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State of the Art and Expected Future Trends

2.3 Scenegraph Systems

Após o momento inicial de “O recado do morro” em que se sucedem uma rápida apresentação do perfil das personagens, o propósito da viagem, e ainda, descrições acerca do espaço, fauna e flora do sertão, temos o desenrolar dos acontecimentos que envolvem a trama rosiana. Momento esse marcado pela viagem de ida e volta da expedição e a transmissão de um recado supostamente anunciado por um morro, e que foi audível apenas por um estranho sujeito, o Gorgulho, também conhecido como Malaquias.

A partir desse momento, então, temos uma viagem pelo espaço físico, desempenhada por Pedro Orósio e os outros viajantes e, uma viagem mítica, a da palavra, que também encontra pouso durante a passagem pelas fazendas, assim como o grupo da expedição, mas ganha dimensões inexploradas e adquire novas significações em cada novo transmissor- receptor do recado.

Benedito Nunes, em seu ensaio intitulado “A viagem” (1976), nos fala a respeito desse tema, recorrente na literatura rosiana e presente em outras narrativas de Corpo de baile como “Campo geral” e “A estória de Lélio e Lina” em seus desfechos, ou então, em “Cara-de- Bronze”, que narra a estória do vaqueiro Grivo que sai à procura da “palavra e da criação poética”, “o quem das coisas”, para o seu patrão, mas, na volta, traz o relato poético de tudo que vivenciou. Se em “Cara-de-Bronze” o homem é quem vai atrás da palavra, na novela “O recado do morro” esse processo é o inverso. O poético presente no recado parece perseguir seu destinatário, sem que este o saiba, permanecendo, desse modo, a incerteza em relação à

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significação guardada na mensagem outrora “mandada” pelo morro.

Cabe, neste ponto, traçar um breve paralelo entre os destinatários ou espectadores do recado, Pedro em “O recado do morro” e Segisberto em “Cara-de-Bronze”. Para que a compreensão seja possível, Laudelim e Grivo atuam como intérpretes da mensagem e desempenham papel fundamental para que os receptores da palavra poética consigam obter a apreensão de seu conteúdo. Compreensão que em “O recado do morro” é dada enquanto experiência, visto que Pedro só compreende o recado quando este passa de uma linguagem sem as possibilidades de comunicação para a forma de canção popular, conhecida por Pedro, na versão de Laudelim, possibilitando-lhe reagir contra uma emboscada que ameaçava lhe ceifar a vida. Em “Cara-de-Bronze” Segisberto não conta com uma ameaça de morte semelhante à de Pedro, que é por conta de ódio e inveja, mas sim por causa da idade avançada e de doenças. Em Segisberto, em nosso ponto de vista, o conteúdo presente no relato poético acarreta em uma mudança do seu próprio horizonte de vida, ficando a cargo do leitor verificar as possibilidades de uma sobrevida ou morte por parte do fazendeiro, já que a narrativa, em seu final, é suspensa e não indica o que ocorre com o “Cara-de-Bronze” após o momento em que vivencia a experiência de uma viagem “representada” no relato de Grivo.

Retomando nossa leitura de “O recado do morro”, Pedro Orósio, ao se deparar com a figura imponente do Morro da Garça e com o suposto recado emitido por este, por intermédio de Gorgulho, não dá grande importância ao ocorrido e acredita que aqueles dizeres proclamados pelo velho se constituíam apenas como “poetagem” ou “maluquice”. Pedro mal podia imaginar que aquele recado guardava a sua sentença, o único caminho para escapar de seu destino trágico. Pedro, por ser “daqueles gerais”, já ouvira falar diversas vezes a respeito do Morro da Garça, aquele morro “que sempre dava ar de estar num mesmo lugar, sem se aluir” (ROSA, 1956a, v. 2, p. 411), que, dessa maneira, “testemunhava” cada passo da viagem.

Dessa maneira, o Morro da Garça acaba por se configurar em um ente sobrenatural por conta do caráter mítico que o envolve. Para Mircea Eliade, os personagens dos mitos são os entes sobrenaturais, e estas estórias sempre se constituem em uma narrativa de “criação”, neste caso a formação de uma canção. Guimarães Rosa se expressa dessa forma em carta com o seu tradutor italiano:

“O recado do morro” é a estória de uma canção a formar-se. Uma “revelação”, captada, não pelo interessado e destinatário, mas por um

80 marginal da razão, e veiculada e aumentada por outros seres não-reflexivos, não escravos ainda do intelecto: um menino, dois fracos de mente, dois alucinados — e, enfim, por um ARTISTA que, na síntese artística, plasma-a em CANÇÃO, do mesmo modo perfazendo, plena a revelação inicial. (ROSA, 1980, p. 59)

Nesse jogo de recepção-transmissão do recado entram em cena a figura de sete mensageiros, entre eles, velhos, loucos, uma criança e um artista. Alguns deles fracos de mente (Guégue e Jubileu), alucinados (Coletor e Catraz), um marginal da razão (Gorgulho), um menino (Joãozezim), e, por fim, um artista (Laudelim), que, apesar de não terem consciência do conteúdo do recado, acabam, cada um a seu modo introduzindo novas significações e gestos até o recado ganhar a forma final.

Sobre os elementos do recado que aparecem nas primeiras manifestações ou passagem por seus mensageiros podemos destacar incialmente a versão de Gorgulho. O estranho sujeito afirmara ter escutado o Morro da Garça mandar aviso, mas frei Sinfrão não acreditava que o morro pudesse se comunicar com os seres humanos e se indaga se o som escutado por Gorgulho não poderia ser algum desmoronamento subterrâneo de camadas calcárias. No entanto, o frade afirma que este tipo de acontecimento normalmente acontece por volta da lua- cheia. Dessa forma, Pedro Orósio não acredita e encontra motivo para riso na possível relação entre o morro e os dizeres de Gorgulho.

Mas, não, ali ilapso nenhum não ocorrera, os morros continuavam tranqüilos, que é a maneira de como entre si êles conversam, se conversa alguma se transmitem. O Gorgulho padeceria de qualquer alucinação; êle que até era meio surdo. E Pedro Orósio, que semelhava ainda mais alteado, ao lado assim daquele criaturo ananho, mostrava grande vontade de rir. (ROSA, 1956a, v. 2, p. 399)

No trecho destacado constatamos uma espécie de “confirmação” da condição “marginal da razão” de Gorgulho, mas o sujeito mesmo sabendo que não estava tendo a merecida atenção reconta o que ouvira do Morro da Garça. Nesta primeira versão do recado encontramos os primeiros elementos que encontraram ressonâncias na forma final de canção, entre eles, a figura de um Rei, a morte à traição, a noite, festa, toques de caixa e a caveira. Elementos expressos em relato de forma desconexa e confusa.

A segunda versão do recado se manifesta pela figura de Catraz, irmão de Gorgulho. Esse fora visitado pelo seu irmão mais velho porque planeja se casar, mas recebe conselho para que aguarde. Na versão de Catraz reaparecem elementos já ditos por Gorgulho como a

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presença de um Rei, morte à traição, a caveira, entre outros, mas temos como novos recursos o número de sujeitos participantes da execução do destino do Rei, favoroso, com os seus seis ou sete Apóstolos.

A terceira versão do recado nasce por intermédio da visão lúdica de uma criança, o menino Joãozezim. Ele que observara as palavras proferidas por Catraz e conta para o bobo Guégue aquilo que havia apreendido como principais informações. O relato do menino encontra um aspecto organizacional diferente em relação aos dois recadeiros predecessores e mostra, além dos elementos destacados nas versões anteriores, o instrumento que se fará a execução da vingança, a espada.

A quarta versão do recado, a do bobo Guégue, é baseada naquilo que lhe é dito pelo menino Joãozezim. Apesar do relato confuso e de tom apocalíptico observamos elementos como o sino-saimão (signo de Salomão), os doze apóstolos, os sete homens que irão marcar o destino do Rei e a indagação de sua “sorte”.

Entre esse processo em que cada um dos mensageiros ou recadeiros entra no jogo de transmissões do recado, o grupo guiado por Pedro Orósio executa a sua viagem, passando por sete fazendas onde acontecem alguns eventos relevantes para compreender o desfecho da narrativa. Os acontecimentos decorridos nesses locais demandam uma percepção mais aguda por parte do leitor para que este obtenha êxito na compreensão do final da narrativa. As sete fazendas, assim como o Morro da Garça, também adquirem um caráter mítico por conta de uma referência ou correlação do nome dos seus proprietários, já citados em momento anterior, com deuses da mitologia. Da mesma maneira que os deuses exercem alguma influência sobre algum aspecto determinado das ações humanas, poderíamos referir que, em uma dimensão mítica, os espaços das fazendas acabam por “despertar” uma influência em algumas condutas dos viajantes:

sol a sol e vai a vai, mapeadas por modos e caminhos tortos, nas principais tinham sido, rol: a do Jove, entre o Ribeirão Maquiné e o Rio das Pedras fazenda com espaço de casarão e sobrefartura; a dona Vininha, aprazível, ao pé da Serra do Boiadeiro — aí Pedro Orósio principiou namôro com uma rapariga de muito quilate, por seus escolhidos olhos e sua fina alvura; o Nhô

Hermes, à beira do Córrego da Capivara — onde acharam notícias do

mundo, por meio de jornais antigos e seo Jujuca fechou compra de cinqüenta novilhos curraleiros; a Nhá Selena, na ponta da Serra de Santa Rita — onde teve uma festinha e frei Sinfrão disse duas missas, confessou mais de umas dúzias de pessôas; o Marciano, na fralda da Serra do Repartimento, seu contraforte de mais cabo, mediando da cabeceira do Córrego da Onça para a do Córrego do Mêdo — lá o Pedro quase teve de aceitar malajuizada briga

82 com um campeiro morrovermelhano; e, assaz, passado o São Francisco, o

Apolinário, na vertente do Formoso — ali já eram os campos-gerais, dentro

do sol. (ROSA, 1956a, v. 2, p. 412)

Para Benedito Nunes (1976), a viagem se revela como sendo a multiplicação de um conjunto de acasos. Em “O recado do morro”, essa ideia talvez não se aplique por conta de, desde o início da viagem, o destino de Pedro estar traçado. O prenúncio aparece por meio do recado enviado pelo morro, mas Pedro não se dá conta de que é o seu verdadeiro destinatário. Enquanto Pê-Boi se ocupava na sua missão de conduzir os três patrões pelos Gerais, Ivo juntamente com os seus companheiros armavam uma emboscada para se vingar do enxadeiro.

Em uma primeira leitura, não é possível encontrar alguma relação na conversa de Ivo e dos outros sujeitos com o destino de Pedro Orósio e, além disso, não podemos afirmar com precisão se o ódio pelo enxadeiro é o único motivo para arquitetar o plano que objetiva acabar com a vida de Pedro.

Nisso que o Ivo pelos outros respondia também: o Jovelino, o Veneriano, o Martinho, o Hélio Dias Nemes, o João Lualino, o Zé Azougue — que, se ainda estavam arredados, ressabiando, no rumo não queriam outra coisa senão se reconciliar. Deixasse, que êle, Ivo, logo chegassem de volta no arraial, arreunia todos, festejavam as pazes. — “O Nemes também?!” — Pê- Boi perguntou, duvidoso, quase não crendo. — “Pois êle! Você vai ver. No sim por mim, velho!...” E êsse Ivo era um sujeito de muita opinião, que teimava de cumprir tudo o que dava anúncio de um dia fazer. Por isso, o apelido dêle, que tinha, era: “Crônico” — (do qual não gostava). Agora, que vinham se aproximando de final, os agrados dêle aumentavam. Adquiriu uma garrafa de cachaça, deviam de beber, os dois, dum copo só. E estendeu a mão, numa seriedade leal: — “Toques?!” “— Toques!” Dois amigos se entendiam. (ROSA, 1956a, v. 2, p. 414)

Na medida em que os dias se passam e a viagem avança, mais perto da morte Pedro se encontra. Mesmo com o recado se manifestando ao longo da viagem por meio dos mensageiros, Pedro não suspeitara que aquelas palavras carregassem a sua sina, a de morte à traição. A travessia poética do recado acaba por se converter em uma das modalidades da travessia humana porque, se o recado não for compreendido, o seu destinatário morre.

Neste momento, julgamos necessário destacar a figura do recadeiro Jubileu, também conhecido como Santos-Óleos. Jubileu entre em contato com as palavras advindas do Morro da Garça por meio do bobo Guégue e acredita que aquela mensagem era um presságio do fim do mundo. Jubileu passa, então, a anunciar que o mundo estava nos seus últimos dias. O anúncio do apocalipse é feito dentro da igreja do Rosário.

83 Era só aquela fúria: dladlava, dlandoava, o sino também fervia do juízo! Ora, o sinão do Rosário é reinol, de bôa marca, bem santificado: é sino de uma légua. A portanto, aquilo bronze zoava fora do rol, transtornava a gente. Agora, sim, o Nominedômine, Nomendome, Santos-Óleos ou Jubileu — êle cujo tinha encontrado seu poder de rachar os ouvidos do povo todo, em prol, com sua gritação do fim do mundo. Corriam para lá. Manejar errado com sino é negócio tenebroso. E Pedro Orósio corria mais na frente — êle era por longe o trucúlo de homem mais possante do lugar, capaz de capaz. Para agarrar, seguro, braços e pernas do desgraçado, e arretirá-lo do santo assoalho da igreja, e socar paz e sossêgo, a bem dos usos da razão. (ROSA, 1956a, v. 2, p. 437)

Pedro conseguiu chegar perto de Jubileu, mas ficou com receio de retirá-lo à força da igreja por conta do grande número de mulheres e crianças presentes. Sem poder fazer algo para impedir aquele sujeito, este anuncia o fim eminente do mundo segundo o recado que tivera ouvido e que supostamente teve como seu primeiro emissor o Morro da Garça. O aviso deixa as pessoas em pânico, mas, passado o momento de grande tensão, no interior da igreja, as coisas “aparentemente” retornavam ao normal com o seguimento das missas na basílica do Rosário.

Era sábado e cada vez mais chegavam pessoas trajadas para a festa do dia seguinte. O seo Alquiste queria registrar o momento e tirava retratos daqueles indivíduos com os fardamentos diferenciados. Tudo se armava para a festa, mas “Música ia tocar era no outro dia, no outro dia era que era o registrado da festa” (ROSA, 1956a, v. 2, p. 440).

A viagem do grupo tinha chegado ao fim, porém a viagem do recado continuara. Quem agora estava guardando as palavras da mensagem misteriosa do morro era o Coletor, que estava na igreja do Rosário no momento do anúncio do apocalipse feito por Jubileu. O único que se interessou por mais essa nova versão do recado, trazida por mais um louco, foi Laudelim. Laudelim, de apelido Pulgapé, era um sujeito “dono de tudo que não possuísse, até aproveitava a alegria dos outros — trovista, repentista, precisando de viver sempre em mandria e vadiice” (ROSA, 1956a, v. 2, p. 395). Neste momento, podemos dizer que o caminho das duas viagens que constantemente se entrecruzam e se apartam, acabam “produzindo, pela convergência de causas mínimas, imprevisíveis, circunstanciais, um efeito único, que parece pré-ordenado por uma razão (logos) exterior aos atos humanos” (NUNES, 1976, p. 175).

Laudelim ouvia as palavras sem sentido pronunciadas pelo Coletor, prestava atenção, enquanto Pedro Orósio queria tirá-lo dali.

84 E pendurou cara, por escutar mais. — “... O extraordinário de importante...

Tremer as peles... Cristãos sem o que fazer... Quero ver meu ouro... Um

danado de extraordinário!...” O quê? A tontaria do Coletor? Patarata! Mas, que é que se havia, se o Laudelim era mesmo assim — que dava de com os olhos não ver, ouvido não escutar, e se despreparava todo, nuvejava. Nunca se sabia de seus por-fins. Ainda, ainda. (ROSA, 1956a, v. 2, p. 445)

Apesar do grande interesse de Laudelim, Pedro não prestava atenção nas palavras e gestos que o Coletor repetia, palavras de um sujeito que não se encontrava com um intelecto capaz de ordenar as suas ideias. Pedro e Laudelim começam a conversar novamente:

O violão toava bem afinado. E perguntou: — “Por que é que você não desdiz dessa festa? Vem junto, se cantar...” “— Ah, não. Mulheres quero.” O Laudelim mal ouvia. Relou as cordas, ponteando, silamissol cantava. Arrastou um rasgado. Pê-Boi se despediu. — “O Rei menino... Passagens fortes! A toque de tambor... Passagens fortes... Passagens fortes...” — o Laudelim deu resposta. (ROSA, 1956a, v. 2, p. 446)

O momento seguinte é o acontecimento da festa, e nela finalmente o recado se apresentará em sua forma final. Forma esta que será a canção feita por Laudelim com base nas indicações feitas pelos outros mensageiros do morro. Por meio da canção é que finalmente o recado passa a ser compreensível para todos, mas o seu destinatário não o associa à situação que está por vir, a de uma vingança que tem o intuito de provocar a sua morte. Neste subtópico, tratamos do desenvolvimento da viagem nos planos real (expedição) e mítico (recado), no intuito de esclarecer ou de reafirmar o caráter mitopoético que cerca a viagem de Pedro Orósio e dos outros viajantes, inclusive com as referências espaciais da excursão feita, que irão ser retomadas ou amalgamadas na canção de Laudelim.

3.3. “No vivo da estória cantada”: experiência estética em “O recado do morro”

Com a viagem da expedição chegando ao seu final, temos o acontecimento da festa do Rosário. Festa que é atualmente realizada no período de setembro na região de Cordisburgo, mas que na ficção rosiana acontece em um momento anterior já que a referência temporal feita pelo narrador, no início da narrativa, indica que a viagem de Pedro e da expedição foi entre os meses de julho e agosto. A festa é católica e sempre teve como destaque a participação dos negros desde sua origem porque estes se organizavam em Irmandades ou Confrarias para homenagear a santa.

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O festejo era “de pretos e brancos, mas mais dos pretos: já naquele dia êles espiavam os brancos com sobrançaria de importância maior — pois eram os donos da Santa” (ROSA, 1956a, v. 2, p. 448). O clima dos festejos provocava uma grande mobilização no lugarejo, e todos estavam contagiados com imensa alegria. No entanto, Pedro encontra por três vezes Ivo vagueando, parecendo tramar algo.

Ainda bem, que agora estavam reavindados, em alegres falas. Mesmo o Hélio Nemes, que tinha sido o mais picado de todos. O Nemes, dito um dunga, felão de mau. Amém, mêdo, ah, isso, e de ninguém, êle Pê nunca sentira! Bastava se ver, pra saber. Receio de mazela, isto sim, de algum dia se enfermar de grave doença, não dar conta de cumprir seu trabalho para sustento, não ser mais querido das môças nem respeitado do povo. — “Ôi Pedro, como é que vai essa carcaça?” “— Banzando... E você, Jizé?” Zé Azougue era irmão do Martinho. Contavam que êles, com o pai, já falecido em Deus, uma vez tinham matado um homem, por conta de uma dívida atôa. (ROSA, 1956a, v. 2, p. 447)

O dia ainda não era o da festa, ainda era sábado, mas já parecia domingo porque todos estavam vestidos para a festança e estavam passeando. Enquanto aguardavam pela chegada do domingo, Pedro, seo Jujuca, frei Sinfrão e seo Alquiste tinham o assunto da viagem feita para conversar. Provavelmente os três patrões ficaram maravilhados por terem percorrido um espaço tão singular como era aquele “dos gerais” de Pê-Boi. O espaço percorrido parecia não ter sido o mesmo do trajeto feito na ida, na volta algo tinha mudado, era como se o espaço tivesse se transformado, preparando-se para algum acontecimento especial.

Com a chegada do domingo, finalmente a festa iria acontecer, mas o que preocupava Pedro era o fato de poder retornar para a sua casa. “Viajar era bom, mas por curto prazo de tempo” (ROSA, 1956a, v. 2, p. 448), pensamento este que Pedro havia tido ainda na véspera. Mas, por fim, ele havia decidido ir até a igreja, assim como todos os outros do lugar, porém no caminho encontra Ivo: “— ‘Eh, Pedro! Desta vez, não te largo. Despois, daqui, a gente ruma...’ Era o Ivo. Que seja, por certo, estavam compalavrados” (ROSA, 1956a, v. 2, p. 451).

A noite era do mês de agosto, e agora tínhamos o resplandecer das estrelas que iluminavam o céu e “anunciavam” o surgimento de uma canção capaz de expressar em sua melodia a beleza singular do espaço sertanejo. Desse modo, o cenário era perfeito para Laudelim apresentar a versão final do recado que ele compusera com base no relato alucinante do Coletor e dos recadeiros anteriores.

86 O violão do Laudelim já desestremecia, ah, pinho assim na mão, prosa que é um reinado. E podiam entrar, também, caso quisessem. Queriam não, dali de fora mesmo, da janela, estavam em cômodo de escutar e ver, a demora dêles era apoucada. — “Olha, a gente não deve de estabelecer, Pê. Por causa do