• No results found

4.2 Variasjon av nedbør i tid og rom

4.2.2 Analyser av tidsserier for regn- og snøsmelting

4.2.2.3 Sammenligning av vanntilførsel verdier fra seNorge med

Vae, vae!/ Que eu sou tudo pra ti/ - menos dinheiro/Que anda vasqueiro/ E em meu bolso nunca vi/ Eu nunca vi...

Amor é o de quem toca,/Meu amor,/ Cheio de solos e bemóes/ Pois só com solos te consola, linda flor,/Pois que faz sempre alegre a vidóca/ Só p’ra nós...140

No final do século XIX, José Eustáchio de Azevedo141 e Paulino de Brito142, entre outros, registraram a presença de boêmios seresteiros circulando por Belém. Em “Livro de Nugas: Letras e Farras”, Eustáchio de Azevedo, conhecido na boemia como Jacques Rolla, rememorou as rodas boêmias das quais havia participado – em especial uma serenata que promovera juntamente com os amigos Zeca Freire, Eduardo Calheiros, Leopoldo Sousa e o violonista Papapá –, e Paulino de Brito, em “Histórias e Aventuras”, narrou aspectos do cotidiano da cidade e da sua vida noturna.

Segundo Azevedo, seus amigos boêmios andavam a “farrear” por logradouros públicos quando foi sugerida a realização de uma serenata no quintal da casa de Rolla. Todos acataram a ideia e, então, dirigiram-se à mercearia mais próxima, onde compraram uma lata de sardinhas, farinha, pão, cachaça e, conforme conta: “[...] aproveitando um descuido do merceeiro, batemos de um côfo á mostra, alguns camarões, com que enchemos os bolsos e... viva a pandega!”143

Então, os amigos seguiram em direção à residência na qual realizariam a serenata:

140 Amor de “Músico”. O Trovador. Belém, maio de 1930.p.50. Paródia de autoria de Seu Bina.

141 José Eustáchio de Azevedo nasceu em 20 de setembro de 1867 e faleceu em 5 de outubro de 1943 em Belém. Trabalhou como escrevente do Arsenal de Guerra do Pará, foi escriturário na agência de navegação do Loyde Brasileiro e do Banco do Estado do Pará. Trabalhou como jornalista e colaborou em vários jornais literários. Em 1º de janeiro de 1894, junto com outros rapazes de letras, criou a “Mina Literária”, com o intuito de desenvolver a literatura na Amazônia. Entre suas obras encontram-se: “Nevoeiros”, “Brasil”, “A viúva”, “Anthologia amazônica”, “Vidimas”, “Literatura Paraense”, “Livro de Nugas: Letras e Farras” e “Duas Musas”. ROCQUE, Carlos. Antologia da cultura Amazônica. Belém: Edições Culturais, s/d.

142 Paulino de Almeida Brito nasceu em Manaus em 9 de abril de 1858 e faleceu em Belém em 17 de julho de 1919. Foi escritor, jornalista e professor. Cursou em São Paulo a faculdade de Direito, tendo concluído o curso na Faculdade de Direito do Recife. Como jornalista, foi redator-chefe do jornal Folha do Norte, um dos principais jornais de Belém. Como escritor, escreveu “O Homem das Serenatas”, “Contos”, “Novos Contos”, “Histórias e Aventuras”. Como professor de língua portuguesa, escreveu “Gramática Primária da Língua Portuguesa” e “Gramática Complementar”. Nesta pesquisa utiliza-se do autor o livro de crônicas intitulado “Histórias e Aventuras”, publicado em 1902.

Todos falavam, cantavam, riam, contavam anecdotas. A vida bohemia estava alli patente, era uma hora da madrugada [...]. Na esquina, um polícia que presenceava o quadro, foi conviva também, porque beijou a garrafa de água... e manducou alguns camarões restantes. Nesse tempo tínhamos em cada soldado um amigo e podíamos impunemente fazer as maiores estroinices. [...]

Fomos para o fundo da casa. O luar, - nunca mais vir outro assim! - inspirava-nos, além da inspiração que já tínhamos... - Vamos! Quem canta? Perguntou Leopoldo Sousa.

- Eu! Respondi.

O Papapá afinou a Lyra e eu cantei: [...].

E o gemebundo violão do Papapá acompanhava dolorido: [...]. - Bravos Rolla! Agora canto eu! Brandou o Leopoldo beijando a garrafa de água... que passarinho não bebe, - afina o violão, Papapá, eu canto em dó!... [...].

Agüenta a nota, poeta! Berrou o Zéca, enquanto o violão estremecia, chorava, gemia, nas mãos do Papapá! [...]

O Papapá esticou as cordas do pinho e exclamou enthusiasmado: - Agora canto eu canalhas! Apreciem o vozeirão do mestre de vocês!

Foi a nota final. Com a bella voz que possuía cantou naquella noite banhada de lua a mais velha das modinhas conhecidas e na qual o saudoso actor Xisto Bahia tinha o seu melhor cavallo de batalha.144

A noitada boêmia aparece descrita idilicamente. Era vivida de forma simples, pelas ruas e quintais, contando com parcos recursos financeiros, descompromissada, alegre, recheada de conversas humorísticas, risos, cantorias e bebedeiras.145 Entretanto, observa-se na continuidade do relato que a “farra” quase provocou confusão:

144 AZEVEDO, José Eustáchio de. Livro de Nugas: Letras e Farras. Belém: s/e, 1924. p.28-9.

145 Souza Rodrigues, ao analisar a construção de uma memória da boemia literária carioca, considerou que pautou-se por uma representação idílica da vida boêmia. Entretanto, para os literatos que dela participaram, ela significava “uma fase difícil, provatória, na vida dos jovens escritores, poetas e jornalistas, que queriam viver de suas penas. Possuía um sentido político definido: era uma luta cotidiana de afirmação da atividade literária, que, para além de ter conseqüências estéticas, como a produção de romances ou poesia, era uma luta pela abertura de “capítulos fulgurantes” na história do país, materializados na Abolição e na República”. SOUZA RODRIGUES, João Paulo Coelho de. “A Geração Boêmia: Vida Literária em romances, memórias e biografias”. In: CHALHOUB, Sidney; PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda (Orgs.). A História Contada: Capítulos de História Social da Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998. p.246. Acredita-se que as análises desenvolvidas pelo autor sejam válidas para a boemia literária belenense do século XIX.

Passado tempo a vizinha Umbelina, que morava junto da casa, contava à minha velha mãe que quase endoidece naquella noite, e que já tinha resolvido ir dar parte á polícia, se aqueles vagabundos continuassem, na noite seguinte, com as taes serenatas.146

A seresta realizada pelos boêmios atrapalhou o sossego da vizinhança, que cogitou chamar a polícia caso a cantoria noturna continuasse nas noites seguintes.

Em 1886, Sganarello147 também reclamava das pândegas boêmias que ocorriam no centro da cidade:

Multiplica-se a malandragem a escorregar invisivelmente por entre as barbas policiais [...].

A rua do Rosário muito freqüentada por meia dúzia de rapazes, empregados nas diversões, trovadores de alta noite, inimigos do socego público [...].

Ainda uma noite d’estas, queixa-se um amigo, as cocettes d’essa rua foram embaladas pelas melodias de um melancólico violão, de um cavaquinho e de uma fastidiosa sanfona, instrumentos de vez enquanto interrompidos pela voz fanhosa do trovador [...]. D’ahi a pouco a cachaça vinha por ventura do café do canto [...]. Entendemos que se devia prohibir as deveras esses ajuntamentos lyricos, que cheiram á desordens, no centro da cidade [...]. Trabalho para essa gente poética!148

De acordo com Antônio Pádua de Carvalho – pseudônimo Sganarello –, meia dúzia de rapazes, malandros, pessoas que trabalhavam nas casas de diversões, poetas e trovadores noturnos invadiam o centro da cidade e, os dois últimos, embalados pelo som do violão, do cavaquinho e de uma sanfona, cantavam e bebiam cachaça, perturbando o sossego público. E a polícia, que teria a função de coibir o que o cronista chamava de desordem, nada fazia, permitindo a multiplicação dos grupos pela urbe. Pádua de Carvalho indicava a necessidade de se proibir e combater, pela ação

146 AZEVEDO, José Eustáchio de. Livro de Nugas: Letras e Farras. Belém: s/e, 1924. p.30. 147 Sganarello era o pseudônimo de Antônio de Pádua Carvalho.

policial, a circulação dos grupos boêmios pela urbe, considerando, entretanto, que a forma mais eficaz de combatê-los seria disciplinando-os por meio do trabalho.

Na primeira narrativa a vida boêmia aparece representada idilicamente, enquanto que na segunda assemelha-se a desordem. Nos dois relatos emerge a ideia de proibição às práticas noturnas desenvolvidas nas ruas, bem como a conivência policial com os que as praticavam, já que, ao invés de coibirem as “desordens”, os policiais solidarizavam-se com os boêmios. Entretanto, tanto Umbelina – a vizinha incomodada com as serenatas de Eustáchio de Azevedo e seus amigos – como Sganarello consideravam os boêmios como vagabundos, desordeiros e perturbadores do sossego público que impunemente circulavam pela cidade atrapalhando, rompendo a monotonia e tranquilidade dos moradores.

No final do século XIX, disciplinar os hábitos, controlar os costumes e impor determinadas restrições aos grupos populares foram metas consideradas prioritárias pelas elites.149 Indivíduos que não tinham ocupação regular, estável e remunerada, assim como os que praticassem certos atos que extrapolassem os limites morais prescritos pela legislação e códigos de comportamentos vigentes, eram taxados de vagabundos e vadios. Combatia-se a vagabundagem, pois se entendia que o ócio levaria o indivíduo a praticar crimes, constituindo-se assim no retrato do perigo e da suspeição por excelência.

Comportamentos considerados desviantes, como gritarias, falas altas, bebedeiras, serenatas, entre outras práticas desenvolvidas à noite, foram condenados e sistematicamente proibidos.150 Na tentativa de enquadrar ou disciplinar os grupos populares, a eles eram impostas determinadas regras de comportamento tanto no

149 O saneamento e embelezamento das cidades brasileiras iniciados no século XIX devem ser compreendidos pela sua lógica excludente e hierarquizante. Segundo Sevcenko, a Regeneração pautava-se por quatro princípios fundamentais: “[...] a condenação dos hábitos e costumes ligados pela memória à sociedade tradicional; a negação de todo e qualquer elemento da cultura popular que pudesse macular a imagem da sociedade dominante; uma política de expulsão dos grupos populares da área central da cidade, que será praticamente isolada para o desfrute exclusivo das camadas aburguesadas; e um cosmopolitismo agressivo, profundamente identificado com a vida parisiense.” SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão - Tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1999. p.30.

150 Em Belém, os códigos de posturas municipais proibiam sistematicamente diversas práticas populares noturnas desenvolvidas nas ruas da cidade. Ver: lei de nº 1.028, artigo 107.

espaço público como no privado.151 As normas que se tentava instituir pautavam-se pelo ideal de comportamento burguês e estavam de acordo com os preceitos de “civilização” difundidos pelas elites.

A nova ética do trabalho que se buscava implantar procurava valorizar o trabalho e negava o ócio, estabelecendo-se a noite como o momento de descanso e reposição das forças do trabalhador152 e/ou do lazer controlado e ordenado. A ordenação do mundo do trabalho trazia consigo a necessidade de se criar um conjunto de regras que visassem a disciplinar o não trabalho. Racionalizava-se o tempo do trabalhador e disciplinava-se o lazer. As elites consideravam que era com a luz do dia, no mundo da ordem, que se moviam os homens de bem e as mulheres de boa família, e na noite, considerada o universo da desordem, circulavam os boêmios, os marginais, as prostitutas.

Os boêmios e outros sujeitos que buscavam a noite como lócus de trabalho e/ou lazer, com horários, territórios e normas distintos daqueles da maioria dos moradores de Belém, não possuíam uma forma de vida pautada pelas normas de conduta estabelecidas como aceitáveis pelas elites, que os consideravam irresponsáveis, imorais e ociosos.153 O modo de vida alternativo de uma parcela da população confrontava-se, desafiava, resistia às novas imposições, fazendo com que personagens como os boêmios tivessem suas figuras associadas à ideia de transgressão e à marginalidade.154

151 Sobre os conflitos em relação às práticas culturais populares em Belém, ver: FIGUEIREDO, Aldrin Moura de. A cidade dos Encantados: Pajelanças, feitiçarias e religiões afro-brasileiras na Amazônia. A constituição de um campo de estudo - 1870-1950. Dissertação (Mestrado em História Social), Campinas - SP, Universidade Estadual de Campinas, 1996. Ver também: CORRÊA, Ângela Tereza de Oliveira. Músicos e Poetas na Belém do início do século XX: Incursionado na história da cultura popular. Dissertação (Mestrado em Planejamento do desenvolvimento), Núcleo de Altos Estudos Amazônicos - Universidade Federal do Pará, 2002.

152 Matos afirma que: “Desde as origens da expansão da industrialização que as referências trabalho-ócio levaram a conceber a noite como momento de descanso e da reposição da força física, que se mantém como permanência no mundo capitalista-urbanizado.” MATOS, Maria Izilda Santos de. A cidade, a noite e o cronista - São Paulo e Adoniran Barbosa. Bauru - SP: EDUSC, 2007. p.31.

153 Embora os boêmios possuíssem regras e formas de expressão diferentes, “[...] nem por isso eram marginais ou desvinculadas dos elementos fundantes da sociedade, como trabalho e família”. Ibidem. p.96.

154 Chalhoub observou que existia, por parte das elites, a “intenção de controlar, de vigiar, de impor padrões e regras preestabelecidas a todas as esferas da vida. Mas a intenção de enquadrar, de silenciar acaba revelando também a resistência, a não conformidade, a luta [...]”. CHALHOUB, Sidney. Trabalho, Lar e Botequim: O cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da Belle Époque. São Paulo: Brasiliense, 1986. p.33.

A representação do boêmio e da boemia apresentava-se, destarte, marcada pela ambigüidade. De um lado, despontava associada à vadiagem, à malandragem e à ociosidade; de outro, valorizava-se, idealizava-se e romantizava-se a figura dos músicos e intelectuais boêmios que faziam serenatas noturnas, tocando modinhas pelas ruas da cidade.

Portanto, em Belém, desde o final do século XIX, observa-se a condenação e o combate sistemático das práticas boêmias seresteiras. Entretanto, percebe-se também um processo contínuo de renovação e preservação da memória dessa prática boêmia.

Em 1931, Raymundo Moraes155 escrevia que:

A capital paraense é a terra dos músicos boêmios, das famosas orquestras de pau e corda,156 dos tocadores de flauta e violão, dos cantadores de modinhas, dos trovadores noturnos, que levantam, em setembro e outubro, nas noites brancas de lua cheia, em lânguidas serenatas, quarteirões inteiros.157

Por sua vez, Vicente Salles, em 1980,158 comentava a participação do músico Tó Teixeira159 nos grupos boêmios e seresteiros presentes em Belém nas décadas de 1920 e 1940. Na década de 1970, Tó Teixeira, em entrevistas aos jornais A Província

do Pará e O Liberal, falava sobre sua inserção nos grupos seresteiros que circulavam

155 Nasceu em 15 de setembro de 1872 e faleceu em 1941 em Belém. Aos 18 anos tornou-se comandante de navios fluviais do Amazonas, o que lhe permitiu tornar-se exímio conhecedor da região sobre a qual escreveu diversos livros. Publicou romances amazônicos, ensaios, apólogos, memórias, comentários à viagem de Agassiz à Amazônia, estudos sobre a origem do vale Amazônico e um dicionário de coisas da Amazônia. Seu conhecimento sobre a Amazônia o levou a fazer parte da Societé des Americanistes de Paris. MENEZES, Raimundo de. Dicionário Literário Brasileiro. 2ªed. Rio de Janeiro: LTC, 1978.

156 Sobre os conjuntos de Paus e Cordas, comuns em Belém, Salles afirma que estes eram conjuntos musicais integrados por instrumentos de madeira (clarinetas, flautas) e cordas (violinos, violões, cavaquinhos), típicos do Norte e Nordeste brasileiro. Assemelhavam-se aos grupos de choro do Rio de Janeiro. Considerados como seresteiros e boêmios tocavam também em bailes e cinemas. SALLES, Vicente. Música e músicos do Pará. 2ª Ed. (Corrigida e Ampliada). Belém: Secult/Seduc/Amu, 2007.

157 MORAES, Raymundo. Paiz das pedras verdes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira Editora, 1931. p. 213. 158 SALLES, Vicente. “Tó Teixeira minha gente”. A Província do Pará. 3ª cad. Belém, 24/10/1980. p.5.

159 Antonio do Nascimento Teixeira Filho, mais conhecido como Tó Teixeira, nasceu em 13/06/1895 e faleceu em 29/10/1982 em Belém. Violonista e compositor, participou dos grupos boêmios seresteiros nas décadas de 20 a 40. Musicou peças para o teatro de revista, participou de diversos grupos musicais, entre outras atividades. Além do violão, tocava também violino e trombone. Seu conhecimento musical foi adquirido junto ao pai e convivência com outros violeiros.

pela cidade entre os anos 1920 e 1940. E Salomão Habbib,160 na primeira década do século XXI, convidava o público belenense a rememorar as antigas serenatas que ocorriam pela cidade.

Ao analisar a boemia seresteira das décadas de 1920 a 1940, o presente estudo buscou compreender como os intelectuais que delas participavam representaram o boêmio e a boemia desse período.