Chapter 8 Shapes as Bags of Words
8.1 Scaling Shape Retrieval 97
Segundo o professor Paulo Nunes, o conjunto das obras dalcidianas pode ser denominada de Aquonarrativa porque sua escrita é densa e encharcada. A presença da água nos romances do autor marajoara é muito marcante, pois ela transita entre o tempo e o espaço. Explico: o primeiro aspecto mencionado nos chama atenção porque na Amazônia “as estações dividem-se entre maior e menor índice pluviométrico” (NUNES, 2004, p. 33). Por esta razão, no período em que o fluxo de chuvas é maior, as pessoas mudam sua rotina devido a força das águas. Isso acontece, por exemplo, com o pequeno Alfredo, pois quando ele é impossibilitado de sair de casa devido as cheias na vila de Cachoeira do Arari, o menino inventa brincadeiras de pescaria do próprio soalho da casa onde mora: “Alfredo fisgara um peixe, talvez sardinha, que bateu de encontro ao soalho. Teimosamente, ao querer ver o peixe passar pelo buraquinho partia-lhe a cabeça, rogando pragas. Afinal rompe-se a linha, o anzol perdido...” (TCR, p. 17). Além disso, os trabalhos da sociedade também são mudados: pescaria, plantação, viagens, ou seja, todas as ações humanas as quais dependem das águas são, de certa forma, alteradas, portanto entendemos que o tempo no romance em análise é cíclico, pois no período denominado não-chuvoso as pessoas fazem suas tarefas normalmente, porém pausam-nas no período chuvoso e quando começa a estiagem, voltam aos seus trabalhos e assim sucessivamente, desse modo notamos um eterno retorno. Aqui a organização da sociedade se dá a partir da relação com as chuvas amazônicas.
O segundo se refere não apenas ao ambiente físico que banha a Ilha do Marajó, uma vez que esta, situada na Amazônia, é banhada por rios de água doce. Eidorfe Moreira (1989), ao falar sobre a paisagem amazônica, reserva um subitem ao rio, pois segundo ele:
Como um poderoso imã líquido, ele submete à sua gravitação todos os aspectos importantes da vida regional, de tal modo que não podemos estudar a região, sob qualquer ponto de vista que seja, sem o prévio reconhecimento da importância do elemento líquido como base desse estudo ou consideração (MOREIRA, 1989, p. 63).
Desse modo, podemos perceber que o rio é um importante espaço físico da Amazônia, no entanto, é também um lugar onde as pessoas residentes naquela região criam seus mitos e têm seu imaginário aguçado. Por esta razão julguei necessário reservar um subitem deste capítulo às águas míticas presentes no romance Três casas e um rio, pois grande parte dos mitos analisados neste trabalho advêm das águas.
O rio é um espaço privilegiado nas obras dalcidianas, pois no dizer de Paulo Nunes ele “comanda a vida” (NUNES, 1999, p. 47). Eidorfe Moreira afirma: “o rio condiciona e dirige a vida” (MOREIRA, 1989, p. 63), ou seja, ele deixa de ser um simples espaço onde as pessoas
utilizam para seu lazer, os afazeres cotidianos e de onde retiram seu próprio sustento e passa a dirigir a vida do homem. Eidorfe Moreira nos diz: “é o rio, com efeito, que comanda e ritmiza a vida regional” (Idem, ibdem). Ao lermos as obras dalcidianas, percebemos a aplicação destas citações, pois neles as personagens são movidas e motivadas pelas águas amazônicas, as quais compreendem as cheias da região e, consequentemente, do rio. É por esta razão que as casas na Ilha do Marajó possuem a forma de palafitas, pois precisam ser construídas assim por causa do enorme fluxo de águas advindas das fortes chuvas marajoaras.
Jerusa Pires Ferreira (2004) associa a água à memória. Segundo ela “na Amazônia, a água é presença e movimento, é a própria organização das paisagens culturais e humanas, anímica e definidora, a água é o bordão da memória” (FERREIRA, 2004, p. 13), além desta associação, a autora cita outras características deste elemento, tais como: tem a capacidade de fecundação, expressa os estados da alma e expressa a tradição oral, uma vez que esta também é memória. Assim ela afirma:
Para a tradição oral a memória é espaço, lugar, e a própria matéria construtiva de tudo o que se cria. Ela é o encontro da tradição com o presente e com aquilo que se projeta ao futuro. E aí há a memória acionada em presença, interativa e fundamental, no estabelecimento da pactuação que torna possível o reconhecimento de um repertório e do ato criador (FERREIRA, 2004, p. 15).
Em A água e os sonhos, Gaston Bachelard reserva um capítulo ao estudo da água doce e afirma que ela “é a verdadeira água mítica” (BACHELARD, 2002, p. 158). E ele ainda diz mais: “Toda divindade vegetal é uma divindade da água doce, uma divindade aparentada com os deuses da chuva e das nuvens” (Idem, p. 161). Assim sendo, não há como estudar o mito em Três casas e um rio e não falar sobre as águas presentes no romance, pois “a água é a matéria por excelência constituinte das imagens/imaginário presentes no espaço da Amazônia paraense” (FERNANDES, 1998, p. 128). É dela que advêm a Cobra Grande, a Arraia encantada, o Bicho Socuba e tantos outros seres sobrenaturais citados e narrados na obra- objeto desta pesquisa.
Mas eu não poderia deixar de citar um trecho do trabalho do professor Paulo Nunes, onde ele fala não só da importância da natureza na obra dalcidiana como resume as possíveis características do rio:
A natureza cachoeirense, na obra, é quase predominantemente representada pelo rio. O rio comanda a vida. Dele, os pescadores retiram seu sustento, mas a ele entregavam-se à morte, tal qual um amante em relação aos prazeres da mulher amada. Mas o rio toma, para dona Amélia, mãe de Alfredo, contornos de um pulsante desejo, dado que através das águas marajoaras, a mulher desejava enviar o filho para morar em Belém e, assim, vê-lo melhorar de vida. O rio, portanto, constitui-se na redenção da
personagem, no desejo de uma vida melhor, que, consequentemente, teria sua preamar de felicidades em Belém (NUNES, 1999, p. 48).
Em Três casas e um rio o homem está sujeito às forças criadoras e geradoras das águas. Criadora porque é a partir dela que o imaginário marajoara é motivado, que a vida se inicia e geradora porque ela gera vida, sonhos, anseios e desejos ao homem amazônico, o qual é guiado pela maresia. Há uma espécie de submissão entre a água e o imaginário, uma vez que os rios inspiram o ribeirinho ao seu processo de criação. Portanto, como já fora dito aqui, este elemento possui uma importância significativa nos romances de Dalcídio Jurandir e por esta razão não pode passar despercebida em nossa análise, pois ela é um espaço que propicia à criação de mitos e impulsiona o imaginário da sociedade cachoeirense.