5 Kartografisk analyse
5.2 Schönings kart over Sør-Norge fra 1778
Nesse eixo de discussões, um capítulo à parte é o seringueiro, “o homem que trabalha para escravizar-se”. Boa parte dos seringueiros são migrantes nordestinos fugidos da seca. A narrativa “Os inimigos” [SNA] demonstra a presença nordestina na Amazônia, com representantes do Piauí e da Paraíba. Em “O Cedro do Líbano” [SNA], Rangel descreve o trabalho nos seringais: “O seringueiro é constante andador; alonga as explorações ou abandona-as por outras; reveza o serviço nas estradas diferentes em que circula, numa órbita fechada [...]” (p. 261). Comparativamente, há muito mais espaço para o seringueiro no Inferno Verde que em Sombras n’água.
Na terra sem leis, o seringueiro cuidava da própria segurança e sobrevivência na selva amazônica. Para tanto, em “Teima da vida” [INV], Rangel demonstra como o Direito era garantido por cada um:
Não há seringueiro, por assim dizer, que não possua um rifle: - a clavina Winchester. É o meio de assegurar e também a garantia do Direito que em toda parte é dada pela força, identificada por Carlile ao Direito. “A Justiça aqui é o 44”, proclama o seringueiro [...] Tradução ao pé da letra do conceito, que Von Ihering formulou com menos crueza e idêntica filosofia, e resume a triste condição da vida nas sociedades. (p. 110)
Esses rifles serviam, na ausência de fogos de artifício, para a comemoração do São João. Esse capítulo das salvas de tiros remete ao conto “Judas-Asvero” de Euclides da Cunha.
“Um conceito do Catolé” [INV] aborda desde a partida do cearense João Catolé até sua chegada em Manaus e fixação no barracão dos seringais. “A pátria encantada do caucho” não parava de receber “muita gente miserável”. Há trechos relativamente longos com descrição sobre Manaus e os locais onde se albergavam os miseráveis. Esse conto assinala a possibilidade de Catolé seguir outro destino: a colônia do Governo,
lócus diverso dos seringais. Os colonos culpavam a terra pelos insucessos da
agricultura.
Desde o primeiro conto, Inferno Verde trata dessa figura, registrando a onda migratória de “cearenses” para o seio da floresta, o que provocava a desconfiança do caboclo nativo. O trabalho nos seringais impulsiona a poiesis rangeliana. Para Rangel, vale deixar no registro literário a fala regional do povo caboclo e dos seringais. Nessa prosa amazônica, ela já é entendida dentro de um caldo cultural muito mais complexo, como matéria substancial para a definição da nacionalidade perdida nos confins amazônicos. Exemplos não faltam. Como o que se selecionou de “A traição dos rastos” [SNA]: “Arresolvi!” Lá p’r’as três da madrugada, o “gaiola” do Mendes deve “de” atracar no porto do Marciano p’ra tomar lenha e eu aproveito a monção...” (p. 177-178). Entrementes, o “cearense” não participa apenas dos serviços nos seringais. Pode estar ao lado de um engenheiro na abertura de picadas na floresta ou na demarcação das terras. Em “Um homem bom” [INV], o narrador marca a fala do cearense: “- Nem lhe conto, ‘seu’ doutor. E continuou num solerte desabafo, passado na prosódia peculiar aos hábitos de linguagem de velho sertanejo [...]” (p. 92)
Em “A expulsão do ‘Paraíso’” [SNA], Pedro de Deus e Rosa representam a fala do ribeirinho: “Vão queimar ‘será’ o campo?” (p. 251). “Um conceito do Catolé” [INV], pelos vários diálogos, também servirá como fonte de exemplo: “- Então? seu Pedro Malasartes, acaba-se ou não se acaba com o diacho desta manjedoura? Hein? Seu cara de cera “pro” Santíssimo! Eu já estou que nem uma “briba espritada”!” (p. 54)
O narrador de Inferno Verde exemplifica o diálogo das “caboclinhas cheirosas” em “Terra Caída” [INV]: - “Axi! Tertulina...” – “... O Manduca não veio ao baile. Está pro lago, diz que com o Cazuza...” – “A comadre Caterina está esperando...” – “Prima! Venha...” (p. 86)
Certamente, essa fala marca as diferenças entre o narrador e o personagem. No caso rangeliano, de início do século, vale a tentativa de não abominar formas linguísticas que
insistiam em ser vista pelo português standart como desprezíveis para a constituição da cultura nacional. A língua geral amazônica continuava se renovando.
Ainda sobre o seringueiro, outro aspecto problemático refere-se ao regime de trabalho. Em “Maibi” [INV], revela-se o que pode estar em jogo na quitação de dívidas contraídas no barracão:
Mas, que negócio fora afinal firmado? O Sabino devia ao patrão sete contos e duzentos, que a tanto montava a adição das parcelas de dívidas de quatro anos atrás, e cedia a mulher a um outro freguês do seringal, o Sérgio, que por sua vez assumia a responsabilidade de saldar essa dívida. O mais comum dos arranjos comerciais, essa transferência de débito, com o assentimento do credor, por saldo de contas. (p. 121)
A narrativa afirma novamente o resultado social das condições de semiescravidão dos seringais: “Compreendia Sabino que em companhia da esposa, por mais que trabalhasse nunca pagaria a dívida crescente e escravo se tornava.” (p. 122). O pandemônio das crueldades do trabalho seringueiro submetem a narrativa ficcional a ceder espaço para a crítica político-social. Rangel começa sua análise sociológica: “ ‘Tirar saldo’ é a obsessão do trabalhador, no seringal. E como não ser assim, se o saldo é a liberdade? O regime da indústria seringueria tem sido abominável. Institui-se o trabalho com a escravidão branca!” (p. 122). Na sequência, expõe o esquecimento do governo central do Brasil sobre a Amazônia e o processo de globalização do capital a que esta se subjugava, sem a atenção devida para o controle social nas relações de trabalho inauguradas por novas atuações da economia global:
[...] Demais, fora preciso organizar, em plena selva aquilo de que o pensamento social do país, focado na Rua do Ouvidor, não a cogitara nunca. [...] Incrível dizer-se – foram seringueiros que golpearam a lei fundamental da nação livre! Porquanto aconteceu então, ante condições especialíssimas, o que se houvera seguido espontaneamente não bastava. Um seringal, em fim de contas, não era a estância de gado, nem a fazenda de café, nem o engenho de cana. [...] Desde logo o que a legislação não previu, a indústria nascente fundou. [...] (p. 122)
“Maibi” representa a síntese ficcional dos trabalhos nos seringais. Somada ao atributo da semiescravidão, o serviço exigia um regime de isolamento devorante. O agrupamento social reduzido permitia poucos momentos de lazer e descontração. O perigo de morte na floresta faz parte da máquina da indústria gomífera. Em dado trecho da narrativa, Sabino tencionava substituir um seringueiro morto por uma picada de serpente tucanabóia. Mesmo diante de todos os riscos, a ilusão do eldorado agenciava mais cinquenta cearenses, trazidos pelo “gaiola” da “casa aviadora”, como um navio negreiro.
Em meios aos mecanismos de extração da borracha, traduz-se a ignorância de seringalistas e seringueiros na preservação da floresta, considerando infindável o leite
das árvores, o que determinava a decadência breve do período gomífero: “Um máximo de produto, mesmo à custa do aniquilamento das árvores, exigia o patrão, na formidável ignorância que, generalizada, liquidaria a principal riqueza da bacia amazônica, estacando-a na sua fonte.” (p. 127)
Decalcando a figura de Sabino, o narrador rangeliano descreve o traje dos seringueiros ao partir para o trabalho nas “estradas”:
[...] Este vestia uma camisa sortida, calças trapejando nos pés metidos em sapatas de borracha; e, tinha a cabeça rebuçada na chita do mosquiteiro. Aparalhava-o o terçado enfiado na cinta, nas mãos o machadinho e o balde; pendido ao flanco um pequeno saco e o rifle atravessado nas costas. O uniforme traduzia a miséria e o arriscado do ofício. (p. 128-129)
O espaço habitual dos seringueiros recebe a descrição a seguir:
[...] A estrada frondejada é apenas um trilho, em busca das árvores a cortar. Mas, quase sempre a linha poligonal mantém a orientação que fecha sobre si mesma. Por vezes dispartem dela outros polígonos menores: - as “voltas”, ou simples linhas: - as “mangas”; mas, sempre o seu traço total é o de um carreiro, enrodilhando a centena de “madeiras” a explorar. O seringueiro no “fábrico” percorre-a às pressas. Vai muitas vezes mesmo antes que amanheça, então à luz do “farol” ou lamparina, embutindo as tigelinhas sob o golpe pequeno e em diagonal, na devida “arreação”; voltará imediatamente nas mesmas pegadas a fim de recolher, no balde, o leite das tigelas. [...] (p. 130)
A estrada do seringueiro transforma-se em um dédalo intrasponível. Não se sabe se a vida será preservada após a entrada pelo labirinto, mesmo que se utilize o fio de Ariadne. Este parece romper diante da insólita condição humana nos seringais. A Ariadne amazônica, a Maibi, sangra junto com a seringueira, enrolada nesse pelourinho. Em sua estética labiríntica, o narrador recompõe parte das aporias do caminho palmilhado pelo “brabo”.