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As redes de parentesco, um tipo específico de rede pessoal, têm grande importância e utilidade nos processos migratórios. Elas são responsáveis pela ligação entre familiares e migrantes, além de proporcionar ao migrante no local de destino acolhimento, moradia, ajuda na conquista de emprego, companheirismo e ajudar em outras necessidades, especialmente nos primeiros dias de chegada e em momentos de crise financeira e de outra ordem. Segundo Costa (2001), as redes de parentesco, fundamentadas em compromissos morais solidificados pela proximidade dos laços afetivos, facilitam a fixação do migrante recém-chegado, ajudando na busca de moradia e de ocupações. Tudo isso pode resultar na intensificação dos laços de parentesco entre os já estabelecidos e os recém-chegados, não apenas pelo potencial de mobilização dessas relações para enfrentar as múltiplas carências de um grupo, mas também pela segurança emocional que a convivência familiar proporciona no novo ambiente.

Por sua vez, Maia (2002) e Lyra (2003) chamam atenção para o papel das redes de parentesco nos processos migratórios e na condição dos migrantes em relação às sociedades de acolhimento e de origem. Segundo os autores, as relações sociais de caráter familiar são importantíssimas e essenciais para a inserção dos migrantes no local de destino. Para Lyra, as redes sociais fornecem apoio psicológico e material necessário aos migrantes. Representam uma forma de capital significativo. Encaminham ao emprego, intermedeiam comunicações e servem de elo entre os diversos intervenientes do processo. Em geral, cada migrante novo faz crescer uma rede em torno de si, incluindo outras pessoas, migrantes ou não. Essa prolifera e sustenta-se. As mais importantes relações nas redes sociais são baseadas no parentesco, amizade, e conterraneidade, as quais são reforçadas por uma interação regular em associações voluntárias. Apesar de os migrantes mobilizarem outros tipos, como as redes de amizade e de vizinhança, as redes sociais baseadas no parentesco são as que se destacam mais no suporte à migração dos seus membros porque é por meio delas que os migrantes se inserem em novas solidariedades.

Ao comentar acerca da relevância da família como fonte de sustentação para as comunidades e para os projetos migratórios, Fazzito (2005) afirma que os arranjos familiares, que são incorporados às redes pessoais dos migrantes, assumem papel importante na criação, expansão e manutenção dos fluxos migratórios. Entre todas as instâncias mediadoras, são as famílias dos migrantes que se constituem com mais frequência como as alternativas mais utilizadas nas estratégias de deslocamento. Os arranjos familiares são fundamentais para a articulação e expansão dos fluxos migratórios, pois operam como agentes fundamentais na intermediação dos migrantes entre o local de origem e o de destino.

Talvez isso se justifique pela natureza reticular e primordial dos laços de sangue das composições familiares e suas funções sociais em diversas sociedades ao longo do tempo, e então, pode-se entender a centralidade da posição estrutural ocupada pelas famílias nos processos migratórios (FAZZITO, 2005, p. 06).

Segundo o autor, os laços fortes que são característicos da família desempenham um papel determinante no que diz respeito ao suporte social e à organização da vida coletiva em processos migratórios. Segundo Fazzito, tudo isso pode ser muito bem observado em imigrações que envolvem situações de risco, como os casos de indivíduos que se aventuram nas travessias clandestinas, mas também muito frequentemente podem ser compreendidas em migrações internas, especialmente quando envolvem a figura feminina. Neste caso, os arranjos familiares, viabilizados pela articulação da rede de parentesco, são essenciais para melhorar a inserção da mulher migrante na vida coletiva na sociedade receptora, minimizando o sofrimento estabelecido pela migração em função do distanciamento dos seus iguais, bem como agregando-lhes uma função social na nova sociedade.

É importante compreender com mais precisão a ideia de redes de parentesco e os laços que a fundamentam. Assim, para Fazzito (2005), as redes de parentesco, fundamentadas através de relações familiares, têm como característica os laços fortes primordiais, responsáveis pela maior parte do apoio social aos membros da comunidade. Os laços tendem a ser mais fortes quando a rede é composta por parentes imediatos, como irmãos, sobrinhos, tios, avós, pais, cujas relações são fortemente concentradas, capazes de fornecer amplo suporte. E tendem a ser menos fortes, com relações mais esparsas, com acompanhamento ocasional, quando são compostas por amigos, vizinhos, colegas de trabalho. Portanto, as principais características das redes familiares

consistem nos seus laços fortes, calcados na intimidade dos indivíduos, na frequência dos contatos, bem como na reciprocidade das trocas emocionais. Nelas, os parentes mais próximos são depositários de confiança e apoio afetivo, diferentemente dos parentes mais distantes, que concentram laços fracos, assim como os vizinhos, conhecidos e amigos. De maneira geral, os laços entre parentes mais íntimos produzem maior apoio social, intenso comprometimento nas trocas afetivas e um alto grau de confiança mútua.

Outros estudos também fazem a mesma análise de Fazzito quanto à contribuição das famílias dos migrantes nos projetos migratórios. Tilly (1990) e Waldinger (1999) apud Fazzito (2005) afirmam que os laços fortes das famílias de migrantes constituem a segurança e a possibilidade de uma inserção social e econômica dos migrantes bem sucedida na comunidade. É a família já estabelecida no novo local que dará todo o suporte para o recém-chegado, desde o provimento de moradia, permitindo que o migrante resida provisoriamente ou definitivamente na sua residência, até auxiliá-lo na conquista de um emprego, através de contatos com pessoas que têm influência e poder para promover a alocação profissional do recém-chegado. Portanto, as famílias dos migrantes já estabelecidas no local de destino também são as responsáveis pela criação das condições necessárias para a melhor inserção dos migrantes recém-chegados no destino. Ela se constitui a mola mestra nos projetos migratórios.

Os laços familiares nos processos migratórios, calcados nas redes de parentesco, também são de grande importância para as mulheres migrantes. Isso porque, além de determinarem os processos de deslocamento geral e interferirem nos fluxos migratórios, os arranjos familiares, viabilizados pela articulação da rede de parentesco, são essenciais para melhorar a inserção da mulher migrante na vida coletiva na sociedade receptora, minimizando o sofrimento do distanciamento dos seus iguais, estabelecido pela migração, bem como lhe agregando uma função social na nova sociedade. Em consequência, muitas mulheres migrantes, já estabelecidas no local de destino, sejam elas ativas no processo migratório ou não, acabam tornando-se importantes articuladoras e mobilizadores das redes de parentesco.

É por conta disso que devemos analisar as mulheres inseridas nos fluxos migratórios e verificar sua participação neles. E, antes de tudo, verificar se os contextos familiares vivenciados por elas influenciam em sua participação nesses fluxos migratórios e, também, no âmbito da sociedade. Sendo assim, dedicaremos os dois próximos capítulos desta tese à discussão sobre a figura feminina: no capítulo três, abordaremos a questão de gênero, a noção de

dominação masculina e de divisão sexual do trabalho e, ainda, a condição da mulher no processo histórico do Brasil. Tudo isso para, no capítulo quatro, discutirmos a mulher no processo migratório e na articulação e mobilização das redes de parentesco.

3 MULHER, TRABALHO E FAMÍLIA: UMA ANÁLISE DA CONDIÇÃO FEMININA NO BRASIL