A criação da Fraternal Companhia de Arte e Malas-Artes foi o resultado de uma amizade singular em um contexto adverso. A fundação da companhia aconteceu na última década do século XX, mais precisamente no início dos anos 1990, na época em que o mundo assistia ao colapso da União Soviética, ao horror da primeira Guerra do Golfo, e à chamada globalização da economia mundial. No Brasil, o Plano Collor, em 16 de março de 1990, confiscava a poupança dos cidadãos em nome da “retomada do desenvolvimento nacional”, provocando uma das mais terríveis recessões vistas no país. Dois anos mais tarde a sociedade civil conseguiria impugnar o mandato do repudiado presidente, por meio de uma ampla mobilização dos diversos setores da população que ficou conhecida como o movimento dos “caras pintadas”. Porém, o malfadado plano econômico já havia provocado efeitos devastadores nas finanças brasileiras e suas consequências tinham repercutido também na área cultural da pior forma possível. Os orçamentos das instituições governamentais foram reduzidos drasticamente em resposta à política de contenção de gastos e de enxugamento do Estado. Na época, o Ministério da Cultura, criado em 1985, acabou transformado em órgão atrelado à Presidência da República, o que provocou uma enorme desordem administrativa que quase paralisou a produção cultural do país.
Dentro desse contexto histórico bastante desalentador surgiu, na cidade de São Paulo, uma iniciativa singularmente agregadora, que teve a ousadia de inventar um caminho próprio para enfrentar a desordem generalizada no âmbito do teatro independente paulistano. Essa iniciativa consistiu na fundação da Fraternal Companhia de Arte e Mala-Artes. É importante destacar que o nascimento da Fraternal propiciou o reencontro de antigos parceiros de ofício e de militância teatral dispostos a retomar e amadurecer propostas vinculadas à pesquisa sobre teatro popular, esboçadas por eles em trabalhos anteriores. Assim, no ano de 1993, o diretor teatral Ednaldo Freire e o dramaturgo Luís Alberto de Abreu, que tinham sido parceiros no movimento estudantil secundarista da década de 1960, fundaram a Fraternal Companhia de
Arte e Malas-Artes na capital paulistana. O objetivo que os unia era o de constituir um coletivo que lhes permitisse realizar um estudo sério e atualizado sobre os fundamentos da comédia popular brasileira. Inicialmente, a Fraternal contou com a participação dos atores amadores provenientes do Grupo Teatral da Associação Desportiva e Cultural, ADC Siemens,6 grupo dirigido por Freire, dedicado à atividade teatral com patrocínio empresarial, que posteriormente se tornou independente e enveredou para o profissionalismo. Atores vindos de outras experiências incorporaram-se depois da fundação; é o caso da atriz Mirtes Nogueira, que integrou a primeira formação da Fraternal e tinha acabado de deixar o curso de interpretação do Teatro Escola Macunaíma. Em 1999 somaram-se outros dois atores, Aiman Hammoud, vindo do Teatro Aplicado, e Edgard Campos, proveniente do Centro de Pesquisa Teatral do diretor Antunes Filho. Hoje esses três atores são merecidamente considerados como os membros “históricos” do grupo.
No excelente prefácio escrito por Ilka Marinho Zanotto para a antologia Luís Alberto de Abreu - um teatro de pesquisa, organizado por Adélia Nicolete, encontramos uma frase que nos revela o grau de aproximação que existia entre Abreu e Freire, vínculo que existe ainda hoje e que permeia as relações entre todos os integrantes da Fraternal. A frase em questão denota a qualidade entranhável, a profunda amizade que aproximava os fundadores: “Da parceria imprescindível [de Abreu] com Ednaldo Freire nasce a Fraternal Companhia de Arte e Malas-Artes” (2011, p.11). Era uma amizade que tinha nascido no e para o trabalho teatral. Luís Alberto de Abreu e Ednaldo Freire tinham compartilhado outra parceria imprescindível, a experiência de fazer parte do Grupo de Teatro Mambembe, criado pelo escritor e diretor Carlos Alberto Soffredini (1939-2001). Desde 1976 Soffredini trabalhava com as raízes da cultura popular, direcionando o seu olhar para o estudo do circo-teatro paulista e para a pesquisa de uma forma brasileira de interpretação. Em 1985 Soffredini fundou o Núcleo de Estética Teatral Popular (ESTEP), dedicado a aprofundar a investigação sobre a estética das manifestações populares na representação teatral e a encenação de peças da sua autoria. Atualmente, a sua filha, Renata Soffredini, dá continuidade ao trabalho iniciado pelo pai.
6 As peças montadas por esse grupo foram: Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna (1981); Quem nasce pato
não chega a cisne, de Paulo Afonso Grisolli e Tite de Lemos (1982); Portobello Circus – A história de muitos amores, de Domingos de Oliveira (1985); O santo e a porca, de Ariano Suassuna (1986); O capeta de Caruaru, de Aldomar Conrado (1992); e O pagador de promessas, de Dias Gomes (1993).
Hoje, transcorridos dezoito anos de trabalho, durante os quais a Fraternal montou dezesseis peças, recebeu diversos prêmios e participou de inúmeros festivais, o coletivo destaca-se como um grupo independente consolidado, empenhado na pesquisa da cultura popular brasileira e universal. Analisando o longo caminho percorrido pela Fraternal podemos apontar três grandes fases ou períodos, pautados pela intensa produção do grupo. Essas três fases foram explicitadas na dissertação de mestrado Projeto Comédia Popular Brasileira da Fraternal Companhia de Arte e Malas-Artes (1993-2008): Trajetória do Ver, Ouvir e Imaginar, da pesquisadora Roberta Ninin, defendida no ano de 2009 no Instituto de Artes da UNESP. Ninin assinala que:
Em sua primeira fase (1993-1997) – VER, a Fraternal cria personagens-tipo brasileiras, influenciada pelos comediógrafos Martins Pena, Artur de Azevedo e Ariano Suassuna, retomando o diálogo com os tipos fixos da Commedia dell’Arte. Na segunda fase (1998-2001) – OUVIR, as personagens-tipo cedem o protagonismo às personagens inspiradas nas festas populares medievais, pautadas no estudo teórico de Mikhail Bakhtin. E na terceira fase (2002-2008) – IMAGINAR, atores saltimbancos apresentam as personagens por meio da narração e da representação. (NININ, 2009, p. 5)
Inicialmente, o grupo tomou a determinação de mergulhar fundo à procura das raízes da comédia popular brasileira, “visualizando” as personagens fundadoras da comédia carioca do século XIX e da comédia nordestina do século XX. Em um segundo momento, estabeleceu um contato produtivo, “ouvindo” a comédia épica de origem nórdica e medieval, devotando- se ao exaustivo trabalho de nacionalização das personagens cômicas desse universo. Finalmente, dedicou-se com afinco à empreitada de construir ou “imaginar” os seus espetáculos na perspectiva do denominado teatro narrativo.
Uma quarta e nova etapa, não estudada no trabalho de Ninin, inicia-se em 2009 com a encenação da peça A história de muitos amores, do autor carioca Domingos de Oliveira. Essa montagem parece apontar para a retomada de uma antiga parceria entre Freire e Oliveira, que remonta à época do Grupo Teatral ADC Siemens, quando foi montada a mesma peça com o nome Circo Portobello, em 1985. É importante notar que o anterior trabalho colaborativo com Luís Alberto de Abreu não foi interrompido, na medida em que a Fraternal continuou encenando as suas peças, como constatamos na remontagem de Auto da paixão e da alegria e de Sacra folia, que o grupo levou aos parques das cinco regiões da Grande São Paulo dentro do projeto Palco Itinerante, iniciado em 24 de abril de 2011 e encerrado em outubro do mesmo ano. O palco itinerante é um caminhão-palco, que comporta espaço de representação e área para um público aproximado de duzentos espectadores. É uma carreta de onze metros de
comprimento onde foi acoplado um baú, cujas laterais se abrem, revelando um palco de mais de oito metros de largura por quase sete metros de profundidade.