser antigo, Matias Cão. É a evolução do homem! (Teité tem uma violenta contração. Logo após os outros são acometidos de contrações. Compõem uma coreografia ao som de música e saem do palco) (ABREU, 1997, p. 316)

A peça marcou o início dos trabalhos da Fraternal, um exercício voltado para a pesquisa dos fundamentos da comédia popular brasileira. A influência da dramaturgia do mestre Ariano Suassuna (1927) constitui-se em uma referência reconhecidamente aceita pelos integrantes do grupo, junto à contribuição de Mikhail Bakhtin (1895-1975) e seu admirável estudo sobre a estética de Rabelais em A cultura na Idade Média e no Renascimento. Outro importante aporte foi o de Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), grande pesquisador da cultura popular brasileira, junto a Cornélio Pires (1884-1958) e Amadeu Amaral (1875-1929). Especificamente, a pesquisa de linguagem e o aspecto feérico do espetáculo fixaram de maneira definitiva o perfil desses novos tipos cômicos brasileiros.

O anel de Magalão estreou em São Paulo, em 15 de julho de 1995, também no já mencionado Teatro das Nações, sob a direção de Ednaldo Freire. Na peça, novamente o picaresco João Teité é o agente principal de uma série de artimanhas que ele próprio inventa para conseguir progredir na vida. Raptos, disfarces, amores interesseiros e outros sinceros, militares aposentados e um cavalo estranhamente apaixonado são alguns dos elementos que compõem a trama. A peça dá um tratamento paródico à comédia romântica, empregando o recurso do fantástico, representado pelo anel mágico entregue pela benzedeira Tia Beralda ao protagonista. Mas a troca da oração do poder pela oração da paixão acaba intensificando a confusão armada pelo argucioso mineirinho no seu afã de mudar de vida. A benzedeira desconfia da tolice de João Teité e faz uma descoberta:

Tia Beralda: Vamos ver se esse sarambé faz as coisas certas! (À saída, põe a mão no bolso e pára. Retira um breve) A oração do poder? (Chama) Teité! Teité! Foi-se! Ele levou a oração da paixão. (Dá de ombros) Ah! Paixão também é poder e no final tudo vai dar certo. Ou não? (Sai) (Ibidem, p. 157)

A dúvida de Tia Beralda prenuncia o deus nos acuda que se avizinha no jogo de inversões que será provocado pela troca de rezas. Na apresentação da antologia Comédia Popular Brasileira, em 1997, a respeitada crítica Mariangela Alves de Lima destaca que na peça: “O verdadeiro motor dos acontecimentos será o impulso sexual. [...] No quebra-cabeças da junção e disjunção dos pares, o lirismo aparece como ironia para evidenciar a predominância do corpo sobre o sentimento”. A ação transcorre em São Paulo, apresentando as múltiplas variações étnico-culturais dos seus habitantes, envolvendo migrantes da terra (mineiros e nordestinos) e imigrantes europeus (portugueses e italianos). A peça encerra-se com a venda do anel “mágico” para um casal de apaixonados (Rosaura e Fabrício) e a perseguição a João Teité feita pelas outras personagens, que também foram ludibriadas.

Burundanga, a revolta do baixo-ventre estreou em São Paulo, em 6 de julho de 1996, no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, sob a direção de Ednaldo Freire. A sonoridade do título corresponde ao termo de provável origem espanhola burundanga, que significa confusão, embrulhada, atrapalhada e é sinônimo do brasileiríssimo bruzundanga. Aqui não podemos deixar de fazer uma merecida referência ao diálogo interlinguístico que se estabelece com a canção Burundanga8, do acervo popular centro-americano, que narra o pandemônio provocado por uma briga interminável. A referida canção tornou-se célebre na interpretação da cantora cubana Célia Cruz, acompanhada pela Orquestra Sonora Matancera, em 1953. Voltando à peça de Abreu, ela é uma criação brasileira de ritmo próprio que lida com tipos e situações da popular Commedia dell’Arte italiana, aclimatados à geografia nacional. Nesse diálogo intercultural, os arquétipos de Arlequino e Briguela foram desconstruídos de forma hábil e risonha, e acabaram transfigurados nos seus duplos João Teité e Mathias Cão.

No início da peça, eles representam dois migrantes desesperados que assaltam e roubam um capitão e um cabo do Exército que, por aqueles acasos da comédia, estavam desprevenidos. Como não encontrou nenhum dinheiro, a dupla decide trasvestir-se de



8 Burundanga é o nome de uma “guaracha” (ritmo de origem afro-caribenho) do compositor cubano Oscar

Muñoz Bouffartique, que descreve a confusão de uma interminável briga generalizada. “Songo le dio a Borondongo/ Borondongo le dio a Bernabé/Bernabé le pego a Muchilanga le echó a/Burundanga/les inchan los pies/Monina[…]” (Songo bateu em Borondongo/ Borondongo bateu em Bernabé/Bernabé bateu em Muchilanga que bateu em Burundanga/eles enchem os pés/Monina).

militares. Depois de empregar o ancestral recurso da troca de roupas e de identidades, os dois passam a enganar a quase toda uma pequena cidade, que tinha ficado isolada do resto do país por causa de uma terrível tempestade. As autoridades locais acreditam que a presença dos militares obedece à iminência de um golpe de Estado, que uma revolução está em andamento. A cidade divide-se em várias facções de apoio ao novo regime e a dupla tenta tirar toda a sorte de vantagens da situação. Depois de uma série de golpes e contragolpes, a peça encerra- se com o autoexílio de Mathias Cão e João Teité. Bem ao estilo da Commedia dell’Arte, Teité reencontra a sua desaparecida irmã Mateúsa, que acaba se “engraçando” com Mathias Cão. Com o recurso cômico do reconhecimento e da fuga, chega ao fim essa deliciosa paródia popular dos golpes de Estado que assolaram o Brasil e o resto da América Latina em tempos recentes.

Sacra folia estreou em São Paulo, em 7 de dezembro de 1996, no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, sob a direção de Ednaldo Freire. Sem afastar-se completamente da comédia assumida e profana, a peça inspira-se no teatro religioso medieval, especificamente no Auto de Natal trazido pela cultura ibérica durante o período colonial. O espetáculo tem a estrutura de um típico Auto de Natal, com o sabor dos folguedos apresentados no ciclo das festas natalinas, com bailados e cantos, onde as personagens exercem função alegórica e representam figuras bíblicas. Abreu consegue atualizar esse gênero teatral, aparentemente ingênuo e moralizante, numa peça carregada de jogos metonímicos e de jocosas analogias. O arcanjo Gabriel, no saguão do teatro, encarrega-se de fazer o rito de passagem da realidade cotidiana para a ficção, que vai se desenvolver no espaço cênico.

No segundo prólogo do Auto, denominado A matança dos inocentes, encontramos a denúncia da chacina das crianças da Candelária, que aconteceu no Rio de Janeiro em 1993, apresentada de forma simétrica com o morticínio dos inocentes da Betânia bíblica. A trama da peça informa que a Sagrada Família está sendo perseguida pelo rei Herodes e seus soldados. Maria, José e o menino Jesus perdem-se durante a fuga para o Egito e acabam, num jogo temporal totalmente lúdico, chegando miraculosamente em Belém, do Pará, no Brasil. A feroz perseguição continua em solo pátrio e a Sagrada Família, acossada pelo medo, não tem outra opção senão aceitar a ajuda de dois sujeitos, dignos representantes dos desfavorecidos da terra, João Teité e Mathias Cão. O plano da dupla macunaímica consiste em livrar-se de Herodes e restabelecer a rota de fuga original da Sagrada Família. A peça encerra-se com um

divertido jogo de forças entre o pacato arcanjo Gabriel e o ladino João Teité, concluindo com a vitória de Teité que consegue a permanência do Menino Jesus em território brasileiro até completar os doze anos de idade. “Gabriel: E assim foi/E assim ficou sendo/E o mundo ficou sabendo/Onde o menino-Deus/Permaneceu até os doze anos/Até ser visto novamente/Ensinando os doutores do templo” (Ibidem, p.29).