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A hipótese que alimenta o caminho tomado neste item do texto é a seguinte: se tomado como referência o advento do capitalismo moderno, verifica-se que a relação entre trabalho e conhecimento sofre uma modificação a partir da nova organização do trabalho empreendida naquele momento. Essa questão poderá servir de base para a compreensão da relação atual entre conhecimento e trabalho e especialmente das peculiaridades da atividade docente na atualidade.

Com essa perspectiva, faremos “um pequeno desvio” e um retorno ao momento do advento do capitalismo moderno. Um breve retorno para compreender o presente, pois como afirma o próprio Castel que até o momento estava nos acompanhando: “o presente não é só o contemporâneo. É também um efeito de herança, e a memória de tal herança nos é necessária para compreender e agir hoje” (CASTEL, 1998: 23).

Para ajudar na aproximação da questão, duas obras serão brevemente retomadas sobre o advento do capitalismo moderno: “A origem do capitalismo moderno”, de Max Weber, e alguns volumes da obra “O capital”, de Karl Marx, a saber: “A jornada de trabalho”, “Conceito de mais valia”, “Cooperação”, “Divisão do trabalho e manufatura” e “A maquinaria e a indústria moderna”.

A partir das obras mencionadas, observa-se que, para Weber, a questão do advento do capitalismo moderno está vinculado ao processo de racionalização, não somente da organização do trabalho, mas de várias dimensões da vida. Isto se dá em conjunto com o surgimento da ciência moderna e com o “desencantamento do mundo”.

Para Weber, nesse período acontece uma grande mudança no campo das ideias, e a predominância de um comportamento e um pensamento centrado na razão instrumental.

Já Marx verifica que as condições prévias para o capitalismo estão vinculadas à acumulação de dinheiro, à libertação da mão de obra servil, à expropriação dos meios de produção; ou seja, para o autor, o que mudou marcadamente nesse período foi o modo

de produção, configurando uma relação entre os donos dos meios de produção e do dinheiro com os donos da força de trabalho.

Weber defende a ideia de que o processo de racionalização é uma característica central no capitalismo moderno/industrial. Para ele, a racionalização se apresenta como um princípio organizador da produção e de várias outras dimensões da vida. Em decorrência dessa questão, é factível afirmar que o capitalismo moderno é produto e produtor dessa racionalização.

De forma sintética, é possível apresentar as seguintes condições prévias percebidas por Weber para o advento do capitalismo moderno: apropriação de todos os bens materiais de produção, liberdade de mercado, técnica racional na produção e distribuição das mercadorias, direito racional, trabalho livre (ou seja, pessoas obrigadas a vender seu trabalho), comercialização da economia (valores transferíveis) e especulação (ligadas especialmente aos períodos de alguma crise).

Do ponto de vista histórico, alguns elementos são destacados por Weber como condições prévias do capitalismo moderno e como elementos sinalizadores da força da racionalidade instrumental, ordenadora de sentidos; a política colonial do século XVI ao XVIII, por exemplo.

Outro elemento seria o fato de o comércio exterior, no final do século XVIII e início do século XIX, ganhar força através de vendas por amostras e a ampliação dos sistemas de comunicação e comercialização (rodovias e ferrovias).

Um fator apontado pelo autor merece destaque, em função do caminho que precisamos trilhar: os desdobramentos da técnica no processo de exploração industrial. Esta questão é encontrada, com outro enfoque, na análise de Marx.

A caracterização da fábrica, segundo Weber, pode ser resumida pela presença da máquina a vapor e da mecanização do processo de produção. Essas duas características são importantes para um processo de independência da técnica, em relação à energia animal ou força manual de homens e mulheres.

A racionalização da organização do trabalho só foi possível, segundo o autor, com os processos de racionalização de outras dimensões: o Estado racional, a ciência racional e o direito racional. O que Weber percebe, enfim, é um processo em que se plasma uma ética racional da existência. Esta questão fica muito clara a partir de uma afirmação de Franck, citada por Weber no livro em questão: “tu crê que escapaste do

claustro, mas desde agora serás monge em toda a vida”.

A racionalização ocupa espaços nas formas de fazer e de pensar o fazer; ou seja, o capitalismo surge a partir de uma organização empresarial racional, sustentada por uma contabilidade racional (em busca do lucro), com uma organização do trabalho e uma técnica também racional, e um direito racional.

A dimensão de cálculo e previsão passa a ocupar um lugar central na organização do trabalho, como também na cultura e na organização da sociedade, de forma geral.

Esses elementos confluem para uma ideologia racional e uma racionalização da vida. É possível afirmar que a racionalidade, como compreendida por Weber, ocupa processualmente o espaço da Igreja Católica como hegemônica na produção de sentido.

Encontramos um desencantamento do mundo, pensado a partir da questão religiosa, que passa pelo encantamento da razão instrumental, presente de forma marcante na organização do trabalho no período do capitalismo moderno e na atual organização do trabalho.

A racionalização à base de um cálculo rigoroso é uma das características fundamentais da empresa capitalista individual, precavida e circunspectante orientada para o resultado esperado. Que contraste com o cotidiano do camponês, com a rotina e os privilégios do artesão das antigas corporações ou com o capitalista aventureiro! Contudo, considerada do ponto de vista da felicidade pessoal, essa racionalização expressa quão irracional é a conduta de o homem existir em função de seus negócios, e não o inverso. (WEBER, 1974)

Passando de uma forma sintética sobre a obra de Weber, que constitui um entendimento da origem do capitalismo moderno, vamos fazer o mesmo movimento com Marx para, em seguida, apontar como as duas obras podem nos ajudar na

compreensão da relação entre trabalho e conhecimento. Esta relação parece ser fundamental para compreensão do fazer docente na atualidade.

Para Marx, os elementos constitutivos da moderna história do capital são a apropriação dos meios de produção, o acumulo de capital, a circulação de mercadorias e a venda da força de trabalho (MARX, 2006:1777). A força de trabalho é, neste contexto, uma mercadoria a ser vendida pelos trabalhadores e trabalhadoras e fruto de uma condição histórica, e não fruto da natureza do ser humano.

O processo de produção capitalista, além de centralizar os meios de produção e o capital, organiza-se de tal maneira que seu resultado se destina à produção de produtos que possuem além do valor de uso, um valor de troca; ou seja, são mercadorias. Para tanto, é fundamental que o valor final da mercadoria possua um valor excedente (que no processo de produção aconteça a mais-valia).

O processo de produção da mais valia está ligado, inicialmente, ao tempo que o trabalhador ou trabalhadora trabalha a mais, em relação ao valor que recebe pelo seu trabalho. Esse processo se torna mais complexo, pois a industrialização gera outros mecanismos de mais-valia.

Para Marx, a configuração do capitalismo moderno acontece quando um mesmo capital envolve um número considerável de trabalhadores (as), ampliando o processo de produção. Essa concentração não somente aumenta a escala de produção, como também diminui os custos. Diante desta concentração de trabalhadores (as), é necessária uma modificação da organização do trabalho.

É através da cooperação que a organização do trabalho se modifica e se complexifica. Para Marx, cooperação é a “forma de trabalho em que muitos trabalham juntos, de acordo com um plano, no mesmo processo de produção ou em processos de produção diferentes, mas conexos”. (MARX, 2006: 378)

Ainda sobre a questão da cooperação, Marx destaca que tal processo não se trata de um fortalecimento da força produtiva individual, mas do aparecimento de uma nova

força, a força produtiva coletiva, que de certa forma enfraquece ou torna mais difusa a compreensão pelo trabalhador da situação em que está envolvido.

Esta percepção de Marx sobre a cooperação e difusão da compreensão do trabalho individual é fortemente percebida no trabalho do professor na modalidade de educação a distância. Nesta modalidade, o processo pedagógico esta permeado por uma variedade de atores bem maior do que na educação presencial. A “força coletiva” (que agrega outros trabalhadores/as e tecnologias) deixa diluída a percepção do trabalho do professor.

Na modalidade de educação a distância, “o texto da aula” não é necessariamente do professor. Ele geralmente é construído por um conteudista ou por um professor titular. O professor de uma turma toma o texto e as tarefas ali propostas como elemento central do seu fazer pedagógico. Essa é uma questão que merece investigação e pode encontrar, na análise de Marx sobre a complexificação dos processos de produção, uma referência interessante. Poderíamos afirmar que, na educação a distância, a cadeia de produção da aula se complexifica e exige do professor, no mínimo, uma resignificação do seu fazer pedagógico. Mas vamos voltar à origem do capitalismo moderno segundo Marx.

Para Marx, a cooperação baseada na organização do trabalho se solidifica a partir da experiência da manufatura (de meados do séc. XVI ao último período do séc. XVIII). Uma característica fundamental da divisão do trabalho manufatureira é a não possibilidade de produção individual de mercadorias pelos trabalhadores (as), ou seja, somente o produto coletivo se transforma em mercadoria.

Com o desenvolvimento da maquinaria, Marx afirma que o processo de barateamento da mercadoria ganha um impulso: “na manufatura, o ponto de partida para revolucionar o modo de produção é a força de trabalho, na indústria moderna, o instrumental de trabalho” (MARX, 2006:427). A maquinaria possui três partes: o motor, a transmissão (que regula o movimento da máquina) e a máquina-ferramenta (parte central da maquinaria).

A máquina-ferramenta realiza as mesmas operações que eram realizadas pelos trabalhadores (as) com suas ferramentas. Neste sentido, é possível perceber claramente que a maquinaria impõe uma nova organização do trabalho e uma nova função para o trabalho do trabalhador e trabalhadora.

É preciso ressaltar que a maquinaria marca por inteiro a organização do trabalho, porém impacta somente parcialmente na formação do valor das mercadorias, aumentando, assim, a lucratividade dos donos do capital e dos meios de produção.

O processo de produção mecanizada atinge de maneira fundamental a organização do trabalho, apropriando-se de forças consideradas na época suplementares de trabalho (mulheres e crianças). Esse processo prolonga a jornada de trabalho (utilização das máquinas em grandes períodos contínuos) e intensifica o trabalho do trabalhador e trabalhadora, ou seja, “a capacidade de operar da força de trabalho está na razão inversa do tempo em que opera” (MARX, 2006:468).

“A produção capitalista, portanto, só desenvolve a técnica e a combinação do processo social de produção, exaurindo as fontes originais de toda a riqueza: a terra e o trabalhador.” (MARX, 2006:571).

A organização do trabalho no capitalismo moderno e sua relação com o conhecimento são pistas para compreensão do trabalho docente hoje. O conhecimento e o trabalho caminham juntos na história da humanidade, mas a relação entre estes dois campos possui especificidades e intensidades diferentes em cada momento sócio- histórico.

Um exemplo sobre essa questão pode ser encontrado já no advento das manufaturas. Percebe-se na nova organização do trabalho que os trabalhadores e trabalhadoras passam a executar parte do trabalho antes executado em sua totalidade, e lhes é exigido menos habilidades intelectuais para execução de sua tarefa.

Pode-se apontar que, no processo da organização do trabalho manufatureiro, parte do conhecimento necessário para produção das mercadorias se desloca do produtor para a dinâmica de produção.

Em vez de um mesmo artífice executar as diferentes operações dentro de uma seqüência temporal, elas são desprendidas umas das outras, isoladas, justapostas no espaço, cada uma delas confiada a um artífice diferente e todas executadas ao mesmo tempo pelos colaboradores. Essa divisão acidental se repete, mostra suas vantagens peculiares e ossifica-se pouco a pouco em divisão sistemática do trabalho. De produto individual de um artífice autônomo, que faz muitas coisas, a mercadoria transforma-se no produto social de uma união de artífices, cada um dos quais realiza ininterruptamente uma mesma tarefa parcial. (MARX, 2006)

Um segundo exemplo pode ser elaborado a partir do capitalismo na sua versão industrial que, por sua vez, desloca grande parte do conhecimento antes concentrado no trabalhador e trabalhadora ou na dinâmica de trabalho para a maquinaria. Com o tempo, percebemos um aprimoramento (no sentido da racionalidade instrumental) das dinâmicas de organização do trabalho e uma grande concentração de conhecimento presente na maquinaria.

Na versão do capitalismo industrial, resta ao trabalhador e trabalhadora “vigiar” a máquina e corrigir possíveis erros na produção (MARX, 2006). Naquele momento, a maquinaria faz o trabalho de vários trabalhadores e trabalhadoras com suas ferramentas e parece retirar dos mesmos, parte de sua autoria.

Talvez seja nesse sentido que Marx afirme que o trabalho no capitalismo moderno gerava embrutecimento daqueles que vendiam sua força de trabalho (MARX, 2006).

A nova organização do trabalho estabelecida a partir do capitalismo moderno lança mão de maneira enfática de novos conhecimentos que interferem diretamente no processo produtivo e, talvez, modifique, no decorrer do próprio processo, a relação entre o conhecimento, a organização do trabalho e o próprio trabalho.

Considerando o que foi exposto, parece possível afirmar que o advento do capitalismo moderno, o conhecimento acumulado sobre os processos de produção se “deslocam”, de forma significativa, dos trabalhadores e trabalhadoras para a dinâmica da organização do trabalho e, em um segundo momento, e de maneira determinante, para as maquinarias.

Esse “deslocamento” transforma não somente o papel dos trabalhadores (as), no processo de produção das mercadorias, mas também os trabalhadores (as) e a própria natureza do conhecimento na relação com o campo do trabalho, configurando conhecimento como um tipo de força produtiva e recentemente considerado para alguns uma mercadoria.

Esse processo de deslocamento pode ser percebido também a partir do papel da Escola. Ela se configurou claramente como espaço de adaptação dos futuros trabalhadores (as) na sua passagem do mundo privado da família para o mundo do trabalho assalariado.

Seria nela que as crianças aprenderiam de modo sistemático a se submeter a uma autoridade impessoal e burocrática; aceitar que outros decidissem por ela o que fazer, como fazer, quando e em que ritmo; a perceber o tempo como um contínuo passível de ser fragmentado e valioso por si mesmo; a não esperar de sua atividade dirigida (seu trabalho) uma gratificação intrínseca (lucro), mas sim extrínseca (recompensa) [...] a desenvolver hábitos de conduta de acordo com as necessidades do trabalho organizado. (ENGUITA, 2004:30).

Voltando à questão geral da relação entre trabalho e conhecimento, Enguita (2004) sinaliza que o processo de produção pode ser interpretado a partir de três elementos: matéria, energia e informação. A matéria seria os meios de produção, a energia seria o trabalho e a informação o conhecimento empregado no processo (incluindo as informações propriamente ditas).

O interessante para análise que está sendo construída é que Enguita (2004) aponta como estes três elementos se deslocam e modificam sua importância a partir de modos de produção diferenciados. Em uma economia de subsistência, por exemplo, matéria, energia e informação ficam basicamente na mão da própria família. O conhecimento, que é a nossa questão, neste caso é repassado dos pais para os filhos.

Esse processo, antes muito concentrado no espaço da família, sofre uma grande mudança quando um dos três elementos cresce em grande escala. A matéria (os meios de produção) passa a ser controlada por poucos. Esta mudança afeta os outros dois elementos (organização do trabalho e conhecimento). Este processo fica muito claro quando analisamos o primeiro grande momento do processo de industrialização.

Se considerarmos a segunda fase do processo de industrialização, ainda segundo Enguita (2004), verificamos uma grande modificação da organização do trabalho, ou da energia empregada na categoria apontada pelo autor. O fordismo e taylorismo são bons exemplos do que está sendo aqui ressaltado.

No momento mais próximo do nosso período histórico, verificamos uma grande mudança no elemento do conhecimento. É o período da ênfase na qualificação. Dessa ênfase resultam mudanças nas outras dimensões, já que o conhecimento empregado modifica intensamente as formas de organização do trabalho e a produção dos meios de produção por meio das novas tecnologias.

Estes processos não acontecem de forma estanque, lineares e homogêneas, mas é clara a ênfase na qualificação (que envolve a questão da informação e do conhecimento) no atual estágio da organização do trabalho.

Parece razoável afirmar, depois de tudo o que foi apresentado neste capítulo, que o contexto social cria condições de determinado tipo de conhecimento e este, por sua vez, cria sentidos para este contexto social, transformando-o também.

Cabe-nos agora fazer um recorte mais específico e perceber esta relação entre trabalho e conhecimento no trabalho do professor, em especial, em um contexto de mudanças da organização do trabalho.

3.3 O trabalho do professor analisado a partir das mudanças sociais: um

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