Da perspectiva marxista clássica o Estado deve ser entendido como um órgão diretamente de classe. O Estado Moderno não seria nada mais do que uma criação da classe burguesa para tratar os negócios coletivos de toda a burguesia, estruturando-se de forma a filtrar qualquer política danosa aos interesses do capital. Para Marx, o segredo da economia se resumiria a uma única questão: a economia de tempo.
Marques lembra que o primeiro autor a colocar o Estado no centro do marxismo foi Nicos Poulantzas, para quem numa primeira formulação o Estado cumpriria a dupla função de organizar os interesses dos capitalistas como classe, atomizados no mercado, e desorganizar os trabalhadores como classe, apresentados na esfera da política como cidadãos e não como vendedores de força de trabalho (POULANTZAS apud MARQUES, 1996). Num segundo momento, o mesmo autor considera o Estado como um campo de poder, uma arena onde se condensariam materialmente as lutas e conflitos entre os diversos atores: classes e frações de classe. De qualquer forma, o Estado capitalista teria irreversível caráter de classe, sendo impossível às classes dominadas assumir seu controle, ou de agências centrais, na condução das políticas estatais (MARQUES, 1996).
Eduardo Marques chama a atenção para o fato de que alguns autores marxistas revisitaram a teoria das elites de Charles Wright Mills. Para esses autores, a presença de uma elite
estatal explicaria o caráter de classe das ações do Estado (MARQUES, 1996). A partir do referencial de Domnhoff, o domínio dessas elites poderia seria alcançado através de quatro processos: a influência para a satisfação dos interesses particulares pontuais, a formação das políticas públicas, a escolha de candidatos a cargos eletivos, e a ideologia, que disseminaria valores e crenças permitindo a manutenção do status quo (DOMNHOFF apud MARQUES, 1996).
Vale ressaltar um outro aspecto bastante relevante, com relação às formas de acesso ao serviço público. Assistimos atualmente à formação de toda uma indústria em torno dos concursos públicos, e assim como existem vestibulandos que há anos tentam os cursos mais concorridos, existem agora os “concursandos”, que se preparam também durante anos – muitas vezes para concursos que nem foram divulgados ainda – em busca de uma oportunidade do serviço público. Obviamente que existem exceções, mas grosso modo a maioria não está em busca de um emprego para praticar sua ética, mas sim em busca de um salário melhor e principalmente da estabilidade proporcionada pelo serviço público. Assim, se não é possível identificar essa “massa concursanda” diretamente às elites econômicas, certamente esses universitários dos grandes centros não são aqueles provenientes das classes marginalizadas, o que pode trazer projetos de continuidade na manutenção da hegemonia vigente.
O mais importante desses processos seria o da produção das políticas públicas, principalmente nas grandes questões, como as políticas externa, fiscal, ambiental e do bem-estar, destacando-se uma série de organizações empresariais e paraempresariais, articulando interesses dispersos em torno de consensos para a implementação de suas demandas específicas (MARQUES, 1996). Numa linha similar Marques situa Miliband, para quem o mais importante seria que o controle e a gestão do Estado estariam a cargo da elite estatal, que tem a mesma composição que a elite econômica, entregue a pessoas imersas no mesmo conjunto de valores, visões de mundo e representações dos capitalistas (MILIBAND apud MARQUES, 1996). Em outras palavras, representariam os interesses da mesma classe.
Por fim, Marques ressalta a seletividade estrutural do Estado capitalista, através dos procedimentos formais que geram as ações estatais. Baseado nas idéias de Offe, afirma que as estruturas estatais seriam dotadas de seletividade, atuando como filtro para as questões apresentadas ao Estado, levando à implementação das ações associadas diretamente à criação e recriação das condições de acumulação e ao processo de legitimação da dominação de classes (OFFE apud MARQUES, 1996). Numa perspectiva diversa, utiliza a argumentação de Jessop, para quem o modelo de crescimento vigente relaciona-se com a conquista hegemônica econômica no sentido gramsciano, bastante diverso da dominação econômica. Para ele, a forma do Estado é a materialização dos projetos, estratégias e lutas ocorridas no passado, e nessa visão sobre a hegemonia, o caminho estaria aberto inclusive para sua conquista inclusive por frações do capital que estivessem contra o projeto dos capitalistas (JESSOP apud MARQUES, 1996), desde que se consiga articular as alianças para a conquista da hegemonia nos termos grasmcianos.
As ações tomadas pelo Estado considerado na perspectiva marxista privilegiarão o aspecto econômico, e serão ações eminentemente transclassistas, de tal sorte que se propõem a beneficiar a todos sem distinção. A ideologia dominante da “crise fiscal do Estado” está diretamente relacionada à disputa entre os fundos destinados à reprodução do capital e os destinados ao financiamento dos serviços públicos (SIMIONATTO, 2003). Na esteira do receituário neoliberal, a atuação do Estado na temática social passa a se basear unicamente na focalização – o atendimento às populações mais pobres, na privatização do aparato público em favor do mercado e na descentralização das funções executoras. Com o aumento da participação de um sociedade civil bastante específica na temática social, abre- se o caminho que o próprio capital tratou de trilhar a fim de estender seus tentáculos para a questão social, de sorte que um sem número de fundações e institutos empresariais e algumas organizações sociais de toda ordem já se consideram os legítimos salvadores de nossa humanidade, lutando duramente entre si para conseguir recursos públicos e privados em suas empreitadas.
Em suma, a atuação do Estado tem representado nada mais do que o interesse daqueles que sempre estiveram em posição de destaque em nosso país, seja no contexto econômico,
político ou social: os detentores do grande capital. Acreditamos que desse modo cristalizam-se as relações de dominação que existem há séculos em nosso país e as políticas públicas, que deveriam primar pela emancipação acata passivamente ao controle do econômico, atuando como mera compensação para os “pobres excluídos” do sistema vigente.