No início do século XXI, o espaço urbano central da cidade de São José dos Campos apresentaria seus limites ao crescimento, de modo que novas centralidades representativas das novas riquezas produzidas na cidade viriam a se formar a partir de novos bairros das elites locais, e de uma importância material e simbólica de novos empreendimentos às margens da Rodovia Presidente Dutra, sobretudo no trecho do município de São José dos Campos.
Mais uma vez, a ‘ideologia do crescimento numérico’, típica a uma práxis batista, e característica marcante da PIBSJC, viria a conduzir profundas transformações nessa igreja, em termos de uma nova inserção na paisagem urbana, alinhada com essa nova centralidade representada pela Rodovia Presidente Dutra.
A PIBSJC constituiria sua terceira sede, na cidade de São José dos Campos, à beira da rodovia, nas proximidades com os entroncamentos que ligam ao Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA) e à Rodovia dos Tamoios, via de acesso ao Litoral Norte Paulista, aumentando com isso a visibilidade dessa igreja na cidade, na região, no país e no exterior.
Desde o fim da década de 1990, adentrando a primeira década do século XXI, algumas das características do campo religioso na cidade se alteraram com o processo de urbanização de São José dos Campos, de modo a se perceber algumas correlações entre a emergência de uma periferia urbana e a criação de igrejas pentecostais nesses bairros, aliada à manutenção do número de fiéis e da localização central das igrejas evangélicas tradicionais.
Nas áreas de exclusão social, em São José dos Campos, foi evidente a presença majoritária das igrejas pentecostais, como em praticamente todas as áreas urbanizadas e excludentes do país, sobretudo como uma forma de enfrentamento contra a violência que tem envolvido, principalmente, as populações jovens nos municípios brasileiros.
No mesmo período, nas áreas centrais de São José dos Campos, as igrejas evangélicas praticamente mantiveram-se estáveis em termos de crescimento de membros, de origem majoritária das classes médias, ao longo da história dessas igrejas evangélicas no município.
Tais evidências empíricas são correspondentes com os dados estatísticos do censo de 2000 para o país, que apontou um quadro de crescimento pentecostal concomitante a uma estabilidade numérica de membros das igrejas evangélicas e de relativo declínio no número de católicos, além da emergência significativa dos que se declararam sem-religião, para o Brasil, em geral.
No entanto, no contexto de São José dos Campos, a PIBSJC apontou, na primeira década do século XXI, para uma direção singular, porém significativa, para os estudos do campo religioso brasileiro.
No início deste século, a PIBSJC mudou novamente sua sede, dessa vez para as proximidades da Rodovia Presidente Dutra, no eixo Rio – São Paulo, uma das novas áreas de hegemonia socioespacial no município, como apresentado e representado graficamente nas Figuras 2 a 4 do ANEXO 2, que apresentam, ainda, as diversas localizações da PIBSJC, respectivamente, para os anos de 1962, 1985 e 2005.
A mudança para sua terceira sede deu-se em 2002, quando a PIBSJC alugou um galpão nas proximidades da rodovia, que havia sediado as instalações de uma antiga concessionária de automóveis. Nesse imóvel, foi adaptado um templo para 2000 pessoas, com estacionamento e outros espaços coletivos para acomodar restaurante, livraria, além de outros espaços intermediários para públicos menores, em torno de 200, 100 e 50 pessoas.
Essa nova espacialidade da terceira sede, além de possibilitar um novo crescimento numérico da igreja, deu maior visibilidade à PIBSJC na paisagem urbana, desde que a própria rodovia, por seu intenso tráfego, proporciona uma associação de estratégias de marketing
religioso, político e espacial, ao mesmo tempo.
Esse fato tem apontado para um alinhamento da igreja com essa nova centralidade da Rodovia Presidente Dutra, desde que grandes empresas também se posicionam ao longo dela, formando uma referência importante para as esferas de produção/consumo de mercadorias na região e no país. Grandes marcas como Carrefour, Wallmart, grandes hotéis internacionais, grandes indústrias e empreendimentos comerciais, bases militares, encontram-se ao longo da Rodovia Presidente Dutra, relativamente concentradas no trecho de São José dos Campos.
A terceira sede, em termos arquitetônicos e urbanísticos, assemelha-se à paisagem de um shopping center, com seu pátio de estacionamento, o movimento de grande número de
pessoas, que praticamente não se dirigem abertamente a palavra, marcando um determinado tipo de cidadania restrita que se estabelece nessas condições, favorecendo a uma cultura do
silêncio67. Isso pode ser verificado até nas formas de se caminhar e de se ocupar o espaço
interno da igreja, marcado pela quase ausência de lugares para abrigar confortavelmente
pequenos grupos para conversas livres68.
Ao contrário, na PIBSJC, é predominante a presença de lugares de culto para grandes grupos e massas, que são dispostas em fileiras, o que, de certo modo, constrangeria a comunicação livre entre os participantes das celebrações religiosas.
Essas espacialidades religiosas demonstram certo caráter não participativo e controlador, para a produção do fato religioso, impondo dependência dos fiéis relativamente aos seus líderes, impedindo, de certo modo, a formação e o exercício da cidadania no nível da igreja, e, por conseguinte, para o âmbito da cidade, refletindo certas características excludentes típicas do espaço urbano, que se expressam em segregação socioespacial e crise dos espaços públicos, pela ausência de uma voz plural do debate político e de um livre diálogo entre todos.
Associada a essa opção de espacialidade, a gestão eclesiástica da PIBSJC tornou-se um ‘sistema administrativo profissionalizado’, em que se passou a adotar estratégias
agressivas de propaganda e marketing em suas várias modalidades69.
A esse sistema profissionalizado de gestão eclesiástica, adotado plenamente pela PIBSJC a partir dessa primeira década do século XXI, denomina-se “igreja com propósitos”. Além de pioneira nesse processo de gestão eclesiástica no Brasil, a PIBSJC também é um pólo difusor dessa forma organizacional de igrejas, que tem se estendido a outras igrejas batistas e de outras denominações, desejosas de certa ‘autonomia gerencial’, visando a um ‘crescimento numérico’ de suas respectivas comunidades de fé.
Tal modelo de gestão eclesiástica tem se dado à custa dos processos participativos, desde que há uma centralização de poder em um pastor/líder e a formação de espaços
religiosos que refletem um governo autoritário da igreja70, conduzindo também à
Nas relações interpessoais e nos processos comunicativos, tais modalidades autoritárias de gestão do poder, em geral, conduzem a manipulações de falas, construções de imagens estereotipadas, entre outras ações que podem ferir a ética e a moral.
O modelo de “igreja com propósitos” realiza mudanças em certos preceitos doutrinários batistas ‘clássicos’, tidos como anacrônicos e responsáveis por certa ‘doença’ que tem afetado as igrejas evangélicas nos dias atuais, impedindo-as de ‘crescer em termos numéricos’, pois a forma ‘tradicional’ de gestão eclesiástica teria duas características básicas: 1) os desgastes dos poucos que trabalham e 2) a estagnação pessoal e espiritual dos que são feitos objetos de ação dos primeiros72.
No entanto, a ‘nova’ forma de gestão eclesiástica chamada de “igreja com propósitos” não tem resolvido esses dois impasses apontados.
Reformas estatutárias e doutrinárias foram realizadas na PIBSJC, tornando-a ‘mais pentecostal’, sobretudo em identificação com o pentecostalismo midiático, com a gestão profissional associada à propaganda e marketing agressivos.
A reforma do estatuto da PIBSJC caminhou em direção inversa à tradição de gestão eclesiástica entre os batistas, que prezam pela autonomia da igreja local e pelo comando através de um colegiado. Passou-se, com a reforma do estatuto, de um modelo mais participativo para um mais restritivo, fundado a partir de plenos e amplos poderes de decisão
e estabilidade ‘perene’ ao seu ‘pastor sênior’73, que já atuava, desde 1999, preparando-se e se
posicionando para a execução de um ‘projeto eclesiástico de poder’.
Essa liderança eclesiástica submeteu ‘estatutariamente’ seu ‘rebanho’ e outras ‘lideranças da igreja’, ironicamente sob a permissão destes, de modo que esse ‘pastor sênior’ passaria a requerer total autoridade espiritual na vida desses fiéis.
Uma parcela do voluntariado passou a ser assalariada pela igreja, com o ‘pastor sênior’ representando o empregador (a PIBSJC), de modo a ‘comandar’ uma estrutura de funcionários conforme seus projetos de poder, de forma a não admitir, muitas vezes, críticas e discordâncias, sob pena do desemprego e/ou da ‘demonização’ por ato de ‘rebeldia’ contra a ‘hierarquia estabelecida por Deus’ na terra para o governo de sua igreja. A ‘insubmissão espiritual’ seria a ocorrência de um dos mais graves pecados na ótica cristã, desde que o Anjo
Lúcifer, foi lançado do céu e da presença de Deus justamente por ser insubmisso e desejar o poder de Deus.
Em algumas pregações dos pastores da PIBSJC e em suas publicações e discursos, há certa ênfase na questão da centralização do poder eclesiástico em torno de um líder com estabilidade no cargo por longo tempo, apto a nomear e a demitir a qualquer tempo seu corpo pastoral, além de ser responsável por todas as decisões eclesiásticas da referida igreja, sem que haja instâncias reguladoras para o processo decisório, que possam atuar autonomamente sem interferências desse líder. São modelos de gestão eclesiástica, em si, excludentes e centralizadores.
Tal forma de liderança pastoral garantiria certa subserviência por parte dos pastores e líderes de ministérios eclesiásticos e demais membros da igreja, atitude que também é justificada teologicamente por este grupo religioso, na forma de ‘submissão a Deus e às autoridades constituídas’ na igreja e fora dela.
Não haveria espaço para a crítica e nem para a discordância onde impera uma autoridade totalitária, como nesse caso, abrindo caminho para a emergência de todo tipo de fundamentalismos.
Com essas reformas, a PIBSJC obteve um salto no número de adesões de novos membros, passando de cerca de 600 fiéis, em uma cidade em torno de 500 mil habitantes em 2000, para algo próximo de 4800 no ano de 2010, em um município com aproximadamente 600 mil habitantes.
Ou seja, em 2000, essa igreja capitaneava aproximadamente 0,12% da população joseense, e, em 2010, 0,8% dessa população, o que faz despontar a PIBSJC no campo religioso evangélico no município, e, de certo modo, também em termos nacionais, diante do quadro mais geral da realidade religiosa apontada pelo censo do IBGE em 2000 para todo o país.
De 2000 a 2010, houve um crescimento numérico de 600%, representando, para o campo religioso do município, uma particularidade a ser notada, e, em termos de Brasil, um interessante ponto fora da curva, em se tratando de igrejas evangélicas de missão.
No caso da PIBSJC, parte desses resultados numericamente expressivos de conversões se deve a um modelo profissionalizado de gestão eclesiástica e a estratégias de marketing religioso, aliados às novas espacialidades religiosas e a seus significados no contexto da gestão urbana do município.
Evidentemente, essa igreja não reconhece seu crescimento numérico a partir dessas ações e em alinhamento ao processo de urbanização, antes proclamando a ação de Deus no ‘milagre’ de tal aumento expressivo no número de fiéis, fazendo dessa igreja uma espécie de
santuário, um lugar de ‘peregrinação religiosa urbana’74.
Alimentando essa ‘ideologia do crescimento numérico’, em 2004, a PIBSJC adquiriu um terreno para sua futura nova sede, também estrategicamente posicionado próximo à Dutra. A metragem do terreno gira em torno de 100.000 metros quadrados, tendo custado cerca de R$ 4 milhões de reais à igreja, sendo que a transferência cartorária para posse definitiva da PIBSJC envolveu, além dos trâmites legais e compromissos financeiros usuais, uma ação jurídica de usucapião da área, em que certos processos clientelistas se fizeram presentes, já que os prazos legais previstos pela legislação urbana foram ignorados e a ocupação parece distante da função social prevista para a propriedade urbana nesses casos.
Os poderes públicos locais das três esferas (executivo/legislativo/judiciário) ‘produziram’ uma situação em que a legalização da propriedade se deu na forma de usucapião, o que foi celebrado, no melhor modo da ‘espetacularização da política’, como um dos ‘grandes feitos de Deus’ por essa igreja.
No momento, a PIBSJC está empenhada na construção dessa nova sede, a partir de um projeto arquitetônico arrojado, feito por arquitetos de um escritório internacional localizado
nos EUA, projetando o poder das lideranças da igreja no ato de nomear novos lugares75.
No caso da PIBSJC, no plano da religião ocorreria um espelho do que acontece na política, onde há uma massificação, a partir de um processo de urbanização excludente e autoritário. Espaço religioso e espaço urbano, no caso da PIBSJC e do município de São José dos Campos, têm contribuído para a formação de um joseense não-participativo, alienado politicamente, e também religiosamente, apoiando acriticamente ‘sua própria servidão’ nesses domínios da cidade e da religião.
Que tipo de cidadão tem se tornado membro da PIBSJC? Um fiel que é alienado e massificado na constituição de sua expressão religiosa, e que guarda certa relação com esses mesmos processos que se verificam no município. Desse modo, pode-se afirmar que, no plano político, a democracia, e no plano do imaginário, a religião, têm domesticado as pessoas em face de projetos de hegemonia de determinados grupos.
Esse ‘sacrifício da autonomia’ das pessoas tem impedido a formação de uma prática de cidadania legítima em relação aos poderes políticos e econômicos. E, em relação aos poderes religiosos, faz com que os fiéis se submetam, ironicamente, de ‘modo voluntário’ à autoridade eclesiástica.
Essas transformações urbanas e eclesiásticas demonstram a tese desta pesquisa para o caso da PIBSJC, apontando para o caráter ambíguo e contraditório do espaço religioso, que, ao compor parte do espaço urbano da cidade, passaria a legitimar e a promover uma espacialidade que, em si, é excludente, produtora de hegemonias do capital e do Estado sobre a população, impedindo um exercício autônomo de cidadania, na forma de participação no governo da cidade e da religião.