Como distinguir os espaços sagrados e profanos na televisão? Como identificar o limiar entre estas duas realidades polarizadas no interior de uma mídia considerada profana? Quando Eliade elaborou sua perspectiva fenomenológica, não estava preocupado com o sagrado vivenciado através das imagens televisivas. Analisar a presença do sagrado em uma mídia considerada profana não é tarefa simples, mas complexa. Sobretudo, por que na contemporaneidade, a separação entre a esfera profana e a esfera sagrada são mais explícitas, num mundo pós-moderno, marcado pelo processo de secularização.
O processo de secularização pode também ser compreendido como uma demarcação de fronteiras, entre o que é da esfera secular, civil, societal e o que é próprio das instituições religiosas, que tem objetivos a defender, como a expansão de suas crenças, o crescimento de seus fiéis e o projeto de influenciar com seu capital simbólico nas transformações da sociedade.
No caso da televisão, o limiar entre o sagrado e o profano está na grade
horária de programação, e para ser mais explícito, no conteúdo ou gênero religioso,13
13 Aronchi de Souza assim se refere aos gêneros da televisão: “Os gêneros, podem, portanto, ser
entendidos como estratégias de comunicabilidade, fatos culturais e modelos dinâmicos, articulados com as dimensões históricas de seu espaço de produção e apropriação, na visão de Martin-Barbero. Congregam em uma mesma matriz cultural referenciais comuns tanto a emissores e produtores, como ao público receptor. Somos capazes de reconhecer este ou aquele gênero, falar de suas especificidades, mesmo ignorando as regras de sua produção, escritura e funcionamento. A familiaridade se torna possível porque os gêneros acionam mecanismos de recomposição da memória e do imaginário coletivos de diferentes grupos sociais” (2004: 44).
que esta veicula, que por sua vez inclui as imagens religiosas e o som (as músicas religiosas). Nos estudos de comunicação em geral, se utiliza o termo gênero televisivo, neste caso, classificado como gênero religioso, ou ainda, Igreja Eletrônica (ASSMANN, 1986).
Convém explicitar o que se entende por programação e por grade horária dentro das programações televisivas:
Programação é o conjunto de programas transmitidos por uma rede de televisão. O principal elemento da programação é o horário de transmissão de cada programa. Um dos conceitos criados pelas redes é chamado
horizontalidade da programação (...). A programação horizontal significa, em resumo, a estratégia utilizada pelas emissoras para estipular um horário fixo para determinado gênero todos os dias da semana, com o objetivo de criar no telespectador o hábito de assistir ao mesmo programa nesse horário. (...) Além dos fatores ligados à audiência e ao público-alvo, a outra razão muito importante para a programação de uma rede é a de que um programa ou o conjunto de programas constrói a imagem da própria emissora de televisão. O aumento do número de programas de determinado gênero na mesma emissora promove uma imagem que torna a rede conhecida pelo público quando este escolhe seus programas favoritos. (...) A distribuição dos programas em horários planejados e previamente divulgados pela emissora, desde o início da programação até o encerramento das transmissões, cria um plano conhecido como grade horária semanal. A grade horária de uma emissora é resultado das pesquisas de audiência e da estratégia de cada rede (ARONCHI DE SOUZA, 2004, p. 54-56. 58).
A programação religiosa das Tevês católicas introduz no mundo sagrado, na comunicação com a divindade, abrindo a “porta do céu”, conduzindo à vida transcendental. Tem a ver com a “porta” enquanto zona intermediária, que dá acesso ao ambiente interno ou externo de uma casa, de uma igreja, de uma determinada religião. Estas “portas” demarcam fronteiras entre zonas intermediárias e perigosas, entre o mundo do sagrado e o mundo do profano. Por isso, passar por uma porta ou soleira de um templo é ingressar num mundo novo. Não é à toa que nas cerimônias de casamentos, antes de a noiva entrar na igreja a porta está fechada. Depois que a porta é aberta, a noiva entra numa nova situação, passando pela soleira da porta. Por isso elas se caracterizam como fronteiras sagradas:
“Para separar as áreas opostas uma das condições é o estabelecimento de fronteiras nesta zona intermediária e perigosa. Tais fronteiras são declaradamente sagradas e se constituem em obstáculos entre as pessoas que se situam em ambos os lados. No nosso século o homem tenta libertar-se dessas fronteiras, eliminando-as. Mas é pela existência delas que podemos separar um polo do outro e entendermos o que é o sagrado e o profano, o público e o privado, as classes sociais, os povos, os diversos segmentos da sociedade, etc.” (BYSTRINA, 1995, p. 11).
Nas tradições religiosas, e isto desde os tempos primordiais, a transposição de fronteiras é regulamentada pelos rituais de passagem. Havia os ritos de separação, ritos de marginalidade e os ritos de agregação, que constituíam os mais antigos e conhecidos ritos e que, sobrevivem ainda hoje, embora sob outras formas, como é o caso dos rituais de bênçãos, de consagração de lugares, de construções, ou mesmo, os ritos de iniciação como batismo, ritos de separação como casamento, cerimônias de sepultamento e assim por diante. Estes ritos de porta, de soleira, são identificados como ritos de margem, de limiares, conforme a classificação de Arnold Van Gennep (2011, p. 37), e que ele chama de ritos liminares, que são os ritos realizados durante o estágio de margem.
A grade horária de programação religiosa é o limite, a baliza, a fronteira entre o profano e o sagrado e que identifica para os telespectadores que determinado canal ou programa de televisão é de tal igreja ou de tal religião. As imagens sagradas propriamente católicas são facilmente identificáveis por qualquer pessoa. É só aparecer no vídeo as imagens de padres ou de bispos (de batina ou de clergyman), a missa transmitida pela TV, a reza do rosário com o desfile repetitivo das contas, a imagem do Papa e imagens do culto à Maria, invocada com diversos títulos, todos, verão nessas imagens àquilo que constitui a própria identidade católica apostólica romana.
Conclusão
O primeiro capítulo ajudou a entrar no comportamento e universo mental do homem religioso, pelo fato que os pontos de vista de um crente se tornam dados de um estudo transcultural. Esta parte chamou a atenção para a linguagem religiosa, que comunica, não apenas uma explicação do mundo, mas, também, um modo, para os crentes, de habitarem o mundo. Isto significa dizer que o homem religioso tem as suas próprias lentes para ver o mundo e interpretá-lo, de acordo com seus mitos ou com suas escrituras sagradas, que regulam suas vidas de acordo com estas tradições. Deste modo, a religião gira em torno do sagrado, que governa, inspira e compromete a vida dos participantes. O sagrado comunica um poder real, divino e misterioso; revela o real por excelência, diferente do profano que expressa um vazio de orientação transcendental, de modo que, lá onde existe crença de que algo é sagrado os humanos agem diferentemente, nas suas vinculações com seus deuses. Aqui podemos perceber a força de um crente ou de uma religião e, também, a força da mídia sacralizada e a capacidade desta em regular a vida dos homens, uma vez que esta se apropriou da linguagem religiosa, como aprofundaremos nos capítulos seguintes.
A visão secular de Durkheim contribui a olhar para a religião como uma criação social. Para o sociólogo o sagrado é a sociedade, ou seja, tal qual a sociedade assim é a religião. A sociedade é a matriz que cria os valores coletivos. Portanto, a religião é vista por ele como expressão de valores coletivos e não como fruto da revelação divina. É a sociedade que cria nossos papéis e identidades, é ela que torna as coisas sagradas ou profanas. Ela que detém aqueles poderes que tradicionalmente são atribuídos à divindade, moldando o mundo e suas instituições sagradas. Ela que consagra líderes ou destrói inimigos e que pode inclusive, fixar tempos e lugares santificados. Esta mesma sociedade está em processo de midiatização. Na atualidade, quem detém todos estes poderes e força é a mídia. Força e poderes que lhe foram outorgadas pela própria sociedade. Ela, a mídia, enquanto produto social usurpou poderes de divindade.
Abordou-se nesta parte como se processa a comunicação ambivalente do sagrado entre os homens e seus deuses. O sagrado emerge como uma força estupenda na experiência do homo religiosus. Os elementos do sagrado sempre fizeram parte da cultura humana, desde os tempos primordiais e continuam presentes na contemporaneidade, de forma subliminar, sobretudo, reaproveitados pela mídia que se apoderou deles e se tornou poderosa com eles, como veremos nos capítulos adiante.
CAPÍTULO II
DA IGREJA ELETRÔNICA À
MIDIATIZAÇÃO DO SAGRADO.
“Quanto maior a população e maior o espaço dominado, menor é a necessidade de impor à viva força o reconhecimento, e maior a importância de dispor-se de meios eletrônicos”
Harry Pross
“A Igreja se sentiria culpada perante o seu Senhor se não adotasse estes meios poderosos que a inteligência humana torna cada dia mais aperfeiçoados” Papa João Paulo II
CAPÍTULO II - DA IGREJA ELETRÔNICA À MIDIATIZAÇÃO DO SAGRADO.
Introdução
As chamadas “Igrejas Eletrônicas” disputam espaços e poder no cenário midiático televisivo, despertando o fenômeno que Alberto Klein denominou de “fome midiática das Igrejas”. A abordagem nesse capítulo vai da “Igreja Eletrônica” ao processo de midiatização do sagrado via televisão, apresentando o contexto do surgimento das tevês católicas, discutindo os modelos de igreja que lhe estão subjacentes, os ambientes midiáticos que produzem e aqueles que não tem visibilidade nesta mídia terciária, com a constatação da plasticidade nos modos de ser católico no Brasil e o potencial do catolicismo em incorporar a diversidade.