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Alternativer til ruspåvirket kjøring

DEL III........................................................................................................................... 27

Tema 4: Alternativer til ruspåvirket kjøring

a) Oficinas de olaria: caracterização312

- Oficina de José Nunes e António Nunes

António Fernando Ferreira Nunes (1943), filho do oleiro José Nunes (1907-2000), sucedeu a seu pai na ocupação da oficina situada na Rua do Ministro, n.º 2. O edifício, contiguo à casa de habitação do oleiro, difere de qualquer outro exemplo aqui descrito. O espaço que compreende a oficina, hoje utilizado para outros fins, não apresenta qualquer compartimentação interior e tem passagem interna direta para a casa de residência do oleiro e da mulher. No seu equipamento estavam incluídos dois tornos de madeira; um moinho (foca) que era movido por tração animal; dois fornos de lenha; pranchas de madeira para a secagem da louça e um pequeno cubículo reservado à armazenagem de lenha. Na parte exterior do edifício, junto à parede de uma das suas laterias, eram armazenadas as argilas, sem qualquer estrutura protetora. Atualmente, restam apenas as paredes estruturais do edifício; o seu interior foi adaptado para garagem e casa de arrumos (Vide Anexo 13, Figs. 27-30).

310 A observação das unidades de produção ficou limitada às oficinas de António Nunes e António Francisco Cardoso. 311 No ano de 2005 ainda existiam dois oleiros profissionalmente ativos em Árgea: António Alves Rosa (80 anos de

idade) e António Francisco Cardoso (78 anos de idade).

Durante cerca de 28 anos, António Nunes trabalhou em parceria com o pai. No ano de 1977, empregou-se como ferroviário e, desde então, a profissão de oleiro passou a ser uma atividade secundária, exercida apenas nas horas vagas. Pouco a pouco, a produção de louça foi ficando cada vez mais reduzida e, em 1987, decidiu-se pelo encerramento da oficina.

- Oficina de António Francisco Cardoso

O edifício onde, até meados da primeira década de 2000, funcionou a oficina de olaria de António Francisco Cardoso313 e sua mulher, Maria de Lurdes Valério, é constituído por uma casa de

reduzidas dimensões; um telheiro, construído no prolongamento da casa; e um pequeno pátio murado. No interior da casa existem dois tornos mecânicos; um tanque para diluição de barro; uma “foca” com motor elétrico adaptado314; e um pequeno reservatório de argilas. Sob o telheiro estão instalados três

fornos de lenha, um de grandes dimensões ( 4m3) e dois de capacidade muito reduzida. Na zona central

do pátio existem ainda vestígios do local onde inicialmente esteve instalado o moinho (foca), sendo então movido por tração animal. O armazenamento da louça era feito num outro edifício, afastado por alguns metros da oficina, situado ao lado da casa de habitação do oleiro, na Rua de Santo António (Árgea).

b) Ciclo de produção

Extração e recolha de argilas

Como atrás foi referido, as argilas utilizadas nas oficinas de olaria de Árgea tinham proveniência local. As recolhas eram feitas pelos oleiros, nos pinhais situados em diferentes zonas periféricas da aldeia – conhecidas por Feteira, Fonte Longa, Cabeço de Fiel, Casal Velho – ou junto à estrada de ligação ao Entroncamento – num local designado por Quatro Caminhos (Maia [et al] 2005: 90-91). António Cardoso extraia as argilas em terreno próprio, situado no Carreiro da Areia (Árgea).

O processo de extração e acarretamento315 das matérias-primas não difere daquele que foi

observado em Muge.

Armazenamento das argilas

As argilas de diferentes características (barro forte e barro fraco) eram armazenadas, separadamente, no exterior ou no interior das oficinas.

Preparação das pastas

O doseamento das argilas utilizadas na formulação das pastas variava consoante a intenção de obter um preparado com propriedades mais ou menos plásticas. Para a modelação de louça “de ir ao fogo” eram elaboradas pastas que conferissem boa resistência às peças quando expostas a temperaturas

313 Segundo informação proferida pelos seus filhos (Francisco Valério Cardoso, Maria de Fátima Valério Cardoso

Batista, Cecília Amélia Valério Cardoso Mendes), a aprendizagem do oleiro teve início aos catorze anos de idade, na oficina de Henrique Martins da Silva, em Árgea.

314 Cf. Anexo 13, Fig. 34.

elevadas, introduzindo maiores percentagens ( 2/3 da porção total) de argila rica em sílica. Os recipientes para líquidos requeriam barros pouco porosos em cuja composição predominassem as argilas essencialmente ricas em matéria orgânica.

A preparação das pastas principiava com a fragmentação e peneiração dos torrões de argila, a que se seguia a “rega” e mistura dos componentes argilosos316. A pasta resultante era então colocada no

moinho, triturada e uniformizada. Depois de moído, o barro era amassado, “catado”317 e “empelado”318

à mão, antes de ser trabalhado no torno.

Modelação da louça

A modelação da louça era feita em tornos de madeira. Na oficina de António Cardoso os tornos, ainda que em estrutura de madeira, tinham motor elétrico adaptado.

O conjunto de instrumentos auxiliares de modelação da louça incluía a cana seccionada, o

trambolho, a faca, os carimbos para aplicação de engobe, marcadores numéricos, rodízios e fio de nylon. Vidragem da louça

Na impermeabilização das peças cerâmicas eram utilizadas duas técnicas:  Mergulho da louça no vidro (vidragem total do recipiente);  Derrame do vidro sobre a louça (vidragem parcial do recipiente).

Como impermeabilizante era utilizado o composto à base de zarcão, substituído na década de 1990 pelo TR18, previamente diluído em água e depurado em peneiro de malha estreita.

Decoração da louça

Contrariamente às características identificadas nas louças de Muge e Sardoal, o conjunto de louças provenientes de Árgea inclui nos seus motivos decorativos temas vegetalistas policromados e puncionados. Para além destas composições, as decorações incidem sobretudo na aplicação de linhas incisas aneladas, caneluras e pintura de filetes com pigmento de óxido de ferro diluído em água.

No revestimento de alguns modelos de louça (saladeiras, alguidares, potes, jarros) prevalece o uso de engobe (preparado a partir de barro branco) impermeabilizado com soluções vítreas à base de zarcão, em detrimento dos preparados de cor verde ou castanha. Nos vidros predomina o uso do zarcão isolado, à sua mistura com óxido de cobre ou manganês. As superfícies vidradas apresentam um aspecto craquelado e, quando cobertas de vidros pigmentados de verde ou castanho, adquirem um efeito borbulhado devido ao menor grau de fusibilidade conferido pela adição dos óxidos.

316 Na oficina de António Cardoso as argilas eram depositadas num tanque e só depois cobertas com água. 317 Retirar impurezas.

Alguns objetos, da autoria de António Francisco Cardoso e M.L.S. Valério exibem técnicas decorativas mais elaboradas, incluindo nas composições desenhos fitomórficos contornados e preenchidos com tintas de alto fogo, densas e aguadas, numa pincelada larga e de traço ingénuo.

Cozedura da louça

O sistema de cozedura da louça nas oficinas de olaria em Árgea é semelhante ao que foi descrito para o centro oleiro de Muge.

Materiais combustíveis utilizados na cozedura da louça

No aquecimento dos fornos era utilizada rama (caruma) e madeira de pinho recolhidas, pelos oleiros, nos pinhais existentes nas proximidades da aldeia.

Armazenamento da Louça

Cada oficina possuía uma área reservada ao armazenamento de louça. Com base nas observações realizadas, constatamos que as produções de António Francisco Cardoso eram guardadas fora da área da oficina, num edifício contiguo à casa de habitação do oleiro.

Comercialização da louça

A geografia das comercializações abrangia as próprias oficinas onde eram produzidas as louças, a venda porta a porta, e as feiras e mercados realizados nas localidades mais próximas319. Antes da década

de 1970 as louças eram transportadas para os locais de venda, em carroças, engenhosamente acondicionadas e protegidas com palha. A aquisição de meios de transporte motorizados não só veio facilitar o processo de escoamento da louça como proporcionou aos oleiros o aumento das suas participações na venda ambulante, alargando-a mesmo a municípios mais distantes.

Louça produzida

A variedade de modelos cerâmicos produzidos incluía jarras, panelas, cafeteiras, canecas, vinagreiras, ferrados, tachos, frigideiras, saladeiras, alguidares, barris, braseiras, assadores de castanhas, potes, jarros, tigelas, bacios, pratos, mealheiros, terrinas, comedouros, louça miniaturizada, e, inevitavelmente, os cântaros e garrafões que só depois de 1983, com a chegada da água canalizada a Árgea, deixaram de ser utilizados pela população local.

As produções cerâmicas caracterizam-se pelas superfícies pouco regulares, marcadas por concreções de areia e de partículas calcárias, impressões digitais, escorrências de vidrado, manchas provocadas pela atmosfera de cozedura e lacunas originadas por colagens ocorridas durante o processo de cocção. Nestas louças predomina a impermeabilização com vidro de base transparente com aspeto craquelado e a sua aplicação limita-se, quase sempre, à face interior dos recipientes.

319 Entroncamento (no terceiro domingo de cada mês); Vila Nova da Barquinha (Feira de Santo António, de 9 a 16 de

Junho); Constância (Feira dos Mártires, de 4 a 10 de Agosto); Ferreira do Zêzere (Feira de S. Miguel, a 29 de Setembro); feiras anuais e mercado semanal de Torres Novas.

3.8 ESTUDO DE CASO: CENTRO OLEIRO DE SARDOAL O concelho de Sardoal está compreendido numa área de 91,94 km2, contornado a norte pelo

município de Vila de Rei, a leste pela circunscrição municipal de Mação, a sul e a oeste pela de Abrantes. Em termos geológicos os solos do concelho assentam sobre formações do Miocénico, constituídas essencialmente por saibros, argilas e areias, “largamente exploradas para o fabrico de telhas e de tijolos” (F. Gonçalves [et al] 1979, 63), encontrando-se algumas das principais jazidas de matérias- primas para esta produção situadas nas imediações da estrada que liga Barquinha a Atalaia e no Alto do Picolo (ibidem).

Em termos demográficos, no início do século XX a população da freguesia de Sardoal rondava os 4733 habitantes. Se bem que os elementos disponíveis nos permitam afirmar que no decurso das primeiras duas décadas a curva de crescimento populacional apresentou um ritmo de desenvolvimento lento mas ascendente, a análise dos dados publicados pelos Censos realizados entre 1930 e 1981 demonstram que entre esses 51 anos o número de indivíduos reduziu de 4415 para 2440, ou seja, decresceu num número total de 1975 habitantes. Nas duas décadas seguintes a tendência de decrescimento manteve-se e no Censos de 2001 o número não ultrapassava os 2300 residentes.

Nas primeiras sete-oito décadas do século XX a economia deste concelho320 esteve baseada na

produção agrícola (regime de minifúndio) – direcionada essencialmente para o cultivo de olival, cereais (milho321, trigo, centeio, aveia), batatas e leguminosas –, produção de azeite322, industria de serração de

madeiras323 e fabrico de malas (arcas de madeira). O sector primário, nomeadamente as culturas

hortofrutícolas, milhal, olival, pinhal e eucaliptal, tem, ainda hoje, forte expressão na economia do concelho.

320 Sardoal foi elevado à categoria de Vila por ordem de D. João III, em 1531. Atualmente, o concelho é constituído por

quatro freguesias: Alcaravela, Santiago de Montalegre, Sardoal e Valhascos.

321 Luís Gonçalves (1992) chama a atenção para a importância que o milho teve na economia e subsistência das

populações da região, dizendo que “(…) o pão de milho, foi a base da alimentação das populações rurais durante séculos, já que o consumo de pão de trigo, apenas se generalizou no concelho de Sardoal nos últimos trinta anos, que antes só era cozido em dias de festa ou quando alguém estava doente.” (p. 161). Os dados fornecidos, entre os anos de 1936 e 1939, pelo Instituto Nacional de Estatística elucidam-nos sobre o lugar de destaque que a produção deste cereal atingiu no concelho de Sardoal (Junta de Província do Ribatejo 1940: 707):

Ano Milho Trigo Centeio

1936 372.620 (litros) 89.070 (kg) 40.890 (litros)

1937 498.820 (litros) 103.040 (kg) 35.520 (litros)

1938 483.000 (litros) 92 (toneladas) 45 (toneladas)

1939 509.000 (litros) 170 (toneladas) 39.000 (litros)

322 Em meados do século XX existiam 31 lagares de azeite na freguesia. Atualmente, o número ascende apenas a seis

lagares na região, mas confirma ainda o carácter singular e relevante da produção de azeite para a economia local.

323 A abundância de pinhais nesta região sustentou durante décadas (1930-1970) uma outra atividade que lhe está

No início da década de 1980, cerca de seis anos antes de Manuel Durão e Maria Helena Lemos terem procedido à recolha de louças de olaria em Sardoal, a área concelhia contava com 2546 fogos, 90% dos quais cobertos pela rede de distribuição elétrica324 e abastecimento de água canalizada.

Para além do texto da autoria de Duarte Leão, datado do século XVIII, não encontramos qualquer documentação anterior a esta publicação que nos permita delimitar uma periodização associada ao nascimento de Sardoal como local de produção olárica. Sabemos, contudo, que ela assumiu um lugar relevante no contexto local. A própria toponímia que identifica algumas ruas situadas na periferia de Sardoal325 confirma e atesta a esta vila a vocação para a prática da atividade olárica e a relevância que ela

teve em tempos na povoação e, certamente, na região. Com o falecimento do oleiro João Morgado, no ano de 1998, a produção de olaria em Sardoal ficou extinta.

O estudo feito em torno das louças provenientes deste centro permitem concluir que ali existiu a produção de exemplares diversificados, com características técnicas e decorativas que os individualizam dos restantes modelos provenientes doutros centros oleiros ribatejanos. As peças cerâmicas possuem uma tonalidade vermelha alaranjada, mas a textura é particularmente granulosa, pouco regular, com um elevado índice de concreções calcárias, areias, seixos de quartzo de reduzida dimensão e micas de tonalidade dourada; a espessura das paredes é geralmente mais elevada que a observada em peças similares produzidas noutras olarias da região; as formas e materiais empregues nos motivos decorativos são, nalguns casos, inéditos (como adiante se verá).

No conjunto, os modelos dominantes são os cântaros, cafeteiras, moringues, panelas, potes, pratos, tigelas, saladeiras, jarros e ferrados. À semelhança de Muge e Árgea, podemos falar de uma variedade alargada de formas cerâmicas produzidas neste centro, mesmo quando, a partir da década de 1970, em consequência da retração na procura de louça utilitária, por um lado, e do estimulo dado ao desenvolvimento urbano, por outro, foi dada preferência ao nicho de mercado da construção civil e a manufactura se direcionou sobretudo para o tijolo burro, telha (meia-cana ou de canudo) e tijoleira. Esta tendência diversificada aplicada à manufactura de louça encontra também expressão na carta, redigida por Ana Cristina Baptista Marques da Costa, a 18 de outubro de 1998, enviada à presidência da Câmara Municipal de Sardoal. Nesse documento, a colecionadora não só formula o desejo e o pedido à edilidade de empenho firme na concretização de uma iniciativa que contemple uma justa homenagem à pessoa e à obra de João Morgado, como refere o ecletismo patente nas produções do oleiro:

“… desde materiais de construção (tijolos, telhas e tijoleiras) a materiais de pecuária (alimentadores de animais) a objectos de cozinha (pratos, panelas, bilhas…), a objectos de jardim, a objectos de decoração por aí em diante.

324 Cabe no entanto referir que a inauguração da rede de distribuição elétrica na sede de concelho remonta ao ano de

1931.

Do mesmo modo que criava os seus objectos, igualmente se dispunha a reproduzir propostas dos seus clientes (sublinhe-se que um deles foi a Fundação Calouste Gulbenkian que num dado momento, tendo de algum modo tido conhecimento do seu trabalho, lhe solicitou umas reproduções de recipientes romanos)”326.