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O catolicismo brasileiro veio com os colonizadores, ela estava presente na vida dos brasileiros há três séculos. No capítulo anterior observamos como era o catolicismo brasileiro sob a ótica de Kidder, a seguir abordaremos a religiosidade brasileira sob a ótica dos brasileiros, intelectuais, e também de outros viajantes estrangeiros. Com o objetivo de extrair desses autores sua visão do Brasil religioso neste período.

Este capítulo abordará a sociedade brasileira, utilizando-se dos pensamentos dos autores Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior, os quais foram intelectuais que se propuseram a entender e interpretar o século XIX.

Gilberto Freyre

Para Freyre (1983, p. 4) “Formou-se na América tropical uma sociedade agrária na estrutura, escravocrata na técnica de exploração econômica, híbrida de índio – e mais tarde de negro – na composição”. Freyre (1983, p. 5) também aponta o motivo por que o português teve tanta facilidade com a colonização dos trópicos. Segundo ele:

A singular predisposição do português para a colonização híbrida e escravocrata dos trópicos, explica-a em grande parte o seu passado étnico, ou antes, cultural, de povo indefinido entre a Europa e a África. Nem intransigente de uma nem de outra, mas das duas.

No pensamento de Freyre, Portugal convivia com essa indecisão étnica e cultural entre a Europa e a África, durante muito tempo, por isso, quando chega à colônia dos trópicos não tem dificuldade de se adaptar à miscigenação. A falta de mulheres foi um dos fatores preponderantes dessa miscigenação. Não havendo mulheres brancas, as índias, e depois as negras, trouxeram ao português “alívio de suas tensões”.

Segundo a visão de Freyre, a sensualidade das mulheres de cor e das índias quando os portugueses chegaram, contribuiu para a miscibilidade, e, como consequência, para a posse de um território tão amplo:

Quanto à miscibilidade, nenhum povo colonizador, dos modernos, excedeu ou sequer igualou nesse ponto aos portugueses. Foi misturando-se gostosamente com mulheres de cor logo ao primeiro contato e multiplicando- se em filhos mestiços que uns milhares apenas de machos atrevidos conseguiram firmar-se na posse de terras vastíssimas e competir com povos grandes e numerosos na extensão de domínio colonial e na eficácia de ação colonizadora. (FREYRE, 1983, p. 9)

Na concepção de Freyre (1983, p.21) existiam aqueles que eram aventureiros e oportunistas, enxergando no Brasil uma chance de viver livremente. “Atraídos pelas possibilidades de uma vida livre, inteiramente solta, no meio de muita mulher nua, aqui se estabeleceram por gosto ou vontade própria”.

Segundo Freyre (1983, p.10) outra circunstância que favoreceu o português, além da miscibilidade, foi a aclimatabilidade, ou seja, “condições físicas de solo e de temperatura, Portugal é antes África do que Europa”.

Outro aspecto abordado por Freyre (1983, p. 12) foi dizer que os portugueses criaram a primeira sociedade moderna dos trópicos.

De qualquer modo o certo é que os portugueses triunfaram onde outros europeus falharam: de formação portuguesa é a primeira sociedade moderna constituída nos trópicos com características nacionais e qualidades de permanência.

Para confirmar essa tese, Freyre (1983, p. 18) cita Payne, na sua History of

European Colonies. Segundo essa citação, os portugueses venderam suas propriedades

e trouxeram suas famílias para os trópicos.

De acordo com Ricupero (2008, p. 83) Freyre defende que: “O principal terreno para que a mestiçagem tivesse ocorrido teria sido, a família patriarcal”. Todavia Freyre (1983, p. 17) disse:

A sociedade colonial no Brasil, principalmente em Pernambuco e no Recôncavo da Bahia, desenvolveu-se patriarcal e aristocraticamente à sombra das grandes plantações de açúcar, não em grupos a esmo e instáveis; em casas-grandes de taipa ou de pedra e cal, não em palhoças de aventureiros.

Falando sobre os grupos de pessoas que vieram para o Brasil, Freyre cita os aventureiros, os fugitivos, e os degredados. Esses grupos vieram para o Brasil em números insignificantes, não podendo ser definidos como determinantes da forma de colonização.

A colonização por indivíduos – soldados e fortuna, aventureiros, degredados, cristãos-novos fugidos à perseguição religiosa, náufragos, traficantes de escravos, de papagaios e de madeira – quase que não deixou traço na plástica econômica do Brasil. Ficou tão no raso, tão à superfície e durou tão pouco que política e economicamente esse povoamento irregular e à-toa não chegou a definir-se em sistema colonizador. (FREYRE,1983, p. 19)

A religiosidade da colônia é retratada por Freyre (1983, p. 22) como uma religiosidade delimitada pelo sistema patriarcal, com a capela familiar, “uma liturgia social e não religiosa, um cristianismo lírico, com muitas reminiscências fálicas e animistas das religiões pagãs”. Freyre (1983, p. 22) fala também do relacionamento com o sagrado de maneira íntima e pessoal.

Os santos e os anjos só faltando tornar-se carne e descer dos altares nos dias de festas para se divertirem com o povo; os bois entrando pelas igrejas para ser benzidos pelos padres; as mães ninando os filhinhos com as mesmas cantigas de louvar a Menino-Deus; as mulheres estéreis indo esfregar-se, de saia levantada, nas pernas de São Gonçalo dos Amarantes; os maridos cismados de infidelidade conjugal indo interrogar os “rochedos dos cornudos” e as moças casadouras os “rochedos do casamento”; Nossa Senhora do Ó adorada na imagem de uma mulher prenhe.

A religiosidade, embora fosse superficial, era um elo entre a colônia e a nação portuguesa, por isso só era considerado português aquele que tivesse a religião católica, a prática predominante era de um padre ir a bordo de um navio, para examinar a religião, se o imigrante não professasse a fé católica ele era impedido de desembarcar. Freyre (1983, p. 29) assevera:

O que barrava então o imigrante era a heterodoxia; a mancha de herege na alma e não a mongólica no corpo. Do que fazia questão era a saúde religiosa; a sífilis, a bouba, a bexiga, a lepra entraram livremente trazidas por europeus e negros de várias procedências.

Para Freyre “O catolicismo foi realmente o cimento de nossa unidade” (FREYRE, 1983, p. 30). O fechamento dos portos para nações que não fossem católicas foi uma estratégia para concretizar essa unidade. Freyre “[...] observa que no Brasil foram o catecismo dos Jesuítas e as Ordenações do Reino que ‘garantiram desde os primórdios a unidade religiosa e a do direito’”.

A tese principal de Freyre é que a unidade da colonização foi a família patriarcal. Diferentemente do próximo intérprete do Brasil, o qual vê no indivíduo aventureiro esse instrumento.

Sérgio Buarque de Holanda

Sérgio Buarque de Holanda é o segundo intérprete do Brasil que será consultado. Com seu Homem Cordial, tipo ideal weberiano, explorado no capítulo 5 da obra Raízes

do Brasil, define a contribuição do Brasil para a civilização:

Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será a cordialidade – daremos ao mundo o “homem cordial”. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do

caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. (HOLANDA, 1963 p.136)

Com respeito à religiosidade, Holanda (1963, p. 142), diz que se formou no Brasil uma religiosidade democrática que não exigia nenhum esforço de seus fiéis, trazendo assim prejuízo para a religião oficial, pois destruiu a base do sentimento religioso.

No Brasil, ao contrário, foi justamente o nosso culto sem obrigações e sem rigor, intimista e familiar, a que se poderia chamar, com alguma impropriedade, “democrático”, um culto que dispensava no fiel todo esforço, toda diligência, toda tirania sobre si mesmo, o que corrompeu, pela base, o nosso sentimento religioso.

Essa religiosidade é tão superficial que como diz Holanda “Os que assistiram às festas do Senhor Bom Jesus de Pirapora, em São Paulo, conhecem a história do Cristo que desce do altar para sambar com o povo” (HOLANDA, 1963, p. 141). Essa relação do sagrado com o povo tem sua origem na Península Ibérica e na Europa medieval.

Ao mencionar a observação feita pelos viajantes, Holanda cita Kidder que, a respeito da religiosidade brasileira, diz: “quem deseje encontrar, já não digo estímulo, mas ao menos lugar para um culto mais espiritual, precisará ser singularmente fervoroso” (HOLANDA, 1963, p.143). Holanda culpa o clima tropical por causar tamanha frieza religiosa e diz que os protestantes metodistas e puritanos não terão sucesso no Brasil. “É que o clima não favorece a severidade das seitas nórdicas. O austero metodismo ou o puritanismo jamais florescerão nos trópicos” (HOLANDA, 1963, p. 144).

Para Holanda (1963, p. 116), a situação do catolicismo brasileiro passa pela administração da coroa, pois o patronato real trouxe muitas vicissitudes para a igreja.

Propunham candidatos ao bispado e nomeavam-nos com cláusula de ratificação pontifícia, cobravam dízimos para dotação do culto e estabeleciam toda sorte de fundações religiosas, por conta própria e segundo suas conveniências momentâneas. A Igreja transformara-se, por esse modo, em simples braço do poder secular, em um departamento da administração leiga ou, conforme dizia o Padre Júlio Maria, em um instrumentum regni.

Ainda falando sobre a religião no Brasil Colônia, Holanda (1963, p. 117) diz: “Os maus padres, isto é, negligentes, gananciosos e dissolutos, nunca representaram exceções em nosso meio colonial”. Kidder detectou esse mesmo problema que Holanda denunciou. Para o missionário os padres eram o maior problema da religiosidade brasileira, eram imorais e ignorantes, não sabiam as Escrituras e possuíam famílias.

Sabemos que ninguém estava satisfeito com a religiosidade brasileira, nem os líderes religiosos, como vimos no depoimento do bispo, dizendo que os padres não cumpriam suas obrigações sacerdotais, e ele preferia ter poucos padres do que tê-los infiéis. As autoridades civis que sabiam que a coroa não colaborava para melhorar a situação da igreja no Brasil, pois não havia interesse. Os intelectuais que conheciam e tiveram contato com o catolicismo de outras países e desejavam uma igreja que contribuísse com a melhora da população. E os brasileiros donos de terras que não deixavam suas filhas se confessarem por medo dos padres induzissem-nas ao erro. Dessa forma Kidder e Holanda possuem o mesmo discurso de condenação dessas atitudes, dizendo que o cristianismo tem o objetivo de moralizar as pessoas, fazer com que sejam pessoas melhores, sendo bons cidadãos.

Quando Holanda (1963, p 139) aborda o capítulo sobre o Homem Cordial ele observa que existe uma tendência grande em usar as palavras no diminutivo:

A terminação “inho”, aposta às palavras, serve para nos familiarizar mais com as pessoas ou os objetos e, ao mesmo tempo, para lhes dar relevo. É a maneira de fazê-los mais acessíveis aos sentidos e também de aproximá-los do coração.

Essa observação de Holanda (1963, p. 141) também aparece na intimidade com o sagrado, como ele narra sobre a Santa Terezinha.

A popularidade, entre nós, de uma Santa Teresa de Lisieux – Santa Terezinha – resulta muito do caráter intimista que pode adquirir seu culto. Culto amável e quase fraterno, que se acomoda mal às cerimônias e suprime as distâncias.

Após ter-se analisado Gilberto Freyre, o qual enfatiza, no aspecto religioso, que o catolicismo foi o cimento da unidade da colônia, e Sérgio Buarque de Holanda, que aborda a religiosidade dos brasileiros como democrática, não havendo nenhum esforço dos fiéis na prática da religião, e discorre sobre a influência do sistema do padroado, gerando maus padres, na sua maioria, negligentes, gananciosos e dissolutos. A seguir passa-se a discorrer sobre o escrito de Caio Prado Junior a respeito da Formação do

Brasil Contemporâneo.

Caio Prado Junior

Prado Jr., em seu livro Formação do Brasil Contemporâneo, aborda um importante aspecto sobre a colonização e formação do Brasil.

Todos os acontecimentos desta era, que se convencionou com razão chamar dos “descobrimentos”, articulam-se num conjunto que não é senão um capítulo da história do comércio europeu. Tudo que se passa são incidentes da imensa empresa comercial a que se dedicam os países da Europa a partir do séc. XV, e que lhes alargará o horizonte pelo Oceano afora (PRADO JR., 1972, p. 22).

Segundo Prado Jr., a colonização do Brasil é produto direto da expansão ultramarina europeia, que tinha como objetivo explorar os lugares descobertos para abastecer o mercado europeu. Como diz Ricupero, referindo-se à Formação do Brasil

Contemporâneo, “dessa forma a colonização dos trópicos se reduziria a quase a “uma

vasta empresa comercial” (RICUPERO, 2008, p. 140).

Esse espírito de exploração está presente, é o comércio que interessa aos colonizadores, não existe o interesse em povoar a terra. Prado Jr. (1972, p. 23) ressalta o desprezo pela América em detrimento do Ocidente:

A ideia de povoar não ocorre inicialmente a nenhum. É o comércio que os interessa, e daí o relativo desprezo por este território primitivo e vazio que é a América; e inversamente, o prestígio do Oriente, onde não faltava objeto para atividades mercantis.

Prado Jr. também faz uma diferenciação entre a colonização da América do Norte, que ele chama de colonização de povoamento, e da colonização da América do Sul, a qual chama de colonização de exploração. Falando sobre o norte, ele diz: “O que os colonos desta categoria têm em vista é construir um novo mundo, uma sociedade que lhes ofereça garantias que no continente de origem já não lhes são mais dadas” (PRADO JR., 1972, p. 27). Referindo-se às perseguições religiosas ou às questões de ordem econômica.

De acordo com Prado Jr. (1972, p. 31) a colônia existia para fornecer matéria prima para a Europa. Ele relata:

Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde ouro e diamante; depois, algodão e em seguida café, para o comércio europeu.

Segundo Prado Jr. (1972, p. 37) houve a necessidade de marcar território, mesmo sendo colonização de exploração era necessário o povoamento.

Vários fatores determinaram esta dispersão do povoamento. O primeiro é a extensão da costa que coube a Portugal na partilha de Tordesilhas, o que obrigou, para uma ocupação e defesa eficientes, encetar a colonização simultaneamente em vários pontos dela.

A garantia da posse do território se deu através da divisão do território em capitanias, que garantiu à coroa portuguesa a posse efetiva do longo litoral. Para Prado

Jr. (1972, p. 39) “o povoamento só começa a penetrar o interior, propriamente, no segundo século” da colonização.

Assim como falar em colônia é falar de índios sendo “civilizados”, também é falar de negros escravizados, Prado Jr. (1972, p. 273) diz:

Uma última circunstância diferencia e caracteriza a escravidão americana: é a diferença profunda de raças que separa os escravos de seus senhores. Em algumas partes da América, tal diferença constitui, como se sabe, obstáculo intransponível à aproximação das classes e dos indivíduos, e reforçou por isso consideravelmente a rigidez de uma estrutura que o sistema social, em si, já tornava tão estanque internamente.

Na colônia havia muito preconceito com os negros, chamados muitas vezes de “pretos”, forma de tratamento pejorativo e que significava basicamente escravo, mesmo para aqueles que já haviam conquistado a liberdade. Prado Jr. (1972, p. 274) declara:

O negro ou mulato escuro, este não podia abrigar quaisquer esperanças. Por melhores que fossem suas aptidões; inscrevia-se nele, indelevelmente, o estigma de uma raça que à força de se manter nos ínfimos degraus da escala social, acabou confundindo-se com eles. “Negro” ou “Preto” são na colônia, e sê-lo-ão ainda por muito tempo, termos pejorativos; empregam-se até como sinônimo de “escravo”.

Enquanto que para o índio havia quem lutasse por eles, a saber, os Jesuítas, mesmo que de forma acanhada, os negros não possuíam alguém que os defendesse. Eles não tinham proteção alguma. Prado Jr. observa que “O negro não teve no Brasil a proteção de ninguém. Verdadeiro “pária” social, nenhum gesto se esboçou em seu favor” (PRADO JR., 1972, p. 276).

Para Prado Jr. as escravas tinham também outra função além de ama. Era também objeto dos desejos dos senhores. “A outra função do escravo, ou antes, da mulher escrava, instrumento de satisfação das necessidades sexuais de seus senhores e dominadores, não tem um feito menos elementar” (PRADO JR., 1972, p. 343).

A preguiça e o ócio do brasileiro têm sua origem, segundo autores mencionados por Prado Jr. (1972, p. 348), na contribuição do sangue indígena.

Uma tal atitude da grande maioria, da quase totalidade da colônia relativa ao trabalho, de generalizada que é, e mantida através dos tempos acabará naturalmente por se integrar na psicologia coletiva como um traço profundo e inerraigável do caráter brasileiro. A preguiça e o ócio, aqui no Brasil, “até se pega como visgo”, dirá Vilhena. Mas se a escravidão, nas suas várias repercussões, é a responsável principal por isto, há outros fatores de segundo plano que não deixam de ter o seu papel.

Esse pensamento de Prado Jr. é uma versão do mesmo pensamento de Nina Rodrigues, que não são mais defendidos atualmente, pois, não podem ser provados e

estão envoltos a preconceito. Essa posição desconsidera aspectos culturais importantes em cada cultura.

De forma resumida, Prado Jr. (1972, p. 356) sintetiza a situação da colônia. “incoerência e instabilidade no povoamento; pobreza e miséria na economia; dissolução nos costumes; inércia e corrupção nos dirigentes leigos e eclesiásticos”.

Quando aborda o aspecto religioso, Prado Jr. (1972, p 338) faz uma comparação entre a administração leiga e eclesiástica, quanto a este ele diz:

...no seu teor moral, a massa do clero não se destaca muito acima de seus colegas da administração leiga. A mercantilização das funções sacerdotais tornaram-se pela época em que nos achamos um fato consumado.

Segundo Prado Jr. era natural os sacerdotes terem lojas e farmácias, e também realizarem serviços religiosos. Daí a afirmação que Baltasar da Silva Lisboa, alto funcionário da administração ao se dirigir ao Vice-Rei, falando sobre o clero “Êles (sic) só querem dinheiro, e não se embaraçam que tenham bom título” (1972, p.338). A obrigação do clero era somente rezar as missas e o ministrar da comunhão. Não se esperavam muito mais do que isso deles.

Como defende Ricupero, Prado Jr. contribuiu com a compreensão da continuidade da história brasileira desde a colônia até hoje: “Boa parte das realizações de Caio Prado talvez venham justamente daí, da percepção de que a história brasileira é uma história feita sem ruptura significativa com a orientação que vem da colônia” (RICUPERO, 2008, p. 152).

Levando em conta a interpretação do Brasil feita por Gilberto Freyre, dizendo que a estrutura do Brasil era agrária, a mão de obra era escrava, a população era híbrida, que os portugueses se saíram bem na colonização do Brasil devido à miscibilidade e a aclimatabilidade e que a coroa conseguiu a unidade da colônia graças ao cimento do catolicismo. Por sua vez, Sérgio Buarque de Holanda, em sua interpretação, enfatiza sua tese sobre a religiosidade brasileira, dizendo que os fiéis não faziam nenhum esforço para o exercício da religiosidade, mas que o maior culpado dessa frieza, em primeiro lugar o sistema predominante na época, que era o patronato real, ou sistema do padroado, onde a coroa assumia o papel da liderança da igreja, escolhendo bispos, removendo e ordenando os clérigos, e em segundo lugar os maus padres que, segundo Holanda, eram negligentes, gananciosos e dissolutos.

Para Prado Jr. a colonização do Brasil é produto direto da expansão ultramarina europeia. Segundo ele, o que os europeus queriam eram tão somente abastecer o mercado europeu. Com esse objetivo empreenderam vasta empresa comercial para

explorar a colônia. Uma vez que, mesmo com esse objetivo sendo alcançado, havia a necessidade de povoamento para assegurar a posse da terra, surgem então as capitanias com esse propósito. Para Prado Jr., não houve até hoje uma ruptura considerável, no modelo de colônia e estado independente. No aspecto religioso aborda sua posição que os sacerdotes não deveriam se envolver em outros ofícios, como comerciantes, funcionários públicos, farmacêuticos, mas deveriam dedicar-se ao ofício sacerdotal.

Em cada uma dessas interpretações, com suas particularidades e diferentes formas de olhar um mesmo objeto de pesquisa, compreende-se sua importância para a interpretação da sociedade. A confirmação dessas teses pode ser vista ainda hoje em nossa sociedade. O Brasil é um país híbrido e ninguém tem dúvidas disso, a mistura de raças produziu um povo diferente. Darcy Ribeiro em seu livro O Povo Brasileiro: A

formação e o sentido do Brasil, destaca a contribuição do negro, do índio, e do europeu

na formação da nação. A religião católica até hoje é a religião da maioria da população brasileira; os trezentos anos de isolamento e da hegemonia católica contribuíram para essa superioridade numérica.

O que há de comum nestes três autores, é a concepção de religiosidade, todos são unânimes em observar a religiosidade brasileira, detectando que deveria ser diferente a forma como a igreja lidava com a educação religiosa das crianças, a forma como o clero deveria conduzir suas paróquias, e a forma como a coroa deveria conduzir