4 Forventninger til bruk av åpne kilder i det forebyggende arbeid
4.3 Samfunnets forventninger representert gjennom Gjørvkommisjonens rapport
“O congado é uma manifestação cultural brasileira, de influência africana e católica. Diferentes situações deram origem a esta manifestação popular que, ainda hoje, permanece como fator identitário da comunidade que a pratica.”
(GABARRA, 2003, p. 2).
A religiosidade sincrética, característica da sociedade brasileira atual, tem sua origem ligada aos primeiros tempos da colonização do país, quando negros escravos trazidos para o trabalho nas fazendas produtoras de cana de açúcar e extração de ouro e pedras preciosas, passaram a realizar festejos como forma de se expressarem, através de danças, cantos, folguedos e crenças próprias que, adaptadas e combinadas a ritos e rezas católicas propriamente européias, criaram uma nova forma de viver a religião. “As terras dos mais diversos rincões (brasileiros) são matizadas com memórias dessa negritude”, que hoje realiza festejos populares como forma de vivenciar os tempos do cativeiro (SOUSA, 2009, p. 124). Entre as inúmeras manifestações negras herdadas deste período encontra-se o Congado - festejo popular que envolve a representação de um reinado de tradição afro-brasileira, em que se tem a coroação de reis e rainhas congos em louvor a um santo protetor dos homens pretos.
Segundo Laura de Melo e Souza, o congado, assim como as demais manifestações populares originadas na colônia, é fruto do desenvolvimento de um catolicismo familiar/doméstico, típico de países miscigenados que, como o nosso, estariam “como que “condenados” ao sincretismo pelo fato de não serem uma cristandade romana”, mas mestiça de branco, negro e índio. Em vista disso,
a originalidade da cristandade brasileira residiria portanto na mestiçagem, na excentricidade em relação a Roma e no eterno conflito representado pelo fato de, sendo expressão do sistema colonial, ter que engolir a escravidão: uma cristandade marcada pelo estigma da não-fraternidade (SOUZA, 1986, p. 87/88).
“Uma colônia escravista estava, pois, fadada ao sincretismo religioso”. Os negros, em um primeiro momento, foram impedidos de proclamarem sua fé natal, tendo sido o culto a santos negros, por intermédio da igreja, uma forma de esta instituição controlar e impor ao
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africano a religião católica, sendo também, um instrumento de submissão social dos escravos por parte dos senhores brancos. Posteriormente, a inevitável fusão com ritos e mitos das religiões africanas proporcionou o surgimento de um “sincretismo afro-católico”, o que permitiu que os negros preservassem em parte a sua religiosidade (SOUZA, 1986, p. 93/94).
Cultuava-se São Benedito, mas cultuava-se também Ogum, e batiam-se atabaques nos calundus da colônia: nas estruturas sociais que lhes foram impostas, os negros, através da religião, procuraram nichos em que pudessem desenvolver integradamente suas manifestações religiosas. Arrancados das aldeias natais, não puderam recriar no Brasil o ambiente ecológico em que haviam se constituído suas divindades; entretanto, ancorados no sistema mítico originário, recompuseram-no no novo meio (...) (SOUZA, 1986, p. 94).
Neste sentido, Patrícia Costa evidencia que foi em meio à “dominação” católica da religião no Brasil, que emergiram as novas formas de religiosidade negra, já que o catolicismo foi responsável por moldar os cultos e tradições africanas a seu modo, tornando-se parte fundamental delas. Segundo a autora, é no seio desta religiosidade compartilhada pelos escravos que emerge a “devoção a São Benedito, Santa Efigênia e, principalmente, a Nossa Senhora do Rosário e que a congada se constitui como forma de expressão desse louvor” (COSTA, 2006, p. 46). De acordo com Maria Isabel Vieira Botelho, a realização de festas em homenagem aos santos era a forma e o espaço encontrado pelos grupos sociais subalternos de se manifestarem publicamente, sendo a festa de Nossa Senhora do Rosário este espaço para escravos e negros forros (BOTELHO, 2009, p. 115). A eterna mescla de ritos de origens africanas diversas com o catolicismo europeu desenvolveu, assim, um catolicismo popular responsável pela afirmação da tradição do congado que, com o passar do tempo, construiu, cada vez mais, uma religiosidade própria, menos vista e menos controlada pela religião oficial.
Dentro deste contexto, surgem no Brasil as irmandades negras que tinham por intuito a reunião de homens pretos escravos e libertos que, em vista das particularidades de sua religiosidade, podiam realizar, com o auxílio destas instituições, festejos e celebrações aos santos de sua devoção. De acordo com Mary Del Priore, além de contribuir para o aumento do sincretismo religioso, “aproximando diferentes crenças e cultos”, as irmandades negras “representavam uma das poucas formas de associação permitida à população não branca no mundo colonial” (PRIORE, 2002, p. 39). Em vista disso e através destas associações, surgiram os primeiros festejos em homenagem à Nossa Senhora do Rosário. Foi através delas
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que se disseminaram na colônia o culto e a eleição de reis negros pelas comunidades de africanos e seus descendentes, ainda no século XVI.
A organização de leigos em irmandades, sob a devoção de determinado santo ou santa católico, proliferou por todo o território brasileiro. Cada povoado que se constituía tinha templo próprio. As simples capelas foram o núcleo e o eixo vital dos arraiais e delas emanaram as normas de comportamento para as pequenas comunidades (BOTELHO, 2009, p. 114).17
Segundo Marina de Mello e Souza, foi por ocasião destas festas que os negros puderam assumir maior visibilidade na colônia, “nas quais saíam em cortejos pelas ruas das cidades, presidindo uma série de atos rituais e danças (...) de marcada origem africana” (SOUZA, 2001, p. 249/251). A coroação de reis congos remetia a um passado ligado à terra natal e permitia a rememoração por parte dos negros de alguns ritos guardados em sua história, tendo na comemoração festiva do reinado africano, a celebração da raiz imbricada aos elementos católicos europeus.
Pelos relatos de alguns viajantes que registraram certos ritos integrados às festas em homenagem a santos padroeiros de irmandades negras, em muitos lugares do Brasil, a cada ano eram eleitos reis, rainhas e uma corte, que desempenhavam certos papéis na realização das festas, por eles promovidas e nas quais desfilavam cortejos. Estes cortejos acompanhavam o rei e a rainha, que eram coroados na igreja pelo padre, e eram compostos (...) por dignatários diversos, como de grupos de dançadores, tocadores, que cantavam versos e representavam coreografias. Parte importante da sequência de atos rituais que compunham as festas de rei Congo no século XIX eram as danças nas quais eram representadas embaixadas entre reinos distantes e o Congo, quase sempre envolvendo guerras intensamente representadas, após as quais os adversários do rei congo eram vencidos pelo seu exército e adotavam sua religião: o catolicismo (SOUZA, 2001, p. 254). A enormidade de pessoas de diferentes nações provindas da África que se congregavam em um mesmo local, sugeria ainda novas adaptações e formas de culto de forma a integrar as inúmeras gentes. As várias tribos africanas, a partir da adaptação ao território nacional foram aos poucos incorporando o cristianismo e esquecendo-se das diferenças
17 Segu do F ei Agosti ho de Sa ta Ma ia, a o ige do ulto deveu-se ao resgate de uma imagem de Nossa Senhora em Argel, o que fez que os negros se identificassem com a santa, erigindo-a em padroeira. A tentativa de integrar o negro escravo recém chegado da África à sociedade portuguesa católica e branca pode ter sido viabilizada pela incorporação paulatina deste nas irmandades já existentes de brancos. Posteriormente, os negros que foram sendo incorporados tornaram-se numerosos e criaram irmandades autônomas. Nesse sentido, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos surgiu em Portugal de uma transformação gradativa das irmandades dos a os ue j ti ha a es a devoç o BOTELHO, , p. .
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internas provenientes do próprio território de origem. A fusão de diversas etnias, assim como de variadas religiosidades e formas de cultos, tanto entre as nações negras, quanto entre negros e europeus, conforme Souza, dissipou particularidades que nos primeiros tempos da colonização compunham estes povos, tendo na conformação da festa de reinado sua maior expressão.
(...) as comunidades negras que se agrupavam e elegiam reis a partir de identidades baseadas em características culturais e históricas dos povos que as compunham, (...) pouco a pouco se despiram de suas particularidades, passando todos os reis a serem identificados como rei do Congo, desaparecendo os reis de outras nações (SOUZA, 2001, p. 252).
Assim, o reinado da festa do Rosário, hoje em dia, é ainda lembrado como a coroação do rei congo, tendo este termo se tornado um adjetivo, nem sempre ligado ao nome da nação. A festa de congado, por sua vez, projetava os escravos numa hierarquia, por eles moldadas, que remetia à ancestralidade e permitia nos dias de festa, esquecerem das agruras do cativeiro, representando também, um descanso e um alento para a rotina de trabalho. A festa, no período colonial, representava para esses grupos, uma forma de resistência pela fé, não só de suas origens, mas de si próprios como homens explorados. De acordo com Botelho, o sincretismo foi a única forma possível para esses povos “de garantir rituais, ainda que de maneira incompleta, propiciando que as crenças e os mitos” permanecessem e garantissem a coesão dos grupos (BOTELHO, 2009, p. 119). O sincretismo próprio destas terras modificou, assim, o modo destes povos celebrarem sua fé, mas, ao mesmo tempo, permitiu que esta não fosse extinta junto com a chegada da escravidão.