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Tendo em conta a constituição do grupo de participantes do estudo foram efectuadas diversas reuniões de apresentação e divulgação, tanto em creches e jardins-de-infância como também em clínicas pediátricas, farmácias e centros pós-parto. Após a inscrição voluntária dos participantes celebrou-se um contrato de investigação entre o investigador e os Encarregados de Educação. Este contrato definiu os critérios deontológicos e éticos das relações entre o investigador e as entidades participantes no estudo, destacando-se as seguintes regras: o anonimato dos participantes, o compromisso de utilização dos dados recolhidos apenas para fins científicos e a segurança e o bem-estar dos sujeitos estudados.

Em fase pré-experimental os pais das crianças participantes no estudo foram questionadas no sentido de despistar eventuais problemas de desenvolvimento psico-motor das crianças e, por outro lado, verificar a não ocorrência de experiências contínuas de estimulação musical daqueles.

Antes do início da fase de recolha de dados o investigador efectuou a calendarização das sessões e revelou aos pais dos participantes os objectivos da investigação. Estes foram ainda informados no sentido de, ao longo destas sessões, actuarem naturalmente com os seus bebés, transmitindo-lhes conforto e segurança da forma que lhes era habitual. Foi-lhes ainda recomendado que evitassem interferir vocalmente durante o período de estimulação musical que adiante se descreve.

Cada participante foi observado quinzenalmente, entre os 12 e os 24 meses, em sessões de 30 minutos. Em cada sessão reservou-se um período inicial para a acomodação dos sujeitos ao espaço tendo este período sido maior antes da primeira sessão. Estes períodos prévios visaram criar uma relação agradável entre o experimentador, criança e os pais, procurando reduzir qualquer desconforto perante o espaço desconhecido.

Em todas as sessões, tanto a criança como o pai ou a mãe sentavam-se sobre almofadas dispostas no chão, de frente para o experimentador. As situações de estimulação constituíam duas condições – “Conversa” e “Canção”, nas quais o estímulo era executado pelo experimentador, que ora falava, ora cantava, fazendo-o sempre de frente para a criança. Privilegiou-se um modelo de interacção baseado na abordagem de desenvolvimento cognitivo de Vygotsky. Ou seja, partindo do conhecimento do nível de aquisição linguística e musical de cada criança, esta era orientada no sentido de alcançar níveis superiores de desempenho naqueles domínios. A recolha de dados apoiou-se assim no conceito Vygotskiano de zona de desenvolvimento proximal, incluindo, a par dos elementos de estimulação pré-controlados (nomeadamente, as canções), outras acções como elogios, confirmações, ampliação da vocalização da criança, repetição da mesma, etc.

Assim, a situação experimental iniciava-se pela condição “Conversa”, finalizando-se com a condição “Canção”. Ponderou-se ser esta a ordenação mais adequada, uma vez que, começando pela condição “Conversa”, seria mais fácil reforçar a adesão da criança ao espaço e ao adulto. Destinaram-se dois locais distintos para a execução de cada condição de estimulação, no interior da sala.

A condição “Conversa” baseava-se tanto em situações de interacção linguística como em pausas. Nas situações de interacção linguística o tema era livre, recorrendo-se, sempre que necessário, à utilização de bonecos de peluche para incitar as vocalizações do bebé.

Nesta interacção foram usados sinais conversacionais de alternância e manutenção de vez (cf. Rodrigues, 1998). Ou seja, enquanto ouvinte o experimentador ia dando indicações verbais, ou de incentivo como “Boa!”, “Muito bem!”, ou sinais inarticulados, como “mm”, “mm mm”, ou repetições das últimas palavras da criança, ou ainda o completar da última palavra / frase da criança, de modo a mostrar atenção ao conteúdo discursivo da mesma. Tal estratégia visou, por um lado, incentivar a criança à participação na interacção linguística e, por outro lado, facilitar-lhe o acesso ao repertório lexical que já possui.

As situações de pausa destinavam-se à obtenção de vocalizações produzidas pelas crianças libertas da ocorrência de vocalizações do experimentador que pudessem sobrepôr-se ou condicionar o comportamento vocal da criança.

A condição “Canção” contemplava três situações: canções (M), interacções musicais (I) e pausas (S). Cada uma de três canções (MA, MB e MC) era interpretada pelo

experimentador de acordo com um tempo metronómico previamente estudado. A determinação deste tempo metronómico e ensaios sucessivos possibilitou que cada canção fosse sempre executada em 40 segundos (Anexo B).

As situações de interacção musical (I) duravam igualmente 40 segundos e destinavam-se à execução, pelo experimentador, de padrões musicais de cada canção (IA, IB e

IC) (cf. Anexo B). Estes padrões eram, muitas vezes, interrompidos deliberadamente em

pontos não conclusivos, deixados em suspenso para uma possível resposta da criança, que completasse, ou não, o padrão. Tentou-se, desta forma, uma analogia entre os padrões musicais (rítmicos ou melódicos) executados pelo experimentador e os padrões silábicos comumente usados em modelos de acesso lexical (ver por exemplo, Rivera & Smith, 1997). De forma semelhante à condição “Conversa”, foi também aqui utilizada uma estratégia de incentivo e reforço às vocalizações que se enquadrassem com o contexto musical da condição “Canção”, recorrendo a repetições dos sons cantados ou ao completar de um contorno melódico reconhecível na vocalização da criança.

As situações de pausa correspondiam a 1’20 minutos por canção (SA, SB e SC). Para

cada uma das canções intepretadas o procedimento experimental obedecia à seguinte sequência:

1) O experimentador canta a primeira canção na íntegra (MA1) – 1ª apresentação.

2) O experimentador executa alguns padrões da canção e/ou executa padrões insinuados pela criança (IA1).

3) O experimentador canta novamente a primeira canção na íntegra (MA2) - 2ª

apresentação.

4) O experimentador executa novamente alguns padrões da canção e/ou executa padrões insinuados pela criança (IA2).

5) O experimentador canta a primeira canção na íntegra (MA3) - 3ª apresentação.

6) O experimentador está em silêncio (SA).

7) Repetem-se os procedimentos de 1 a 6 para as outras duas canções (MB e MC).

Esquematicamente:

Canção Sequência

A - Pato corredor MA1 IA1 MA2 IA2 MA3 SA

B - Barco a remos MB1 IB1 MB2 IB2 MB3 SB

C - Dança do caracol MC1 IC1 MC2 IC2 MC3 SC

Tanto as canções como os padrões musicais dessas canções foram interpretados em sílaba neutra (“pam” ou “bam”). Tomou-se esta decisão uma vez que era importante que as crianças se concentrassem nos aspectos exclusivamente musicais (melodia e ritmo). Por outro

lado, não é certo que nesta faixa etária a existência de um texto cantado não confunda a criança, quando a finalidade desta interacção é unicamente musical. Visando captar a atenção da criança, cada canção foi ainda executada com um conjunto de gestos que acompanhavam a fluência musical.

Nas duas condições experimentais as situações de silêncio foram determinantes para a obtenção de vocalizações limpas, ou seja, sem a eventual sobreposição da voz do experimentador.