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2   WP 2: Preparing for the use of air quality observations from

2.2   Data and Methodology

2.2.1   Satellite data

Nesta sessão falarei da primeira fase desta pesquisa em que tive o primeiro contato com o mundo dos deficientes. Sob a orientação de uma profissional pude fazer contatos com os primeiros participantes.

3.1 A URDV (Unidade de Recuperação de Deficientes Visuais)

Ainda nos tempos da minha graduação, na PUC-SP, por volta da metade de 1980, soube da existência de uma instituição, próxima à universidade em que estudava, que desenvolvia um trabalho de reabilitação com deficientes visuais

(Associação dos Cegos Laboriosos). Desde aquela época, intuitivamente, eu já nutria um certo interesse pelo tema da deficiência visual. Esse interesse só tomou um contorno mais definido quando mais recentemente fui lecionar em uma universidade da Capital e tive um aluno deficiente visual. Essa experiência me trouxe diversos questionamentos que se formalizaram na elaboração de um projeto de pesquisa que pudesse contribuir para compreender a realidade e as necessidades do deficiente visual, possibilitando ao professor trabalhar de forma mais adequada e efetiva com esse aluno partindo de uma perspectiva inclusiva.

No início do primeiro semestre do ano 2000, parti em busca da localização dessa instituição e descobri que a sua sede estaria situada à rua Cardoso de Almeida. Porém obtive a informação de que ela havia se mudado há algum tempo para a rua Ministro Godói, ainda naquelas imediações. Fui até o local indicado e conversei com a terapeuta ocupacional, responsável pela organização dos cursos de reabilitação, que me relatou que a antiga Associação dos Cegos Laboriosos havia sido incorporada à Associação Cívica Feminina, gerando assim a atual URDV (Unidade de Recuperação de Deficientes Visuais).

Durante nossa conversa apresentei a ela o meu projeto de pesquisa e a necessidade que tinha de trabalhar com alunos universitários deficientes visuais. Embora o projeto de pesquisa tenha sido elogiado, dada a sua originalidade, obtive a informação de que aquela instituição não tinha alunos universitários matriculados, naquele período. Entretanto ela indicou-me o contato de duas ex- alunas que fizeram um dos cursos ali oferecidos e que, naquele momento, estariam cursando Letras em universidades particulares da capital: eram elas: Paula e Roberta.61

Essa primeira experiência na URDV foi de grande importância para a continuidade dos trabalhos. Graças à profissional que ali trabalhava pude encontrar os dois alunos universitários deficientes visuais que buscava os quais posteriormente se tornariam os primeiros participantes da minha pesquisa. Estava se consolidando o meu primeiro contato com o mundo dos deficientes visuais que me possibilitaria posteriormente descortinar uma nova realidade.

3.2 Os primeiros participantes

Primeira aluna universitária deficiente visual: Paula

Paula à época da pesquisa, estava com 20 anos e cursava o primeiro ano de Letras de uma universidade particular da Capital Paulista. Era uma pessoa alegre, extrovertida e bem humorada. Disse a ela que contasse um pouco da sua vida e ao narrar a sua história falou-me que desde pequena, em sua casa, houve incentivo por parte dos seus pais para que estudasse o método braile e para que freqüentasse a escola.

Além de dominar as técnicas do método braile, também conhecia os mais recentes softwares usados na informática para auxiliarem os deficientes visuais a lerem tela do computador. Dessa maneira, podia compor textos, por exemplo para os trabalhos escolares, e enviá-los pelo correio eletrônico (e-mail), bem como receber mensagens e também ler páginas da internet. Durante as aulas na universidade, além de gravar (técnica da gravação em áudio), anotava o que precisava usando a sua máquina braile.

Relatou-me, ainda, que a sua deficiência era oriunda de uma enfermidade denominada Retinose Pigmentar que se caracteriza como um distúrbio degenerativo dos bastonetes, com atrofia secundária da retina e do epitélio pigmentar62.

Segunda aluna universitária deficiente visual: Roberta

À época da primeira entrevista, Roberta estava com 21 anos, cursava também o primeiro ano de letras de outra universidade particular da Capital Paulista. Diferentemente de Paula, era uma pessoa tímida e retraída e sua

62 No capítulo dois, no tópico :

2.1.1 Algumas causas da cegueira e da visão subnormal, explico um pouco mais sobre a retinose pigmentar.

deficiência era congênita, ou seja, apresentava cegueira (perda total de visão, segundo os conceitos médicos) desde o seu nascimento.

A cegueira congênita é aquela em que os indivíduos já nascem cegos ou reúnem condições para, posteriormente, se tornarem cegos. Algumas das causas desse tipo de cegueira são: glaucoma congênito ou catarata congênita entre outras63.

O perfil sócio-econômico de Roberta também se diferenciava. Vinha de uma classe social menos privilegiada e quanto a sua relação com a leitura, apresentava dificuldade para ler, pois estava aprendendo o método braile e, ainda, não dominava os programas de informática. Para poder ler, na maioria das vezes, precisava que algum vidente o fizesse por ela. Por isso andava sempre com o seu gravador que era acionado toda vez que queria registrar algo.

Segundo relatou, durante as aulas, na universidade, procurava prestar muita atenção na voz da professora. Gravava todas as aulas para, posteriormente, repassá-las em sua casa.

3.3 O primeiro encontro e a entrevista semi-estruturada

O primeiro encontro foi marcado - com cada sujeito - separadamente e em dias alternados. Primeiramente, fiz uma breve apresentação do projeto e relatei a importância dos sujeitos leitores para a realização da pesquisa. Revelei também quais eram os objetivos que eu almejava alcançar com meu trabalho.

O método empregado inicialmente foi o da entrevista semi-estruturada, pois minha preocupação era saber, ainda que genericamente, como essas alunas se relacionavam com a leitura; quais os gêneros textuais preferidos, como era o seu dia-a-da na universidade ou qualquer outra informação que pudesse contribuir para entender melhor o seu mundo.

A entrevista semi-estruturada se mostrou adequada por entender que esse tipo de método é de natureza informal e qualitativa, sendo muito empregada nas pesquisas de campo. Ela é aplicada com o objetivo de compreender a

complexidade do comportamento de membros de uma sociedade sem impor categorizações que possam limitar o campo da pesquisa.

Nunan (1992:149) a define como aquela que é organizada de acordo com as respostas dos entrevistados e não conforme a agenda do pesquisador. O entrevistador tem uma idéia geral das informações que pretende obter e, para tal, segue um roteiro que se consiste em tópicos e questões a serem abordados, ao invés de perguntas pré-estabelecidas. Esse tipo de entrevista permite que o entrevistador tenha maior flexibilidade durante sua realização e que o entrevistado compartilhe o controle sobre seu andamento

3.4 Os demais encontros e o protocolo verbal

Para os encontros que se sucederam, havia a necessidade de que os sujeitos fizessem uma leitura prévia dos textos. Portanto, eu os enviava com uma semana de antecedência. Para Paula, havia a facilidade de envia-los por e-mail, pois ela dominava a informática, como já foi mencionado anteriormente.

Lia com certa fluência esses textos, no computador, com o auxílio dos programas dos vox e virtual vision. Às vezes, reescrevia os textos usando sua máquina braile para ler durante a conversa. Para Roberta, eu remetia os textos, também por e-mail, para a sua professora de inglês da Laramara, que os repassava a ela. Posteriormente, Roberta pedia para que um vidente, seu amigo, os lesse, em voz alta para gravá-los e estudá-los em sua casa.

O método empregado foi o do protocolo verbal64 que, de acordo com Ericsson e Simon (1987), é definido como uma técnica na qual o pesquisador passa um texto para o leitor, sem que ele tenha conhecimento prévio do conteúdo. O leitor faz a leitura em voz alta, deixando com que o seu pensamento seja verbalizado a partir das suas impressões do texto. O pesquisador grava o protocolo verbal em uma fita para posteriormente fazer a análise das estratégias do pensamento envolvidas no processo de leitura. Devo observar que neste estudo essa ferramenta sofreu uma adaptação, pois, neste caso específico, os

leitores já tinham conhecimento prévio do conteúdo dos textos. Isso significa que eles não realizaram um pensar alto simultâneo à leitura, mas fizeram sim uma retrospecção do processo de leitura.

Nesses encontros individuais, foram trabalhados dois gêneros textuais: o jornalístico e o literário. A seguir, criei um quadro ilustrativo cujo objetivo é proporcionar uma visão global desses encontros. Nesse quadro, foram identificados: o título dos textos, o tipo de texto, o tema, dia leitura; o nome do sujeito e o recurso empregado para a leitura.

Antes de passar para o segundo momento deste trabalho, torna-se necessário dizer que esta primeira fase foi fundamental para que eu pudesse perceber o quanto não conhecia do mundo dos deficientes visuais. As duas alunas universitárias deficientes visuais: Paula e Roberta me ensinaram, nos diversos encontros que tivemos, que os olhos são únicos, mas há diferentes formas de enxergar e compreender o que está a sua volta e que passam desapercebidas para a maioria das pessoas.

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