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Amtskartet over Smaalenenes Amt (Østfold) fra 1826

In document NORSK KARTOGRAFI I ET MAKTPERSPEKTIV (sider 74-82)

5 Kartografisk analyse

5.4 Amtskartet over Smaalenenes Amt (Østfold) fra 1826

Desde a chegada dos primeiros colonizadores, a Amazônia transformou-se em um lócus de mestiçagem cultural. A etnografia amazônica da época de Rangel evidenciava o processo civilizatório por trás da chegada e da presença dos imigrantes vindos de todas as partes do mundo. O narrador rangeliano demonstra desconfiança em face da excessiva presença estrangeira e dos aproveitadores nos diversos setores.

O estrangeiro e o imigrante surgem, muitas vezes, com a aparência de parasitas. Em “O caçador de plumas” [SNA], há um inglês, sem identificação, que paga alto por penas

de aves. “O Viking” [SNA] estampa o comerciante inglês John Bull, explorador do ramo das comunicações telegráficas. A rede telegráfica surge como mais um aspecto da modernização na selva. Tratava-se da conexão da Amazônia com o mundo globalizado, sem fronteiras.

Rangel atribui ao próprio rio Amazonas a capacidade de vingar-se do “trabalho civilizador dos beefs”, haja vista a dificuldade de instalação da rede. No mesmo conto, aparecem alguns chineses contemplativos, observando o transporte do cadáver da cabocla Raimunda. Na tripulação do Cruzeiro, havia também negros africanos de Serra- Leoa. Esses servidores colocaram o corpo da cabocla dentro do Viking. O Cruzeiro parece simbolizar igualmente o sonho dourado para o processo civilizatório da Amazônia, como “terra de ninguém”.

“O cedro do Líbano” [SNA] aponta índices de nacionalidade na floresta amazônica. Comparativamente, percebe-se como Jacob identifica-se com a árvore simbólica de sua pátria, enquanto sua esposa simboliza a natureza da Amazônia. Ao levar uma muda do cedro para a Amazônia, a metáfora da narrativa está armada. Assim como o cedro transplantado, a vida do judeu passou pela mesma experiência. Entretanto, o ambiente foi mais hostil ao cedro: “A canícula e a friagem igualmente o estiolavam; nos vasos constitucionais ia rareando a seiva, que o solo impróprio negava ao estrangeiro.” (p. 292)

Mesmo em face da morte do arbusto, o judeu vive a ilusão de que ele floresce. A sandice do judeu recebe boa vazão no discurso literário. Essa ilusão adquire outra magnitude, como se a poética pudesse reconstruir a realidade, não obstante seja imperceptível. Rangel ativa a capacidade criativa do leitor, levando-o a uma reflexão de que a literatura pode ser o espaço da loucura. Esse é mais um daqueles exemplos que colocam a prosa rangeliana na divisa entre o verossímil e o inverossímil. Ao arrancar o resto da planta, Serafina decreta o fim da vida de Jacob.

Nesse conto, o índice de nacionalidade aventado inicialmente chega a seu patamar superior no desfecho: “[...] A ruptura de um aneurisma, derrubara o marido lunático, fulminando-o mesmo no local onde existira a planta da terra dos Patriarcas, transferida para servir de vínculo entre o emigrado e a Pátria [...]” (p. 296)

Entre os vários estrangeiros presentes na Amazônia, Alberto Rangel destaca, em “O cedro do Líbano” [SNA], a presença dos judeus na atividade comercial de regatões.

Rangel encaixa a imagem do “Ashaverus ciganado” para o turco Jacob. O nômade sírio se faz sedentário após o casamento com a obidense D. Serafina e a compra da fazenda no rio Majari. É Samuel Benchimol (1998) quem nos ajuda a entender o fenômeno migratório dos judeus em Eretz Amazônia. Pode parecer exagerada nossa afirmação, mas Alberto Rangel constitui a história da literatura amazônica de ascendência árabe- judaica, representada contemporaneamente por Milton Hatoum. Há um dado que não pode ser descartado em “Hospitalidade” [INV]. O narrador-personagem compara o solitário bandido Flor do Santos, que lhe deu abrigo, a uma “árabe sertanejo”.

A crítica ao estrangeiro perpassa a narrativa de “A teima da vida” [INV], quando o narrador cita o português Thomé Rodrigues Pereira, trabalhador do seringal do Cambito:

[...] O estrangeiro ficou em Manaus, na judiaria do comércio, da letra e respectivo desconto e da jigajoga do cambio. Na empresa fantástica de penetrar e estabelecer-se na zona perigosa, foi o nosso compatriota o atrevido. O estrangeiro sequioso, mas cauto, deteve-se no ponto tático, favorável à especulação das trocas. O aborígene sacrificava-se francamente, arremetendo para estranhos paramos, onde a Morte tinha um trono e vassalagem; o emigrado europeu fartava o bandulho, arriscando a pele um quase nada... (p. 116-117)

Nessa narrativa, o português Thomé Rodrigues Pereira contraria essa crítica. Embrenhou-se na estrada do seringal e teve uma das pernas “semi-devorada” por conta de doença adquirida na floresta. O narrador-viajante colhe parte da vida desse português:

Pondo-me ao par da origem e marcha de sua mazela, o desventurado contou-me a vida. Nunca mais tornara ao berço em que nascera. “Vinte anos, senhor, por este mundo de Cristo...” Da aldeia, no Minho, afivelada a uma rampa aprazível de vinhedos e pinheiros, viera para arrais de barco no Funchal; depois... depois, em Bragança, no Pará, abrira uma mercearia. Nem sabia como estava ali, no seringal, com o “estupor” daquela moléstia. Nunca mais tivera notícia da pátria e da família, resumidas no eirado e na noiva. (p. 117)

Em “O leproso Xavier” [SNA], Rangel denuncia a presença histórica do “europeu vindiço” (intrometido, aproveitador):

[...] O Brasil, de cabo a cabo, foi transposto e catado pela matula dos pescadores de índios, de especiarias, de ouro, de diamantes e de esmeraldas. As essências florestais da Amazônia renovaram aos nossos olhos a falta de medida e acordo dos pesquisadores de riquezas naturais, cambada que encheu de viciosas e ambíguas legendas a histórica peca e atrapalhada deste país colosso e infante, entre a cruz e o arcabuz. [...] (p. 220)

Esse registro dos imigrantes perpassa outras obras do pré-modernismo brasileiro, como

Canaã, de Graça Aranha. Outros naturalistas-viajantes, pesquisadores, aparecem na

ânsia de solucionar problemas científicos, como o botânico alemão de “O marco de sangue” [SNA].

Dentre os estrangeiros, havia na Amazônia vários missionários e religiosos. Rangel recupera a história de algum deles, em referências diretas ou indiretas. O padre italiano Lourenço de “O Evangelho nas Selvas” [SNA] apresenta mais uma das antilogias amazônicas entre religião e economia. Além de ter mantido um furtivo romance com a personagem Filomena, a estada do padre significava perdas econômicas para os produtores de borracha:

[...] A passagem do padre prejudicava mais que a entrada perniciosa do regatão. [...] E, porque, durante a estadia do emissário do Altíssimo, quinhentos machadinhos deixaram de cortar, oito dias em média, seis mil quilos de borracha, além de quinze contos em saques, seriam exauridos de uma sentada, pelo acesso do impostor, na valeira estorcida de um ribeiro inóspito e gomífero! (p. 78) Demorando-se a fitar o caminho por onde deslizara a galeota do Reverendo, o seringueiro foi orçando as perdas efetivas, causadas pelo hóspede atravessadiço e importuno. Computara os prejuízos que a estranha personagem acarretara à safra. [...] (p. 83)

A própria narrativa sugere outra inesperável contradição. O padre Lourenço utilizava-se do hábito apenas para auferir lucros e roubar os coronéis do barranco, traindo a ingenuidade ribeirinha: “[...] O Reverendo espernegava-se ao longo do estrado, na tolda, nessa hora, dormitando no cálculo fagueiro dos lucros abundantes da frutuosa alicantina de regatão de Jesus. [...]” (p. 84-85). O narrador complementa a ação do aproveitador, como se não fosse possível confiar na religião e nem mesmo em qualquer estrangeiro:

[...] Não custou ao missionário, ardendo por deixar bem para trás o teatro de tráfico, com a avultada e preciosa carga apresada no seu corso apostólico, transferir-se para o barco de acaso; e, muito menos em Manaus, vender a borracha e liquidar o maço dos seus saques seguros. (p. 85) [...]

Abandonado o hábito talar e retomado o verdadeiro nome, Benevenuto Roncallo adquiriu o bilhete de primeira classe para Genova. [...] (p. 86)

Em “Pirites” [INV], cita-se a figura do português Frei José dos Inocentes, que exerceu seu ministério na região de Rio Branco na década de 1840. Em dois contos de Inferno

Verde, o padre João Daniel surge como citação corrente: “O tapará” e no conto

homônimo. Esse fato pode ter suscitado a observação de Péricles Moraes:

[...] Aliás, o autor de Inferno Verde, a inferir-se da legenda que lhe emoldura o trabalho, parece ter ido buscar, por suas vez, subsídios na obra do padre João Daniel, que, como é sabido, fez grandes estudos e explorações no “hinterland” amazônico.(MORAES, 2001, p. 24)

A região norte brasileira estabelece fronteira com outras Amazônias da América do

Sul. No Javari, como narrado em “O leproso Xavier” [SNA], havia a proximidade

comercial e as tensões com os peruanos de Caballococha ou Moyobamba. Nessa narrativa, atribui-se a doença do protagonista a sua relação com Mercedes, quíchua e prostituta peruana. Em À margem da história, ao tratar dos caucheiros, Euclides produz uma crônica sobre um posto próximo à localidade de Shamboyaco. As impressões do

narrador euclidiano demonstram a coisificação do caucheiro Piro em casebre abandonado: “Esta cousa indefinível que por analogia cruel sugerida pelas circunstâncias se nos figurou menos um homem que uma bola de caucho ali jogada a esmo.” (CUNHA, 1999, p. 51)

“A teima da vida” [INV] demonstra como os caucheiros não eram vistos com simpatia pelos seringueiros. O conflito das Amazônias instabilizam as relações fronteiriças, colocando-as em pé de guerra: “[...] Todos os estigmatizavam, enlaçando-os num apodo: - ‘gringos desgraçados’.” (p. 115). “O marco de sangue” [SNA] reproduz o conflito étnico-político por terra entre o coronel Serafim e o explorador de caucho, o boliviano D. Cecilio Castañeda.

Nessa miscelânea de povos da Amazônia, em sua máxima abrangência, cabem informações do narrador sobre a proximidade do Brasil com o Suriname e a Guiana em “O Cedro do Líbano” [SNA]. Rangel e Euclides sobrelevam as relações da larga fronteira amazônica, frisando suas semelhanças e diferenças. Em “Pirites” [INV], aparece um colombiano responsável por misturar seixos e areias com palhetas de ouro vindo de Minas Gerais.

A influência francesa perpassa a prosa de Rangel num indício de permanência da belle

époque nas metrópoles amazônicas. E os modelos franceses estiveram muito presentes

na arquitetura, na economia e no modo de vida das principais cidades da Amazônia brasileira. Quiçá, o ciclo da borracha tenha representado um dos últimos períodos de forte influência da cultura francesa. Esse elemento constitui as contradições históricas próprias da época gomífera. Rangel não foi o único prosador da tradição literária amazônica a ser assaltado por influência: desde Lourenço da Silva Araújo Amazonas, em Simá, até o princípio do século vivenciava-se a voga do francesismo nas letras amazônicas. Observando apenas Inferno Verde, uma das primeiras referências à literatura francesa é um conto de Charles Perrault, famoso na literatura infantil com contos sobre Chapeuzinho vermelho e A bela adormecida, além de se referir a Victor Hugo, Tristan Corbière, Rabelais, Musset, Jean Moréas.

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