Como Alberti (2004) demonstra, há dois tipos de entrevista em história oral: entrevista temática e entrevista de história de vida:
As entrevistas temáticas são aquelas que versam prioritariamente sobre a participação do entrevistado no tema escolhido, enquanto as de história de vida tem como centro de interesse o próprio indivíduo na história, incluindo sua trajetória desde a infância até o momento em que fala, passando pelos diversos acontecimentos e conjunturas que presenciou ou que se inteiram. (ALBERTI, 2004, p. 37-38).
Como a história oral elegida neste estudo é a temática, adotei para esta pesquisa a entrevista temática. Deste modo, por este trabalho ter como objetivo buscar desvelar e compreender, pelo viés das lembranças de professoras, como se constituiu o ensino de música no CIART, foi necessário elaborar um roteiro que norteasse as entrevistas, como prevê o método escolhido (THOMPSON, 1992).
Assim, as entrevistas foram elaboradas abrangendo cinco subtemáticas referentes ao ensino de música no CIART, a saber: a formação pedagógica musical das colaboradoras; a criação, estrutura e caracterização do CIART; concepções e práticas pedagógicas musicais; e a relação entre Curso e Escola de Música.
Esse roteiro inicial foi modificado, na tentativa de ajustá-lo e de me ajustar ao que as depoentes traziam de novidade. Na segunda rodada de entrevistas, foram contempladas questões não previstas anteriormente, explorando, inclusive, aspectos que não estavam devidamente esclarecidos. No intervalo entre uma entrevista e outra, lia e relia os depoimentos, em busca de maiores adensamentos ou (re)condução nas entrevistas posteriores.
Embora o tipo de entrevista fosse temática, busquei deixar, na medida do possível, as questões bem abertas. Como adverte Alberti (1990), o roteiro serve para “orientar quem pesquisa sem contudo servir de camisa de força” (ALBERTI, 1990, p. 62). Neste sentido, Lang (1996) comenta:
O fator distintivo da pesquisa de História Oral está justamente na preocupação com a reflexão que acompanha todo o processo, levando a contínuas modificações. Não se colocando uma fase de análise posterior à coleta de dados, mas também concomitante, admite-se que nenhuma entrevista seria proposta da mesma maneira que a anterior, pois as reflexões que permite vão sendo incorporadas ao processo. (LANG, 1996, p. 36).
Esse foi um momento difícil para mim. Momento em que as dúvidas eram maiores que algumas certezas.
Vidigal (1996) conta que Jaques Ozouf realizou uma pesquisa com professores primários da França, conseguindo recolher quatro mil questionários dos que atuaram entre 1885 e 1914. Depois de algum tempo, após sua pesquisa, ele comenta:
Eu ansiava por atingir dados factuais, por os comparar, por os controlar, numa ânsia positivista de verificação exagerada. Eu estava preocupado em determinar até que ponto os meus correspondentes tinham divagado. Hoje, tê-los-ía pressionado a isso; a que se empenhassem na divagação e teria solicitado deles uma memória menos cronológica e mais solta, menos histórica e mais existencial. (OZOUF apud VIDIGAL, 1996, p. 29).
Ao ler essa reflexão, sensibilizaram-me tais palavras, pois me identifiquei com o relato. No afã do acerto e a inexperiência em relação ao método, queria principalmente nas primeiras entrevistas controlar os fatos e a própria entrevista em si. Saber entrevistar requereu um grande esforço, pois era extremamente complexo para mim, administrar muitas coisas ao mesmo tempo: saber ouvir e deixar falar, retomar o pretendido, checar se as perguntas do roteiro foram contempladas e se a mesma estava sendo gravada. Todas essas atividades eram tomadas pela ansiedade por querer acertar. Na continuidade das entrevistas, após reflexões, isso se mostrou um grande aprendizado, revertendo-se em certa tranquilidade; e, a cada nova entrevista realizada, a sensação de uma relativa maior segurança ia se fortalecendo.
Ao ler o trabalho de Morato (2009), suas palavras também me sensibilizaram enquanto pesquisadora:
Minha primeira inserção no campo empírico foi marcada por uma ansiedade que gerou efeitos como: a sobreposição de várias perguntas diferentes em um mesmo questionamento dirigido ao entrevistado; interrupção do entrevistado desviando-o para outros assuntos; e antecipação de respostas, colocando palavras na boca do entrevistado. (MORATO, 2009, p. 715).
Morato continua: “Aprender a ouvir implicou, então, em aprender a calar-me, não apenas oralmente, mas a calar o meu pensamento, aquietar a minha ansiedade para „mergulhar‟ no discurso do entrevistado” (MORATO, 2009, p. 716). Então, comecei a refletir
sobre minha atuação enquanto pesquisadora, e pude rever meus passos e (re)construir novas formas de interação com o método e com minhas colaboradoras.
No momento das entrevistas, busquei ouvir atentamente as professoras, pois na história oral “[...] o que fascina numa entrevista é a possibilidade de tornar a vivenciar as experiências do outro, a que se tem acesso sabendo compreender as expressões de sua vivência” (ALBERTI, 2003, p. 2-3. Grifo no original). Neste sentido, busquei, na medida do possível, corresponder às recomendações de Thompson (1992):
Há algumas qualidades essenciais que entrevistador bem–sucedido deve possuir: interesse e respeito pelos outros como pessoas e flexibilidade nas reações em relação a eles; capacidade de demonstrar compreensão e simpatia pela opinião deles; e acima de tudo, disposição para ficar calado e escutar. (THOMPSON, 1992, p. 254).
Deste modo, dez entrevistas foram realizadas, sendo o meio de captação a gravação a partir de um celular, pois este oferecia praticidade sem comprometer a qualidade. Dessas entrevistas, oito foram realizadas de forma presencial física em locais escolhidos pelas colaboradoras, nas cidades onde residiam – Natal e Maceió; as outras duas entrevistas foram realizadas a distancia, auxiliadas pelo skype,6 pelo fato de uma depoente morar na região sudeste.
Embora estivesse ciente da importância do encontro face a face em relação ao método escolhido, o skype foi uma ferramenta que permitiu diálogos dinâmicos, uma vez que o programa exibe imagem e áudio em tempo real. A sensação que tive ao entrevistar uma professora dessa maneira foi como se estivéssemos fisicamente presentes.
Foi necessário ainda deslocar-me em duas entrevistas - estas aconteceram em Maceió-AL, cidade em que atualmente reside uma das professoras entrevistadas. Nove entrevistas foram individuais e a última, por condução das colaboradoras tornou-se coletiva, como apresentado no quadro abaixo:
6
Entrevistada Número de
entrevistas Data Duração Local Modo
Candinha
Bezerra7 E1 E2 12/05/2010 12/08/2010 1h16min 57 min Café da cidade Residência da
colaboradora Presencial Cristiane Otutumi E1 E2 10/05/2010 22/10/2010 1h36min 15 min Natal-RN / Campinas-SP Virtual Fátima de Brito E1 E2 17/03/2010 10/10/2010 2h10min 30 min Residência da colaboradora Presencial Nilza Lopes E1 19/10/2010 34 min Café da cidade Presencial Olga Aranha E1 E2 06/05/2010 11/08/2010 40 min 30 min Residência da colaboradora Presencial Entrevista Coletiva
E1 19/10/2010 24 min Café da cidade Presencial
TOTAL 10 8h 52 min
Quadro 2: As entrevistas
Notei, desde as primeiras entrevistas, que as colaboradoras tinham grande interesse em falar sobre o tempo em que atuaram no Curso, e isso foi um fator positivo nesse processo de evocação de lembranças. Atribuo essa predisposição das depoentes em narrar suas lembranças acerca do CIART ao fato dessas experiências docentes terem tido uma significância que se manteve relevante em suas vidas. Em um momento de entrevista, uma das professoras suspirou e disse: “Ai… estou achando é bom estar lembrando das coisas (risos)”.
Neste sentido, Simson (2000) comenta que uma das funções primordiais da memória é a capacidade de seleção – o ser humano escolhe os fatos que considera mais relevantes e os que deverão ser secundarizados; porque “não nos lembramos de tudo o que aconteceu ou o que nos foi ensinado ao longo de nossa vida. Descartamos a maioria das experiências vivenciadas e só retemos aquelas que possuem significado” (SIMSON, 2000, p. 64).
Acredito, ademais, que esse clima favorável se manteve ao longo das entrevistas pelo fato de eu ir me familiarizando cada vez mais com o método ao realizá-lo na prática. Como Lozano (2008) comenta: “aprende-se melhor a história oral experimentando-a, praticando-a sistematicamente e criticamente; mantendo a disposição de voltar atrás reflexivamente sobre os passos percorridos, com a finalidade de melhorar cada vez mais o nosso desempenho” (LOZANO, 1998, p. 25).
A relação pesquisadora e colaboradora foi se estreitando. Com o transcorrer das entrevistas, as depoentes se mostraram cada vez mais acessíveis, abrindo gentilmente suas casas, narrando seus percursos, buscando materiais impressos e fotos para ilustrarem suas
7 Uso nesse trabalho o nome das professoras como elas se autodenominam, porém sendo Cândida em geral
falas, revelando, inclusive, preocupação com a data da entrega desta pesquisa, o que denotava cuidado e interesse em colaborar.
Embora na fase do trabalho de campo relativa a localizar as participantes e conseguir sua adesão para a pesquisa não tenha sido uma tarefa fácil, na continuidade do trabalho, a confiança entre entrevistadora e entrevistadas, progressivamente, foi sendo amalgamada, por troca de telefonemas e e-mails, sorrisos, portas abertas, fotos e documentos cedidos. Este foi o ambiente construído durante as entrevistas.