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Lakoff e Johnson (2012)6 trazem um novo olhar sobre o uso de metáforas nas línguas. Essas deixam de ser apenas uma figura de linguagem para ser um mecanismo que permeia a linguagem e os pensamentos humanos, pois como afirmam esses autores “os processos do pensamento humano são em grande medida metafóricos” (LAKOFF e JOHNSON, 2012, p. 42) e que na vida cotidiana, não somente a linguagem, mas os pensamentos e ações estão impregnadas de metáforas. Para Lakoff e Johnson (2012, p. 41), “a essência da metáfora é entender e experimentar uma coisa em termos de outra”. Serve de exemplo a metáfora “discussão é uma guerra” que, por meio de expressões do cotidiano, podem refletir esse pensamento metafórico, como em “Atacou todos os pontos fracos do meu argumento” ou “Ele nunca venceu uma discussão” (LAKOFF e JOHNSON, 2012, p. 40). Essas metáforas fazem referência às situações de guerra com os verbos atacar e vencer.

As metáforas também estão presentes nas LS. Taub (2000 apud Valli et al. 2011, p. 159), pesquisadora da ASL, explica que há uma forte relação entre metáfora e iconicidade. Sobre essa relação Taub esclarece que:

A metáfora é o uso de um domínio da experiência, o concreto, para descrever ou raciocinar sobre o domínio abstrato, e o sistema icônico de representação em línguas de sinais tem movimentos, locações e configurações de mão que podem ser utilizados para a descrição metafórica de situações abstratas (não-físicas). (TAUB, 2000 apud VALLI et al., 2011, p. 159, tradução nossa).7

Taub reforça que a metáfora em língua de sinais envolve o double mapping ‘mapeamento duplo’, isto é, “há uma relação entre o concreto e o abstrato, e uma relação entre a imagem concreta escolhida para o representar o abstrato e as formas (configuração de mão,

                                                                                                                         

6    Livro originalmente publicado em 1980 cujo título original da obra é Metaphors We Live By. 7

Texto original: “Metaphor is the use of one domain of experience, the concrete one, to describe or reason about the abstract domain, and the iconic system of depiction in sign languages has movements, locations, and handshapes that can be used for the metaphorical description of abstract (nonphysical) situations.” (TAUB, 2000 apud VALLI et al., 2011, p. 159).

locação, movimento, orientação palma, sinais não manuais)8" (TAUB, 2000 apud VALLI et al., 2011, p. 159, tradução nossa).

Para explicar mais claramente o double mapping, reproduzimos o quadro de Taub (2001, p. 119) que analisa a metáfora “intimidade é proximidade” presente na ASL (quadro 1). Segundo Taub (2001, p. 119), essa metáfora motiva parcialmente sinais como LOVE ‘amor’, FRIEND ‘amigo’, CLOSE-FRIENDS ‘amigos íntimos’, MARRY ‘casar’ e DIVORCE ‘divórcio’, por exemplo. Na figura 1, os articuladores do sinal CLOSE-FRIENDS encontram-se bem próximos um do outro, já no sinal DIVORCE, os articulares se afastam.

Quadro 1 - Mapeamento duplo para “intimidade é proximidade”

Fonte: Taub (2001, p. 119), adaptação e tradução nossa

Figura 1 - Sinais da ASL CLOSE-FRIENDS e DIVORCE

 

Fonte: Taub (2001, p. 120 -121)

                                                                                                                         

8 Texto original: “there is a relationship between the concrete and the abstract, and a relationship between the

concrete image chosen to the represent the abstract and the forms (handshape, location, movement, palm orientation, nonmanual signals)”.(TAUB, 2000 apud VALLI et al., 2011, p. 159)

A evidência da existência da metáfora “proximidade é intimidade”, segundo Taub (2001), confirma-se porque vários sinais da ASL, que se referem à intimidade e afeição, mostram a proximidade entre os articuladores e quando se referem à rejeição, à não gostar, à desaprovação há um distanciamento entre os referentes.

Benczes (2010, p. 219, tradução nossa) trata a metáfora e a metonímia como mecanismos de criação das línguas quando comenta que “a metáfora e a metonímia podem ser empregadas de forma sistemática para criar combinações do tipo substantivo-substantivo, portanto, tais construções podem ser remetidas a padrões regulares, produtivos”9.

As metáforas orientacionais podem ser encontradas na LSB e são produtivas na criação de sinais. Para Lakoff e Johnson (2012, p. 50) “as metáforas orientacionais dão ao conceito uma orientação espacial: por exemplo, feliz é para cima”10. Existe uma gama de sinais que tem o PA motivado por alguma metáfora orientacional. Isso é bem perceptível nos sinais referentes aos sentimentos que se localizam perto do peito, sinais relacionados às atividades intelectuais, produzidos na cabeça, ou ainda sinais que fazem referência à alimentação e são executados perto da boca. Para exemplificar os sinais referentes aos sentimentos, citamos os itens lexicais AMOR, SAUDADE, PIEDADE, MEDO e ÓDIO que são todos realizados em um PA próximo ao peito.

A metonímia, por sua vez, para Lakoff e Johnson (2012, p.73, tradução nossa), é “uma entidade usada para se referir a uma outra que está relacionada a ela”11, isto significa dizer que há uma relação de contiguidade entre dois domínios. Para exemplificar, listamos os casos mais típicos de metonímia que são, a saber, “a pessoa pelo nome”, “o possuidor pelo objeto possuído”, “o autor pelo livro”, “o local pelos habitantes”, “o produtor pelo produto” e “o contentor pelo conteúdo” (DELBECQUE, 2006, p. 70). As metonímias são ferramentas produtivas nas LS do mundo para criação de novos sinais. Os sinais de animais nessas línguas demonstram a produtividade desse mecanismo dentro dos sistemas linguísticos.

A Língua de Sinais Brasileira apresenta um mecanismo linguístico – que é quase sempre motivado por processos metonímicos – para nomear individualmente os animais. Servem de exemplos os sinais RINOCERONTE, BODE e PATO. Quando observamos os animais e seus respectivos sinais em LSB, facilmente identificamos a parte do animal                                                                                                                          

9

Texto original: “…metaphor and metonymy can be employed in systematic ways to create noun-noun combinations, therefore, such constructions can be traced back to regular, productive patterns.” (BENCZES, 2010, p. 219).

10

Texto original: “Las metáforas orientacionales dan a un concepto una orientación espacial: por ejemplo Feliz es arriba”. (LAKOFF e JOHNSON, 2012, p. 50).

11 Texto original: “una entidad para referirnos a otra que está relacionada con ella”. (LAKOFF e JOHNSON,

representada no sinal: o chifre do rinoceronte, as barbichas do bode e o bico do pato. O processo de representar a parte pelo todo é uma das manifestações da metonímia.

A parte pelo todo tem sido a forma mais recorrente de se criar sinais de animais na LSB. O uso de metonímias para dar nome aos animais não é uma exclusividade da LSB, diversas línguas de sinais compartilham esse mesmo fenômeno. No site http://www.spreadthesign.com/br/, podemos encontrar sinais de 25 línguas de sinais do mundo. Ao pesquisar os sinais para elefante em 19 línguas de sinais, constatamos que em todas o sinal era metonímico e representava a tromba do animal. Nessa situação, o elefante não é um caso isolado. Vários dos sinais de baleia em outras línguas de sinais apresentaram a característica desse animal de esguichar água quando surge na superfície para respirar.

É válido apresentar mais o exemplo do sinal de girafa na Língua de Sinais Francesa (LSF), figura 2, que remete ao enorme pescoço do animal. Em várias outras línguas de sinais, os itens lexicais se remetem ao pescoço desse animal, inclusive a LSB.

Figura 2 - Sinal GIRAFE ‘girafa’ da LSF

 

Fonte: Site Spread the sign. Disponível em: <http://www.spreadthesign.com/br/>. Acesso em: 21 jul. 2013.

Barros e Aguiar (2013) realizaram uma pesquisa sobre o uso de metonímias na criação de nomes de espécies de animais na LSB e identificaram três tipos de processos metonímicos nos sinais que são: parte pelo todo, ação pelo agente e a combinação parte pelo todo + ação pelo agente.