5. RESEARCH DESIGN AND METHODOLOGY
5.2 Sampling and Sample Description
Apesar da exclusão de parcela importante da população do modelo produtivo em que vive o Brasil, isso não elimina a produção de necessidades por ela, apenas fixadas como a subsistência calcada no consumo das classes mais ‘abastadas’ para a sua sobrevivência. Santos (2002) coloca que há, assim, uma divisão do trabalho imitativa e caricatural, com um quadro ocupacional não fixo, extremamente móvel ao sabor da conjuntura, uma metamorfose do trabalho, uma “flexibilidade tropical”. Essa flexibilidade é apresentada as classes excluídas do modelo imposto à população brasileira como redentor, como sendo a própria condição
humana e, ainda, representando o estigma do brasileiro que busca a saída de determinada condição social27.
Nos campos da soja e, especificamente, no município de Balsas, a atual modernidade, com marcantes princípios de produtividade da “Revolução Verde”, ou ainda como é dita por Edward Soja (1993), a quarta modernidade, há um processo de internacionalização da lavoura, que traz para a produção agrícola insumos técnicos que cada vez mais artificializam o espaço, criando o que Milton Santos (1997c) denomina de meio técnico-científico-informacional. Neste meio, os processos espaciais de modificação da natureza se intensificam criando formas atípicas aos lugares e exógenas a eles. O município de Balsas dentro do contexto de expansão dessa atividade é um novo pólo que assimila as inovações técnicas para se tornar competitiva nos mercados mundiais, sendo um novo espaço para o capital.
Há também a inserção de modelos científicos inovadores e para isso a EMBRAPA detêm uma unidade específica que realiza pesquisas para o melhoramento da semente da soja. Além desta empresa também temos no município a Fundação de Apoio à Pesquisa do Corredor de Exportação Norte “Irineu Alcides Bays” (FAPCEN), fundação que foi criada em 1993 com a parceria entre a iniciativa privada e a EMBRAPA (FERREIRA, 2008). Essas empresas são as responsáveis por encontrar saídas as dificuldades encaradas pelos produtores de soja e, principalmente, por gerar formas mais eficientes de produção em que se aumente a produtividade desses espaços.
As empresas que se instalam nos espaços do Cerrado brasileiro criam uma rede de compensações produtivas baseadas no lucro e que tem como eixo a soja para a exportação. Segundo relatório do Sindicato de Produtores de Balsas (SINDIBALSAS) e da Prefeitura desse município, as empresas de insumos e serviços no ano de 2005 eram no número de 74, e quase todas tinham alguma ligação com a produção da soja, direta ou indiretamente, desde as empresas de máquinas que fornecem maquinário agrícola para as fazendas produtoras de soja; as empresas envolvidas com a extração e comercialização de calcário pra usos corretivos nos solos ácidos das chapadas; o comércio de fertilizantes, agro-químicos e sementes melhoradas; E finalmente, um ramo ligado principalmente às zonas urbanas, assistência técnica e o de serviços gerais (SINDIBALSAS; BALSAS, 2005).
27
O exemplo da campanha veiculada na mídia pelo governo federal em que o jargão é “Sou brasileiro e não desisto nunca”. Segundo Miglioranza (2010) a campanha tem o objetivo de “[...] incitar nos brasileiros um sentimento de determinação pessoal e pertencimento social”. Além desse exemplo outras campanhas publicitárias de ‘vitórias’ individuais em que sempre uma pessoa de periferia passa no vestibular, consegue um emprego sem necessariamente contextualizar a situação social com um quadro de exclusão da estrutura societal brasileira.
As inovações técnicas que são balizares no período técnico-científico- informacional, e que justificam as novas relações de trabalho baseados tanto na capacitação técnica por um lado, como na sua precarização, são aparentes no complexo sojicultor de Balsas. Um exemplo dos insumos técnicos e sua utilização que se intensifica em Balsas é a utilização de maquinário agrícola, como é o caso dos dados sobre o uso de tratores no Maranhão e em Balsas.
Tabela 08: Comparativo da utilização de Tratores - Brasil/NE/MA/Gerais de Balsas – 1996 - 2006
Número de estabelecimentos agropecuários com tratores
(Unidades)
Número de tratores existentes nos estabelecimentos agropecuários (Unidades) 1996 2006 1996 2006 Brasil 512.144 519.302 799.742 788.053 Nordeste 36.347 41.493 55.476 58.736 Maranhão 2.269 3.411 3.965 5.866 Gerais de Balsas - MA 211 355 503 1.028 Balsas - MA 122 197 249 622
Fonte: IBGE - Censo Agropecuário (1996, 2006).
O aumento do número de estabelecimentos com tratores no Brasil foi de aproximadamente 1,39% no período entre os anos de 1996 e 2006, já no Nordeste esse aumento foi de mais de 14%. Nesse mesmo período, o crescimento do número de estabelecimentos agrícolas que utilizavam tratores no Maranhão foi de mais de 50%, sendo que na micro-região de Gerais de Balsas esse aumento ultrapassou os 68% e no município de Balsas o crescimento foi de aproximadamente 62%, passando de 122 estabelecimentos para 197. O número de tratores no município aumentou quase 150%, enquanto no Brasil houve um decréscimo de aproximadamente 1,5%.
A modernização da agricultura que há nesses espaços se dá com o objetivo de alcançar os mercados internacionais. A soja produzida no Maranhão é comercializada nas principais bolsas de valores do mundo, inclusive na Bolsa de Valores de São Paulo (BOVESPA) e na Bolsa de Valores de Chicago. Os preços alcançados nesses mercados
oscilam de acordo com a oferta do produto e com a demanda no exterior, um exemplo é que entre o ano de 2006 e 2009 o preço da soja comercializada na BOVESPA passou de R$ 27,00/saca de 60Kg (março/2006) para mais de R$ 48,00/saca de 60Kg (março/2009) (CEPEA, 2009). Esse aumento se deu de acordo com a demanda criada com o mercado de soja, tanto a nível nacional como internacional.
Além da comercialização desse produto se dar nas principais bolsas de valores do mundo, essa atividade conta com a capacidade produtiva de grandes empresas como BUNGE, MONSANTO, CARGIL, entre outras que dão suporte financeiro e técnico.
Empresas como a BUNGE se instalam na região com forte capacidade de processamento de grãos e com um aporte de exportação que monopoliza a utilização de portos na região, como é o caso do Complexo Portuário da Ponta da Madeira, onde funcionam três portos (Itaqui, ALUMAR, e Madeira) e que disponibiliza estrutura moderna para o embarque de grãos.
De fato a modernidade, que muda padrões de produção e impõe novas formas de relação com o mercado em que preponderam os preços internacionais, também muda relações locais, criando tensões com as populações dos lugares. Essas populações são tidas pelos agentes da modernidade como empecilhos e sujeitos a serem removidos do lugar. O planejamento na nova espacialidade da modernidade se dá com ênfase na produtividade, e assim, as populações camponesas que tem sua produção voltada para relações familiares e comunitárias são negadas, tendo que, ou serem substituídas pelos verdadeiros produtores na modernidade ou serem ainda introduzidas nos rápidos circuitos do capital, sendo inseridas nos complexos produtores. As consequências desse processo modernizador são visíveis a partir de vários elementos que se tornam contraditórios ao discurso do Estado de desenvolvimento, desde a periferização que acontece no espaço urbano de Balsas, à exclusão de parte da população do produto das atividades que acontecem no município e no meio rural. As consequências são descritas dessa maneira por Ferreira (2008, pp. 51-52):
Essas repercussões são sentidas junto aos trabalhadores rurais do sul do Maranhão a partir das transformações introduzidas no mundo do trabalho, pela agricultura capitalista, quando grandes contingentes de trabalhadores são excluídos dos postos de trabalho que executavam anteriormente, para dar lugar a uma mão-de-obra mais qualificada para executar as atividades exigidas pelo novo sistema produtivo, implicando na formação de uma grande quantidade de trabalhadores agrícolas desempregados, mas que não possuem condições de pleitear trabalho em outra área, dada a sua baixa, ou nenhuma, formação escolar, favorecendo a prática de trabalhos temporários.
A tensão que há com o avanço dessa modernidade entre o uno e o diverso, ou seja, entre o princípio unificador das partes e a diversidade espacial irá criar conflitos para o domínio do território, de recortes do espaço qualificados pelo sujeito, como diria Rui Moreira (2007). Os sujeitos, sejam o campesinato ou o empresariado do agronegócio, agentes por excelência da modernização, serão os contrapontos do conflito para o domínio do território.