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Kollektivistisk menneskesyn og menneskets sosiale opphav

6 Menneskesyn og selvforståelse

6.1 Kollektivistisk menneskesyn og menneskets sosiale opphav

O Maxim’s destaca-se nas representações que dele são elaboradas pelo permanente relacionamento com um mundanismo cosmopolita que frequentemente surge fundamentado pelas luxuosas acomodações que este clube oferece.

Exemplo disso é o anúncio, ilustrado com fotografias de Carlos Vasques, publicado em Outubro de 1922 da revista Contemporânea que, ao longo de quatro páginas, declara este clube como «o primeiro restaurant do país / único no seu género», com «magníficos salões / deslumbrantes galerias e escadaria monumental», «o mais bem situado restaurant e o que melhores confortos oferece», «o club preferido por nacionais e estrangeiros» e «o club mais elegante / soberba arquitectura». É interessante constatar o destaque, reforçado pelas imagens publicadas, dado ao interior e à arquitectura do clube, qualificados como «deslumbrantes», «monumental» ou «soberba».

No Notícias Ilustrado, a 28 de Dezembro de 1930, o «Maxim’s Restaurant- Dancing» faz-se divulgar ainda como o mais luxuoso, elegante, selecto e alegre da capital:

«O pessoal mais atencioso e diligente, as instalações mais luxuosas e o “dancing” mais elegante e alegre, o restaurant possuindo a melhor cozinha e com os preços mais acessíveis, são condições que em Lisboa só se encontram reunidas no “Maxim’s” onde toda a gente “chic” está reservando as suas mesas para o “Reveillon” do Natal e festa do Fim do Ano.»64

As festas que tinham lugar no Maxim’s contribuíam decisivamente para a imagem que dele é construída. Para além dos festjos da passagem de ano e do Carnaval, que se descrevem como sendo «deslumbrantes» e organizados «a primor»65, aos quais acorrem mulheres que procurando resguardar o seu bom-nome raramente são vistas no circuito de diversão dos clubes, o Maxim’s organiza também festas de caridade e outros eventos socialmente bem recebidos:

«Com o concurso de vários artistas dos teatros de Lisboa, realizou-se no passado dia 4 neste elegante club da praça dos restauradores uma festa de caridade cujo produto reverteu a favor dos hospitais civis da capital.»66

Na imprensa satírica encontramos referência ao jogo no Maxim’s, sublinhando-se mais uma vez a presença das músicas, de sedutoras mulheres e apontando-se

64

Notícias Ilustrado, 28/12/1930.

65

«Ecos do Carnaval», ABC, 1/03/1928, p. 8.

66

ironicamente o contraste entre a formalidade e deferência do tratamento e a realidade pelintra dos seus frequentadores, que, afinal, bebem apenas cerveja:

«Eu ouvia falar há muito tempo nos Clubs. […] fui a um que me disseram ser dos primeiros. Logo à entrada uns porteiros tiraram-me o chapéu e chamaram-me V. Ex.ª. Subi ao primeiro andar e vi uma grande sala cheia de mesas, com muitas pessoas a beber cerveja e ao fundo uns homens vestidos de encarnado a tocar música e a baterem com os pés e a berrar. […] pus-me a olhar para uma senhora que lá estava quase completamente nua e com uns penachos na cabeça. […] Explicaram-me depois que aquela senhora era uma cocote cara […] o meu informador levou-me então a outro andar, onde havia uma grande porção de mesas cheias de números, com uma espécie de alguidar ao meio, e então vi que as tais

fichas são umas coisas que parecem botões de casaco, de várias cores. Fiquei

também muito admirado de ver lá uma grande porção de moedas de cinco tostões em prata e cá fora não haver senão papel, e ele então explicou-me que aquilo das moedas fora o governo que, como não tinha grande confiança nos Bancos, mudara as moedas para os Clubs, para estarem mais bem guardadas.»67

A esta imagem do Maxim’s contrapõe-se à representação construída no romance

Os Noctívagos, que retrata o ambiente deste clube como apático, banal, de uma

animação artificial e oca, lúbrico e «desolado de vício exausto»68, cuja decadência culmina na descrição de um número erótico apresentado à hora de fecho por uma francesa, que se despe enquanto canta «palavras acanalhadas e fanáticas» ao som dos «compassos banalisadíssimos do Mon Homme», dançando de maneira «lânguida, arrastada, sublinhando com quebraturas sensuais as sensualidades quebrantadas do

couplet – desenhando uma sucessão de afagos longos, de arquitecturas lúbricas, de

espasmos infinitos»69.

O falso cosmopolitanismo atribuído ao Maxim’s emerge também do romance O

Ídolo de Carne, no qual este clube é representado como o símbolo das distracções

disponíveis numa Lisboa que almeja acompanhar as grandes metrópoles europeias: «Subiu maquinalmente a escadaria sumptuosa do Maxim’s.

A grande sala do dancing estava repleta […]. Durante o espaço de um fox, observou o movimento, a assistência. Tudo era novo para ele, desde as músicas excitantes do jazz até aos pares, compostos na sua maioria, por mulheres de cabeças exóticas e rapazinhos pálidos, de marca pequena, as pernas perdidas em calças de clown. Em volta, as mesas desertas de garrafas de Champagne, uma pelintrice de bebidas, restos de Vidago, de cerveja e de menthe. Só num canto um grupo da velha guarda, com algumas raparigas também de outro tempo, ceava com alegria e ruído. De uma pequena mesa onde se viam só duas mulheres fizeram-lhe sinal. Era uma antiga conhecida sua, a Leopoldina, que se instalara razoavelmente na vida sob a protecção de um rico industrial. Depois de lhe fazer uma grande festa, apresentou-o a companheira, uma loira magra de olhos negros, ar de histérica:

– A minha amiga Odette, artista de cinema.

67

A., «Uma visita ao Batota-Club (Cartas dum Forasteiro)», O Riso d’A Vitória, 30/11/1919, p. 3.

68

Os Noctívagos, p. 46.

69

Sérgio sorriu. Vinha encontrar grande progresso na vida nocturna de Lisboa. Até artistas de cinema entre os papillons.»70

De novo se constata a presença dos elementos chave dos clubes modernos: a música, a dança, a mulher – o champagne está aqui ausente, numa crítica à «pelintrice» lisboeta. Tal como os restantes clubes nocturnos modernos de Lisboa, também o Maxim’s procura construir uma imagem de luxo, esplendor e modernidade que, contudo, sofre um processo de desconstrução e é muitas vezes substituída por uma representação cujos contornos são o lúgubre, a decadência e a falsidade.