diamantes na região do Serro Frio, no início do século XVIII. O primeiro documento em que é citada a localidade, datado de 2 de fevereiro de 1732, foi enviado pelo ouvidor geral do Serro Frio, Antônio Ferreira do Valle e Mello, ao governador dom Lourenço de Almeida e “ponderava os inconvenientes de se estenderem também aos habitantes de Milho Verde e outros velhos arraiais das vizinhanças as ordens relativas ao despejo sumário de mineradores que ocupavam terras diamantíferas” (ÁVILA, 1981).
A historiadora Júnia Ferreira Furtado, numa minuciosa pesquisa sobre Chica da Silva24, escrava nascida no arraial de Milho Verde, entre 1731 e 1735, apresenta a descrição
de Milho Verde daquela época, encontrada nos documentos históricos que examinou:
O arraial do Milho Verde era uma pequena aglomeração urbana situada às margens do riacho Fundo, distante seis léguas do Tejuco, no caminho da Vila do Príncipe. Estendia-se num planalto de extensão reduzida que se
abria entre duas caídas da serra25, por onde o córrego corria quase plano,
serpenteando entre inúmeras pedras, razão pela qual a população local o
24 A escrava Chica da Silva nasceu e viveu no período áureo da descoberta dos Diamantes. Teve um romance
com o contratador de diamantes, João Fernandes de Oliveira, tendo com ele treze filhos. Acumulou riqueza e prestígio.
chamava de lajeado26. Quase todo composto de palhoças em torno da
pequena igreja dedicada a Nossa Senhora dos Prazeres, vivia-se no arraial da mineração de ouro e diamantes e da agricultura de subsistência. É o que se infere do testamento de Ana da Glória dos Santos, negra mina proprietária de um rancho, próximo ao arraial (FURTADO, 2003, p.48). O povoado pouco evolui, como se pode depreender do relato de viagem de José Vieira Couto, de 1801. Ele descreve a localidade como um lugarejo pequeno, mal arranjado e com muitas palhoças, vivendo os seus pobres habitantes de uma pequena e insignificante cultura, já que continuavam impedidos de minerar até mesmo o ouro entre os resíduos da extração dos diamantes (COUTO, 1994). É preciso lembrar que, em 1801, a extração de ouro e diamante era monopólio da Coroa, e por ela realizada diretamente, a chamada Real Extração.
Outros viajantes também confirmam esta idéia de abandono em que se encontrava Milho Verde. Eis o breve relato de Mawe:
Passei por Milho Verde, corpo da guarda ou registro, situado perto da torrente do mesmo nome, antigamente afamada pelos diamantes. A tropa de soldados que ocupa este posto está sempre alerta; vai ao encontro dos viajantes, segue-os, examina-os. A região é de extrema aspereza, despida de vegetação, coberta por todos os lados, de massas de rochedo de grés, com conglomerados de quartzo (MAWE, 1944, p. 211)
Saint-Hilaire, visitando a região em 1814, registra a seguinte paisagem:
A aldeia de Milho Verde situa-se em uma região árida que não possibilitava nenhum gênero de plantação, compondo-se de uma dúzia de casas e de uma igreja. É aí a sede do destacamento de soldados encarregados de inspecionar os viajantes que vão de Tijuco à Vila do Príncipe. Apresentei ao oficial que o comandava o salvo-conduto que me fornecera a secretaria de Estado; ele dispensou-me toda a sorte de gentilezas e minha bagagem não foi vistoriada. Apesar de haver uma guarda colocada em Milho Verde não é de crer-se que essa aldeia seja o limite do Distrito dos Diamantes. O território desse Distrito estende-se até mais longe, ao lugar chamado Cabeça do Bernardo.
Existe em Milho Verde um serviço que, como o de Vau, forneceu outrora muitos diamantes. Hoje não se faz trabalho regular em nenhum dos dois; algumas vezes aí enviam negros para procurar diamantes que hajam escapado às antigas pesquisas. Esse gênero de trabalho denomina-se garimpar, porque eram as pesquisas irregulares que se dedicavam os contrabandistas chamados, como já disse de garimpeiros (SAINT- HILAIRE, 1941, p.69).
26 E assim é chamado ainda hoje. Trata-se da mais visitada atração turística de Milho Verde. Desenvolve-se ao
longo de quilômetros, com o regato correndo entre pedras, que formam, de quando em vez, pequenas lagoas e cachoeiras. Atualmente sofre com a construção irregular de casas de veraneio ao longo de suas margens.
Já nas primeiras décadas do século XVIII, a Coroa instala em Milho Verde um quartel e um posto fiscal, citados nos relatos de Mawe e Saint-Hilaire, com o objetivo de controlar todas as entradas e saídas de víveres, diamantes e pessoas. Milho Verde tornava-se, desta forma, o portão por onde entravam e saíam todas as coisas no Distrito dos Diamantes (ÁVILA, 1981).“A posição, bem no meio da estrada que liga o Serro a Diamantina, no alto de um platô com vasta vista, era motivo de sobra para a escolha do lugar” (SANTIAGO, 2006, p.106).
Outra característica que diferenciou Milho Verde das demais localidades do Distrito dos Diamantes, era a sua produção agrícola. A localidade era a fornecedora de gêneros alimentícios para toda a região mineradora. As poucas terras férteis do Distrito situavam-se ali e a população local, proibida de minerar, passa a se ocupar da agricultura (ARDNT, 2007; MARTINS, 2000; MENESES, 2007). Tal fato pode ser comprovado pelo relato de um certo capitão Vicente Antônio da Silva Pereira, natural de Leira, Portugal, que veio para Milho Verde ainda no Brasil Colônia: “Veio com ordens do rei de Portugal para fornecer alimentação aos milhares de escravos que trabalhavam para a Real Extração [...]. Trouxe três gigantescas mós feitas nas Ilhas da Madeira” (SANTIAGO, 2006, p.107 e 108).
Galizoni (2000), afirma que o sistema de lavoura adotado ali, como em todo o Alto Jequitinhonha, era o da “roça de toco” ou “coivara” em que a fertilidade da terra era reposta pelo “descanso” (pousio) de áreas. Isto fazia com que cada família precisasse de áreas muito maiores para suas lavouras, porque, enquanto uma área estava produzindo, outra estava descansando.
A necessidade de aumentar, cada vez mais, o tamanho das terras gerou um processo particular de estrutura agrária, próprio das regiões mineradoras, onde a acumulação de capital gerada pelos lucros da mineração propiciava a aquisição de glebas (MARTINS, 2000; SOUZA, 1991), de modo diverso do resto do Brasil, onde a posse da terra vinha primeiro, por doação ou herança (FAORO, 2001).
Em Milho Verde, este fato gerou a concentração de terras nas mãos daqueles que lucravam com a atividade mineradora. E, naturalmente, estas terras tornavam-se “empreendimentos agrários destinados ao suprimento da mineração‟ (ARNDT, 2007, p.109). Além disto, os mesmos recursos que permitiam a aquisição de grandes propriedades rurais
financiavam a formação da infraestrutura para a atividade comercial, que também ficava sob domínio dos mesmos latifundiários: em Milho Verde, “a venda de víveres, o emprego da mão-de-obra rural e o transporte motorizado para Diamantina ou Serro se davam quase que exclusivamente através dos meios disponibilizados por estes proprietários de terra” (ARNDT, 2007, p.110). Completa Ardnt (2007, p.110), que “o acesso das populações rurais às instituições públicas no Serro e Diamantina era intermediado pelos senhores” e que “essa intermediação era por vezes utilizada como instrumento de coação. Somente se pôde revogar este cenário a partir da chegada do turismo, que trouxe novas alternativas de inserção econômica”.
De acordo com Santiago (2006), a elite de Milho Verde era conservadora e alinhada às correntes monarquistas da cidade do Serro. Ao contrário da elite de São Gonçalo do Rio das Pedras, um reduto político liberal, “para desgosto do supremo manda-chuva do Serro, Cruz Machado, o Visconde do Serro Frio. Até 1869, os conservadores nunca tinham vencido em São Gonçalo, conforme se lê na matéria Força Eleitoral de São Gonçalo, publicada no O
Jequitinhonha de quatorze de fevereiro de 1869 (ano oito, número 26)” (SANTIAGO, 2006,
p.121).
O declínio da economia de toda a região do norte mineiro só “acentuou este poder oligárquico em Milho Verde” (ARDNT, 2007, p.111). Em função da concentração das terras produtivas nas mãos de poucos e da diminuição da produção agrícola, pelo esvaziamento econômico da região, não restou alternativas à população senão mudar-se de Milho Verde ou dedicar-se às atividades de subsistência. “A atividade de subsistência era possível mesmo à população urbana, graças à configuração dispersa das casas – à maneira de um chacreamento – e que constitui um aspecto distintivo da urbanização da localidade” (ARNDT, 2007, p.111). As famílias produziam em seus quintais, que tinham hortas, pomares e criação de animais (ARNDT, 2007). A posição da localidade, implantada em um planalto, espraiando-se abaixo pelas vertentes favorecia a existência deste tipo de propriedades urbanas.
Com a população emigrando ou ocupada com a economia de subsistência, restou aos grandes proprietários das terras locais ocupá-las com a criação de gado, desmatando as poucas áreas ainda existentes com coberturas vegetais, para criação de pastagens. A gramínea
brachiaria passou a substituir, nos arredores de Milho Verde, a vegetação de campo de
altitude e a Mata Atlântica, até então predominante nas regiões do Espinhaço, empobrecendo o solo e alterando o meio ecológico local (ARNDT, 2007).
Com o fim do ciclo do ouro e diamantes, a agricultura de subsistência, a criação de gado e a colheita de sempre vivas, utilizadas no artesanato, passaram a ser a base da economia de Milho Verde durante quase todo o século XX (ARNDT, 2007). Porém, no final do século, o turismo começa a surgir no Distrito.
“A efervescência turística hoje experimentada em Milho Verde tem talvez dez anos, embora certo turismo, digamos cult, existia desde os anos setenta” (SANTIAGO, 2006, p.114). No princípio, este movimento turístico assustou os moradores locais que “venderam suas casas em Milho Verde e se mudaram para o Povoado de Capivari, aos pés do gigante Itambé, em busca de sossego (SANTIAGO, 2006, p.114).
A este respeito, na pesquisa de campo, um entrevistado, que acompanhou a chegada do turismo ao Distrito, relatou:
Os primeiros turistas que começaram a chegar eram “bicho grilo”, queriam só fumar maconha e ficar no Lajeado e nas cachoeiras. Dormiam em qualquer lugar: no camping, nos quartos das casas de família, nas cachoeiras. Muita gente ficou com medo deles e foi embora daqui. Com o tempo, aqui foi ficando famoso. Daí em diante, isto daqui foi só enchendo de turista.
À medida que foi se intensificando, a partir do anos de 1980, o turismo passou a exigir maiores mudanças, sendo, hoje, a grande força modificadora das paisagens locais, como se procurou demonstrar à frente.