Se no início a cultura foi uma noção por demais rarefeita, no pós-modernismo ela tem a flacidez de um termo que deixa de fora muito pouco. Entretanto, Eagleton ressalta que ao mesmo tempo ela se tornou superespecializada, refletindo obedientemente a fragmentação da vida moderna em vez de, como no caso de um conceito mais clássico de cultura, procurar consertá-la (EAGLETON, 2005). Na realidade, assim como no início da modernidade a divisão social do trabalho foi o estopim para a hegemonia dos capitalistas, o conceito de multiculturalismo serve da mesma forma atualmente para as forças dominantes porque aplica o princípio em que desde sempre as potências imperiais basearam a sua dominação: dividir para reinar (MARGLIN, 1978)
A cultura que tem sido pregada na pós-modernidade relaciona-se diretamente com o capitalismo e tem como um dos credos o consumismo a todo custo. Nesse sentido, Eagleton considera uma cultura sem classes, o que quer dizer que ela vai além das divisões de classe
ao mesmo tempo que impulsiona um sistema de produção que considera essas divisões indispensáveis (EAGLETON, 2005). Nesse sentido, pode ser considerada transclassista, pois o consumo faz parte da vivência de todos, como realidade para aqueles que podem consumir e como (des)encantamento utópico daqueles que vivem à margem do sistema de consumo, satisfazendo a muito custo apenas suas necessidades mais básicas. De qualquer modo, o consumo de uma cultura sem classes é hoje em dia cada vez mais a marca da classe média (EAGLETON, 2005).
As guerras culturais encabeçadas pelo Ocidente para “levar aos povos primitivos os ideais da democracia ocidental” não se fazem no vazio, mas em nome desse consumismo desenfreado que pretende buscar a todo custo novos mercados consumidores e fornecedores de mão-de-obra barata nos países em desenvolvimento. Esse processo liderado pelas grandes forças do Ocidente, que Milton Santos acertadamente chamou de globalitarização, não pode se vangloriar de ser portador dos mais altos valores ético-morais, e a cultura como civilidade somente se tornou e se mantém hegemônica por ter uma enorme força armada por detrás dela. Para Eagleton
nem a alta cultura, rarefeita demais para ser uma força política efetiva, nem a cultura pós-moderna, por demais frágil, desenraizada e despolitizada, podem ser igualadas ao Islã, por exemplo, para o qual a cultura é historicamente enraizada e inevitavelmente política. Apesar de ser uma forma de vida pela qual um número considerável de pessoas está preparado para morrer, o que pode não ser uma política sábia, é mais do que pode ser dito de Mozart ou Madonna (EAGLETON, 2005; p. 119).
As arte, o conjunto daquilo que poderia promover uma forma de auto-consciência para toda a humanidade, seja uma boa peça de teatro ou uma grande obra literária como forma de contestar a ordem vigente, cada vez mais são capturadas pelo processo de mercantilização, utilizando-se de obras efêmeras para alcançar a alma dos consumidores, com seus conteúdos cada vez mais voltadas para os aspectos narcisistas de nossas vidas, misturando de forma deliberada elementos da esfera pública e da vida privada. No mundo pós-
moderno, a cultura e a vida social estão mais uma vez estreitamente aliadas, mas agora na forma da estética da mercadoria, da espetacularização da política, do consumismo do estilo de vida, da centralidade da imagem, e da integração final da cultura dentro da produção de mercadorias em geral (EAGLETON, 2005). Na medida em que as artes ameaçaram desvincular-se completamente da política, manifestações culturais foram tomadas com muito gosto pelas forças do capitalismo, permitindo que questões antes tidas como políticas, econômicas ou de trabalho agora encenassem seu reaparecimento como imagem e informação (EAGLETON, 2005).
Eagleton assinala que a Cultura como estética é lastimavelmente inadequada para cimentar os vínculos da unidade política. A Cultura não se mostra apenas uma noção unitária demais para um capitalismo inevitavelmente fragmentado, mas também uma noção com princípios por demais elevados, desnudando a grotesca brecha entre a sua própria retórica espiritual séria e a desagradável prosa da vida cotidiana. Nenhum liberal fica imune à crítica de que o capitalismo se apropria da mais-valia da massa de trabalhadores cada vez mais dispersos e que em nome do desenvolvimento da nação acaba por deixar uma grande parcela dessa população na informalidade, dependente cada vez mais de bolsas e auxílios que são insuficientes para alterar esse quadro. A máxima do “fazer o bolo crescer para depois dividir” há muito já se mostrou somente retórica e aqueles famintos que há décadas estão com os pratos na mão esperando sua fatia cada vez mais se mostram menos propensos a amargurar esta espera de forma pacífica. As necessidades naturais – aquelas que temos em virtude do tipo de corpo que somos, não importando a miríade de formas culturais que elas podem assumir – são critérios de bem-estar político, no sentido de que as sociedade que as frustram deveriam ser politicamente rechaçadas (EAGLETON, 2005)
Ainda com relação à cultura como arte, o autor pontua que sempre houve algo um tanto risível a respeito da idéia de que a humanidade pudesse ser salva estudando Shakespare. A assertiva é verdadeira, mas preferimos que dificilmente a humanidade possa ser salva somente estudando Shakespare. Por certo houve artistas extremamente sagazes como Machado de Assis e Bob Marley, que fizeram parte de movimentos mais fundamentados de crítica imanente, cada qual na sua forma e no seu tempo. Mas Big Brother, Michael Jackson
e até o inocente desenho animado do Pica-Pau realmente nos podem fazer apenas sorrir com escárnio.
Ainda assim, existem movimentos culturais contra-hegemônicos como aquele do hip-hop, que tem no chamado gangsta rap uma forma de manifestação artística que, se não consegue salvar a humanidade, tenta com suas letras contundentes contar histórias da periferia com os olhos da periferia e pela voz contundente de ex-presidiários que preferiram o rhythm and poetry como forma de denunciar a realidade de suas comunidades de forma distanciada dos grupos dominantes.
Analisaremos com mais profundidade as culturas contra-hegemônicas quando tratarmos da democracia cultural, mas cabe marcar aqui a recusa explícita de muitos desses grupos em participar dos grandes programas de auditório, considerados território do jabá, do narcisismo e da fantasia e patrocinado pela grande mídia, um dos principais alvos destroçados pela batida forte do rap. Nesse sentido, como bem nos lembra mesmo o liberal Albert Hirschman, o direito à liberdade de expressão pode ser coisa vazia se a pessoa que deseja exercê-lo depende para sua própria subsistência das autoridades que pode desejar criticar.
Com relação ao potencial político das artes, como desmerecer o peso de formas artísticas de sublimação das energias da sociedade que – para o bem ou para o mal – retardam em muito qualquer forma de revolta política simplesmente pelo fato de sua existência e suas possibilidades de sublimação, como o futebol e o carnaval na vida social brasileira? O simbolismo coletivo e a identidade para com os times de futebol e escolas de samba são sui generis – ainda mais num país com as desigualdades sociais como o nosso. Se o povo quer pão e circo, o bom senso preza que o circo deveria existir em consonância com o pão, mas o que assistimos atualmente é ao excesso de circo para todos os gostos e à crônica falta do pão para uma grande parte da população.
Para Eagleton o que o Ocidente idealmente exige é alguma versão de cultura que alcance uma devoção tal que o povo esteja disposto a morrer por ela, e essa força está precisamente
na religião, com o seu enraizamento político tradicional. É verdade que cada vez mais ouvimos notícias sobre violência e morte nos estádios de futebol, mas certamente não é nesse sentido que Eagleton se refere a enraizamento político. Para o autor, ao promover a ligação da Cultura e cultura, entre valores transcendentes e práticas populares, a espiritualidade da elite à devoção das massas, a religião poderia exercer os potenciais “freios morais” a que tem sido convocada há milênios. Se no pós-modernismo consolidaram-se forças que se mostram onipotentes e onipresentes há séculos, somente a religião acomoda também uma forma de onisciência que pode funcionar como um guia para indivíduos dispersos cada vez mais espremidos entre necessidades mundanas reais e ideais utópicos de liberdade.
O autor ressalta, entretanto, que a religião tem sido constantemente sabotada pela secularização capitalista, afirmando que o que leva a religião ao descrédito não seria a esquerda atéia mas sim as próprias atividades do capitalismo, em que uma infra-estrutura secularizada solapa a própria superestrutura espiritual que ela exige para a sua própria estabilidade (EAGLETON, 2005). Não podemos deixar de registrar a peculiar condição brasileira, em que uma Igreja Católica secular e retrograda enfrenta cada vez mais as Igrejas Pentecostais como uma potência social, política e econômica. Com a propriedade de canais de televisão, bancada no Congresso Nacional e arrebatando fiéis cada vez mais ferrenhos, tem substituído uma possível consciência de classe de esquerda por uma consciência religiosa capenga e que tem no dízimo – cada vez mais “eletrônico” – uma das principais formas de salvação das almas dos “pobres cristãos”.
Cultura se faz a todo momento, em todo lugar, por todos os indivíduos, independentemente da vontade do governo ou de “qualquer sociedade civil”. Tem como pilar o processo comunicacional, baseado numa linguagem articulada – e portanto dotada de um fim, tendo sempre um propósito, uma intenção, ainda que muitas vezes de formas não facilmente identificáveis. A linguagem articulada, nesse caso, comunica e expressa conhecimentos e relações obtidas mediante a reflexão e a auto-reflexão operadas pelo pensamento e constitutivas da consciência. Como realidade concreta, é uma atividade teleogicamente orientada e reflete diretamente as relações de poder entre os emissores e receptores.
A “brecha” aberta pela cultura e que deve ser preenchida pela cultura, a fissura entre aquilo que somos e podemos ser se tornou tão difusa, complexa e abstrata que justifica quaisquer meios na busca da felicidade plena, objetivo final nunca concretizado, mas sempre idealizado em torno daquilo que o Outro possui, afastando-se da possibilidade de qualquer engajamento coletivo em busca do bem comum. A questão da identificação pelo trabalho, ainda que não o trabalho mais ‘abstrato’, que muitas vezes ocupou o papel para preencher nossas alteridades, mas mesmo aquele formal, típico da era fordista, já não existe mais como realidade para a maioria da população de muitos países periféricos. A extrema iniqüidade econômica e social dessas nações certamente aumenta essa fissura, transformando-o num abismo que, nos moldes da democracia liberal, todos parecem ter as mesmas condições de ultrapassar, Baseando-se no modelo do self made man, esconde-se a luta de classes e esteriliza-se o necessário conflito para a construção coletiva de uma sociedade em que a distribuição da riqueza social seja mais justa e igualitária.
A cultura como processo compreende, portanto, toda uma incontável gama de comportamentos, que se auto-realizam no dia-a-dia dos indivíduos, no contato com seus pares e ainda de forma relevante no âmbito do trabalho realizado pelos sujeitos. A formação de uma visão de mundo emerge e se reifica a todo momento de acordo com a posição dos sujeitos nessa intrincada gama de relacionamentos. Pretendemos considerar a cultura como um processo que, ao trabalhar os valores simbólicos da tradição e da invenção, organiza o imaginário, confere identidade, sentido e perspectiva aos saberes e fazeres de determinada comunidade local ou nacional (TIERRA, 2005), sendo assim um fator constitutivo e constituinte de um projeto que promove a hegemonia de determinados grupos.
A pluralização do conceito de cultura, como vimos, não favorece o florescimento automático de suas virtudes; em contrário, torna-se quase incompatível a manutenção de seu caráter positivo. Forçar a cultura a uma forma específica de vida, como a cultura dos madeireiros da Amazônia, não nos faz aprovar essa determinada cultura simplesmente por ser uma rica diversidade das formas de atuação dos madeireiros. O capitalismo, como a cultura humana mais heterogênea do planeta, necessita e vai mesmo louvar a máxima
pluralidade de formas de vida. Da mesma forma, a cultura como civilidade, capitaneada pelo Ocidente e validada pelo poderio bélico desses países tem sido o catalisador de grande parte da violência a que assistimos atualmente pelas lentes dos grandes conglomerados de mídia por todo o globo. Mesmo como arte e erudição, a cultura somente veio ratificar a existência das classes ao diferenciar a cultura dominante de uma suposta cultura popular.
Além disso, nos dias de hoje as formas de arte foram quase que inteiramente capturadas pelas grandes corporações. Como mecenas pós-modernos, balizados pelo interesse de ligar suas marcas diretamente às almas dos consumidores, os departamentos de marketing dessas corporações tiveram seu papel facilitado pela conveniente portabilidade proporcionada pela cultura como forma de arte, levada ao extremo pela difusão da televisão e mais ainda pelas tecnologias da informação na pós-modernidade. Assim, o ponto em comum da cultura como crítica utópica, como modo de vida e como criação artística é exatamente seu lado mais negativo: de maneiras diferentes, são reações ao fracasso da cultura como civilização real – como a grande narrativa do autodesenvolvimento humano (EAGLETON, 2005).
A cultura não se resume unicamente àquilo de que vivemos. É também, em grande medida, aquilo para o que vivemos e dessa forma se relaciona diretamente com o desenvolvimento universal da espécie humana. Estamos muito mais próximos do afeto, relacionamento, memória, parentesco, lugar, comunidade, satisfação emocional, prazer intelectual, um sentido de significado último, do que de cartas de direitos humanos ou tratados de comércio. Todavia, a cultura também pode ficar desconfortavelmente próxima, e essa intimidade pode se tornar mórbida e obsessiva, e deve ser colocada em um contexto político esclarecido, que possa temperar essas imediações com afiliações mais abstratas (EAGLETON, 2005), para que essa proximidade não se transforme numa ameaça constante aos preceitos da verdadeira democracia. Dessa forma, torna-se papel cada vez mais fundamental aos governos democraticamente eleitos equilibrar formas de políticas culturais que permitam a dialética entre afastamento e aproximação, entre fazer e deixar ser feito, para que possamos chegar a uma verdadeira democracia cultural em nossa sociedade.