2. Teori
2.1 Samhold (group cohesion)
Como vimos anteriormente, a mídia, diante da necessidade de atingir ao maior número possível de pessoas pauta-se, prioritariamente pelo que é mais comum a todos os que pretende atingir. O material bruto para esse trabalho, seja da ficção, seja do jornalismo está nas camadas mais profundas e complexas da cultura humana, onde os instintos e a cultura se misturam e, por vezes, se confundem. É onde estão os desejos e os medos mais encobertos, que precisam ser controlados e canalizados
Se a violência é tema corriqueiro da mídia, tanto na ficção como na cobertura jornalística, não podemos ignorar que essa violência – ou o medo dela – leva ao pânico, já abordado no capítulo 1 deste trabalho. Segundo Contrera,
também o jornalismo tem deixado clara a sua predileção pelos temas catastróficos e, dentre esses temas eleitos, que poderíamos chamar de “escolhas do fim do mundo”, alguns dos temas mais presentes dizem respeito a motivos míticos que envolvem a figura de pan: catástrofes físicas (e econômicas), acidentes, estilhaçamentos, mortes trágicas, instabilidades, violências, perda de controle etc. (2002, p. 27)
O terrorismo pode ser facilmente enquadrado dentro dessa lógica. É catástrofe física e econômica simultaneamente. Envolve mortes trágicas e imagens de estilhaçamentos, destruição etc. Expõe a possível perda de controle de quem deveria controlar a sociedade. Não sem motivo, o terror gera pânico e sua cobertura alimenta esse pânico. Atos terroristas de grande repercussão provocam a sensação de caos e de quase fim do mundo, como vimos no capítulo anterior: um dos grandes medos da humanidade. O
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simples medo do terrorismo, o estado de terror, multiplica infinitamente a ação violenta do terrorista.
Segundo Glassner, “toda análise da cultura do medo que ignora a ação da imprensa ficaria evidentemente incompleta. Entre as diversas instituições com mais culpa por criar e sustentar o pânico, a imprensa ocupa indiscutivelmente um dos primeiros lugares” (2003, p.33).
Ele afirma, porém que, por outro lado, “os jornalistas não só difundem o medo, mas
também desmascaram e criticam uns aos outros por assustar o público” (2003, p.33).
O livro de Glassner foi escrito originalmente em 1999, ou seja, antes dos ataques aos EUA. No entanto, naquele momento ele já apontava para a tendência mundial de alimentação do medo que leva ao pânico pelos mais diversos motivos (criminalidade, doenças, decadência moral etc). E, embora a mídia fosse, segundo ele, e já àquela época a principal ferramenta para tal expansão do medo, essa tendência era estimulada e acabava beneficiando outros segmentos da sociedade, como o governo, a indústria bélica e farmacêutica, e mesmo a religião. Se retomarmos aqui os conceitos de Berman (2005) e Bauman (2001 e 2008), veremos que quando o mundo onde o “tudo que é solido desmancha no ar” se apresenta em sua fase mais exagerada e acelerada, num mundo onde tudo é concreto se liquefaz, e especialmente as certezas deixam de ser tão seguras, a presença do medo permanente e da criação do pânico em alguns momentos acaba sendo algo até natural. Se não se pode acreditar com absoluta segurança em nada, qualquer coisa pode se tornar ameaçadora.
O consumo da violência e dos assuntos catastróficos acaba por se tornar uma via de mão dupla: se, por um lado, o espectador supre sua necessidade instintiva de violência, conforme apontado por Girard, por outro, ele alimenta seu inconsciente com a ideia de que a violência está presente e que qualquer um pode ser a próxima vítima. Voltando ao conceito de vitimização arbitrária, pressuposto nas iniciativas terroristas, vemos que o ciclo se fecha: o consumo da violência se tornou uma necessidade numa sociedade que transforma tudo em espetáculo e onde não se pode e não se quer cometer atos violentos com as próprias mãos. Ao transmitir imagens violentas, os meios de comunicação suprem essa necessidade e, ao mesmo tempo, alimentam no público o medo da
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violência. Atos terroristas são atos de violência cometidos contra vítimas aleatórias. Numa população que já tem medo da violência, os atos terroristas acabam sendo cometidos, simbolicamente, contra todos que pertencem àquele grupo.
2.3.1. A proliferação das imagens do terror
Segundo Benjamin (2000) vivemos a era da reprodutibilidade técnica. Ele afirma isso ao explicar como as técnicas de reprodução e proliferação de textos e imagens modifica nossa forma de ver e lidar com o mundo. A ideia que acabou se tornando um marco dentro dos estudos de comunicação, serve perfeitamente para compreendermos os efeitos da reprodução das imagens na construção do discurso do terror e nas estratégias dos terroristas. O processo de proliferação de imagens caminhou lado a lado com o desenvolvimento do homem moderno e com o desenvolvimento das tecnologias de comunicação. Como já vimos anteriormente e neste capítulo, tão importante quanto o desenvolvimento das ideias de liberdade e capacidade de criar e mudar do homem moderno é a sua necessidade de ver e ser visto. A visibilidade de si mesmo e das suas ideias e o voyerismo sobre o outro fazem parte daquilo que chamamos de “espírito moderno”. Não sem motivo esse mesmo homem buscou tecnologias que permitissem ampliar o ver e ser visto. A evolução dos meios de comunicação se deu, portanto, em sentido favorável ao desenvolvimento e à proliferação das imagens. Dos jornais com longos textos e pouquíssimos desenhos, ao ritmo frenético da proliferação das imagens nos sites de Internet, caminhamos a passos largos na busca pela visibilidade e por ver o outro. Ser visível, ser visto, é ser moderno, conforme conceitos de Berman, apresentados no início deste capítulo. E dar visibilidade é transformar tudo em espetáculo a ser consumido, conforme explicou Debord. O caminho trilhado pelas imagens não poderia ser outro. Hoje, vivemos um momento em que as imagens dominam todos os espaços e ocupam mais espaços que aquilo que costumamos chamar de “mundo real”. O filósofo Ludwig Feuerbach, já no SÉC. XIX, apontava: “nosso tempo, sem dúvida... prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser...” (in DEBORD, 2006, p. 5)
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Para Baitello, a apropriação humana das imagens se tornou algo tão grande e corriqueiro, que as imagens passaram a se apropriar dos homens. Hoje, os homens consomem imagens e são consumidos por elas, já que querem, eles próprios, se transformar em imagens ou serem como as imagens que consomem. (BAITELLO Jr. 2005). As imagens teriam, portanto, ocupado o lugar da vida e sua proliferação exagerada e cada vez mais rápida estaria substituindo as reais vivências e percepções
em relação ao mundo. Numa época em que, portanto, “parecer” é mais importante que
“ser”, nossa relação com o mundo é feita pelo consumo de imagens e pela transformação do próprio homem em imagem.
Para Debord (2006), a imagem se transformou em algo mais importante que o próprio objeto.
As imagens fluem desligadas de cada aspecto da vida e fundem- se num curso comum, de forma que a unidade da vida não mais pode ser restabelecida. A realidade considerada parcialmente reflete em sua própria unidade geral um pseudo mundo à parte, objeto de pura contemplação. A especialização das imagens do mundo acaba numa imagem autonomizada, onde o mentiroso mente a si próprio. (DEBORD, 2006, p.10 – grifos do autor)
Sabemos que a imagem é a primeira aparência da informação (às vezes, a única, quando se abre mão da leitura do texto que a acompanha, por exemplo), aquela que se antecipa aos demais códigos e que cria o estado de ânimo, a ambientação e a predisposição do receptor. Assim também com as imagens da violência: ao serem expandidas infinitamente, elas se multiplicam, o que multiplica a ação do terror. Um prédio em chamas não é apenas um prédio em chamas quando cai nas mãos da cobertura midiática. Ele será tantos prédios em chamas quanto a cobertura jornalística fizer ser através das imagens e a reprodução desse prédio em chamas durante dias, fará com que o incêndio perdure, na percepção dos consumidores de notícias, pelo tempo em que a imagem permanecer na mídia. A proliferação exagerada de imagens serviria, portanto, às intenções dos atos dos terroristas que buscam exatamente visibilidade. E, por que não
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afirmar: a proliferação das imagens atende aos interesses daqueles que querem manter o estado de terror por questões políticas e de dominância. Quanto mais imagens do terrorismo, mais pânico espalhado, mais a população se sente desamparada e clama pelo amparo daqueles que podem livra-la do mal. Por outro lado, essas imagens serão reproduzidas enquanto houver público para consumi-las e, consequentemente, anunciantes dispostos a colocar seu dinheiro naquele veículo de comunicação a fim de
captar a atenção e o dinheiro do consumidor – de imagens da violência e de produtos de
todos os tipos.
A sociedade do espetáculo é, portanto, a sociedade das imagens. Segundo Debord, “o
espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens” (2006, p. 10)