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YRKER OG STILLINGER

Ao desejar investigar sobre o ensino de música no CIART, o método da história oral se mostrou pertinente. Busquei compreender as tramas pedagógicas musicais ocorridas nesse curso de música, que existe há mais de quarenta anos, pelo viés das testemunhas, que, conforme versam os estudos do método elegido, possibilitou ir descobrindo que estas estavam vivas, lúcidas e dispostas a colaborarem.

A esse respeito, Vidigal (1996) discorre:

A História Oral é, portanto, um método de trabalho que incide sobre o passado dos inquiridos, sobre os aspectos da vida social, particularmente da esfera do quotidiano, que não são geralmente passados a escrito ou documentados noutros suportes, e cujo relato pessoal é filtrado pelo tempo e pelos percursos individuais; podemos mesmo falar de uma história do

vivido. (VIDIGAL, 1996, p. 21. Grifo no original).

No século dezenove, segundo Vidigal (1996), as técnicas que viriam a compor o método história oral, começaram a se desenvolver, devido ao afã de pesquisadores europeus em registrar histórias tradicionais com focos etnográficos e folclóricos, de modo que, segundo este mesmo autor, ao realizarem tal tarefa, esses pesquisadores foram aperfeiçoando as

técnicas de registros orais. Disso decorre que, no início do século XX, em países da Europa e nos Estados Unidos, alguns pesquisadores utilizaram as fontes orais como recurso para a obtenção de dados, viabilizando uma crescente valorização dos relatos (VIDIGAL, 1996).

Por volta da década de 1960, no plano internacional, possibilitado pela popularização do gravador, pesquisadores passam a realizar registro gravado dos relatos obtidos. No Brasil, a conjuntura dessa época era de ditadura militar, em que projetos de pesquisas foram reprimidos, não se permitindo gravar experiências, depoimentos ou opiniões referentes a esse período (MEIHY, 1996). Por volta da década de 1980, foi percebido entre os pesquisadores brasileiros o desejo de resgatar parte dessa história passada. Assim, a história oral passa a se popularizar entre os pesquisadores e universidades no país, suscitando cada vez mais debates sobre a oralidade e seu papel dentro do método (MEIHY,1996).

Cabe salientar que, embora represente neste trabalho um método de pesquisa, a história oral possui diferentes usos e significados: método científico; fonte de pesquisa; técnica de obtenção e tratamento dos depoimentos orais gravados (ALBERTI, 1990, p. 1. Grifos no original). Nesta dissertação, é utilizada como um método que possibilita “compreender a sociedade através do indivíduo que nela viveu; de estabelecer relações entre o geral e o particular através da análise comparativa de diferentes versões e testemunhos” (ALBERTI, 1990, p. 3).

Como mencionado, a história oral tem como característica o uso da oralidade, como forma de resgatar um acontecimento não tão distante, através de atores que possam expor seus depoimentos em forma de entrevistas (ALBERTI, 2004). Tal modalidade de pesquisa tem como foco as pessoas e suas narrativas, pressupondo “diversidade, flexibilidade, liberdade [...] imprevisibilidade, elasticidade metodológica e analítica” dos testemunhos orais (TEDESCO, 2004, p. 113).

Outra característica desse método é a construção de uma fonte escrita: o trabalho das entrevistas na história oral resulta em documentos escritos. Na maioria dos estudos, as entrevistas tem sido a fonte primordial para a compreensão de um passado recente. Além das entrevistas, outras fontes, como documentos escritos, material icnográfico e mais recentemente registro audiovisual, têm sido usadas, a depender do objeto e objetivo da investigação (ALBERTI, 1990).

2.3.1 Conceito, usos e escolha da história oral temática

Há três tipos de história oral: a história de vida, a história oral temática e a tradição oral (VIDIGAL, 1996). Para este estudo, a história oral temática foi a adotada, haja vista que se caracteriza por estar baseada em um assunto previamente estabelecido, como é o caso da presente investigação. Trata-se de trazer as lembranças das professoras acerca do ensino de música, em relação ao tempo em que atuaram no CIART, considerando a relação dinâmica entre passado e presente, bem como o individual e o coletivo/social na construção de significados.

As experiências de vida são percebidas na narração, na interpretação do mundo e na atribuição de significados; legitimar esses processos e estudar uma melhor forma de uso desses dados tornaram-se tarefas da história oral. Esse método se preocupa em estudar o fenômeno elegido, contextualizando e ressignificando “fragmentos de vida no tempo vivido e percebido” (TEDESCO, 2004, p. 141). Foi com essa expectativa e intenção que realizei esta pesquisa nos moldes da história oral temática, junto a cinco ex-professoras do CIART.

2.3.2 A memória na história oral

Como mencionado, no trabalho com história oral busca-se recuperar o vivido à luz do concebido por quem viveu (ALBERTI, 1990). Neste sentido e como acrescenta essa autora, a história oral está estreitamente ligada à memória e à biografia dos sujeitos pesquisados (ALBERTI, 1990, p. 5).

Ademais, e como também já mencionado, a não-linearidade temporal dos fatos é uma característica percebida para quem trabalha com memórias: ao ouvir relatos, o entrevistador deverá saber que a ordem cronológica dos acontecimentos provavelmente não apareça, ou poderá aparentar-se confusa – o que leva Bosi (1994) a advertir que “convém refletir sobre a divisão social do tempo que recobre as horas do relógio e impõe uma duração nova” (BOSI, 1994, p. 416). Assim, “o ciclo dia e noite é vivido por todos os grupos humanos, mas tem, para cada um, sentido diferente” (BOSI, 1994, p. 417).

A memória não significa mera evocação do passado, mas articulação e (re)significação entre passado e presente. Neste sentido, há de se levar em conta que:

Por mais nítida que nos pareça a lembrança de um fato antigo, ela não é a mesma imagem que experimentamos na infância, porque nós não somos os mesmos de então e porque nossa percepção alterou-se, e, com ela, nossas idéias, nossos juízos de realidade e de valor. O simples fato de lembrar o

passado, no presente, exclui a identidade entre as imagens de um e de outro, e propõe a sua diferença em termos de ponto de vista. (BOSI, 1994, p. 55).

Críticas em geral são feitas por se considerar que a memória está embebida por subjetividade e lapsos. Aliás alguns estudiosos consideram ser este seu ponto fraco. No entanto, em sintonia com Alberti (2004), Bosi (1994), Tedesco (2004), Vidigal (1996), entre outros, considero que a história oral, ao recorrer a testemunhos orais baseando-se na memória de colaboradores, confere um sentido social à vida dos depoentes, bem como uma compreensão de fenômenos locais de um passado relativamente recente.

No presente trabalho, faço uso da lembrança das professoras participantes, enquanto instrumento relevante do método adotado, para buscar compreender os caminhos pedagógico- musicais construídos por elas durante o período em que atuaram no CIART.

Atenção também é dada à heterogeneidade das narrativas, considerando-se que “é impossível que duas pessoas que presenciaram um mesmo fato o reproduzam com traços idênticos quando o descrevem algum tempo depois” (HALBWACHS, 2006, p. 96).

2.3.3 As fontes orais

Tedesco (2004) descreve a narração como uma linguagem sustentada pelo tempo, espaço e experiência, com os efeitos inevitáveis do desgaste, da ressignificação e do deslocamento temporal. O autor continua:

A fonte oral é uma fonte viva, inacabada, nunca exaurida; interpreta suas experiências e seus costumes inventados, recriados e vivenciados em diferentes camadas de tempo e de espaço, o enfoque das temporalidades, das invenções e subjetividades. (TEDESCO, 2004, p. 117).

Assim, as fontes orais tornam-se importantes na busca por “decifrar a experiência do tempo vivido em relação ao objeto descrito pelo sujeito narrante” (TEDESCO, 2004, p. 95). Neste sentido, a narração é importante

não só pelo intercâmbio da bagagem de conhecimento, mas pela capacidade de elaboração, de reconstrução, da importância do coletivo, do ser dizível, recordável e comunicável, de vividos individuais em comunicação coletiva através da memória, permitindo objetivações, tradições, reenquadramentos, fazer experiências de elaborá-la e assimilá-la na memória. (TODOROV apud TEDESCO, 2004, p. 124. Grifo no original).

Conforme Portelli (1997) defende: “Cada pessoa é um amálgama de grande número de histórias em potencial, […] nossa arte de ouvir baseia-se na consciência de que

praticamente todas as pessoas com quem conversamos enriquecem nossa experiência” (PORTELLI, 1997, p. 17).

Embora a história oral trate de situações e acontecimentos ocorridos no passado, autores entendem que, ao realizá-la, faz-se um estudo no presente. Sobre isto, Ecléa Bosi, ao ouvir seus depoentes, comenta: “curiosa é a expressão meu tempo usada pelos que recordam. Qual é o meu tempo, se ainda estou vivo e não tomei emprestada minha época a ninguém, pois ela me pertence tanto quanto aos outros, meus coetâneos?” (BOSI, 1994, p. 421. Grifo no original).

Nesta pesquisa, ao ouvir as depoentes narrarem suas histórias, também percebi frases do tipo na minha época..., agora... no meu tempo..., não é do meu tempo... mas do tempo da minha vó... Essas articulações temporais são frequentes nos relatos obtidos, denotando relações de pertencimento a este e àquele espaço de tempo, sendo fundamentais na caracterização do viés do discurso.