• No results found

Samlet resultatoversikt MOV 2002

In document GAMLE HUS DA OG NÅ (sider 21-27)

O que faz com que um corpo haja de tal forma em detrimento a outra e isso venha a ser julgado como socialmente aceitável ou não? O sexo não é uma condição estática do corpo. Do corpo sexuado à identidade sexual existe um percurso, pois o sexo “é uma das normas pelas quais o ‘alguém’ simplesmente se torna viável, é aquilo que qualifica um corpo para a vida no interior do domínio da inteligibilidade cultural” (LOURO, 2007, p.155).

A declaração “é uma menina” ou “É um menino!“ também começa uma espécie de “viagem”, ou melhor, instala um processo que supostamente, deve seguir um determinado rumo ou direção. A afirmativa, mais do que uma descrição, pode ser compreendida como uma definição ou decisão sobre um corpo. (LOURO, 2008, p.15).

O processo de identificação social é algo maior do que o próprio sujeito. “E essa identificação envolve o processo de diferenciação sexual, sobre o qual Judith Butler (LOURO, 2007) diz que não é o efeito que a “norma social” exerce sobre sujeito e sim como “esse ‘eu’ falante, é formado em virtude de ter passado por esse processo de assumir um sexo” (LOURO, 2007, p.155). Anderson Lauro situa-se na fronteira no que diz respeito à sua identidade sexual. Nos ambientes em que frequenta já existe uma cobrança e mesmo represália por uma tomada de posição (figura 19). Justamente por isso, torna-se importante estabelecer uma identidade de gênero porque é um meio de se comunicar com o outro que é valorizado (LOURO, 2007). E os insultos a Anderson Lauro surgem a partir de uma vivência performativa que se opõe à ordem dos gêneros (BOURDIEU, 1998).

Figura 19: Pedagogias da sexualidade Fonte: Denilson Albano

Seja na escola, seja em casa, esses múltiplos espaços são campos onde se aplicam o que Louro (2007, p.25), chama de “pedagogia da sexualidade”. Primeiro é importante considerar o que rege esse ambiente em que o corpo se insere. O nascimento não traz consigo características de masculinidade e de feminilidade. Louro (2008) diz que existe uma “linha invisível” quando se fala em procedimentos de gênero.

Uma matriz heterossexual delimita os padrões a serem seguidos e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, fornece a pauta para as transgressões. É com referência a ela que se fazem não apenas os corpos que se conformam às regras do gênero e sexuais, mas também os corpos que as subvertem. (LOURO, 2008, p.17).

A identidade sexual é a busca por legitimar o corpo socialmente. Ela funciona por subordinação. É uma construção móvel que se adapta às demandas da sociedade e existem respostas diretas a isso. Louro (2007), fala, por exemplo, da sexualidade feminina que se define em relação à masculina. Em outro nível tem-se o Estado e a Igreja que buscam dizer qual é o melhor modo de regular as atividades do corpo. Trata-se de uma sexualidade vigiada e vigilante ao mesmo tempo. Foucault (1988, p.69), diz que com este estímulo em torno dos discursos sobre o sexo inventamos uma nova forma de prazer: “o prazer da verdade do prazer”.

  Figura 20: Discursos do sexo

Fonte: Denilson Albano  

A característica contemporânea de constante vigilância social no que diz respeito à sua sexualidade também acontece com Anderson Lauro (figura 20). Existe um duplo conflito aqui: ele não possui certezas, mas sabe que existem regras maiores do que ele, ou pelos menos desconfia: pelo tratamento do pai, pelas interferências dos colegas na escola, pelo psicólogo.

Percebe que para ser “aceito” deve adotar certos tipos de comportamento tidos como esperados em relação a um menino. E aí mais uma vez perturba- se, pois não se identifica com as ações consideradas masculinas que os outros esperam que ele cumpra. Isso porque o “sexo” não funciona enquanto uma norma simplesmente. Para que a diferença sexual funcione, ela deve ser legitimada por “práticas discursivas”, segundo Judith Butler (LOURO, 2007, p.53).

A diferenciação entre gêneros masculino e feminino deu-se não de forma natural. Os órgãos sexuais masculinos e femininos não possuíam nome até pouco mais que o início do século XIX. A vagina não era nomeada17. Homens e mulheres eram um só, Laqueur (2001), diz que o que diferenciava um do outro era o grau de calor submetido a cada corpo. Em grau suficiente, os órgãos reprodutivos do homem seriam externados. A mulher teria seus órgãos internalizados por ter sido exposta a quantidades insuficientes de calor. É o modelo do sexo único, segundo Prado (2008). Herança dos gregos é um modelo onde os órgãos são reduzidos ao padrão masculino18.

É a partir do Renascimento que a medicina passa a estudar esses corpos, bem como suas especificidades. Mas o maior conhecimento científico não é causa das novas formas de entender esse corpo que antes era visto como um só. O progresso da ciência antes disso, torna-se um instrumento de persuasão utilizado durante a revolução burguesa (NUNAN, 2003). Para que os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade fossem evocados seria preciso existir de fato uma situação de desigualdade. A diferença anatômica só é reconhecida no momento em que se torna necessário justificar uma diferença social entre homens e mulheres.

A bissexualização dos corpos logo depois traz consigo a bissexualização psíquica (NUNAN, 2003). A partir desse momento a mulher é entendida como um “segundo sexo”. É relacionada então à mulher a idéia de incapacidade e inferioridade em desenvolver tarefas de maior importância e de prestígio social enquanto ao homem passa a caber a função de provedor  

  17 

BOZON, 2004, p.36. 18 ROHDEN, 1998, p. 129. 

da família e consequentemente do próprio Estado. Essa “polivalência da sexualidade” (NUNAN, 2003, p.31) é muito bem marcada nas tirinhas: quando se compara, percebe-se que o pai é pura ênfase enquanto a mãe é apaziguadora. A inversão ganha duas perspectivas dentro desse modelo two sex model (NUNAN, 2003, p.30): a mulher como inverso complementar ao

homem; e o homossexual como inverso, anti-natural e perverso (NUNAN, 2003, p.30).

“Homossexual”, assim como o gênero, é um termo construído, é uma categoria que surge na época de explosão dos discursos sobre o sexo (FOUCAULT, 1988), mais ou menos entre os séculos XVIII e XIX. É nessa fase que Estado, Igreja e Ciência começam a catalogar, conhecer minúcias, criar discursos, estabelecer os ditos “desvios”. É um momento de encruzilhada, a regra e a “anti-regra” separam-se e passam a caminhar juntas ao infinito, sempre paralelas, sempre concorrentes. Antes de ser o pólo oposto à heterossexualidade, a homossexualidade era uma forma de viver, de pensar, de se expressar, de sofrer, de amar. Costa (1992), usa o termo homoerotismo a fim de “reconhecer a pluralidade das práticas ou desejos de determinados sujeitos” (NUNAN, 2003, p.26), e assim distanciar-se de sinônimos como perversão, desvio, anormalidade que o termo “homossexualismo” remete.

No momento em que transita de forma paralela e clandestina por entre Barbies, Madonna, Amy Whinehouse, saltos, bolsas, gliter, carrinhos, futebol, Anderson Lauro não sabe dar nome ao seu comportamento guiado por seus desejos, mas transita em construções de gênero. O fato de ter uma sexualidade voltada para meninos o inibe na busca pelo que realmente se identifica ao passo em que as respostas que adquire em torno disso dão-se de forma indireta sob gozações, ameaças, silêncios, etc. Prado (2008), diz que esse é um efeito do preconceito visto que impede de identificar os limites de nossa própria percepção da realidade” (PRADO, 2008, p.67).

Mas se existe a coerção em delimitar os movimentos do garoto, a busca por definir seus contornos (fixar o gênero) deve ser justificada por um motivo além de um discurso em torno de aderir e proclamar uma

masculinidade. Do contrário os discursos que acompanham essas performances de gênero não teriam efeito por tanto tempo. A partir dessa idéia a matriz heterossexual pode ser repensada como o “efeito mais produtivo do poder” (LOURO, 2007). A “vestimenta” do corpo é concretizada pela performance de gênero, bem como pelos discursos em torno da sexualidade é motivada pela mecânica do poder.

In document GAMLE HUS DA OG NÅ (sider 21-27)