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Tema 6: Mestring og nye muligheter
a) Oficina de olaria: caracterização327
- Oficina de João Morgado
A oficina de olaria de João Morgado (1920-1998), fundada há mais de século e meio pelo seu pai, José Morgado, foi desativada em 1998. Da estrutura dessa construção pouco mais resta que a memória local da sua implantação, então feita em terreno situado num lugar conhecido por “Vale da Gala”, afastado cerca de 800 metros do aglomerado urbano. Ali, fomos encontrar o pouco que subsiste do edifício com configuração em “U” e paredes-mestras de pedra e tijolo burro: algumas colunas que suportavam o vigamento do telhado; vestígios da estrutura de base do forno; a “eira”, situada ao lado do edifício, onde era desfeito e amassado (com os pés) o barro utilizado na modelação das peças cerâmicas; também inúmeros fragmentos de louça inutilizada, que o oleiro e a mulher habitualmente dispersavam pelo terreno que circundava o edifício.
O plano anterior do interior da oficina era composto pela “casa de entrada” – um compartimento rectangular (área: 29,5m2) destinado a arrumos e secagem da louça crua – que dava
acesso a dois pequenos cubículos quadrangulares, situados no flanco mais à direita – um servia de local de instalação do torno de oleiro (área: 5m2), no outro (área: 2,25m2), contíguos e com passagem direta
para a anterior dependência, estavam concentrados os materiais necessários ao sistema de produção de louça (preparados de barro, vidrados, pranchas de madeira…). Ao lado, ou seja, na ala esquerda da “casa de entrada”, ficava o forno com estrutura de pedra, assente em piso de plano inclinado (área: 5,5m2),
revestido interiormente com tijolo burro. Contrariamente aos restantes casos observados, o acesso à sua câmara superior (de cozedura) era feito pelo nível mais baixo do piso em declive – através de uma tábua amovível colocada em rampa desde o chão à porta do forno –, situado no espaço vão (2m. lineares) que separava parcialmente os planos anterior e posterior do edifício. Este último, erguido sob telhado independente, com configuração rectangular (área: 33m2), tinha três portas de acesso – uma no
alinhamento do forno, outra em frente à casa de modelação e a terceira no topo direito do edifício – e servia de armazém aos materiais cerâmicos produzidos e também à lenha utilizada no aquecimento do forno.
Nesta oficina com pavimento térreo, João Morgado e a sua mulher, Rosalina da Conceição Grácio, foram os responsáveis pela produção. Contaram com a colaboração dos seus três filhos até estes
326 Agradecemos ao Sr. Victor Reis e à sua esposa, D. Maria Grácio Morgado (filha do oleiro João Morgado), que nos
facultaram o acesso à fotocópia do documento citado.
atingirem a sua maior idade. Depois, todos eles seguiram outras vias profissionais e nenhum manteve qualquer vínculo à olaria.
b) Ciclo de produção
Extração e recolha de argilas
As argilas necessárias à produção de louça eram adquiridas, por compra, aos proprietários dos terrenos de localização das jazidas. A recolha do barro com maior plasticidade (menos silicioso) era feita num barreiro (Lamas) que dista cerca de 2km de Vale da Gala. O outro, mais magro e por isso menos plástico, era recolhido em Pedra Alçada (dist: 3km da oficina) e nas cercanias do edifício da oficina. O processo de extração, a cargo do oleiro, era em tudo idêntico ao que foi descrito nos dois centros oleiros anteriores, embora obtido em camadas mais profundas do solo.
Armazenamento das argilas
No processo de armazenamento, as argilas eram separadas por lotes, consoante as características de composição, e guardadas a céu aberto, junto do edifício da oficina.
O barro forte era utilizado na manufactura de louça utilitária, o barro fraco era essencialmente aplicado na moldagem de telha, tijolo e tijoleira.
Preparação das pastas
A preparação da pasta obedecia a duas formulações distintas. Numa era introduzida apenas uma argila natural, não decantada, misturada com água e depois utilizada na produção de tijolo burro, tijoleira e telha “de canudo”. Na outra, o oleiro juntava dois tipos de argila, uma com grau de plasticidade mais elevado (barro gordo) que outra (barro magro) e, com esse preparado, modelava uma larga variedade de recipientes identificados como louça utilitária.
A preparação principiava com a dispersão das argilas na eira, frente à oficina, seguindo-se o seu esmagamento com um sacho ou enxada, humidificação com água, e amassadura com os pés.
As pastas preparadas por João Morgado não eram submetidas a qualquer peneiração. Depois de diluída, misturada e amassada, a pasta resultante era colocada no empeladouro, catada328 com uma foicinha e amassada segunda vez, com as mãos, para serem retiradas todas as bolhas de ar e conferido um aspecto homogéneo e consistente, antes de passar para o torno de modelação.
Modelação da louça
- Modelação de louça utilitária
A modelação da louça era feita em torno alto de madeira. - Moldagem de telha, tijolo e tijoleira
328 “Catar”, neste caso, significa depurar o barro de pedras, raízes e outras impurezas que podiam conferir defeitos no
A moldagem de telha, tijolo burro e tijoleira envolvia operações muito semelhantes. Na sua execução manual, o oleiro empregava formas de madeira, constituídas por um caixilho, com as dimensões adequadas aos diferentes modelos de peças, que enchia de barro. Depois, passava uma rasoura sobre a pasta argilosa para aplanar toda a sua superfície. Concluída a moldagem, as peças eram desenformadas e postas a secar, sobre pranchas de madeira, até atingirem a consistência certa para o seu enchacotamento.
Vidragem da louça
Na impermeabilização da louça era utilizado um preparado à base de zarcão sem qualquer adição de pigmentos. O uso de vidrados aplicava-se essencialmente às louças com funcionalidades associadas à preparação ou consumo de alimentos e a impermeabilização circunscrevia-se quase só ao interior dos recipientes.
Decoração da louça
Para além da textura do barro, distinguimos como característica principal desta louça alguns esquemas e processos decorativos aplicados. Os adornos caracterizam-se pela inclusão de linhas incisas, caneluras aneladas e a disposição esquemática de efeitos engobados329 ou de suspensões aquosas de
óxido de cobre, formando motivos geométricos (losangos, círculos e circunferências) ou fitomórficos, na área do bojo, asas e bordo das louças. Mas a decoração destaque-se ainda por outra particularidade que torna este conjunto bastante sui generis: a incrustação de pequeninos fragmentos de quartzo ou porcelana cozida, na superfície das peças330. No caso concreto de três (dos quatro) cântaros aqui produzidos e
representados na Coleção331, os modelos integram, na decoração das suas asas, fragmentos de
porcelana332, uma técnica normalmente associada ao adorno da louça produzida em Niza, Estremoz e
Montemor-o-Novo. Desconhecemos o momento e o modo como foi introduzida esta técnica decorativa na olaria produzida em Sardoal, e se se tratou, ou não, de uma prática continuada entre os profissionais do barro. Sobre esta dúvida poderemos conjecturar: ¿se terá sido por influência das produções alentejanas333?; ¿ou seria por via da olaria oriunda da região estremadurenha espanhola, nomeadamente
329 Nos preparados de engobe era utilizado barro proveniente de Casais da Pucariça (Abrantes). 330 Técnica decorativa que também era utilizada nas louças produzidas pelo pai de João Morgado. 331 Referência feita no Capítulo II.
332 O oleiro e a mulher davam preferência ao uso de fragmentos de porcelana, obtidos a partir isoladores de fios
elétricos, ao que tudo indica pelo facto de este material apresentar uma brancura leitosa mais contrastante, que a coloração de seixos de quartzo comuns fracionados, quando aplicados sobre o barro.
333 Referimo-nos aos centros de Estremoz e Nisa, por serem os que geograficamente se situam mais próximos de
Sardoal. Atente-se, no entanto, para o facto de que no território continental português a produção de louça com empedrado incluído nos temas decorativos não está confinada somente à região do Alentejo. Como nota Lapa Carneiro (1989), “Em Barcelos decoraram-se com «pedras brancas» ou «pequeninos seixos» diversas formas de hidrocéramos vermelhos polidos. Esta loiça polida era um fabrico muito cuidado que fora introduzido na região em 1880, e cujo período áureo veio a coincidir pouco mais ou menos com o primeiro quartel do século XX. (…) Em Miranda do Corvo pedraram-se cântaros e potes de água, formas, portanto, que integravam o reportório da sua produção mais tradicional. Cerca de 1900, essa ornamentação fazia-se em duas das dezassete olarias locais, mas já então apenas por encomenda» (p. 7).
da vila de Ceclavin (onde ainda hoje de produz louça empedrada), Torrejoncillo, Torre de Don Miguel, Montehermoso ou Mohedas de Granadilla? Hipóteses plausíveis sobre as quais não existem quaisquer certezas. Podemos, no entanto, afirmar que a prática de adicionar pedras ao barro remonta pelo menos ao século XVIII, data em que Duarte Nunez Leão (1785), na obra intitulada Descrição do Reino de Portugal, faz referência à vila de Sardoal e à qualidade dos seus barros “(…) de que se fazem pucaros & outros vasos maiores para se beber & ter agoa de muitas feições, & de gentil talho(…). Os púcaros do Sardoal de barro grosseiro & semeado de algumas pedras mais grossas que as dos de Monte moor que para o veram sam mui frescos: porque reçuma por elles a agoa por serem mui porosos & assi a esfriam mui em breve”. (p.110).
Cozedura da louça
As louças eram cozidas em forno com características técnicas e estruturais semelhantes aos modelos existentes em Muge e Árgea. O processo de enfornamento e cozedura também não difere dos praticados naqueles centros oleiros.
Materiais combustíveis utilizados na cozedura da louça
A lenha era recolhida nos sobrais e olivais, mas também nos pinhais que abundavam na área circundante à vila, e que durante décadas alimentaram também a indústria local dedicada à produção de “tabuados, barrotes e faxina, isto é, toros delgados e curtos para lenha e alimentação de máquinas a vapor ou fornos de cozer cal” (Serras 1993: 65).
Armazenamento da louça
Na oficina de João Morgado, o armazenamento de louça era feito em espaço reservado para esse fim, com equipamentos mais ou menos improvisados. O compartimento ficava situado na área posterior do edifício.
Comercialização da louça
Até à década de 1980, as produções de João Morgado tiveram como principal destino o abastecimento de algumas localidades Ribatejanas334. Porém, não podem deixar de ser referidas as
participações do oleiro em feiras periódicas realizadas em centros urbanos mais distantes, situados a sul e a norte do país. Isso mesmo é atestado por três exemplares cerâmicos integrados na Coleção, adquiridos na feira de artesanato de Vila do Conde nos anos de 1983 e 1984335.
334 Os pontos de venda mais assiduamente visitados pelo oleiro e pela mulher terão sido os adros das igrejas das
freguesias vizinhas (Ameixial, Amêndoa, Cardigos, Fontes, Mação, Souto), bem como os mercados mensais e feiras anuais de Sardoal (Feira de Janeiro e Feira de S. Simão, realizada no mês de Outubro); os mercados de Abrantes (realizados nos primeiros e terceiros domingos de cada mês); e de Alcaravela (mercado semanal).
Nos últimos anos de atividade a rota de comercialização das suas louças estreitou-se substancialmente e a oficina de olaria passou então a constituir o principal ponto de escoamento da produção.
Louça produzida
Depois de Fazendas de Almeirim, Sardoal é o centro oleiro que apresenta maior diversidade morfológica nas louças produzidas. A Coleção apresenta uma variedade de modelos cerâmicos que inclui panelas, ferrados, cafeteiras, bebedouros, tigelas, vasos, pratos, cântaros, jarras, garrafões, mealheiros, moringues, talhas, cantis, jarros, alguidares, saladeiras, palmatórias, assadeiras, bacios, potes, vinagreiras, frigideiras, assadores de chouriços, tachos, canecas, terrinas, azeitoneiras, assadores de castanhas.
Na feitura da louça, particularmente espessa, era utilizada pasta de tonalidade vermelha alaranjada, com elevada percentagem de micas, quartzo e calcário, bastante porosa e pouco compacta. Na superfície (quase sempre craquelada) das peças impermeabilizadas verifica-se, frequentemente, a presença de lacunas na película de vidrado (resultantes de colagens ocorridas durante a cozedura) e também de escorrências e marcas digitais decorrentes daquele material.