Passamos agora a analisar os enfoques teóricos sobre migrações internas, sobretudo no contexto da América Latina. Segundo Nogueira (1991), outras contribuições de grande valor que têm buscado dotar as migrações internas de um marco teórico são, em grande parte, tentativas de compreensão do fenômeno migratório na América Latina. Teoricamente falando, vários enfoques foram construídos na América Latina, para dar conta dos fluxos migratórios.
O primeiro deles é o enfoque conhecido como perspectiva demográfica, a partir de pesquisas que surgiram na década de 1950, dentro do Centro Latino-Americano de Demografia. Os estudos sob esta perspectiva se propunham a descrever e quantificar as variáveis demográficas e voltavam-se aos métodos de obtenção de dados, às técnicas de mensuração das variáveis fundamentais e à formulação de modelos matemáticos do processo; utilizavam, ainda, dados censitários e estatísticos. Contudo, sobre essa perspectiva recaíam algumas críticas. A principal crítica à perspectiva demográfica seria a falta de um marco sistemático de referência, o que
tornava suas investigações fragmentárias e sem orientação. Além disso, suas investigações são quase sempre descritivas, chegando a omitir relações elementares nos processos migratórios.
Um segundo enfoque seria a perspectiva sociológica baseada na teoria da modernização. Para esta perspectiva, a migração interna é compreendida como um dos processos fundamentais da mobilização social, que constitui o eixo principal para a transformação das sociedades “tradicionais” em sociedades “modernas”. Brito (2009) vem corroborar com a análise de Nogueira (1991). Segundo Brito, na análise sociológica, baseada na teoria da modernização social, há a concepção de que as migrações são responsáveis pela transferência do grande excedente populacional de áreas tradicionais da sociedade para áreas urbanas, principalmente para as grandes cidades, onde predominam um arranjo social e cultural moderno, baseado nos padrões históricos da sociedade ocidental. A tese fundamental, portanto, é a de que as migrações são responsáveis pelo processo de transição da sociedade tradicional para a moderna. Dentre os representantes desta perspectiva teórica, Brito destaca dois: Gino Germani e Eunice Durhram.
Na visão de Germani, segundo Brito (2009), a sociedade tradicional, extremamente integrada e vinculada à economia agrária, necessita ser “chacoalhada”, isto é, mobilizada, para que ocorram as migrações. Neste processo, dois dos responsáveis por cumprir este papel de mobilização social são os meios de comunicação de massa e as redes de interação social. Sem essa “interferência”, as migrações, como um processo social, não ocorreriam e a população não seria atraída pela sociedade moderna. Segundo Germani, as sociedades tradicionais só se colocam disponíveis para emigração, se elas perceberem que existem novas possibilidades de participação social. O processo de mobilização social dos migrantes em direção à sociedade moderna, estimulado pelos meios de comunicação de massa e pelas redes de interação social, é o que define a migração como um processo que se estende desde o lugar de origem até a inserção do migrante no local de destino.
Para Germani, então, a migração é um processo social que vai além dos mecanismos do mercado de trabalho, no plano econômico, e se insere em uma ampla mudança social, cultural e psicossocial, tanto individual, quanto coletiva, dentro do desenvolvimento da sociedade moderna. Desse modo, as migrações, dentro do processo de mobilização social, são necessárias e funcionais para a modernização da sociedade dos países em desenvolvimento (BRITO, 2009, p. 09).
Segundo Brito (2009), a crítica que recai sobre essa teoria está relacionada ao itinerário otimista de Germani, que não previu que os migrantes, mesmo mobilizados pela sociedade moderna, poderiam ser empurrados em direção à exclusão social, diante das profundas desigualdades sociais e espaciais.
Já a teoria de Durham, centrada no caso brasileiro, diz que a migração só ocorre se a sociedade agrária-tradicional tiver alguma forma de inclusão na economia competitiva. “Somente assim, a necessidade de melhorar de vida pode levar ao abandono do universo da sociedade tradicional, dentro do qual não há alternativa para a ascensão social” (BRITO, 2009, p. 10). Segundo a autora, no Brasil a migração é uma tradição e, portanto, faz parte do “equipamento cultural tradicional”. Ao indivíduo que quer melhorar de vida (e sabendo que tem chances de competir no mercado de trabalho afora) não resta alternativa a não ser migrar para as cidades, especialmente as grandes. Este processo é organizado a partir de grupos de relações primárias, sendo eles: a família, os parentes, os vizinhos, os amigos, etc. “É o grupo de relações primárias que acumula as informações necessárias para reduzir os riscos inerentes à migração, ajudando a adaptação na sociedade urbana e, ao mesmo tempo, faz com que o migrante não dissolva os seus laços com a região de origem” (2009, p.10).
Sobre a perspectiva sociológica também recaem críticas. A mais voraz consiste no fato de que as interpretações da perspectiva sociológica tenderiam a privilegiar os aspectos individuais dos migrantes e o centro das atenções se resume, quase sempre, nos contextos urbanos. Assim, baseado em informações das populações que moram nas regiões periféricas das grandes cidades, passa-se a inferir sobre os motivos da migração a partir das características dos migrantes, dando destaque aos traços psicossociais e às orientações valorativas e sobre a assimilação dos migrantes à vida urbana (NOGUEIRA, 1991).
Outra abordagem teórica sobre as migrações internas consiste na perspectiva econômica ou abordagem neoclássica, que se espelha muito nas teorias clássicas sobre a migração internacional. São estudos que, a partir de 1960, passaram a estabelecer uma relação entre fenômenos migratórios e a teoria econômica. Esta abordagem enfatiza que a migração consiste num ato de decisão pessoal, que é determinado por um diferencial de salário decorrente de uma desigual distribuição fatorial entre as regiões, tendo como resultado o restabelecimento do equilíbrio nas diversas áreas (NOGUEIRA, 1991). Na análise econômica sobre migração, há ainda, segundo Brito (2009), a concepção de que as migrações constituem importante mecanismo
de transferência da população de regiões agrícolas com uma produtividade de trabalho muito baixa, para setores urbanos e industriais da economia capitalista, onde o progresso técnico garante a elevação da produtividade do trabalho.
A crítica que recai sobre essa perspectiva teórica está no fato dela não considerar as migrações enquanto um ato individual. Nesse contexto, supõe-se que o grupo de migrantes sempre aja racionalmente, realizando análises de custos e benefícios a partir de um amplo conhecimento do mercado que influenciaria a decisão da migração, sempre visando maximizar a renda (NOGUEIRA, 1991).
Finalmente, a partir dos últimos anos da década de 1960, surgem estudos preocupados em correlacionar o processo migratório, principalmente na América Latina, às especificidades do desenvolvimento econômico da região. Essa perspectiva passa a ser conhecida como histórico-estrutural. Uma de suas preocupações básicas era não restringir a análise à aparência dos fenômenos, sempre buscando o entendimento global destes, considerando-os sempre como elemento do processo de acumulação do capital. E, a partir da teoria “centro- periferia”, esta perspectiva reconstrói quadro histórico em que surgem os movimentos migratórios, buscando a compreensão do processo a partir de seus aspectos estruturais. Esse panorama foi considerado uma das linhas de análises mais promissoras dos movimentos migratórios, porém, nem por isso, deixou de ser criticado. Segundo Nogueira (1991), a perspectiva histórico-estrutural apresenta algumas limitações, principalmente no que diz respeito aos trabalhos da década de 1970:
Foi decisiva, por exemplo, a contribuição desses estudos na transparência da estrutura agrária de países da América Latina. Contudo, quando se dá a integração deles com os dos processos migratórios e suas diversas modalidades, sente-se quase uma mecanicidade para que o fenômeno migratório passe a corresponder às expectativas a este reservadas dentro da citada integração. Aqui, portanto, sem se ter a identidade das populações a que se refere, corre-se o risco de, por exemplo, não se conhecerem as reais características dessas pessoas, como também de não se conhecerem as reais dimensões dos impactos dos processos migratórios nas áreas de origem e destino. Isso leva a algumas limitações, já que se perdem certos desdobramentos do fenômeno, como as migrações temporais, estacionais e outras distintas da categoria rural-urbana, existindo, inclusive, quase que um consenso na propriedade de se romper com a dualidade rural-urbana e entender as migrações em termos de mercado de trabalhos regionais (NOGUEIRA, 1991, p. 44).