Como a vizinha Milho Verde, São Gonçalo do Rio das Pedras teve origens nos trabalhos de exploração do ouro, em início do século XVIII. “O Arraial de São Gonçalo descobriu Domingos Barbosa, natural do Minho, onde fundou uma ermida a este santo em 1729” (SANTIAGO, 2006, p.116). Em 1732, em seus arredores já habitavam “bastante pessoas com casas de vivenda, roças e engenho”, conforme relato do ouvidor geral da comarca, datado de 2 de fevereiro de 1732 (ÁVILA, 1981, p.9), ocupando um fundo de vale, com uma considerável área plana e cheio de regatos mineríferos (SANTIAGO, 2006).
Em 1810, cerca de 80 anos depois, em visita ao local, Mawe assim descreve São Gonçalo:
Ao fim do dia alcancei uma eminência, da qual avistei um grupo
romântico de casas27, semelhantes a um labirinto ou a uma cidade negra da
África. Descemos a colina, e nos aproximamos do lugar, já noite fechada. Conduziram-me à casa maior que as outras; soube que estava em São Gonçalo, a primeira exploração de diamantes que se encontra no Serro Frio. Encontra-se, há algum tempo, em declínio e emprega cerca de duzentos negros. No dia seguinte, antes de deixar este local romântico, consagrei algum tempo ao exame de montões de detritos contíguos à exploração de diamantes. Tendo-me despedido do administrador, avancei por uma região montanhosa, estéril e fracamente habitada (MAWE, 1944, p. 210 e 211). No século XIX, São Gonçalo chegou a ser sede da intendência dos diamantes. Apesar de Mawe dizer que a mineração encontrava-se em declínio, ela vai durar muito tempo ainda, “como atividade básica dos moradores, sendo nesse sentido mencionada em relatórios de presidentes da província nos anos de 1846 e 1853 (ÁVILA, 1981, p.10).
Em princípios do século XX, a localidade converte-se em um “centro comercial de relativa importância, por ali transitando grande número de tropas que conduziam gêneros alimentícios provenientes da mata da Peçanha, de Guanhães e do Serro, quase sempre em demanda do mercado de Diamantina (ÁVILA, 1981, p.10). Ainda hoje o local de descanso das tropas, denominado Rancho de Tropas, existe na localidade. Tombado pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio do Serro, pelo decreto 839 de 31.03.2000, encontra-se, hoje, em mau estado de conservação, como se pode observar na Figura 20.
Figura 20 - Antigo Rancho de Tropas de São Gonçalo
Foto do autor, 2010
Os maiores vínculos da localidade sempre foram com Diamantina, acompanhando, inclusive, a reação das elites daquela cidade ao declínio da mineração. Assim, instalaram-se no Distrito pequenas lapidações e oficinas de ourives, seguidas pela indústria do vinho (SANTIAGO, 2006).
Por volta de 1910, surge no Distrito uma cultura que parecia ser a redenção do lugar: a produção de uvas para o fabrico, ali mesmo, de vinho. Esse ramo da agroindústria já vinha sendo desenvolvido com sucesso em Diamantina, no então Distrito de Gouvêa. No Distrito serrano, foi criada a Companhia Viticultora São Gonçalo, que, conforme o Anuário de Minas Gerais, ano seis, de 1918, produziu, em 1916, apenas com uvas compradas, 35 barris de vinho. Esperava-se muito mais para o ano de 1917, pois a própria empresa havia plantado duas mil parreiras. Essa vinícola são-gonçalense funcionava como sociedade anônima, cujas ações custavam, cada uma, dez mil réis. Tinha nada menos que 73 acionistas, entre os quais figuravam dezenove mulheres, a firma Duarte e Irmão e até São Gonçalo, padroeiro da paróquia. Parece que a empresa não teve vida longa; entretanto São Gonçalo até hoje possui uma considerável produção de vinho (SANTIAGO, 2006, p.122)
Ainda hoje se produz vinho na localidade, como se verificou na pesquisa de campo. Foram identificadas a produção de vinho de uvas, de jabuticaba e laranja, produtos
comercializados nas mercearias, bares, restaurantes e sedes de organizações comunitárias locais.
Além da lapidação e da vinicultura, São Gonçalo encontrou no artesanato de capim, na tapeçaria e na fabricação de doces de frutas plantados nos quintais das casas, alternativas ao declínio da mineração (ARNDT, 2007). Estas atividades, ainda hoje, ocupam uma considerável parcela da população local, como se pôde constatar na pesquisa de campo.
A menor vinculação das atividades econômicas com a agricultura, pela ausência de terras férteis, aliada à presença constante de estrangeiros ao longo de sua história e a maior concentração da população na área urbana, fizeram com que, em São Gonçalo, não se consolidasse um poder oligárquico e tampouco um monopólio das atividades comerciais, como ocorreu em Milho Verde (ARNDT, 2007).
O Distrito de São Gonçalo foi um “reduto político liberal ao longo do século XIX, ao contrário da vizinha Milho Verde que, previsivelmente mais reacionária, permaneceu monarquista” (ARNDT, 2007, p.115).
A rivalidade atual entre São Gonçalo e Milho Verde, identificada na pesquisa de campo, parece ter raízes históricas, como se pode deduzir da disputa entre as localidades pela sede da paróquia, descrita por Santiago (2006). Relata o autor: em 1857 foi criada a Paróquia de São Gonçalo do Milho Verde, sendo sediada em São Gonçalo; onze meses depois, a sede passa para o Arraial de Milho Verde; em 1867, volta para São Gonçalo, retornando para Milho Verde, novamente, em 1868. Em 1871, São Gonçalo é definitivamente elevada à categoria de sede de paróquia. “A chave dessa alternância está, certamente, no bipartidarismo característico do segundo império: São Gonçalo era liberal, Milho Verde conservadora” (SANTIAGO, 2006, p.121).
O Distrito de São Gonçalo “não sofreu grandes mudanças nos últimos cento e cinqüenta anos” (SANTIAGO, 2006, p. 115), preservando seu casario e a beleza de seu meio ecológico. Esses atributos passaram a atrair, em meados de 1960, um restrito e seleto grupo de intelectuais. Eles começaram a freqüentar a localidade a partir da sua divulgação pelo cinema. Em 1965, Joaquim Pedro de Andrade filma em São Gonçalo o clássico do Cinema Novo, O
Padre e a Moça, baseado no poema homônimo de Carlos Drummond de Andrade (MORAES,
Estes primeiros visitantes de São Gonçalo buscavam o descanso e usufruir de uma arquitetura preservada, “da aparência de uma cidade feita de casas de bonecas. Ruas limpas, jardins e fachadas bem cuidados” (SANTIAGO, 2006, p.116).
Como relata Santiago (2006), em 1975 o alemão Martin Kuhne, então professor no Rio de Janeiro, visita o Distrito com uma turma de 23 alunos e algumas pessoas da comunidade germânica, como parte de uma excursão `a região. Volta no ano seguinte, porém em uma viagem feita a pé e a cavalo, agora acompanhado da esposa, a suíça Anna Maria Schuepp, e o filho. Em São Gonçalo ficaram acampados na Praça da Matriz. De acordo como Santiago (2006), um morador local abordou-os dizendo: “Vocês estrangeiros estão sempre passando aqui, mas não ficam no lugar”. O professor respondeu afirmando que gostaria de morar em São Gonçalo. “Pois estou vendendo aquela casa ali”, respondeu o homem. Martin comprou a casa, para onde se mudou pouco tempo depois (SANTIAGO, 2006).
Ainda segundo Santiago (2006), na década de 1980, Martin e sua esposa, alguns intelectuais, como o escritor Osvaldo França Júnior e um grupo de moradores de São Gonçalo, iniciaram um processo de organização comunitária e empoderamento da comunidade local. Aos poucos, com apoio e recursos externos, principalmente de organizações não-governamentais, como a alemã Amntena, foram trabalhando para a melhoria das condições de vida no local. Logo, o Distrito passou a contar com um posto de saúde e abastecimento de água proveniente de poço artesiano. A escola local, pequena e com apenas as quatro séries iniciais do ensino fundamental, foi ampliada, passando oferecer todas as séries até o final do ensino médio. Fundaram, também, associações e organizações que, ainda hoje, têm forte presença nas paisagens locais.
A ação transformadora iniciada e conduzida por Martin é reconhecida por parte dos moradores entrevistados na pesquisa de campo. Muitos atribuem a ele, também, a capacidade que os moradores hoje revelam de controlar e organizar as atividades turísticas.
O processo de construção das paisagens de Milho Verde e São Gonçalo, até aqui revisto, permitiu apontar as principais razões históricas geradoras das diferenças entre as paisagens contemporâneas dos dois Distritos. Estas razões estão sintetizadas no Quadro 2.
Quadro 2 - Principais razões históricas geradoras das diferenças entre as paisagens de Milho Verde e São Gonçalo.
Síntese elaborada a partir dos autores citados no item 4.1 .
Período
Histórico Principais razões
Milho Verde São Gonçalo
Distrito dos
Diamantes Ocupação elevação de planalto;urbana em Entreposto de fronteira e sede
de quartel;
Posição geográfica privilegiada, a meio caminho de Vila do Príncipe e Tijuco, polarizando o movimento comercial;
Palhoças em torno de uma capela;
Algumas terras férteis produzindo alimentos para o Distrito;
Fundo de vale, com uma considerável região plana; Foi sede da Intendência dos
Diamantes;
Fora da estrada entre Vila do Príncipe e Tijuco;
Um “grupo romântico de casas”;
Poucas terras férteis;
Economia baseada na mineração; Declínio da mineração até meados do século XX Oligarquia rural: concentração de terras e da atividade comercial nas mãos de poucos senhores;
Ligada ao Serro;
Poder político conservador: monarquista;
Pecuária extensiva e agricultura de subsistência substituem produção agrícola e mineração;
Ocupação urbana à maneira de chacreamentos;
Mais ligado a Diamantina; Predomínio dos liberais na
política;
Converte-se em centro comercial local;
Desenvolvimento de pequena indústria vinícola, artesanato e fabricação de doces;
Casas com quintais, largos e espaços livres bem cuidados, patrimônio arquitetônico e paisagístico preservado; Meados do século XX- Final do século XX Emigração da população; Agricultura de subsistência; Expansão da pecuária para
áreas ambientalmente frágeis; Primeiros turistas: perfil mais
alternativo; em busca da natureza, não requeriam maiores infraestruturas; Turismo fortemente sazonal
Intelectuais descobrem a localidade nos anos de 1960; Primeiros turistas buscavam
o patrimônio cultural e a tranqüilidade do local;
O alemão Martin Kuhne inicia processo de organização comunitária;