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Sartre og Honneth som etiske teorier

5 Sartre versus Honneth

5.3 Sammenligning Sartre og Honneth

5.3.1 Sartre og Honneth som etiske teorier

O Monumental Club, que sucede ao Magestic na ocupação do Palácio Alverca, depois de radicais transformações no edifício, é frequentemente representado como um clube de luxo.

Em Dezembro de 1920 a revista ABC publica um artigo intitulado «Os grandes clubs em Lisboa como na América»55, que constitui um manifesto sobre a forma como a nova gerência do Monumental, encabeçada por Carlos Nápoles de Carvalho, figura que «o mundo das finanças conhece muito bem pela sua inteligência, pela sua vivacidade e qualidades de trabalho», planeia implantar o novo clube.

O edifício do antigo Magestic, descrito como «um palácio de singulares romances por detrás de cujas fachadas vulgares se albergam maravilhas» surge como o local ideal para instalar o «que lá fora se chama propriamente um club», ou seja, um ponto de reunião para uma «sociedade distinta», com todas as comodidades necessárias para o convívio «depois dum grande dia cheio de intenso trabalho». O jogo, proclama-se, será totalmente banido. Os frequentadores serão muitos, mas escolhidos «entre tudo quanto há de melhor na sociedade lisboeta», só sendo permitida a entrada aos «sócios, famílias e pessoas apresentadas», pelo que as senhoras poderão assistir às festas que se organizem sem prejuízo do seu bom-nome. No serviço de restaurante «haverá fartura sem exagero de preços» e serão usados «esplêndidos serviços», «magníficas louças e roupas de mesa», assegurando-se um serviço rápido e de excelente qualidade. No clube serão promovidas «reuniões úteis que tanto podem interessar à arte como a indústria, a literatura como a ciência», havendo também lugar para os bailes de sociedade. Pretende-

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Idem.

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se que o clube seja frequentado por uma elite, composta por industriais, comerciantes, magistrados, advogados, militares e artistas, que poderão ali não só conviver como tratar de negócios, num ambiente que apresenta a mais valia de ter à disposição diversas distracções:

«No club se tratam os negócios, se fazem largas operações, tudo isto sem a monotonia costumada antes, com a certeza que de sala para sala novas diversões se encontram.

O comerciante tem ali o seu colega com quem detalha negócios bebendo o seu café, tem os jornais e as revistas que podem interessar a sua profissão, e o mesmo sucederá com magistrados, advogados, militares e artistas.

A Associação Comercial e a Associação Industrial terão ali nas salas amplas e luxuosas as suas reuniões, os seus banquetes, as suas festas de carácter colectivo.»56

O artigo é ilustrado por diversas imagens que exibem as diferentes dependências que compõem o espaço do clube. O impressionante aspecto do interior do clube é frequentemente a imagem utilizada para o divulgar. Na revista Contemporânea são também publicadas imagens da sala do restaurante e do pátio árabe, anunciando o Monumental Club como «O mais sumptuoso e confortável de Lisboa» e «O mais rico e civilizado de Lisboa»57.

São frequentes as referências na literatura a este clube, palco de convívio entre homens que têm por hábito ir lá cear depois de um espectáculo, ou simplesmente passar umas horas depois de um dia de trabalho. É interessante notar que os frequentadores masculinos deste clube surgem muitas vezes conotados com homens reservados, calmos e pacatos, com uma certa distinção de «sportsmen da noite»58:

«No Monumental aparece de quando em quando, sempre de “smoking”, um homem de meia idade. Tem o tipo inglês.

Alto, glabro, olhos claros. Senta-se e fica duas, três, cinco, seis horas, a fumar, sozinho, defronte de uma garrafa e de um copo eternamente cheios. Não se relaciona com pessoa alguma […].»59

Para a construção desta imagem contribuem as homenagens, confraternizações socioprofissionais, reuniões e mesmo matinés infantis que têm lugar neste clube nos anos seguintes e que são documentadas na imprensa. Entre 1921 e 1928 a revista ABC

56

«Os grandes clubs em Lisboa como na América», ABC, 23/12/1920, p. 19.

57

Contemporânea, n.º 7, Janeiro de 1923, pp. 66-67.

58

Ver, por exemplo, as personagens de Tomás Galvão e Álvaro de Brito em As Criminosas do Chiado, pp. 140-141, ou Jerónimo Santa-Comba em Os Noctívagos, pp. 236-237.

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publica 11 fotografias de encontros neste clube, maioritariamente inseridos na sua secção de «Actualidades gráficas»60.

O pátio árabe é muitas vezes escolhido como cenário para uma fotografia de grupo. Outras vezes, o instantâneo capta os convivas à mesa, antes da refeição ou na hora do brinde. Apenas duas das imagens documentam a presença feminina nestes encontros e uma revela a presença de crianças do sexo masculino. Os encontros decorrem tanto durante o período nocturno (2 jantares) como diurno (3 almoços e 1 matiné infantil); desconhece-se se os banquetes (5) se realizam durante o dia ou noite.

Na literatura, contudo, o Monumental surge também representado como local de actividades moralmente condenáveis, como os jogos de azar e a prostituição, assumindo um ambiente semelhante ao vivido noutros clubes modernos:

«Era 1 hora da manhã. […] O Monumental àquela hora regorgitava. Uma nuvem colorida de mulheres decotadas formigava, inquieta, pelas salas. Uma orquestra, ao fundo, tocava o Jazz-band – um jazz-band vivo, buliçoso, sobre o

parquet encerado, numa folia adejante de borboletas.»61

Uma «novela sentimental completa» publicada n’ O Domingo Ilustrado, a 3 de Maio de 1925, intitulada «Aquela Loira do Monumental»62, transmite uma imagem deste clube que o aproxima da realidade dos clubes geralmente denominados cabarets, apresentando os elementos mais utilizados para definir estes espaços: uma clientela proveniente de diversos grupos sociais, incluído um sedutor público feminino, a presença da jazz-band e das danças modernas, do champagne e do jogo.

«Ele fora atraído aí pela curiosidade, conhecer de perto esse salão enorme onde o “jazz-band” chama horas e horas uma alegria que não existe. Toda a gente lhe falava do “club”, onde os colos das mulheres têm figurações tentadoras sob a luz das lâmpadas eléctricas, onde os “tangos”, na meia escuridão das luzes vermelhas, têm gritos de lascívia e de tristeza, onde todas as classes se acotovelam, irmanadas na mesma ânsia de divertimento, na mesma vontade de encher as horas fastidiosas da vida.

Conhecera-a num canto mais sombrio da grande sala, enquanto os pares enlaçados volteavam rápidos, na infrene vibração de um “fox-trot” barulhento.

[…] quando retirou para casa, era manhã.»63

No Monumental, Luís conhece Helena, uma mulher que jura estar cansada da vida dos clubes e desejar uma vida pacata e familiar. Apaixonado, convida-a para viverem

60

Evidentemente, a revista ABC não reproduz a totalidade dos almoços, jantares e banquetes que têm lugar no Monumental. Trata-se aqui apenas de uma amostra do que estes poderão ser. Não são publicados registos deste tipo referentes a encontros realizados no Monumental nos anos de 1923, 1925, 1926 e 1928. O levantamento dos registos encontrados consta do Anexo 1.

61

As Criminosas do Chiado, p. 140.

62

João Faleiro, «Aquela Loira do Monumental», O Domingo Ilustrado, 3/05/1925, p. 7.

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juntos, arrancando-a às «horas amargas» das «noites pavorosas dos clubs». Durante algum tempo vivem uma «doce alegria de felicidade», mas cedo Luís enfrenta problemas financeiros, devido aos gastos que faz com Helena. Ao partilhá-los com Helena, esta jura nunca o abandonar, dando-lhe força para pedir ajuda a amigos. Contudo, quando regressa a casa depois de solucionar o problema, constata que Helena desaparecera, deixando-lhe um recado dizendo que não suportava a perspectiva de que se soubesse que está reduzida a uma situação humilde, pois adquirira o «vício do luxo e do bem-estar». Dias depois, no clube, Helena recebe a notícia do suicídio de Luís, ao qual reage com indiferença.

Apesar do intuito claramente moralista da novela, enfatizando a falsidade e futilidade dos habitués da noite, não é de deixar de realçar o facto de esta se ambientar no Monumental, clube que refere logo no título. O desejo de um respeitável e selecto clube de luxo manifestado na sua inauguração não tinha vingado. Pelo contrário, a perfídia e a frivolidade das vidas de quem o frequentava, bem como o desfecho trágico que algumas delas, eram apresentados para como elementos que representavam e caracterizavam o clube como um todo.

Outra novela do mesmo ano, publicada na revista ABC, recorre igualmente ao Monumental como cenário. Numa pequena história de identidades trocadas revela-se que também este clube contrataria mulheres para animar os seus serões:

«Naquela noite o Monumental usufruía duma animação pouco habitual. Segredava-se à boca pequena que um dos directores do club trouxera duma viagem longínqua uma formosa mulher para alegrar os olhos dos frequentadores da casa.

[…] Essa é que era a verdadeira, a decantada dama que alguém trouxera a alegrar o ânimo embotado dos habitues do club. A outra era uma das muitas que o aborrecimento arrasta atrás de si. Esta era a mulher sem coração, a ambiciosa que vende o corpo e esconde a alma para melhor vencer a bolsa dos outros.»

O Monumental surge ainda no único registo cinematográfico dos clubes modernos lisboetas que chegou até aos nossos dias: o filme Fátima Milagrosa (1927), de Rino Lupo, escolhido certamente pela beleza do cenário que proporcionava a este registo. A imagem aí construída sobre este clube retrata-o como um antro de perdição e pecado, ligado ao consumo de champagne, à presença do jazz-band, álcool, à boémia e ao ambiente de histerismo, inconsciência, vício e perversão.