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Scenario 2a: Alice moves to 5G public network

4.2 Scenario 2: Implementation challenges

4.2.1 Scenario 2a: Alice moves to 5G public network

2.2.1. Representações: arrolando algumas noções

Em nossa pesquisa de mestrado, a noção de representação nos é cara para a problematização das questões propostas. Adotamos a noção de representação ancorada na psicanálise, conforme destaca Sól (2014, p. 60). Nessa perspectiva, "as representações constituem o imaginário do sujeito, sempre em 'relação a' e de natureza inconsciente." Para a pesquisadora, a representação "está ligada à falta, a uma não-presença de um

significante que vai sempre se remeter a outro e que se apresenta sempre em cadeia, no constante rearranjo discursivo" (SÓL, 2014, p. 61).

Distanciamo-nos dos estudos culturais na medida em que estes concebem as representações como instrumento de compreensão e transformação da realidade e têm o sujeito concebido como cognoscente, conforme afirma Tavares (2010). Após convocar diferentes campos para discutir a noção de representação, a autora entende que a representação

responde a uma maneira de interpretação dos eventos ao redor do ser humano. Ela se dá como uma construção que acontece a partir das várias associações. Não se refere a algo unitário, transparente, unívoco. A representação se refere à repetição de algo com um elemento novo, diferente, uma re-apresentação, uma tentativa de apreensão do real por meio dos sistemas de significação. Por se tratar de um evento que se manifesta pela linguagem, a representação também está sujeita a indeterminação, à ambiguidade, à instabilidade, ao equívoco e, por isso, não pode ser considerada como uma mímesis ou um reflexo da realidade (TAVARES, 2010, p. 131-132).

A noção de representação é fundamental ao nosso trabalho, pois nos permite problematizar e discutir a atribuição de sentidos dos sujeitos-professores de espanhol, em um dado contexto sócio-histórico a respeito da Lei 11.161 e dos seus impactos, sobre a língua espanhola como algo de valor e sobre seu ensino após sua promulgação. Essa noção nos permitirá flagrar, através dos enunciados do corpus, traços

da configuração identitária e subjetiva do professor e da forma como essas configurações impactam sua prática.

Reis (2010), abordando as representações como projeções de processos discursivos a partir de Pêcheux, destaca que

As representações são, deste modo, uma reinvenção interpretativa de uma realidade na qual o sujeito está discursivamente incluído. Isto é, vendo-se de algum modo envolvido em dado contexto, é inerente ao sujeito interpretá-lo e é deste modo que os efeitos de sentidos são mobilizados e suas representações constituídas. Nesse sentido, nenhuma palavra está presa ou é um fim em si mesma e é por isso, que entendemos que os sentidos estarão sempre a se desviar, deslizando-se e deslocando-se para um novo destino (REIS, 2010, p. 656) (grifos nossos).

É na mobilização dos efeitos de sentido que vislumbramos identificar as representações dos sujeitos-professores participantes desta pesquisa. Reis (2006a) estabelece ainda uma relação entre as representações constituírem-se a partir das próprias experiências dos sujeitos e das experiências dos outros que nos cercam e

demarca o deslize das posições discursivas do sujeito clivado que oscila entre posições enunciativas enquanto se constitui nas práticas discursivas. É relevante para nossa pesquisa a observação das (des)identificações dos sujeitos com o discurso da Lei, do ensino da LE e de que forma esses elementos constituem seu fazer pedagógico.

a relação do sujeito com os acontecimentos à sua volta, incluindo suas experiências, os outros sujeitos com os quais ele se relaciona e o modo como ele se vê e se posiciona a partir do olhar do outro. Neste sentido [...] as tomadas de posição do sujeito se dão a partir de momentos de identificação nos quais o sujeito se reconhece e, inconscientemente, assume esses elementos como constituintes de suas representações, logo, de seu dizer e agir (REIS, 2006a, p. 04) (grifos nossos).

Grigoletto (2001) problematiza as representações – noção não compreendida em sua forma clássica, como apreensão do 'real' de forma a presentificá- lo, mas sim como um sistema de significação, de atribuição e de construção de sentidos, destaca ainda que "são do domínio da identificação imaginária, e nessa categoria de identificação, a autora cita o psicanalista Juan David Nasio (1995), que define o eu constituindo-se como instância psíquica ao se identificar com determinadas imagens no mundo" (2003, p. 235).

Para Neves (2002), a noção de representação tem acepção sinônima à de formação imaginária definida por Pêcheux ([1983]2010), tratando-se, portanto, de uma ilusão necessária à existência da discursividade. As representações apresentam os registros imaginários do eu (ego), e trazem aquilo que o sujeito concebe como realidade.

No que diz respeito à dimensão do imaginário, o sujeito se vê como “eu” e cria uma imagem sobre o mundo em que vive.

Santos (2014), inspirado por Pêcheux, define as formações imaginárias e nos ajuda a compreender a relação que Neves (2002) estabelece com as representações. O pesquisador as define como a imagem de si para o outro, para seu redor, para seu universo discursivo, a imagem de si para a imagem que o outro tem de si, para a imagem que o outro tem de seu redor, para significar acontecimentos. As formações imaginárias análogas às representações concebem a imagem de si para construir e interpretar acontecimentos, para deslocar sentidos nos acontecimentos, para deslocar a imagem do outro nos acontecimentos. Esses movimentos que se deslocam na discursividade, essas várias vozes que confluem as formações imaginárias, as representações, são presença constante nos fatos linguísticos desta pesquisa de mestrado. Porém, como veremos mais adiante, a noção de representação imaginária, como elaborada por Pêcheux (1990),

acaba por ficar na circularidade imaginária e simbólica, pois não leva em conta o enodamento necessário proposto por Lacan das três instâncias – imaginário, real e simbólico –; o imaginário é a ilusão de um eu completo, o simbólico é o lugar do significante e o real é o impossível de simbolizar.

Roudinesco e Plon (1998, p. 371) explicitam que, em 1953, Lacan, ao elaborar sua tópica ‘simbólico, imaginário e real’, o imaginário se define como “o lugar do eu, por excelência, com seus fenômenos de ilusão, captação e engodo.” Como identificação imaginária, explicitada por Lacan em 1946, quando expõe seu Estádio do Espelho (Lacan, 1998), o eu se forma a partir de identificações com imagens – as imagens do(s) outro(s), do mundo. O imaginário é a “faculdade de representar coisas em pensamento”. É a partir das representações sobre o ensino e a Lei 11.161, dentre outras, tomadas nesta dissertação a partir desse lugar do eu por excelência, que o sujeito

professor de espanhol concebe sua prática pedagógica. Problematizamos como os discursos

político-educacionais projetam representações que incidem na constituição subjetiva do professor.

Abordamos as noções de identidade e identificações com vistas a discutir como as representações imaginárias constituídas pelos professores de E/LE podem incidir em seus processos identificatórios e subjetivos.

2.2.2. Identidade e identificações

Nos estudos discursivos que, no diálogo com outros campos do saber, tomam também a vertente psicanalítica, deparamo-nos frequentemente com reflexões sobre as noções de identidade e de identificações e suas implicações para os estudos aplicados. Essas noções são caras à nossa pesquisa de mestrado, tendo em vista a relação intrínseca entre língua, sujeito, identidade e constituição subjetiva, que arrolamos na análise do corpus.

Iniciamos nossa reflexão com Marisa Grigoletto (2013), que discute identidade e ensino-aprendizagem de LE baseando-se na perspectiva dos estudos culturais pós-estruturalistas. Estes favorecem uma concepção de pluralidade, movimento, fragmentação e historicização à identidade. Com isso, Grigoletto (2013) conceitua a identidade como:

[...] produção levada a cabo por múltiplos discursos e práticas culturais

historicamente situados e que podem até mesmo se cruzar por antagonismo. A identidade assim concebida está em constante processo de mudança e transformação. Nesse enfoque, privilegia-se a referência a identidades que são projetadas e desempenhadas nas práticas discursivas e não-discursivas que realizamos, em vez da referência à identidade que um indivíduo tem

(GRIGOLETTO, 2013, p. 2).

Quanto às identificações, a autora destaca que estas derivam de uma perspectiva psicanalítica, o que indica algo sempre em processo, nunca terminado, nunca completo. "A identificação é o processo inconsciente de preenchimento de uma falta estrutural no sujeito psíquico. Recebemos imagens e traços do Outro, representante simbólico da cultura que podem dar lugar a matrizes identificatórias, processadas na dimensão do inconsciente" (GRIGOLETTO, 2013, p. 2). Grigoletto (2013, p. 2) funde as noções ressaltando que

[...] identidade nada mais é, então, que um feixe de identificações inconscientes – imaginárias ou simbólicas – que vão dar a cada um de nós a ilusão de termos uma identidade (grifos nossos).

Tais ilusões são concretizadas nos discursos que, inconscientemente, buscam o preenchimento da falta, lugar do Real. Grigoletto (2013, p. 3) aponta ainda que "as identidades são produzidas no decorrer de nossas experiências, como resultado de interpelações que sofremos."

Coracini também concebe a identidade como processo em constante movimento de (trans)formação:

Apesar da ilusão que se instaura no sujeito, a identidade não é inata nem natural, mas naturalizada, através de processos inconscientes, e permanece sempre incompleta, sempre em processo, sempre em formação (CORACINI, 2003, p. 203).

Coracini (2003), em A celebração do outro na constituição da identidade, destaca

que o sujeito é fruto de múltiplas identificações com traços do outro que se entrecruzam constituindo a subjetividade, que é resultado da falta constitutiva do sujeito. A pesquisadora aponta ainda que só se pode falar de identidade concebendo sua existência no imaginário do sujeito que se constrói nos e pelos discursos imbricados.

Lançamos nosso olhar para o feixe de identificações que compõem a constituição identitária do sujeito-professor de E/LE a partir da imbricação dos discursos que surgiram no corpus. Isso ocorre, em especial, nos efeitos causados pelas

escola, pelo valor atribuído à língua espanhola e a sua inclusão como disciplina na instituição escolar.

Fortalecem a base teórica desta pesquisa as implicações da noção de identificação sob o ponto de vista lacaniano, que assume o sujeito do inconsciente estruturado como linguagem e a relação identificatória não como um processo que ocorre entre duas pessoas, mas em uma única pessoa (relações intrapsíquicas) no campo do inconsciente (UYENO, 2011). Uyeno destaca ainda que a identificação para Lacan não é apenas inconsciente, não apenas significa engendramento, trata-se de uma relação de causação, designando a emergência de uma nova instância psíquica.

2.2.3. Subjetividade

Em nosso percurso de pesquisa, analisamos de que maneira as representações sobre a referida Lei 11.161 projetam identificações e interseções no discurso do sujeito-professor. Empregamos a noção foucaultiana de subjetividade, que está relacionada ao modo como o sujeito se constitui por meio das práticas de poder, de conhecimento ou por técnicas de si (REVEL, 2005), isto é, a maneira pela qual o sujeito faz a experiência de si mesmo num jogo de verdade, no qual ele se relaciona consigo mesmo (FOUCAULT, 1984). Com base, em UYENO (2011), ressaltamos que só é possível falar de subjetivação a partir da objetivação do sujeito. É no processo de objetivação que o sujeito se constitui através dos dizeres da Lei, da ciência, enfim, do discurso do Outro, constituindo-se assim em um sujeito produtivo como professor de E/LE. E, ao ser objetivado, quais as estratégias o sujeito mobiliza para se singularizar e assim se subjetivar? Em torno dessa discussão, estabeleceremos um diálogo entre o pensamento foucaultiano e a psicanálise.

Mariani (2010) explica que, para Foucault, no curso da história, os homens jamais cessaram de se construir, de deslocar continuamente sua subjetividade, de se construir numa série infinita e múltipla de subjetividades diferentes, que jamais terão fim. Trata-se, portanto, da noção de subjetividade em movimento, constituída pelos aspectos sócio-históricos e psicanalíticos, subjetividade resultante do acontecimento da linguagem no sujeito que postulamos em nosso trabalho de pesquisa.

A análise dos fatos linguísticos desta pesquisa permite observar como a referida Lei, entendida como mecanismo de poder faltoso, impacta a constituição da

subjetividade do professor, especialmente no aspecto profissional, fazendo-o deslizar em seu dizer entre significantes, que permitem efeitos de sentido da relevância e da irrelevância, da contingência e da possibilidade, da implicação, da militância e da desresponsabilização, com o ensino e com sua profissão também. Além disso, é no acontecimento da linguagem no sujeito, que ele precisa se haver com a angústia que suas representações mobilizam e reinventar seu processo subjetivo constantemente.

Na próxima seção de nosso capítulo teórico, abordaremos, de forma objetiva, algumas noções psicanalíticas que permearam o corpus desta pesquisa.

2.3. NOÇÕES PSICANALÍTICAS

Ao desenvolvermos as análises dos fatos linguísticos que constituem o corpus

desta pesquisa, deparamo-nos com algumas noções psicanalíticas que arrolamos a seguir, de forma sintética, tendo em vista que nossa pesquisa é atravessada pela psicanálise e não uma pesquisa em psicanálise. Entendemos que as noções abordadas ampliam o dispositivo teórico-analítico e contribuem para nossos gestos de interpretação sobre os dizeres dos sujeitos constituídos pelo inconsciente. Acreditamos que esta resenha teórica propiciará melhor compreensão do leitor sobre as noções e seus efeitos de sentido que emergiram no capítulo de análise. São eles os registros constituidores da tópica lacaniana, simbólico, imaginário e real , as noções de pulsão e de gozo, a angústia, o desejo, a transferência, a transmissão e a repetição e a denegação. Teixeira (2005) ressalta que a incursão da AD na psicanálise busca superar a visão do sujeito transparente a si mesmo e confere à subjetividade

uma dimensão ideológica e psicanalítica, sob as bases da identificação [...]. Essa identificação coloca o sujeito como predominantemente tomado pelo

imaginário e o simbólico, desconhecendo que, de acordo com Lacan, é das amarras

do nó dos três registros – real, imaginário e simbólico – que ele depende para se instituir (TEIXEIRA, 2005, p. 18).

Teixeira sublinha que Pêcheux descuida da categoria lacaniana de real nos

textos das primeiras fases, como já citamos. Entretanto, Teixeira (2005) ressalta que, "no final dos anos 80, Pêcheux reconhece um sujeito instituído pelo triplo registro do imaginário, do simbólico e do real, que emerge nas formas singulares de sua fala, o que conduz a redimensionar o lugar dado ao fio do discurso" (2005, p. 168).

2.3.1. Real-simbólico-imaginário

24

Mrech (2003) explica que os registros psíquicos real-simbólico-imaginário, em suas primeiras elaborações, revelam a importância da imagem no processo de constituição do sujeito e ressalta que Lacan acreditava que os sujeitos, assim como os animais, precisavam da imagem dos seres da mesma espécie para se constituírem. Aos poucos, o psicanalista percebe que o processo de constituição do sujeito é muito mais complexo e exige a interferência dos registros do simbólico e do real.

Jorge (2014) frisa que Lacan, ao retomar Freud, também o complementa ao criar a lógica do significante e uma tripartição estrutural entre real-simbólico- imaginário, noções fundamentais para a psicanálise contemporânea. Aponta que "real- simbólico-imaginário constitui um novo nome, dado por Lacan, ao inconsciente freudiano" (2014, p. 13). Lacan mostra alguns anos depois que estas instâncias, real- simbólico-imaginário, não podem ser isoladas, pois se apresentam unidas de forma indissolúvel na tipologia do nó borromeano, nodulação em que os elos estão amarrados e interconectados.

Como já mencionamos nas subseções 2.2.1 e 2.2.2, o registro psíquico do imaginário está relacionado ao ego (eu) do indivíduo. Esse busca uma unidade no Outro. Na assunção de uma imagem, é instaurada a falta, a incompletude. Roudinesco e Plon enfatizam a excelência do lugar do eu no imaginário, bem como sua correlação com

o Estádio do Espelho, de Lacan. Laplanche e Pontalis (2001) destacam a insistência de Lacan na diferença entre o imaginário e o simbólico, mostrando que a intersubjetividade não se reduz ao conjunto de relações que ele agrupou sob o termo imaginário.

O simbólico refere-se fundamentalmente ao lugar da linguagem e, de acordo com Jorge (2014), o lugar do sujeito falante é produzido pelo simbólico e a posição entre o real e o imaginário permite que se destaque o lugar do sujeito, representado no campo simbólico entre os significantes. O conceito foi empregado por Lacan, a partir de 1936, para "designar um sistema de representação baseado na linguagem, isto é, em signos e significações que determinam o sujeito à sua revelia, permitindo-lhe referir-se a ele,

24 Cabe lembrar que a ordem das três instâncias que compõem a tópica lacaniana, até a década de 1970, era Simbólico, Imaginário e Real (S.I.R) porque o simbólico tinha o lugar dominante em suas elaborações. Porém, a partir dessa década, a primazia passou a ser do Real (R.S.I), lugar dos significantes foracluídos (rejeitados) do simbólico (ROUDINESCO E PLON, 1998, p. 645). A instância do Real é que fornece a Lacan a possibilidade de teorizar sobre o impossível da simbolização própria à psicose e de questionar todas as certezas impostas pela ciência. Uma vez que o real se confunde com um “alhures” do sujeito, algo que ele não controla, permite também tratar da conceituação do gozo e da angústia.

consciente e inconscientemente, ao exercer sua faculdade de simbolização" (ROUDINESCO E PLON, 1998, p. 714). Laplanche e Pontalis (2001) ressaltam que, para Lacan, "o simbólico designa a ordem dos fenômenos de que trata a psicanálise, na medida em que estão estruturados como uma linguagem"(2001, p. 480) e que a utilização da noção de simbólico por Lacan parece corresponder a duas intenções: "a) aproximar a estrutura do inconsciente à da linguagem e aplicar-lhe o método que provou a sua fecundidade em linguística; b) mostrar como o sujeito se insere numa ordem preestabelecida, que é de natureza simbólica, no sentido de Lévi Strauss" (2001, p. 481).

O registro do real para Lacan é diferente da realidade concreta, ele não é apreendido diretamente. O psicanalista tematiza o real de dois modos diferentes: o real é o impossível de ser simbolizado e o real é o que retorna sempre ao mesmo lugar, aponta Mrech (2003). Roudinesco e Plon (1998, p.646) afirmam que o real escapa à simbolização e à materialização, "designa uma realidade fenomênica que é imanente à representação e impossível de simbolizar. Lacan deu o nome de R.S.I. (Real, Simbólico, Imaginário) ao tríptico em que o real é assimilado a um 'resto' impossível de transmitir, e que escapa à matematização". O real remete "à falta originária estrutural, à hiância constituinte do inconsciente [...] é aquilo que escapa a essa realidade, o que não se inscreve de nenhum modo pelo simbólico; ele remete ao traumático, ao inassimilável, ao impossível" (JORGE, 2014, p. 96-97).

No capítulo de análise, depreendemos, em alguns RDs, como rastros de angústia constituem a subjetividade do professor e o coloca diante do real – daquilo que não cessa de não se escrever, daquilo que não pode ser simbolizado totalmente na palavra ou na escrita, conforme explica Chemama (1995).

2.3.2. Gozo

O gozo é complexo na teoria psicanalítica, especialmente na obra lacaniana. Conforme marca Oliveira (2014), a conceituação do gozo sofre modificações na obra de Lacan, ao longo de mais de 20 anos. Este está relacionado à repetição, ou o retorno ao mesmo lugar, e teria o objetivo de alcançar uma satisfação impossível, relacionando-o com a pulsão de morte.

Nasio (1993) salienta que o princípio do gozo, juntamente com o do inconsciente, é um dos principais pilares da psicanálise. Em sua elaboração teórica, o

psicanalista explica que "onde a fala fracassa, aparece o gozo [...], ou seja, no momento em que o paciente é ultrapassado pelo seu dito, surge o gozo" (NASIO, 1993, p. 12). Esse psicanalista evidencia que é no efeito libertador e apaziguador do sintoma para o inconsciente que consiste uma das principais imagens do gozo. O gozo é a energia do inconsciente

quando o inconsciente trabalha, isto é, quando o inconsciente está ativo – e ele o está constantemente –, assegurando a repetição e se externalizando sem parar em produções psíquicas (S1), como o sintoma ou qualquer outro acontecimento significante. Nesse sentido, eu gostaria de parafrasear aqui uma fórmula de Lacan, extraída de seu seminário Mais, ainda: "... o

inconsciente é que o ser, ao falar, goza." Da mesma forma, eu definiria o gozo dizendo: o gozo é que o ser, ao cometer um equívoco, põe em ato o inconsciente. Sob dois ângulos diferentes, essas formulações sustentam a mesma idéia: o trabalho do inconsciente implica o gozo; e o gozo é a energia que se desprende quando o inconsciente trabalha (NASIO, 1993, p. 32-33) (grifos nossos).

Mrech (2003), assim como Nasio (1993), explica a diferenciação do uso do termo gozo em psicanálise, na significação lacaniana, do sentido de prazer orgástico. Oliveira (2014) apresenta a concepção psicanalítica de gozo em Braunstein25 (2007), representando ora um excesso intolerável do prazer, ora uma manifestação do corpo mais próxima da tensão extrema, da dor e do sofrimento.

Mrech (2003) define o gozo como uma modalidade de funcionamento do sujeito e afirma que, na acepção lacaniana, trata-se do gozo que é obtido através da