Antes da criação da escola na aldeia as crianças tinham estudar na escola da Barragem (bairro próximo a aldeia) fato que gerava muita desistência, porque algumas sofriam preconceito, não tinham materiais, não tinham roupas “adequadas” e não sabiam falar a língua portuguesa.
Jerá foi a primeira Guarani da aldeia Tenondé Porã a concluir o Ensino Fundamental II e vivenciou dificuldades que teve de enfrentar durante seu percurso escolar na escola não-indígena:
As dificuldades eram muitas, pois passávamos muita fome. Não tínhamos roupas nem calçados em bom estados e também sentíamos que os juruá riam de nós. Enfrentávamos também o
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obstáculo de ir e vir, pois pegávamos o ônibus sem dinheiro para a passagem. E dentro do ônibus os juruá falavam que nós cheirávamos fumaça assim como os colegas da escola. (Jerá, 2009)
A construção da escola na aldeia vizinha a Krukutu, Tenodé Porá, em 1992, trouxe uma nova expectativa para a comunidade, porém aos olhos da comunidade não tinham o objetivo pedagógico definido, as crianças não sabiam que série estavam cursando. Fato que levou muitas famílias da aldeia Krukutu desistirem de mandar seus filhos, pois além da desorganização da escola, as crianças ainda tinham que enfrentam cinco quilômetros de caminhada até chegar à aldeia vizinha.
Com a implementação de novas políticas educacionais indígenas e de formação de professores, a escola da aldeia Tenondé Porã foi enquadrada pela Secretaria Estadual de Ensino como escola rural. Contudo, a categoria “escola rural” não atendia as necessidades da aldeia e não cumpria com os direitos adquiridos legalmente através da Constituição de 1988 e da LDBN de 1996 por ser considerada como salas de extensão vinculadas a uma escola para não- índios.
O direito à Escola Indígena foi garantido no estado de São Paulo no Decreto 47.779 de 2003 e posteriormente regulamentada pela Deliberação CEE nº 35/2003 que apresentou: “Art. 1º - No âmbito da Educação Básica, os estabelecimentos de ensino, funcionando em terras indígenas, serão reconhecidos como Escola Indígena.” E garantiu ainda a autonomia dessas escolas no Sistema de Ensino Estadual e trazendo outros ordenamentos fundamentados nas Diretrizes Curriculares Nacionais;
Parágrafo único – A Escola Indígena se constituirá em unidade própria, autônoma e específica do Sistema de Ensino Estadual e terá normas e ordenamentos jurídicos próprios, fundamentados nas Diretrizes Curriculares Nacionais, proporcionando a valorização das culturas dos povos indígenas e afirmação e manutenção de sua diversidade étnica. (Deliberação CEE nº 35/2003)
73 populações indígenas significando a possibilidade de uma educação escolar verdadeiramente específica e intercultural, integradas ao cotidiano das comunidades indígenas, garantindo às escolas indígenas autonomia tanto no que diz respeito ao projeto pedagógico quanto no que diz respeito ao uso dos recursos públicos para a manutenção do cotidiano escolar.
Há de se ressaltar que muitas conquistas foram asseguradas aos povos indígenas no Brasil assim como para os Guarani. Uma série de normatizações jurídicas foram aprovadas para garantir uma educação específica e diferenciada como assinalada anteriormente. Porém, o percurso está sendo realizado significou a implementação dessas conquistas de fato.
Uma reclamação constante foi que a Secretaria Estadual de Educação que não possui profissionais capacitados conhecedores das especificidades da cultura Guarani que, com isso não conseguem estabelecer um diálogo com as comunidades. Fato que acaba culminando com imposição de políticas educacionais voltadas para as escolas não-indígenas. Como foi o caso da aplicação da prova do SARESP (Sistema de Avaliação de Rendimento do Estado de São Paulo) nas escolas indígenas.
O SARESP pra mim, sendo Guarani, acho que é ruim, para as escolas juruá também que os juruá que está na rede estadual lá, não tá em São Paulo tem uma questão diferente a maioria dos alunos já foram a uma cinema, teatro, tem vivencias com coisas que trazem uma séria de conhecimentos das crianças em desenvolvimento, daí você vai num bairro de periferia a realidade é totalmente diferente, aí vem uma pergunta: Quando você for acampar você faz uma compra e aí você compra tal coisa e tal coisa e tal coisa que estão escritas e aí no total, quanto deu? E aí a criança não sabe batatas, não sabe o que é uma barraca, não tem sua mãe ali toda noite contando historinha, que faz ele assimilar uma série de coisas, desenvolve o cérebro de uma maneira mais rápida e tal , e aí a prova do SARESP é incoerente para rede estadual, pra maioria, e fora que esses caras que fazem a prova, esses caras nunca foram na escola, não conhecem essa realidade profundamente, daí você imagina isso numa escola de índio? Questão de prova não existe, a gente não dá prova para as crianças, a gente faz uma avaliação contínua, a presença, o comportamento, o capricho, a atenção nas coisas, a gente não fala: Ah, hoje tem prova. E daí de repente vem o SARESP que tem que responder tudo e ainda tem que virar a folha e colocar tudo
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num gabarito, imagina! Mesmo algum, que chuta e acerta quando vai pro gabarito erra tudo (risos) daí eu falei o ano retrasado: A gente não vai mais fazer o SARESP, não tá no nosso contexto e a gente não vai fazer nosso alunos passar por isso, fora que no SARESP vem outra pessoa pra aplicar a prova, vem uma pessoa de fora. E eu fui convocada pra aplicar a prova num bairro aqui próximo, nossa, é um horror! (Jerá, 2009)
A fala de Jerá deixa claro o descompasso existente entre a Secretaria Estadual de Educação e as Escolas Indígenas. A avaliação do currículo imposto pela Secretaria Estadual de Educação não condiz com a realidade educacional da comunidade.