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Em minhas observações fui percebendo a diversidade de origem social e geográfica dos alunos da escola “Coronel Tobias”. Além dos moradores da zona rural, é significativa a demanda de alunos de outros bairros da cidade para esta unidade escolar. Essa constatação ganhou mais destaque no segundo semestre de 2001, quando realizamos o “Programa de Matrícula Antecipada”, elaborado pela então Secretária Estadual de Educação, Rose Neubauer, do qual o Município de Descalvado participou. O Programa tem por finalidade antecipar, com certa organização e precisão, as matrículas das crianças para os primeiros anos do Ensino Fundamental e é composto por três fases:

♦ primeira – cadastramento dos alunos de Educação Infantil, candidatos à matrícula do Ensino Fundamental;

♦ segunda – chamada escolar das crianças que não freqüentam escola pública de Educação Infantil e que já completaram ou completarão sete anos no ano seguinte à matrícula, candidatas à matrícula no primeiro ano do Ensino Fundamental;

♦ terceira – chamada escolar das crianças e adolescentes que se encontram fora da escola, dentro da faixa etária de oito anos completos no mesmo ano ou dezoito anos a completar no ano seguinte, candidatos à matrícula em qualquer série do Ensino Fundamental.

O município de Descalvado participa do programa e efetua na rede as matrículas de primeiros anos, mediante orientações recebidas, desde sua implantação. Assim, temos uma visão antecipada e precisa do número de alunos que ingressarão no ano seguinte, bem como outros dados, como: freqüência à pré-escola, local de residência, etc.

Por meio deste Programa passei a perceber, com mais atenção, a intensa procura de vagas nesta escola por pais de alunos oriundos de Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEIs) distantes desta. Devido à grande insistência desses pais em efetuar a matrícula, a direção/coordenação da

escola optou por fazer as inscrições, chamando depois esses pais para análise das razões de cada um.

No final do ano de 2001, ao montar as turmas para 2002, diante de um balanço dos alunos matricul ados constatei que quase 20% dos alunos eram provenientes da zona rural. Como mostra a Tabela 1, percebi também que essa porcentagem havia aumentado sensivelmente ao comparar com o ano de 1998.

Tabela 1 – Comparação de alunos oriundos das zonas urbana e rural, 1998-2002.

ANO TOTAL DE ALUNOS TOTAL DE ALUNOS (ZONA RURAL) TOTAL DE ALUNOS (ZONA URBANA) 1998 556 55 (10%) 501 (90%) 2002 560 105 (19%) 455 (81%)

Fonte: Documentos de arquivo da EMEF “Coronel Tobias”.

Essa diversidade motivou-me a verificar se o mesmo fato acontecia em todas as escolas do Município. Assim, movida pelo interesse que me acompanha ao longo da minha jornada educacional, realizei um levantamento de dados nesse sentido. Os resultados mostraram que a EMEF “Coronel Tobias” atende uma clientela altamente diversificada em relação aos locais de moradia, contendo, em seu quadro de matrículas, crianças da região central da cidade, alunos da zona rural e também elevado número de alunos de todos os bairros do município que poderiam estar matriculados em escolas mais próximas de suas residências. Ficou evidente que a maioria das crianças das outras escolas, são provenientes da zona rural e do próprio bairro, havendo também diversidade, mas, menos acentuada que nesta unidade escolar.

A Tabela 2 mostra a distribuição, no ano de 2002, dos alunos da rede escolar municipal fundamental, composta por cinco EMEFs cujas localizações geográficas podemos visualizar no Anexo A.

Tabela 2 – Comparação das escolas de Ensino Fundamental Ciclo I quanto ao número de alunos, em 2002. ESCOLA MUNICIPAL DE ENSINO FUNDAMENTAL TOTAL DE ALUNOS TOTAL DE ALUNOS (ZONA RURAL) TOTAL DE ALUNOS (QUE RESIDEM PRÓXIMO À ESCOLA) TOTAL DE ALUNOS (QUE RESIDEM DISTANTES DA ESCOLA) CORONEL TOBIAS 560 105 (19%) 226 (40%) 229 (41%) PROFº. FRANCISCO F. F. DA CUNHA 361 122 (34%) 224 (62%) 15 (4%)

CAIC DR. CID MUNIZ BARRETO

348 94 (27%) 245 (70%) 9 (3%)

PROFª. THEREZA DOS ANJOS PUOLI

337 72 (21%) 245 (73%) 20 (6%)

PROFª. DIRCE S. SERPENTINO

211 22 (10%) 186 (88%) 3 (2%)

Fonte: Documentos de arquivo das EMEFs.

No decorrer do meu percurso como coordenadora sempre procurei conscientizar os professores da necessidade de se trabalhar com as diferenças. Ao certificar-me da heterogeneidade presente na “Coronel Tobias”, busquei levar os professores, principalmente os de primeiros anos, a refletir sobre tal particularidade. Objetivava a conscientização dos mesmos quanto ao entrosamento dessas crianças entre si, juntamente com uma prática pedagógica que pudesse envolver todos os alunos: os alfabetizados (crianças que, por influências alheias à escola, já liam e escreviam); os semi- alfabetizados e os que nada compreendiam da leitura e escrita; os que conviviam com uma linguagem culta, denominada de linguagem padrão por Soares (1986); os que utilizavam a linguagem popular; os economicamente afortunados e os assalariados. Em suma, objetivava o respeito pelas diferenças históricas, culturais e sociais nitidamente observadas entre os alunos.

Osterrieth (1962) nos esclarece que a socialização de um indivíduo, dentro de qualquer grupo social que ele venha freqüentar, bem como seu inter-relacionamento com os demais desse grupo, são aspectos importantes do seu desenvolvimento. Para o autor não há desenvolvimento especificamente humano sem contato com a humanidade. A instituição familiar é o primeiro grupo social do indivíduo. Assim, nos primeiros anos, a criança vai se

adaptando ao meio social e cultural, modificando comportamentos, ações e reações, se desenvolvendo, buscando padrões que a enquadrem no mundo dos adultos. Locomoção e linguagem, por exemplo.

A escola deve exercer um papel socializador a partir do que a criança traz de sua primeira formação, isto é, a partir de sua leitura de mundo, que na verdade é a sua perspectiva de valores, papéis, atitudes, etc (BARROS, 1996). Ao considerar a escola como segundo grupo social de uma criança, devemos nos sentir responsáveis pela sua integração grupal, não apenas para que este indivíduo seja alfabetizado a contento, mas para que ele se torne um cidadão pleno e crítico, baseado nos relacionamentos estabelecidos na instituição escolar.

A socialização, incluindo o respeito pelo colega, é também tarefa da escola. Assim, em vez de uma, temos duas tarefas básicas nas escolas de Ensino Fundamental: além de atender às necessidades pedagógicas dos alunos, temos que trabalhar a diversidade sócio-cultural, tal como previsto nos Parâmetros Curriculares Nacionais; a integração e formação de grupos e seus inter-relacionamentos sociais; as dificuldades e o crescimento individual e escolar.

O desenvolvimento humano, com suas dimensões biológica e cultural interligadas, começa primeiramente com o contato familiar, devendo ocorrer também na escola. Temos responsabilidade nesse sentido, principalmente e m se tratando de diversidade sócio-econômica cultural. Socialização significa “o processo de integração dos indivíduos num grupo, pelo qual a criança interioriza ou internaliza, além da linguagem, padrões de comportamento, normas de conduta e valores do grupo social a que pertence” (BARROS, 1996, p. 168-169).

Esse assunto levou-me a sucessivas conversas com as professoras nas reuniões de H.A.C., onde procurava mostrar a necessidade de se trabalhar e aceitar a diversidade de nosso corpo discente e introduzir mudanças no ensino-aprendizagem. Foram criados muitos momentos de estudos onde os professores tiveram que refletir sobre os procedimentos didático-pedagógicos que vêm sendo utiliza dos, principalmente os utilizados nos anos setenta, fundamentados em uma concepção tecnicista, segundo a qual a escola era

como uma linha de montagem, direcionada a criar máquinas de ensinar com seus métodos e técnicas.

Nos dias atuais, a preocupação está em formar cidadãos para seu momento histórico, para sua realidade, consciente de suas atitudes (WEISZ; SANCHES, 2003). Entretanto, fui percebendo que somente esses momentos de reflexão nas reuniões não eram suficientes para tratar de assunto tão complexo, exigindo embasamento teórico condizente com as transformações almejadas.