2 Background and State of the Art
2.3 Scale Inhibitors
Buscamos, com a exposição das composições acima, discutir como a difusão de um ritmo musical, o samba, que alcança exaltação máxima no carnaval carioca pode criar lugares de grande querência e aderência locais, regionais, nacionais e até mesmo interna- cionais, como o morro da Mangueira, dentro da urbe carioca. O talento e a criatividade de compositores como Cartola, Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito, Carlos Cachaça e tantos outros que não figuraram nesta comunicação, descortinam em suas letras valores e atitudes que enlaçam os homens aos seus ambientes, nos indicando novos caminhos de interpretação e análise dos lugares vividos. Fernandes (2001, p. 17) nos informa ainda que:
Do ponto de vista da geografia cultural desenvolvida por Glacken (1996), as instituições que cultivam a música e outras expressões artísticas sempre foram importantes instru- mentos para as relações entre o homem e seu meio ambiente, principalmente quando este último se mostra hostil, porque através de tais instituições culturais os grupos sociais podem aprofundar a sua coesão, criar identidades e reinterpretar suas vidas, seus espaços vividos, o mundo e o seu próprio lugar no mundo. Nos subúrbios e favelas do Rio de Janeiro, as escolas de samba evidenciam as
possibilidades de tal interpretação sobre os homens e o meio ambiente, já que através delas estas comunidades segregadas se aglutinaram, ganharam as suas próprias vozes e criaram uma expressão festiva de tal potência que, ao menos no campo simbólico, o que nunca é pouco, conquistaram o direito à cidade, num processo em que o samba acabará por ser confundido como uma das representações mais clássicas desta cidade e da nação.
Em outras palavras, esperamos com este pequeno mergulho no rico universo mangueirense compreender como o samba, e também outros ritmos musicais, podem desempenhar um papel dual, não apenas para o entendimento do lugar Mangueira, ou seja, transitar entre o concebido, imagem vendida para além das fronteiras da comunidade e o mítico, reverenciado por sambistas e músicos de diversas áreas da cidade e níveis sociais, afora outros diversos ângulos deste mundo vivido. Como assinalado na canção “Sei Lá Mangueira”, composta por Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho, “...a beleza do lugar/para se entender tem que se achar/que a vida não é só isso que se vê/é um pouco mais...”. A fundação da escola Estação Primeira de Mangueira em abril de 1928 pelos “notáveis” da comunidade, foi um agente fundamental neste processo de transformação do “espaço do pobre” em “lugar sacralizado pelo samba”, na medida em que, arrastando com sua aura, a favela da Mangueira deu voz e visibilidade social ao morro, o transformando em lugar mítico e “elitista” no mundo do samba e mais do que isso tornando-o um símbolo carioca e de brasilidade.
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